Objetivo


segunda-feira, 9 de agosto de 2010

RELIGIÃO - CRIANÇAS APRENDEM NA ESCOLA A PRESERVAR A CULTURA NEGRA

Jornal A Tarde 19 de janeiro de 1980.
Texto Reynivaldo Brito

Cansadas e inconformadas com a distorção a que são submetidos seus filhos nas escolas oficiais, mais de 100 famílias ligadas a um dos mais tradicionais terreiros de Salvador, que funciona no bairro de São Gonçalo do Retiro, resolveram criar uma mini -comunidade que integrasse suas crianças e moradores do bairro.Entraram em contato com órgãos federais, estaduais e municipais ligados à educação e fundaram uma escola onde a liberdade é quase total e as professoras dão ênfase às manifestações da cultura negra. Assim elas são orientadas pelos membros da Sociedade de Estudos de Cultura Negra do Brasil, que reúne antropólogos, lingüísticas ,sociólogos e historiadores.
Na foto Ó mó iyi / oni ile ekó mi / oni odara pupo ( você conhece esta casa? Ela é minha escola. Ela é muito boa) - a saudação em yorubá com que as crianças recebem os visitantes.

Pretendem , nesta experiência inédita no Brasil, evitar que as crianças do terreiro e do bairro sejam vítimas da perda de suas raízes culturais, colocando-as num processo contínuo de conscientização dos valores cultivados por seus antepassados. Ao mesmo tempo elas frequentam escolas oficiais para conseguirem os diplomas necessários à sua formação profissional, porque na escola da comunidade não existe uma avaliação formal com notas e conceitos. O que buscam os organizadores e idealizadores da comunidade é transmitir-lhes os traços mais significativos da cultura negra para que o processo cultural tenha uma continuidade garantida sem a possibilidade das graves distorções a que está submetida em diversos segmentos da sociedade.

                                                               SAUDAÇÃO

Ó MÓ YIY / ONI ILE EKÓ MI / ONI ODARA PUPU, esta saudação em yorubá significa: Você conhece esta casa? Ela é minha escola. Ela é muito boa”, e foi pronunciada num coro uníssono quando o repórter chegou para documentar o trabalho da comunidade. Elas estavam sentadas ouvindo as explicações da professora Maria das Graças Santana sobre algumas cantigas em yorubá que foram compostas especialmente para elas pelo Assobá e Alipini do terreiro de Opô Afonjá , mestre Didi. Ele também é encarregado de transmitir a língua yorubá às crianças e é um batalhador pelo respeito à cultura negra.
Informa a coordenadora da Secneb, Juana Elbein dos Santos ,argentina, doutora em etnologia e mulher de Deoscóredes dos Santos, o mestre Didi , que esta comunidade faz parte de uma experiência nova em todo o mundo, que fugindo aos padrões tradicionais das escolas de primeiro grau, consiste em estabelecer uma comunidade infantil no seio de uma comunidade já existente, com sua própria história e formas particulares de existência. Este é o primeiro projeto e vem atender também à necessidade de corrigir os altos índices de evasão escolar e de repetência a que estavam submetidas estas crianças devido à dificuldade em entenderem o código das escolas e das escolas entenderem os seus códigos. Seria uma espécie de falta de comunicação – revela Juana Elbein – que só é quebrada à medida que a criança cede aos conceitos emitidos pelos professores. Aqui em nossa comunidade, ao contrário, são usados os códigos da infância para a transmissão de conhecimentos”
Como toda obra cultural, a comunidade enfrenta problemas financeiros e especialmente a dificuldade em encontrar pessoal especializado para exercer as várias funções. Mas, a sociedade civil Axé Opô Afonjá cedeu terreno e os órgãos oficiais estão dando alguma ajuda.

                                                              RELIGIOSIDADE

Embora não sejam todas crianças ligadas religiosamente ao terreiro existe na comunidade uma preocupação em transmitir valores religiosos ligados ao candomblé – admite a etnóloga – serve como elementos de coesão não somente da comunidade do terreiro propriamente dito, como também da comunidade das crianças do Obá Biyi.
Ela considera que o equilíbrio domina a consecução da idéia em decorrência da existência de um grupo heterogêneo responsável pelo projeto. Deoscóredes defenderá a comunidade como Assobá do culto, uma espécie de guardião de honra do terreiro, por descender diretamente de sua criadora. Ao seu lado estão várias outras pessoas ligadas a especialidades como a antropologia, lingüística e etnologia. Enfrentam inclusive algumas críticas feitas ao projeto sobre a possível “Interferência”do grupo de pesquisadores em sua comunidade que tem seus valores próprios. Os críticos indagam “com que direito”agem essas pessoas envolvidas no projeto. Consideram a criação de um possível quilombo, cuja proliferação poderia levar ao “fechamento”da comunidade negra, voltando-se assim a uma situação ultrapassada.

                                                             APRENDIZADO

O projeto vem funcionando há mais de dois anos, e somente agora, depois do treinamento dos professores e auxiliares é que está sendo executado passando à realidade. O ensino é aberto, desenvolvendo a potencialidade nas crianças por áreas de interesse.
O material didático será desenvolvido pelos próprios alunos e em lugar da cartilha a criança conta a estória e depois escreve sua própria estória , começando a ser alfabetizada com as palavras que utiliza em seu vocabulário.
Informa a etnóloga que diversos e variados setores integram a atividade didática da comunidade. Além da parte de jogos,m desenho e linguagem, existe um setor de literatura oral, no qual as crianças contam e ouvem mitos e lendas ligados à sua raça.
Já no setor de arte, aprendem a música típica, integrada com dramatização e canto até em dialetos africanos. No setor ocupacional, as crianças da comunidade Oba Biyi aprendem a costurar com membros do terreiro, que são alfaiates e com costureiras que empregam em seus trabalhos de bordados, couro, búzios, ráfia e contas. Aí entram em contato com as cores e seus significados especiais.
As crianças também aprendem técnicas agrícolas e em convênio com a Emater-Ba será desenvolvido um projeto hortifrutigranjeiro, no qual serão produzidos os próprios alimentos da comunidade. Ao mesmo tempo receberão uma orientação profissional que lhes permita a mobilidade social. Elas têm acompanhamento nutricional criterioso, assistência médica e no próprio prédio da escola funciona, anexa, uma creche com capacidade de receber oito crianças recém-nascidas, 15 com idade de até dois anos e outras em idade pré-escola.

                                                                     OBÁ BIYI

O nome Oba Biyi foi dado em homenagem à primeira mãe-de-santo do terreiro que chamava-se Mãe Aninha. A atual é Mãe Estela que considera o projeto “muito importante para elas quando estiverem no curso secundário ou superior, saibam defender a seita, que é uma religião como outra qualquer. A seita já é conhecida e respeitada por pessoas de influência”
Para Jorge Amado, ligado ao candomblé , a idéia é excelente e vem demonstrar a importância da cultura negra na cultura brasileira. Essa comunidade dentro do Axê Opô Afonjá , de Mãe Aninha, Mãe Senhora, Mãe Ondina e Mãe Estela, adquire uma importância excepcional porque se situa dentro de uma casa de santo que conserva as mais puras tradições africanas."
Na foto a escola que funciona numa ampla casa do terreiro Axé Opô Afonjá, em São Gonçalo do Retiro.
Também o artista plástico argentino –baiano Carybé , que faz parte da comunidade, considera a idéia fabulosa, “uma coisa de bases sólidas e sérias quando muitos candomblés estão se transformando em clubes carnavalescos. O terreiro é sério e vai para a frente, sem confundir religião com folclore. É uma casa que nunca quis conquistar renome nem adeptos famosos. É aberta e fechada: aberta a quem quiser vir e fechada para este tipo de folclore. "

RELIGIÃO - ÁRVORES SAGRADAS RESISTEM À DESTRUIÇÃO

A Tarde , quarta-feira , 31 de janeiro de 1979

Texto de Reynivaldo Brito
Fotos Louriel Barbosa

Arredios ao comportamento místico do povo baiano, engenheiros e arquitetos responsáveis pela abertura de avenidas nos vales de Salvador estão destruindo um patrimônio de grande significado para os descendentes dos africanos, e mesmo para todas àquelas pessoas ligadas ao candomblé. São as árvores sagradas que vieram da África e que representam verdadeiros templos, onde são feitas obrigações da seita. Elas somavam quase duas centenas e, hoje, poucas conseguiram sobreviver.Como afirma o ogã do candomblé do Bogum, Jehová de Carvalho , “assistimos , impotentes e indefesos, a esta profanação. São os babalaôs , yalorixás, obomins, okedes, ogãs e obas que mais sofrem com a dilapidação desses elementos importantes e integrados a nosso culto. Cada árvore sagrada desta tem uma história e muitas chegaram até à Bahia trazidas com muita fé e assim cresceram, e debaixo de suas copas foram feitas e depositadas, no decorrer dos anos, preces e outras formas de manifestação do candomblé.”
Na foto ao lado  fita branca amarrada em seu tronco,a árvore do Terreiro de Menininha do Gantois
Somente na Avenida Mário Leal Ferreira, mais conhecida como a Avenida Bonocô em homenagem a um candomblé que funcionava nas imediações, foram derrubadas mais de dez árvores sagradas. Existiam, ali, dez terreiros de candomblés das nações Ketu e Angola, que tiveram que sair devido à presença dos tratores e caçambas na época da construção da referida avenida. Ali viviam muitas árvores de looku, as conhecidas gameleiras nativas que dominavam a paisagem dos morros e vales, hoje transformados em cortes que mais parecem chagas feitas na terra pelas navalhas dos tratores . Dessas restaram, apenas, a do condomblé da yalorixá Emília, na Baixa da Torre, à beira do Bonocô , e a do babalorixá Walter, que cumpria suas obrigações para Oxalufã.

                                                           ACIDENTES

Contam os freqüentadores do terreiros baianos que muitos acidentes ocorreram e continuarão a ocorrer todas às vezes que essas árvores forem destruídas.Vários operários da prefeitura de Salvador chegaram a recusar-se a derruba-las, e os jovens engenheiros, alheios à mística de seus subordinados , quase sempre os puniam. Mas, eles mantinham o firme propósito e não cortavam as árvores, porque acreditavam que estariam destruindo um bem sagrado. Porém, outros, desconhecendo talvez o valor espiritual daquelas árvores, apressaram-se em executar as ordens dos engenheiros e alguns sofreram acidentes.


Conta a yalorixá Yeneci, do candomblé de Angola, localizado no Alto da Torre, no bairro de Brotas, que conheceu três deles que foram castigados quando deram início ao corte da árvore de Looku , que existia na ladeira da rua Machado de Assis, a poucos metros da Bonocô. Um deles morreu devido a corte da perna provocado por uma serra elétrica, e dois sofreram ferimentos sem muita gravidade.

Na foto a árvore sagrada no Terreiro da Casa Branca,na Vasco da Gama. Há diversas árvores sagradas, segundo o ritual do candomblé.

  BOGUM

A árvore de Azanná Odô, com mais de duzentos anos , trazida da África e dedicada ao culto do orixá da mesma denominação nos terrenos onde está localizado o único terreiro gêge do Brasil, caiu porque pessoas alheias ao culto colocaram veneno em suas raízes. A velha árvore tombou durante uma ventania, enfraquecida que estava pela agressão em sua base de sustentação.Gamo Lokossu, a atual yalorixá da casa, teve uma crise nervosa quando tomou conhecimento do fato e algumas filhas-de-santo rumaram para o local, onde colheram galhos da árvore sagrada, os quais guardam com muito respeito. Elas entoaram o cântico de Azanná Odô, no momento em que apanhavam os galhos.Foi um momento de muita tristeza.
Informa o ogã-rontó Amâncio que existem algumas árvores ao longo das avenidas de vale , principalmente ao sopé das encostas, que possuem alguma semelhança com a Azanná Odô , mas estas não têm lenho. Quando cortadas, exibem uma lã parecida com as da barriguda. Também Não têm espinhos no tronco, ao contrário da verdadeira árvore sagrada que tombou.
Lebram os mais velhos integrantes do candomblé do Bogum que os antigos gêges , vindo do atual Dahomé, residiam nos baixios, em palhoças afastadas da casa principal do terreiro.Era uma comunidade isolada, que ocupava o atual bairro do Engenho Velho da Federação. Cada orixá tinha sua árvore, mas a de Azanná Odô era a mais alta e ali foram feitas centenas de obrigações.
Informa o ogã Jehová de Carvalho que, no sincretismo religioso, esta árvore representava o componente branco do trio dos reis magos que foram à manjedoura de Belém levar suas oferendas ao Cristo recém nascido. Por isto, todos os anos, no dia 6 de janeiro – Dia de reis – eram feitas muitas obrigações.Mas, para surpresa de todos, a velha árvore poderá sobreviver porque do seu tronco caído estão surgindo alguns brotos. Os mesmo aconteceu com a árvore sagrada do terreiro de Mãe Menininha do Gantois, onde do centro de seu tronco, também destruído, nasceu outra árvore que tem uma estranha formação, lembrado uma criança nascendo e, do outro lado, a cara de um tigre.
Na foto ao lado fita branca amarrada em seu tronco,a árvore do Terreiro de Menininha do Gantois

Em todos os candomblés de Salvador existem árvore sagradas, que representam verdadeiros templos. Quando esteve na África , o professor Estácio de Lima, antropólogo baiano, constatou a relação entre essas árvores existentes na Bahia com as do Continente Negro, onde algumas são utilizadas até como urnas mortuárias em determinadas tribos.

RELIGIÃO - DOM TIMÓTEO AMOROSO, UM EXEMPLO DE DIGNIDADE

Jornal A Tarde 11 de julho de 1990.                                                                                        
Texto Reynivaldo Brito
Foto Arestides Batista

                                                                        
Um exemplo de amor ao próximo e à liberdade . Um religioso afeito as coisas de seu tempo, que sabe enxergar ao longe os anseios desse povo sofrido. Um amigo dos artistas, dos profissionais liberais, da gente simples. Um amante da renúncia, da vida simples e despojada do verdadeiro monge.Um defensor incansável dos Direitos Humanos e um exemplo de fé. Um símbolo . Aí estão alinhados alguns elementos que podem ajudar a formar um perfil de Dom Timóteo Anastácio Amoroso, que amanhã estará completando 80 anos de idade. Uma data significativa para este homem que passou grande parte da sua existência servindo. Sua contribuição como homem e pastor já foi relevada e enaltecida várias vezes. Lembro-me de quando ele renunciou ao honroso cargo de abade do Mosteiro de São Bento , onde permaneceu dirigindo por 16 longos anos. Mais uma demonstração de que não tem pretensão em ocupar cargos ou espaços de poder. A sua missão é simplesmente servir e, deixando o cargo, acreditava que poderia servir ainda mais aos carentes, e é isto que tem feito.
Na foto ao alto Dom Timóteo envolto em seu hábito longo e alvo, tendo ao fundo o secular mosteiro, o monge é o retrato vivo da simplicidade.
Nasceu num meio muito religioso e de lá para cá vem aprofundando esta busca , este encontro com o seu Deus. Numa entrevista longa que ele deu no ano passado a José Antonio Saja e Maristela Bouzas, nos revela um pouco de sua crença: “Essa minha relação com Deus é uma coisa viva. Um Deus moralista,dos mineiros. Mas, também, um Deus que apela para a profundeza do ser. Sou um procurador de Deus. Um buscador de Deus. E isso define inclusive, a minha vocação em especial”. A vocação monástica de Dom Timóteo pode ser sentida quando ele afirma que “nós somos, em grande parte , aquilo que nós vemos, que nós vemos e que vimos, desde criança. Posso dizer de um modo geral, de todos os sentidos, mas concentrado no sentido da vista, que é esse sentido mais abrangente. Somos em grande parte aquilo que a gente vê. Há um berço das sensações; mais abaixo desse berço há um eu profundo, onde, então, essas sensações se transformam como que num desenho. Então, uma imagem se forma. Tudo é sempre uma representação, mas, na medida que a gente caminha na vida, a representação de Deus vai ficando cada vez mais precária, mais debilitada. Porque a gente começa a descobrir que esse Deus é surpresa constante , permanente, é sempre outro. E é sempre o mesmo”.
Para o monge Dom Timóteo, a grande dificuldade é que somos frágeis, e cada um de nós está sempre sendo chamado à periferia de si mesmo , com todas as fraquezas humanas. “Mas o próprio ambiente que vivo, a própria vida que escolhi e na qual Deus me acolheu, favorece esse reencontro constante.”

                                              PARTICIPAÇÃO NA SOCIEDADE

Lembra Dom Timóteo que o Cristianismo é o chamado a participar. Isso favorece ao homem, quer dizer, isto levanta os abatidos, desmarginaliza os que estão isolados, no isolamento sócio-político, sócio-econômico . Isso corresponde à dignidade do homem, que dizer, é uma pergunta que o cristão sempre fará, embora ele não seja como cristão que dá o texto da lei; mas ele tem uma visão profética, uma visão crítica e, também, uma fonte de inspiração evangélica para realizar uma vivência humana, social e individual, à medida da dignidade do homem. Isto é o que o Evangelho nos inspira. Por isso, o Evangelho forma adoradores verdadeiros do Pai, mas que só são adoradores , se nesta adoração eles têm o coração também aberto aos irmãos. Então, isso faz parte essencial do “Ethos” cristão. Ai você desenvolve isso em várias camadas de ser com densidade diferente... Mas nós estamos numa época tão crítica da sociedade internacional que a gente pensa logo numa nova estrutura política em que realmente os Direitos Humanos sejam garantidos”.
Ele chama a atenção de que muitos correm, o risco ao abraçarem alguns movimentos com grande atuação nos campos social e político, de perderem o ponto de referência da adoração. “Então ,ficarão no risco de querer reduzir o Cristianismo a um mero humanismo, muito elevado, muito belo, mas que não é suficiente , porque a dimensão horizontal, ela brota do tronco vertical. .. É como a cruz. A cruz brota da dimensão vertical. É esta dimensão que está lá plantada, em primeiro lugar. O que o Cristo levou nas costas foi a horizontal, em vista de juntar com aquela vertical. Então , Ele dá o tipo perfeito ao cristão.A cruz nos dá uma representação que é gráfica do que é o verdadeiro cristão. A gente está no ponto de encontro das duas hastes : a vertical e a horizontal. E deixa de ser cruz se não tiver ma das duas, deixa de ser plenitude. Então, é muito importante ! Ai, você tem que a presença profética, de denúncia, contra tudo aquilo que desfigura, que maltrata o homem e a presença sapiencial que inspira na construção , agora técnica, da sociedade, uma realidade à medida da dignidade do homem, de todos os homens. Então, há uma “encarnação”da misericórdia também no corpo político, social e econômico . Então, a misericórdia não se reduz as gestos imediatos de amor, nos encontros face à face , mas ela também é elevada ao nível quase que institucional. Então, isso é uma civilização de inspiração cristã, que não é exatamente uma civilização confissional. Por exemplo : já católico, cristão, propriamente confessional, mas no fundo não deu certo, embora tenha trazido muitas vantagens, muitos benefícios. Mas, você sabe, a fraqueza do homem, os interesses secundários, que são muitos infiltram nisso tudo e, então você não tem estado confessional teocrático, um “aitolá “católico” .
Para Dom Timóteo “o pluralismo faz a gente descobrir, realmente , outras representações possíveis e legítimas. No início dos tempos modernos, os missionários descobriram novos povos. A Europa e a Civilização Ocidental, de certo modo, quase que ignoravam o resto do mundo. Sabia assim : “Marco Pólo foi à China ainda na Idade Média, mas não trouxe conseqüências na visão geral do mundo. Ao passo que as descobertas, no tempo dos Descobrimentos , suscitaram problemas. Esse pessoal inesperado, qual a situação dele no conjunto do universo religioso ? Eles têm alma, eles t6em direito, eles são filhos de Deus ? Então, a voracidade colonialista começou a explorar , e aí, os primeiros papas da Renascença tiveram que se manifestar, justamente, em defesa da qualidade humana daquelas populações.
E prossegue : “Naturalmente com um convite para eles receberem o cristianismo, e se europeizar... Mas reconhecendo ao menos teoricamente o direito de serem europeizados. Isso depois, no século seguinte, o Bartolomeu de Lãs Casas, em defesa dos pré-colombianos , da América e tudo... portanto, até dos indígenas brasileiros. Mas isso deu tempo à igreja , também, a se colocar diante dessas novas soluções. Hoje é fácil , a igreja assina qualquer declaração de Direitos Humanos, mas ela levou tempo a ver isso com clareza e liberdade. Leva tempo , com efeito, o poder de se reestruturar diante de novas circunstâncias , que modificam o quadro de mentalidades...”

                                                                  O HOMEM

Na década de 1940 , o advogado Luiz Antonio Amoroso Anastácio resolver abraçar a vida religiosa. Aqui chegou em 1965, após ser eleito abade, e tempo depois escandalizava os mais reacionários com sua “Missa do Morro”, quando introduziu ritmos e instrumentos peculiares ao candomblé à capoeira, como o atabaque e o berimbau. Para aprofundar seus conhecimentos, chegou a tomar assento num terreiro, convivendo com mães e filhas-de-santo. Lá, pôde encontrar alguns símbolos do cristianismo. Este mineiro de Barbacena foi colega do saudoso Tancredo Neves na Faculdade de Direito de Belo Horizonte . Sempre escrevia seus versos e gostava de ir a festas com seus amigos e colegas. Terminou se formando em Direito no Rio de Janeiro , e lá conheceu uma conterrânea de nome Jenny, com quem casou, ficando viúvo, dois anos depois. Chegou a trabalhar como advogado no Rio de janeiro até abraçar definitivamente a vida monástica.
“Fazia 16 anos que fora eleito abade. E sempre achei que não nasci para abade. Me sentia meio cansado. Era hora de dar o primeiro passo e promover uma mudança. Muita gente pensou que fosse pressão de fora, de políticos mas não houve nada disso”, revelou Dom Timóteo. Isto é mais uma prova do seu despojamento, da sua tranqüilidade em renunciar a qualquer forma de poder.
Ao recebe o título de Doutor Honoris Causa da Universidade Federal da Bahia, no último dia 5, numa iniciativa de um grupo de amigos artistas , ele confessou que estava envaidecido. “Eu sou tremendamente vaidoso. Mas, com o passar dos tempos, com a idade, com o envelhecimento, o estímulo da vaidade é menor, porque a gente conhece melhor as nossas falhas, defeitos, limites , e vê que no fundo é ridículo ter vaidade”.
A proposta do título saiu da Congregação a Escola de Belas Artes e não poderia a iniciativa sair de outro lugar. Lembro-me de algumas frases ditas por Dom Timóteo sobre os artistas que realmente me comovem. Vejam : “Eu gosto , gosto de cada um de vocês, mas gosto dos artistas, dos músicos, pintores, dançarinos etc. porque eles permitem levantar um pouco o véu da , desculpem, chatice da existência e mostrar o mundo, ou positivamente ou negativamente, como não deve ser o mundo. Quando eu vejo na fase dos bonecos de ex-votos do Sante ( referia-se a Sante Scaldaferri, seu amigo ) aquelas formas monstruosas, é uma ironia, o sentido tremendo, é a revolta do artista contra a deformação maligna. É a feiúra inaceitável que o nosso coração acusa e rejeita”.
Não só o amigo dos artista, mas o ser humano solidário, que soube enfrentar ameaças em defesa de muitos. Tenho em meu poder uma cópia de uma carta que Haroldo Lima, hoje deputado federal do PC do B, enviou para Dom Timóteo onde relata que em 1970, próximo ao Natal, “meus 10 anos de vida clandestina, vida sem nome, sem diversões, sem contato com os amigos, mas vida com ideal”... foram interrompidos com sua prisão, seqüestro e daí travou contato com a tortura. Temia a morte e “sentia que minha vida ali no Doi-Codi do Rio de Janeiro não valia um cruzado”. Depois sentiu que num determinado momento os seus algozes passaram a ter um certo cuidado com sua sobrevivência. O médico já lhe tomava o pulso e lhe auscultava para controlar o limite de sua resistência às torturas. Certo dia, relata Haroldo Lima, um torturador perguntou-lhe “por que o abade do Mosteiro de São Bento de Salvador intercedia por mim”, isto foi suficiente para reanimá-lo, porque percebera que não fora esquecido por seu velho amigo. “A palavra do meu velho amigo Dom Abade soara em minha defesa, incomodando aos que me torturavam, alertando, fazendo com que sem próprio nome ecoasse na câmara de terror, inibindo a mão que poderia desfechar o golpe fatal, contribuindo assim, diretamente , para salvar a minha vida”.
E, por esta sua disposição em ajudar os oprimidos, em defender a vida das pessoas ameaçadas, ele foi taxado de “abade vermelho”.
Durante o período da ditadura invadiram o Mosteiro de São Bento em busca de estudantes, que, perseguidos pela Polícia, ali procuraram abrigo. Vários monges foram ameaçados e até mesmo sofreram agressões físicas. Ele saiu do mosteiro e foi à Secretaria de Segurança Pública protestar, com muita veemência, junto ao então Secretário Gilberto Pedreira.
Na realidade, esta cabecinha branca e arejada de Dom Timóteo não tem nada a ver com outros setores da igreja tidos como extremados. Em primeiro lugar, é um homem do seu tempo, um homem que acompanha com muito interesse o que se passa ao seu redor e no mundo e que tem uma militância intelectual. É um poeta de mão cheia, um humanista, um crente em Deus e, portanto, não poderia comungar outros ismos, a não ser o do próprio cristianismo ou catolicismo.

DOIS POEMAS

                                                                                        
LAMENTAÇÃO DA ONDA

Sem a humilde enseada que seria do mar,
e onde o sossego da onda cambaleante?
Vaga flor sem raízes desfolhadas nas margens,
veleiro doido que o vento, afinal, ancorou
numa curva enseada.
Onda hipertensa em regime de sal,
lábios sedentos, na areia soçobrados,
sugando a linta inocente as
entranhas da terra
Em que deixa o ressaibo das vagas
E apazigua o conflito das ondas
essa angústia de mar sem raízes,
presa fácil dos ventos,
eterno fascinado das estrelas.

Sem humilde enseada o mar seria
o trânsfuga cativo de si mesmo,
majestoso deserto, estepe fria fria,
nau sem destino, caravela a esmo,
com sua inextricável agonia
e a regorgitação do amaro absinto,
flutuando num Gênesis extinto.


Rude corpo de terra que balizas
a tonteira dos pélagos , e âncoras
a salsugem de angústias imprecisas...

Sem o silencioso abraço das dunas,
Que seria do oceano com todos os seus lamentos,
Despetalado malmequer à mão dos ventos,
inconseqüente , desarvorada escuna?

No teu rapto suspensa em repouso e de prece,
no dorso fascinado dum mar caído em transe
rolas,despojada, ao assalto do ser.

Belo Horizonte 4.02.1960.



ODE À SERRA DO CURRAL

Ó tranqüila muralha,ó vaga adormecida,
expulsa de ti mesma e, contudo ,ondulante,
Crista de onda,onda exposta pelo mar
ansiado,entre os braços da terra.

No teu rapto suspensa em repouso e de prece,
no dorso fascinado dum mar caído em transe
rolas,despojada, ao assalto do ser.


Só te defende a profundeza maternal
que consagra ao encontro, à pilhagem,
na espera duma essência mais alta,
dum grau de ser imóvel,
com raízes nas águas turbulentas.
O mar não é montanha degradada,
mas montanha é o mar pacificado.

Cordilheira em silêncio, oceano arrependido,
espuma alienada às histórias do vento
e calma solidez à beira dos abismos.
Entre na comunhão dum mundo novo.

És húmus nutritivo de corolas
em susto sob o olhar estupefacto
de espécies nunca mais oferecidas.
Tuas penhas descansam jovens astros
doentes de fobia do oceano.
Impregna-te um silêncio consolado
por conchas em surdina às mãos da Noite
que destrança em teus flancos seus cabelos
Donde rolam os sonhos e as estrelas
e o orvalho que goteja as madrugadas.
Em ti o dia tem nascença e morte.

Sou teu pai, teu pastor e sou teu filho,
e esposo-te, montanha, e me recebes
na surda aspiração duma oferenda.
Ó tranqüila muralha, ó mar coagulado
em calma solidez, em calma solidão,
roxo pressentimento de picadas
ascendentes de assombro e de oblação
à nova-comungante em véu de noiva.

Belo Horizonte, março de 1959.

ARTES VISUAIS - O ARTISTA QUE ROMPEU AS BARREIRAS DO SEU TEMPO

ARTES VISUAIS


                                                                                       HELIO OITICICA
 Jornal A Tarde em 26 de junho de 1992.
Texto Reynivaldo Brito


Todo o espaço do Jeu de Paume, um dos museus nacionais na Praça da Concórdia, em Paris, recentemente reformado, foi ocupado pelas obras e referências do poeta dos marginais-heróis, um dos artistas menos convencionais da América Latina. A exposição ficará aberta até agosto e é uma homenagem justa a este artista, que rompeu as barreiras do seu tempo e os limites do pensamento então em vigor em seu país, preso pelos grilhões de uma ditadura , que desaguou no caos em que hoje vivemos. São esperados cerca de 50 mil visitantes e, segundo informações chegadas da França , será um dos bons acontecimentos culturais do Verão europeu.
Tomara que esta previsão se transforme em realidade e que a obra de Hélio Oiticica seja bem mais vista do que a realizada recentemente no Centro de Arte Contemporânea White de With, em Roterdã ,na Holanda,onde foram expostos seus bólidos e Parangolés. Depois de Paris , os trabalhos de Oiticica vão para a Fundação Antônio Tapies, em Barcelona e, em seguida, para Portugal e Estados Unidos. Somente em 1994 a exposição desembarca no Museu de Arte Moderna de São Paulo.
As obras de Oiticica expostas foram produzidas entre as décadas de 50 e 70 e estão sendo apresentadas com uma mostra paralela de filmes experimentais realizados por amigos do artista, entre eles o baiano Glauber Rocha, com seu filme Mangue Bangue, e O Anjo Nasceu, de Julio Bressane. Recebi um farto material enviado por D. Vera Simões, de Paris, onde podemos vislumbrar o interesse dos organizadores da exposição pela obra desse artista terceiro-mundista, mas de uma visão de vanguarda que permite a sua contemporaneidade até nos dias de hoje.
Morto aos 43 anos de idade, a sua obra está ganhando o caminho da Europa graças a outro baiano, o talentoso e polêmico Wally Salomão, que até já organizou o Carnaval de Salvador. Ao lado da museóloga Catherine David, comissária da mostra, nomeada pela diretoria do Jeu de Paume. Para ela , a obra de Hélio Oiticica é uma revelação da cultura brasileira e lamenta que seu processo de criação tenha sido interrompido com a eclosão do regime militar.

UMA GERAÇÃO


Na realidade , o pensamento de Hélio Oiticica era comungado por uma geração inteira de estudantes, cineastas, artistas plásticos, poetas, escritores, etc., que queriam uma transformação da sociedade brasileira em busca de uma justiça social. De lá para cá , o que estamos assistindo é a degradação social com o aumento da pobreza e uma explosão demográfica desenfreada, que coloca por terra qualquer plano econômico.
O coordenador do Projeto Oiticica é Luciano Figueiredo, que ressalta a influência que ele sofreu dos “construtivistas europeus, em seguida dos neoconcretos, com expressões e propostas muito próprias, os quais já insinuavam as invenções que realizaria depois com os Parangolés. Aos poucos , sua arte foi se tornando cada vez mais radical. Na última fase, nem se pode dizer que ela ainda tivesse alguma coisa a ver com a pintura ou escultura. É exatamente por isso que seus trabalhos estão chamando tanta atenção do público europeu”.


MUITAS OBRAS

São 167 trabalhos de Hélio Oiticica, sendo a maior já realizada com sua obra, com alguns inéditos. Toda a sua inventividade pode ser vista, tocada e vivida através dos Parangolés, dos penetráveis. Enfim, o visitante , ao entrar no Éden , tira antes os sapatos e brinca com a água, enquanto ouve música. Em A Tropicália, o visitante entra em contato com pássaros e tem os Parangolés que podem ser vestidos, portanto, segundo os organizadores, é um trabalho voltado para o sensorial das pessoas.
Oiticica é carioca e nasceu em 1937, morrendo em 1980. Tinha 43 anos quando sofreu um derrame cerebral, vindo a falecer. Era filho do cientista e fotógrafo José Oiticica Filho e neto do líder anarquista e filólogo José Oiticica. Logo, depreendemos que viveu sob a influência intelectual muito forte. Começou a estudar pintura aos 17 anos no MAM. E, já no final da década de 50, apresentava ao público a série Monocromática, onde buscava uma “cor pigmentar material, opaca”.
Em seguida passou a se preocupar com o suporte da obra de arte, não conformado com o limite da tela. Surgiram suas experiências Bilaterais e Relevos Especiais, em 1959, onde as formas de madeira ganham os espaços. Vieram as “asas-delta do êxtase”, como batizou o poeta Haroldo de Andrade, cujo texto está inserido no material , que me chegou de Paris.
Seguindo seu caminho, Oiticica foi radicalizando até o surgimento dos Parangolés e Penetráveis. Sabemos que os Parangolés são uma espécie de capa e foram vestidos por seus amigos, a exemplo de Caetano Veloso e outros, mas se destinavam aos sambistas dos morros cariocas. Ele teve muitos contatos com os integrantes da Escola de Samba Mangueira e também com o bandido Cara de Cavalo, que foi morto em confronto com a Polícia . Morou em Nova Iorque de 70 a 78, onde enriqueceu suas informações sobre música, chegando a afirmar, certa feita, “o que faço é música”.
Nesta mostra parisiense, estão objetos pequenos como um ovo com um elástico e instalações, que ocupam salas inteiras. Esses paradoxos são próprios de sua arte. Também está sendo lançado um livro sobre o artista, reunindo textos de vários intelectuais brasileiros, e também de críticos estrangeiros que conhecem a sua polêmica obra e sua trajetória.
Uma coisa que me chamou a atenção é a simplicidade do material de divulgação. Não são catálogos luxuosos, porém, bem ilustrativos e com vasto conteúdo sobre o artista. Uma demonstração que a ostentação muitas vezes pode funcionar melhor em outras ocasiões. Portanto, uma lição para os nossos artistas , que vivem correndo atrás de catálogos luxuosos em papel couché e com muitas ilustrações coloridas, muitas vezes até inviabilizando um projeto com mais conteúdo pragmático.

LIGAÇÃO COM O CINEMA

É verdade que o artista nunca se preocupou com uma retrospectiva de sua obra. Aliás, esta postura é sempre presente na maioria dos artistas quando jovens, e mudam de posição quando a idade chega.Dai passam a correr atrás de patrocinadores para fazer uma retrospectiva com um catálogo representativo de suas obras. Isto é bom porque documentam suas trajetórias e nos revelam detalhes que muitas vezes passariam despercebidos.
Nesta retrospectiva de Oiticica, os organizadores resgatam um dos aspectos importantes de sua obra que foi a perfeita união com o cinema, principalmente com a produção dos anos 60 e 70. São 30 filmes escolhidos dos diretores amigos do artista e que, de certa forma, trabalharam juntos. Estão sendo apresentadas até algumas raridades como Câncer, de Glauber Rocha, onde o ator é Oiticica; Agripina e Roma-Manhattan, realizado pelo próprio artista em 1972; e o Cinema Falado, de Caetano Veloso. Tem ainda filmes de Julio Bressane, O Rei do Baralho e o Anjo Nasceu; de Rogério Sganzerla, O Bandido da Luz Vermelha; de Osvaldo Candeias, A Margem ; e de José Mojica Marins, O Zé do Caixão, Esta Noite Encarnarei no Teu Cadáver. Do cineasta Ivan Cardoso será apresentado HO ( Hélio Oiticica ) rodado em 1979, além de Nosferato no Brasil de 1971, considerado um clássico underground com o letrista Torquato Neto, também já falecido, no papel de vampiro. Do Neville de Almeida, parceiro de Oiticica o polêmico filme Cosmococa, de 1973, onde são incluídos desenhos feitos com a coca, que hoje degrada muita gente boa por este mundo afora.

MÚSICA - NO CAMPO, ENTRE BICHOS E GENTE DO POVO RAUL SEIXAS DESCANSA

Jornal A Tarde em 10 de outubro de 1978
Texto Reynivaldo Brito
Foto Lázaro Torres

Encontrei o Raul Seixas numa manhã no início do mês de outubro de 1978 num dos apartamentos do Salvador Praia Hotel em Ondina. Tinha marcado com antecedência a entrevista porém, quando chegamos ao hotel ele mandou que eu e o fotógrafo fóssemos até o apartamento onde se hospedara.
Lá chegando o encontramos envolto em um longo lençol branco a fazer caretas e poses estranhas.
Estava tomado pelo vício e ao lado pude ver uma garrafa vazia de éter. Imaginei que o Raul estava perto do fim. Ele mesmo disse que suas atitudes, muitas vezes incompreendidas, são resultado de uma “maluquez controlada”. Vejamos a reportagem:

Durante quatro meses o cantor e compositor Raul Seixas esteve na Bahia revendo parentes, amigos e o sertão onde pode conviver com os vaqueiros e sentir de perto a cultura sertaneja. Desde 1967 que Raul não parava de trabalhar e chegou a sentir de perto o cansaço ocasionado pelas constantes apresentações em shows de televisão e teatro, e, principalmente, devido a muitas viagens que fez pelo interior do país. Nascido em Salvador e desacostumado com tanta ocupação, o cantor sentiu de repente a necessidade de parar por algum tempo. A princípio esperava parar apenas por um mês , mas foi ficando, e de repente o tempo passou sem perceber que já estava há quatro meses vivendo praticamente uma vida rural. Hoje, Raul já está completamente restabelecido e preparado para o lançamento do seu próximo LP que ele denominou de “O Judas”, onde fez uma reavaliação da importância deste personagem da história da Igreja Apostólica Romana.
Porém, mesmo vivendo uma temporada numa fazenda de parentes, Raul não chegou a abandonar suas músicas e o seu violão. Foi neste ambiente que fez algumas novas composições e muitas serenatas em plena noite juntamente com os agregados da fazenda onde estava descansando. Suas brincadeiras também não foram esquecidas e lá pôde brincar com as vacas, cabras e pescar na hora que bem entendia porque o seu lema era o descanso sem a preocupação de horários e etiquetas. Um ambiente, portanto, bem identificado com a personalidade extrovertida do artista. Raul é capaz de chocar qualquer pessoa que não o conheça de perto com suas caretas e outras manifestações que ele define como resultado de “uma maluquez controlada”.
NOVA VIDA
Acha, Raul Seixas, que depois que conheceu Tânia Mena Barreto está curtindo uma vida nova. Uma vida enriquecida com a presença da companheira que vive preocupada com os mínimos passos do Raul, mas sem interferir, sem ditar regras ( também se as ditasse ele não aceitaria) e sim compreendendo o sucesso e a necessidade de uma vida pública. Isto porque por onde passa sempre surgem as fãs solicitando autógrafos e elogiando o seu trabalho.
Tânia pôde acompanhar de perto o descanso de Raul Seixas e ela mesmo revela que “ele estava precisando parar. Assim, novas composições e uma nova vida contribuirão para dar continuidade a um trabalho iniciado há pouco mais de dez anos”.

APRENDIZAGEM

“Vivo aprendendo e estou atento às manifestações culturais do povo brasileiro . Tenho uma preocupação em refletir no meu trabalho uma ambientação brasileira, uma visão brasileira do mundo. As brincadeiras que por ventura faço no vídeo ou no palco são certamente brincadeiras que muitos desejavam fazer, e não o fazem de público porque não dispõem de instrumentos. O microfone, o palco e o vídeo me dão esta oportunidade que procuro aproveita-la em toda sua força e técnica. Foi dentro desta visão que resolvi vir à Bahia onde pude tomar um novo banho de gente, de povo, da gente sertaneja que lavra a terra e que não tem a preocupação com o relógio. Eles trabalham até quando o sol se esconde no horizonte. Os minutos e uma hora a mais ou a menos , não lhes perturbam. O que interessa é produzir e principalmente garantir o sustento de suas famílias, Isto é uma coisa maravilhosa, aliada também à pureza. O homem que vive na cidade grande não poderá nunca imaginar como são puros os sertanejos, e isto é muito importante a gente sentir, especialmente o artista que é um criador”.
Diz Raul Seixas que “trago comigo uma maluquez controlada”ao ponto de entender as visões distorcidas de pessoas alheias ao seu trabalho .
Muitos acreditam que ele só vive envolvido com tóxicos e que sua criação sofre muito a influência de momentos de loucura. Para estes, ele tem uma resposta: “Realmente muitos confundem o meu comportamento brincalhão, as minhas maluquices com o consumo de drogas ou coisas semelhantes. É uma tremenda bobeira. Não consumo drogas e o que gosto mesmo é de uma cachaça. Aliás, o baiano de modo geral gosta de uma boa birita. Creia malandro, é birita mesmo. Sem essa de tóxicos porque sei e tenho minha convicção do grande mal que causam ao jovem. Hoje, o consumo de tóxicos tem aumentado e muitos culpam as companhias ou os pais. Eles não pode intervir em meu trabalho profissional. Quando reclamam de alguma coisa passo a mão em suas cabeças e vou em frente. Eu tenho é que procurar produzir e melhorar cada vez mais o meu trabalho. O trabalho não só dignifica como também me dá toda a razão de viver. Não consigo viver sem a música. Ela faz parte do meu eu e mesmo quando não estou compondo fico maravilhado com uma música de outro artista que ouço num rádio ou mesmo na televisão”.

TODOS OS PÚBLICOS

Recentemente, a gravadora que produz os discos de Raul Seixas fez uma pesquisa sobre o tipo de público que ele alcançava e todos ficaram espantados . É que suas músicas e todo o seu trabalho musical são aceitos e consumidos pelos mais variados tipos de público. “ Imagine bicho que desde o adolescente até à vovozinha as minhas músicas têm aceitação. Isto criou uma confiança cada vez maior no meu trabalho e me dá forças pra continuar cultivando a minha maluquez controlada. Digo controlada porque a gente sempre freia para não exagerar,receber recriminações. Sou um artista, e tenho responsabilidade e por isto tudo tem que ser dosado para evitar problemas”.
Para atender todo este público, ele diz usar dos canais que lhes são oferecidos como a televisão, o teatro e os palcos dos clubes sociais quando realiza seus shows pelo interior do país. “A gente tem que dizer as coisas e quando a palavra pode ser multiplicada por um disco, um microfone ou uma fita cassete tenho que aproveitar da melhor maneira possível”.

O JUDAS

O cantor Raul Seixas faz em seu disco uma reavaliação da figura do Judas, que é inclusive o título do seu novo trabalho. "O Judas é uma figura sensacional.Fiz uma música onde mostro que foi feito um pacto entre Cristo e o Judas. Nada de traição. A música “Judas” foi feita de parceria com Paulo Coelho e mostra a outra face de Judas. O Judas homem, suas fraquezas e sua lealdade perante o Cristo. Esta figura me impressiona porque grande parte da humanidade quer jogar suas fraquezas, suas decepções em cima deste homem que foi amigo inseparável do Cristo. Se ele foi amigo é porque tinha qualidade, e essas qualidades precisam ser reconhecidas por todos. Veja você que os historiadores estão agora preocupados em reavaliar o personagem Calabar. Querem tirar a idéia de traidor, daquele que entregou seus companheiros aos inimigos. É dentro desta visão que apresento o Judas, como o amigo de Jesus, um homem que está sendo injustiçado através dos séculos”. “Isto pode chocar algumas pessoas , mas na realidade , nos dias de hoje, temos muitas pessoas vivendo o triste papel do Judas que traiu o Jesus e isto me angustia. Muita gente é injustiçada e é para eles que dedico este disco”.
Além do disco, Raul Seixas está ultimando os preparativos para lançar o seu livro dedicado às crianças brasileiras. O livro tem o título de “O Verbalóide”, mas ele não quis adiantar detalhes do seu conteúdo, “porque ainda estou refazendo algumas coisas. Na hora oportuna, falarei sobre ele, mas posso adiantar que é perfeitamente identificado com a criança do século XX”.
Em janeiro, ele irá para os Estados Unidos onde gravará um LP, mais precisamente em Los Angeles. Um trabalho já foi feito nas universidades americanas sobre sua linha melódica, seu modo de encarar as coisas com vistas a uma aceitação de mercado. Espero conquistar os americanos. Aliás por que não tentar? Imagine que recebemos por aqui e consumimos muita música americana, sem qualquer preconceito, e creio que isto poderá acontecer ao inverso. Muitos artistas brasileiros já têm um mercado por lá e creio que agora chegou a minha hora”.

CINEMA - MEU ENCONTRO COM PASSOLINI E MARIA CALLAS


Texto de Reynivaldo Brito
Foto João Alves






Cheguei a redação do jornal A Tarde às 8 horas da manhã do dia 23 de março de 1970, conforme havia acertado com o jornalista Fernando Rocha, então Secretário daquele vespertino. Era a primeira vez que entrava numa redação de jornal com a intenção de conseguir uma vaga como repórter geral. Esperava ansioso a chegada do redator chefe, dr.Jorge Calmon, ao qual seria apresentado, quando, inesperadamente, entra um senhor gordo, usando grossos óculos de lentes fortes e de aspecto nervoso. Ele estava apressado e anunciava aos quatro ventos que o famoso diretor de cinema italiano Píer Paolo Passolini acabara de chegar a Salvador em companhia da não menos famosa diva do bel canto Maria Callas, com quem estava morando. Imediatamente algumas pessoas presentes na redação passaram a providenciar a ida de uma equipe de reportagem para entrevista-los.
Certamente eu não estava incluído para integrar a equipe, porque não era funcionário do jornal e muito menos sabiam das minhas credenciais. Tinha acabado de chegar, quase não conhecia ninguém dali e ainda iria ser apresentado ao futuro possível chefe para um teste.
Conversa vai, conversa vem e, eis que o Secretário de Redação, dr. Cruz Rios, segunda pessoa na hierarquia do jornal, entrou em cena e determinou que eu fosse juntamente com o folclórico fotógrafo João Alves, conhecido por Bereta, que era especialista em fotografar marginais e cadáveres para as páginas policiais. Fiquei paralisado com a decisão e assim fui mandado às pressas com destino ao Hotel da Bahia, que naquela época era o mais chic da cidade.
Não tive condições de sair daquele embaraço e decidi rumar para o Hotel da Bahia, sem falar qualquer palavra de italiano ou inglês. Quando estudante tinha uma certa facilidade em entender o francês e naquela aflição me veio a cabeça a idéia de tentar me comunicar com o famoso casal em francês ou portunhol. Por sorte, ao entrar no salão olhei e vi o Passolini no balcão de informações. Imediatamente me dirigi a ele, que estava bem mais nervoso do que eu porque notara que acabara de ser descoberto ali. Mas, a fotografia já tinha sido feita pelo diligente Bereta, e consegui entender algumas respostas das perguntas que fiz rapidamente como se dispara uma metralhadora no campo de batalha.

Passolini vinha do Rio de Janeiro , fugindo do assedio da imprensa.Tentei estender o diálogo porém, o cineasta deixou o balcão e rumou apressado para tomar o elevador.Por coincidência o elevador acabara de abrir a porta. Entramos todos. Passolini, eu e o fotógrafo Bereta. Ao chegar no terceiro andar o cineasta desceu e saiu quase correndo em direção ao seu apartamento ameaçando que ia chamar a polícia.
Naquela época não havia Google e o tal senhor nervoso de óculos com lentes grossas, tinha uma coluna diária no jornal de cinema, onde pouco fazia crítica e escrevia muito mais sobre suas peripécias pessoais. Ele ficou encarregado de fazer uma pesquisa sobre o cineasta e Maria Callas no arquivo do jornal, onde eram guardados fotos e recortes. Porém, o resultado desta pesquisa foi frustrante, porque pouca coisa foi escrita sobre sua brilhante e marcante carreira, fixando em sua condição de homossexual. Aliás, depois de alguns anos descobri que esta era uma obsessão daquele jornalista. E, era importante esta pesquisa porque seria o suporte da entrevista apressada que tinha feito.
Voltei ao balcão e tentei pelo telefone falar com Passolini, mas, quem atendeu foi Maria Callas, que se disse muito cansada e, não se dispôs a entender o meu portunhol. De posse das fotos rumamos para o jornal,que era vespertino e, estava esperando esta matéria para fechar a sua edição. Foi um furo nacional. Entrei com o pé direito, embora só fosse contratado três meses depois. Era aliás, um costume da época.
Foi assim que um repórter iniciante, não contratado ainda pelo jornal, deu a manchete principal do dia “Passolini não foi para Roma, está na Bahia”. Um furo nacional, já que os principais jornais do Rio e São Paulo, além das agências de notícias davam em destaque que eles tinham partido para Roma.
Porém, minha perseguição ao casal não terminara. Ao chegar ao jornal e escrever o pequeno texto fui mandado de volta para dar plantão e acompanhar o cineasta e sua mulher Maria Callas.
Eles decidiram dar um passeio para conhecer a cidade de carro. Seguimos pelo Pelourinho, igreja do Bonfim e orla marítima. Por várias vezes nos ameaçaram chamar a polícia . De repente o carro deles deu uma freada e Passolini de dedo em riste fez novas ameaças de chamar a polícia.
Depois de algumas horas seguindo-os voltamos para a redação e ninguém mais soube de sua permanência e partida de Salvador.
Anos depois leio nos jornais que o cineasta foi morto por um garoto de programa que o matou e ainda passou o seu carro esporte várias vezes em cima do seu frágil corpo. Talvez Passolini tenha pensado em chamar a polícia naquele momento da agressão, mas, também desta vez a polícia não ouviu os seus gritos de aflição.
O importante é que sua obra continuará viva e intrigante para nós , futuras gerações e para todos que amam o cinema.

POLÍTICA - CONHEÇO MINHA MÃE

OPINIÃO
Reynivaldo Brito

O povo brasileiro não está precisando de mãe. Mesmo porque cada um de nós tem a sua. A minha é uma guerreira, mulher sertaneja , lutadora, doce e firme. Hoje, com 93 anos de idade, não pode abrir mão da sua maternidade, mesmo em sentido figurado, através de uma frase criada por marketeiros para jogar no colo dos ingênuos uma figura criada artificialmente.
Acredito, até, que aqueles que já tiveram a infelicidade de perder suas mães, por circunstâncias e transitoriedade da vida, prezam as memórias de suas genitoras. Portanto, não entregaríamos a maternidade de nossas mães e, tampouco do Brasil para uma política qualquer. A política que teimam em apresenta-la como mãe é talvez menos indicada para assumir a maternidade.
Participei do movimento estudantil lutando contra a ditadura, tive que abandonar um emprego público federal e fui impedido de estudar durante dois anos na então Faculdade de Filosofia, da UFBA, onde cursava Ciencias Sociais.
Por estas e outras, é que fico revoltado quando vejo o país nas mãos de mensaleiros, que vivem preocupados em se locupletar do estado brasileiro partidarizando ministérios, secretarias de estados, fundações, bancos oficiais, agências reguladoras, etc, e até mesmo cooptando autênticos movimentos sociais.Coitada da heróica UNE!
Temos hoje um governo nefasto como classificou recentemente o então candidato derrotado a Presidente pelo PSOL , Plínio de Arruda Sampaio, um dos homens mais lúcidos deste país, e fundador do partido que se transformou em trincheira dos mensaleiros.
Para os apressados de carteirinha, informo que não sou vinculado a qualquer partido político. Sou um cidadão livre que escolhe seus candidatos a cargos de acordo minha consciência, procurando sempre aqueles que realmente estão comprometidos com um trabalho sério voltado para o bem de nosso país. Chega de manipulação !
Vamos também refutar com veemência com este chavão de querer taxar de direitistas as pessoas que são contra este governo . A unanimidade é burra . Os 87% de aprovação devem ser observados com cuidado e restrições neste nosso país que tem um alto índice de incultos e analfabetos .Basta observar que mais de 1.300 mil pessoas votaram no Tiririca. É preciso dizer mais? Sem falar na profícua relação dos mensaleiros e corruptos.
Vejam vocês que acaba de ser divulgado o resultado do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento – PNUD, e segundo o documento, o Brasil é o terceiro em desigualdade de renda ,empatado com o Equador. Pode?
Direita é quem usa os mesmos métodos dos corruptos dos séculos passados e, alguns do presente , inventando dossiês e quebrando o sagrado sigilo bancário até de um pobre caseiro.