Objetivo


quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

ARTES VISUAIS - WALDELOIR RÊGO, DA JÓIA EXÓTICA À ESTAMPARIA, UM CAMINHO DE TALENTO

ARTES VISUAIS
Jornal A Tarde em 30 de Novembro de 1971
Texto Reynivaldo Brito


Como disse Jorge Amado, Waldeloir Rêgo é "o preferido dos Orixás, aquele que sabe e tem o direito de saber - é o dono dos segredos. O moço baiano nasceu e se formou com a proteção de Senhora e Menininha, defendido por todos os lados".
Etnólogo famoso está entre os três estudiosos que mais conhecem candomblé no País, mas é, antes de tudo, um joalheiro afro-brasileiro de muito talento, ourives de Oxum e joalheiro de Yemanjá. Artista sério, já ganhou um prêmio da Academia Brasileira de Letras pelo seu livro "Capoeira de Angola/ Ensaio Sócio-Etnográfico", assunto do qual conhece todos os meandros. Na foto Waldeloir Rêgo pintando seus tecidos com motivos afros.
Suas jóias exóticas enfeitam, hoje, colos e pescoços de algumas das mais bonitas mulheres do País e do estrangeiro. Mas, não contente com isto, Waldeloir Rêgo investe incansável no terreno da estamparia. I.D
Waldeloir Rêgo disse que a Bahia tem uma grande fama de celeiro de arte, mas no fundo são as mesmas pessoas que fazem seus trabalhos há algum tempo. "Não há realmente renovação de valores. Quanto a "igrejinha" se existe, eu não conheço, nem participo dela ou delas. Procuro me comunicar com todos: os já consagrados e aqueles que começam. Acho no entanto, que é muito cômodo o indivíduo cruzar os braços e acusar outros artistas, já consagrados, de criarem "igrejinhas". O que é preciso - prossegue enérgico - é que esta gente trabalhe e faça coisas boas.

                                                          CRIAÇÃO

Waldeloir é um criador nato. Tanto nas estamparias como nas jóias existe uma liberdade de criação.O artista dispõe não só de formas mas também de elementos ricos em cor . Suas estamparias são dotadas de um cromatismo alegre e ao mesmo tempo místico dentro do complexo afro-brasileiro, já assinalados pelo escultor Mário Cravo.
"Vejo na obra de Waldeloir um renovador, mesmo sem renegar as suas raízes. Examinando -se a sua evolução nos últimos 9 anos constata-se facilmente a progressiva liberação dos condicionamentos litúrgicos presentes nas suas primeiras experiências, datadas de 1962, pois ali se encontravam o cristal e a cerâmica, exatamente os mesmos adereços de nosso candomblé. Já em 1968 a prata começa a se expandir como componente quase que fisiológico da sua joalharia, chegando a ser em 1969, predominante. Mesmo as experiências concomitantemente levadas a efeito pelo artista durante o período, na área do "silk-screen", evidenciam que suas preocupações primeiras condicionadas pela liturgia do candomblé,vinham, pouco a pouco, sendo liberadas das cadeias do imediatismo superficial, permitindo mostrar-nos a sua capacidade de produzir objetos realmente oriundos de atividade criadora".

                                                         O HOMEM

Waldeloir Rêgo nasceu a 25 de agosto de 1930,em Salvador e ingressou na Faculdade de Direito da Universidade Federal da Bahia, porém não chegou a concluir o curso. Foi ai que começou a escrever os primeiros artigos, resultantes da pesquisa das coisas e do povo da Bahia, culminando com a publicação do livro "Capoeira Angola / Ensaio Sócio-Etnográfico"que foi premiado pela Academia Brasileira de Letras, com o prêmio Josë Veríssimo, para Ensaio e Erudição, em 1968.
Ao sair da Faculdade de Direito voltou-se para as artes plásticas onde continua até hoje produzindo coisas belas. Participou em 1966 da Primeira Bienal Nacional de Artes Plásticas da Bahia; em 1967 do III Salão de Arte Contemporânea de Campinas; em 1968 do XVII Salão Nacional de Arte Moderna do Rio de Janeiro, e da Segunda Bienal Nacional de Artes Plásticas da Bahia; em 1969 participou do XVIII Salão Nacional de Arte Moderna do Rio de Janeiro e em 1970 do XIX Salão Nacional de Arte Moderna e expôs na Galeria Bonino, ambas no Rio de Janeiro.
Ganhou o Prêmio Nacional de Artes Decorativas, na Primeira Bienal Nacional de Belas Artes da Bahia, Medalha de Ouro no Terceiro Salão de Arte Contemporânea de Campinas e o Prêmio Isenção de Júri e Medalha de Prata do XIX Salão Nacional de Arte Moderna do Rio de Janeiro.
Waldeloir persegue uma temática afro-brasileira e sua atividade criadora vem se desenvolvendo na confecção de jóias artísticas, e pintura sobre tecido, pelo processo "silk-screen", em seu atelier próximo ao Convento do Desterro.
Nas jóias utiliza a prata e pedras semi-preciosas, e formas nascidas da recriação de detalhes de armas, insígnias, fôlhas sagradas e dos próprios utensílios de adorno dos deuses afro-brasileiros ou usados em seus rituais, vai elaborando seus colares, gargantilhas, anéis e pulseiras.
Certa vez afirmou o crítico de arte do Jornal do Brasil, Walmir Ayala, que Waldeloir Rêgo "é um exemplo de alto nível, nesta concepção da jóia como objeto precioso, por suas invenções de espaço, por sua aproximação à liberdade arquitetônica da escultura que é cada dia mais uma arte habitável. Só que as jóias de Waldeloir Rêgo habitam o corpo e pousam com a graça e a agressividade das coreografias do candomblé, na imagem de um colo, de um pescoço ou de um pulso".

                                         IGREJINHA

O artista é contra as "ïgrejinhas" tão reclamadas pelos novos artistas plásticos baianos que se acham prejudicados. Diz ele: "em primeiro lugar, falar de artes plásticas na Bahia é um negócio difícil e delicado sobretudo porque não há uma movimentação artística satisfatória em nossa terra e mesmo renovação de valores, como está acontecendo em outros centros do sul do País.
Existe uma falta de informação geral. O artista baiano em sua grande maioria está desinformado ou melhor está totalmente por fora porque não sabe o que está ocorrendo e se fazendo de novo em termos de artes, não só no eixo Rio-São Paulo como no exterior.
Tudo aqui - continua - fica no ouvi falar. É por esta e por outras razões que acho de suma importância a Bienal de São Paulo porque ali nós ficamos sabendo o que ocorre não só no Brasil como no exterior. É um contato necessário para o artista plástico".

Nota: Waldeloir Rêgo faleceu aos 71 anos no dia 21 de novembro de 2001.

segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

CINEMA - GLÁUBER ROCHA: SUA OBRA EXIGE UM ESPAÇO DIGNO

Publicado em 3 de dezembro de 1982.
Texto Reynivaldo Brito
Fotos A Tarde


No dia 22 de agosto do ano passado morria no Rio de Janeiro o mais discutido e aplaudido cineasta do Terceiro Mundo, o Baiano Glauber Andrade Rocha, e, em Salvador, no ex-Cine Guarani, hoje Cine Glauber Rocha, ocorreram recentemente uma exposição, uma mostra retrospectiva de seus filmes e alguns debates entre cineastas que viveram experiências juntamente com Glauber.


Na foto Gláuber filmando em frente ao Museu de Arte Sacra com figurantes da Idade da Terra. Nestas filmagens ele teve um desentendimento com o então diretor do museu o espanhol valentin Calderon.

Mas, nenhum estudioso da cinematografia nacional conhece tão bem a obra de Glauber como sua própria mãe D. Lúcia Rocha, que antes de ser mãe do cineasta deve ser vista como uma artista, responsável que foi pelo figurino de vários de seus filmes. Ela está presente a todos os acontecimentos que envolvem a vida e a obra de seu filho. Participa de opiniões, relembra fatos e agora está voltada para a concretização de uma idéia que é a criação de um espaço onde seja reunida a obra poética e cinematográfica deste baiano da cidade de Vitória da Conquista, reconhecido em todo o mundo como um dos mais inovadores diretores de cinema das últimas décadas.

                                                       INQUIETAÇÃO

- Desde os primeiros anos notei que Glauber não tinha o mesmo comportamento de seus primos. Vivíamos na cidade de Vitória da Conquista e lá os meninos normalmente gostam de montar cavalo, caçar e jogar bola. Glauber, porém, gastava o seu tempo lendo e consumia muitas horas folheando revistas em quadrinhos. Ele também leu muitos livros antes tidos como leitura para adultos. Leu a Bíblia muito cedo e discutia muitas de suas passagens. A leitura da Bíblia foi uma coisa quase natural pois sempre fomos presbiterianos e ele fazia muitos sermões sobre o que encontrava de interessante.



DESIGUALDADES


Lembra D. Lúcia ( foto)  que certa vez Glauber chegou em casa aborrecido: “Minha mãe como pode o prefeito ter uma casa tão grande e tão bonita e o tio Antonio não ter onde morar?”. Expliquei o porquê e ele ficou ainda inconformado. O tio Antonio de que falava era um empregado que morava numa pequena fazendola de propriedade da família Rocha., o qual tinha na época 12 filhos menores e vivia numa miséria terrível. Isto demonstrava, segundo D. Lúcia Rocha , que seu filho era um inquieto e inconformado com as injustiças do mundo. Esta inquietude fez com que saísse da escola regular e passou a ser alfabetizado em sua própria casa. E já perto de fazer admissão queria discutir a todo custo o descobrimento do Brasil, porque não aceitava a versão de que nosso país foi descoberto por acaso. Quando seu velho pai, Adamastor Rocha, mandava que fosse ajudar na loja ele ficava o tempo inteiro desenhando quadrinhos no rolo da máquina registradora com legenda e tudo que depois passava lendo para membros de sua família.Foi naquele instante que percebi que meu filho ia ser cineasta. Ele sabia nomes de diretores, assistentes, produtores de cinema de várias partes do mundo. E nestes filmes que desenhava no rolo da máquina os personagens eram pessoas da família e de suas ralações.”
Glauber crescia e a família teve que procurar a cidade grande para educá-lo . Assim o Sr. Adamastor e D. Lúcia vieram com seus filhos e se estabeleceram no bairro da Mouraria, em pleno centro de Salvador. Glauber, como todo bom protestante que se preza foi estudar no Colégio Dois de Julho, que na época tinha uma educação fundamentada em colégios protestantes americanos. Estávamos por volta de 1946. Lá ele escreveu uma peça intitulada “Llito, o príncipe de ouro", que montou juntamente com seus colegas. Ele fez o papel de príncipe e D. Lúcia Rocha fez o primeiro traje para o artista que iniciava sua carreira. Nesta época, lembra sua mãe, a professora Maria Nazaré Seixas me chamou e disse: “D. Lúcia descobri um artista. Ele será um grande artista, um gênio.” Ao que D. Lúcia retrucou : gênio ou genioso?
Foi neste ambiente protestante e lendo a Bíblia que Glauber, aos 13 anos de idade, concluiu o seu curso ginasial sendo o orador da turma. D. Lúcia ainda guarda o seu discurso que em certo trecho diz : “Colegas, parar agora seria fatal. Agora que tomamos o primeiro impulso, mais do que nunca necessitamos mergulhar nos mistérios dos livros, procurando com mais afinco o roteiro que nos levará, não mais a uma simples e primeira parcela, mas sim ao todo do tesouro maravilhoso, o mais valioso dos tesouros, o tesouro que o futuro guarda carinhosamente para todos nós que é o tesouro da sabedoria”
Glauber, o discutido jovem, sempre acreditou em Deus, diz D. Lúcia. Acreditava e muito. Sempre, desde criança, conversávamos abertamente sobre seus problemas e posso
afirmar que dos cineastas que conheço foi o que mais pregou o nome de Deus. Basta lembrar os temas e os nomes de seus filmes. Até em Barravento, onde ele mostra sua visão sobre o candomblé baiano, o nosso Deus está presente. Ele sempre dizia que “a minha igreja não tem portas”. O que existia de diferente nele é que era um crente fora dos padrões a que estamos acostumados conviver.
Voltando a falar de Glauber ainda adolescente, sua mãe lembra que depois de viver naquele ambiente burguês e de uma disciplina protestante severa ele matriculou-se no Colégio Estadual da Bahia ( Central) . “Foi uma decisão pessoal de Glauber que ira conviver com pessoas carentes e inteligentes, explica D. Lúcia. Ali sua criatividade cresceu. Participou de vários movimentos culturais no grêmio do Colégio da Bahia juntamente com Paulo Gil Soares, João Carlos Teixeira Gomes, Fernando Rocha, Calasans Neto e outros, hoje professores universitários, escritores e artistas baianos. Juntos fundaram a Jogralesca que foi um movimento cultural importante na Bahia. Mais tarde terminou o curso clássico e fez vestibular para Direito, sendo aprovado.

                                                                BOM FILHO

Um jovem tão inquieto que só queria saber de arte era um bom filho? Bom é pouco, revela D. Lúcia . Glauber era um filho extremado, inteiramente voltado para a família. Era muito atencioso comigo e com o pai. Quando meu esposo sofreu um acidente automobilístico e ficou inutilizado para o trabalho, Glauber sofreu muito. Quando em 1952 faleceu sua irmã Ana Marcelina de apenas 10 anos, de leucemia, seu sofrimento foi pior ainda. Lembro que ele fez na época um poema que ainda guardo. Quer ver? Antes que respondesse D. Lúcia desapareceu no corredor e retornou minutos depois com um papel datilografado: era o poema "Anunciação”, que diz em seus primeiros versos: “Nasceu de mim / Verdes naus em Floração / Sendo mais raivosos quão”. Glauber não se conformava com a morte da irmã e tivemos que mudar de casa. Fomos morar nos Barris e como as dificuldades financeiras aumentavam resolvi abrir um pensionato. O velho Adamastor continuava doente e D. Lúcia lutava sozinha para sustentar a casa. “Mas nunca deixei de dar toda a força a Glauber.” Lembra da dificuldade para que seu filho freqüentasse a Faculdade de Direito. Mas, logo depois começou a namorar Helena Inês que também estudava por lá e meses depois estavam casados e vieram morar na pensão de D. Lúcia.
De repente ela atalha e relembra que antes disto, logo que passou no vestibular, Glauber foi premiado com uma viagem ao Rio de Janeiro. As coisas tinham melhorado um pouquinho com a pensão e ele ganhou a viagem por ter sido aprovado no vestibular. Foi para o Rio de Janeiro e de lá fez uma carta pedindo Cr$500,00 para comprar um carro. “Como eu tinha umas economias devido a venda de algumas coisas que tinha em Vitória da Conquista, prometi que enviaria o dinheiro e assim fiz. Mas, quando ele retornou veio de navio e eu sempre indagando pelo carro. Foi quando ele me disse: "está aqui dentro”, apontando para sua mala. Quando chegamos em casa ele abriu a mala e ficou em minha frente com uma máquina, que era sua primeira câmera. Rimos muito. Foi com ela que ele iniciou as filmagens de “Barravento” e fez um pequeno filme com Helena Inês que é um ensaio de expressão corporal intitulado “Pátio”.
Outro fato curioso que ela lembra é que naquela época os calouros eram vítimas de trotes muitas vezes violentos nas escolas universitárias. “Certa vez, o Glauber me disse : mamãe ninguém vai raspar a minha cabeça. Não vou deixar que imbecil nenhum coloque a mão em minha cabeça. E, assim mandou que um barbeiro amigo cortasse bem baixinho o seu cabelo. Como vemos, tudo aconteceu muito cedo na vida de Glauber, mas nunca podia imaginar que sua morte também fosse ocorrer tão cedo. Basta dizer que foi nos primeiros meses da Faculdade de Direito que ele conheceu Helena Inês e com pouco tempo estavam casados. Vieram morar conosco, como já disse anteriormente e quando se separaram Paloma ficou em nossa casa. Hoje ela está uma moça e estuda Medicina, na Universidade Federal da Bahia. Assim ele trancou sua matrícula no terceiro ano de Direito e foi fazer “Deus e o Diabo na Terra do Sol”. Foi uma luta muito grande porque o produtor do filme Luiz Augusto Mendes, não tinha dinheiro para investir muito e Glauber ficava muito angustiado com as dificuldades. Quando ele terminou o filme mudamos para o Rio de Janeiro. Foi muito difícil no Rio. Sempre vivemos com dificuldades, e ali elas aumentaram. Eu continuava fazendo as roupas e ajudando não somente a Glauber como a Nelson Pereira dos Santos, Joaquim Pedro de Andrade e outros nomes ligados ao cinema novo. Quando ele foi fazer “Terra em Transe” já estava casado com Rosa Maria Pena, com quem viveu seis anos. Não tiveram filhos”.


                                                    PROBLEMAS POLÍTICOS

D. Lucia lembra dos dias tristes que viveu quando Glauber Rocha juntamente com outros intelectuais foram presos. “ Durante 17 dias fiquei sem saber onde ele estava. Resolvi procurar o ministro Juracy Magalhães que mandou um bilhete e terminei localizando Glauber, que estava preso juntamente com Carlos Heitor Cony, Thiago de Melo e outros. Quando foi solto ele terminou o filme que levou quase clandestinamente para fora do país, foi para a Itália e não pode mais voltar. Ficou sete longos anos no exterior, trabalhando e mostrando através dos seus filmes toda a inquietude que sempre foi uma marca registrada de sua personalidade. Na Europa ele rodou “O Leão de Sete Cabeças”, “Claro”, “Câncer”, “ABC do Brasil e Cabeças Cortadas”. Antes ele voltou uma vez ao Brasil e fez “O Dragão da Maldade Contra o Santo Guerreiro”. Nesta época brigou muito com a censura e retornou à Europa.
Conta D. Lúcia Rocha que “nesta ocasião sofri muito. Me dói muito lembrar que muitos o tacharam de louco. Mas ele era um gênio e como todo gênio foi incompreendido”. Ela relembra chorando que foi trabalhar na TV Globo para sustentar a família e sempre mandava algum dinheiro para ele, principalmente nos primeiros meses de exílio. Ela trabalhava tanto que adoeceu, e foi através do cineasta Luis Carlos Barreto que Glauber conseguiu retornar para junto de sua mãe doente. Em outubro de 1976 ele chegou e ela foi operada do coração em São Paulo devido à interferência de seus colegas de profissão, pois não tinha dinheiro suficiente para custear a operação. Ele chegou desconfiado, pois a situação política ainda estava tensa e não tinha passaporte.
Mas aconteceu outra desgraça em sua vida. Anecy Rocha, sua irmã e amiga, caiu no poço do elevador de um prédio. Ele estava escrevendo “Riverão Sussuarana”e no final do livro ele conta a morte de Anecy. Ficou inconformado e acusou na época o cineasta Walter Lima Júnior, então esposo de Anecy de tê-la jogado no poço. Morreu convicto que Walter assassinara sua irmã, embora a polícia não tenha comprovado nada. Um ano após, morreu Adamastor, seu pai, e onze meses depois Glauber retornava ao Brasil, vindo a falecer no Rio de janeiro.
Glauber tem ainda, além de Paloma, mais dois filhos menores de sua ligação com Paula Gaitan que são Erick Aruake e Ava Pátria Índia Iracema, e Pedro Paulo, de 7 anos de idade, com outra mulher, que hoje é funcionária da Embrafilme.
      A visão do cineasta de formação protestante sobre o candomblé baiano em seu filme Barravento

                                                        SUA OBRA

Conhecedora profunda da obra do filho, D. Lúcia tem inúmeros poemas, peças e outros escritos feitos por Glauber. Ela pretende instalar um centro cultural que cultue a memória de seu filho. Para isto conta com o apoio de intelectuais baianos e do governador Antonio Carlos Magalhães que está empenhado em sua concretização. D.Lúcia lembra que “sempre que ele viajava dizia : minha mãe leve meu material para a Bahia. Deixe tudo lá. E para satisfazer seu desejo fiz três viagens de ônibus trazendo várias malas com coisas dele. Certa vez trouxe 16 malas e fui presa na Rodoviária, confundida como boutiqueira, que compra roupas em São Paulo e Rio de Janeiro para vender aqui, devido ao número excessivo de malas. Mas estou com grande parte de sua obra, embora saiba da existência de outros materiais no exterior. Assim, pretendo que a memória de Glauber seja cultuada à altura de sua importância para a cultura deste país. Não falo apenas como mãe, mas também como admiradora da obra deste que foi e sempre será o mais ousado dos cineastas brasileiros”.

quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

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terça-feira, 4 de janeiro de 2011

RELIGIÃO - A GRANDE FESTA DE OGUM




Texto e fotos Reynivaldo Brito

Publicado jornal A Tarde 31 de julho de 1980.


O terreiro foi embandeirado de véspera para a grande festa de Ogum, o deus ferreiro, senhor da guerra, dono das estradas e amigo de Exu.No dia seguinte ,bem cedinho o terreiro já fervilhava de gente ligada ao culto, convidados e curiosos. Era a matança do boi, o qual passara toda a noite mugindo, preso a um imenso poste colocado ao centro do terreiro.
De repente aparece o alabê ( chefe da orquestra) acompanhado de dois ajudantes que conduziam os atabaques. Era o início da festa e o prenúncio que dentro em pouco entraria o pai-de-santo Zé de Ogum, sacerdote da mais alta linha de Angola, que tem um séquito de centenas de fiéis entre ogans, ekedes, filhos e filhas-de-santo. Os toques iam aumentando até que aparece um mulato baixo e troncudo todo paramentado com uma bonita bata de cor amarela carregando no pescoço dezenas de contas e miçangas. Os toques eram cada vez mais fortes e minutos depois acontecia a primeira “manifestação” de um orixá. Uma senhora negra de cabelos quase esbranquecidos começou a rodopiar e caiu ao solo, sendo imediatamente atendida pela mãe-pequena, do terreiro,que é a segunda pessoa do candomblé.
Minutos depois após a primeira manifestação várias outras pessoas recebiam seus santos e a cerimônia entrava no auge, com o axogum trazendo uma imensa peixeira para sangrar o boi. O círculo foi-se fechando e os toques aumentando. Um ligeiro golpe e o boi caiu tremendo, enquanto o sangue era apanhado numa grande tigela de barro para ser oferecido ao orixá. Ao término da sangria foram cortados a cabeça, as patas dianteiras , as pernas ,e os testículos para oferecer a Ogum.
Segundo Zé de Ogum , nem todo pai-de-santo pode sacrificar um animal deste porte, por custar muito caro e por não ter condições especiais dentro do culto. O boi foi sacrificado para Ogum, que é o dono desta roça, deste terreiro. Este ritual acontece todos os anos e as filhas-de-santo e outras pessoas que participam do sacrifício são obrigadas a permanecer 14 dias na casa sem poder sair.
O boi significa força, poder e decisão.O seu sacrifício tem como conseqüência a paz do terreiro e a concórdia entre seus freqüentadores. Todo o boi foi aproveitado pelo culto.O sangue que saiu de suas veias e artérias foi levado para o ibá, que é uma espécie de santuário onde fica o carrego do santo com os potes, bacias e louças. Ali o sangue , que eles chamam de menga foi colocado em cima das otás, que são pedras sagradas ,com mel e vinho, que é o néctar do orixá.Também vieram as quatro patas e a cabeça do boi que permaneceram durante 21 dias. Depois deste prazo todo o material apodrecido é retirado para fazer o boi-itá, que consiste na limpeza dos ossos. Tudo é jogado numa grande lata de gás com água fervendo até que os ossos ficaram alvinhos largando toda a crosta. Imediatamente em procissão, foram conduzidos para a itá. Concluído este sacrifício a paz está reinando no candomblé de Ogum, no município de Lauro de Freitas, nos arredores de Salvador.
Explicaram os membros do terreiro que a paz está garantida por 14 anos, mas salientaram que para que isto se concretizasse eles tiveram antes que sacrificar sete galos caboclos ( vermelhos) para Exu, que erradamente é sincretizado por pessoas alheias ao culto com o diabo. Dizem eles que no terreiro existem dois exus, o Xoroquê e o Tiriri, sendo este último confundido como escravo, quando na realidade é um orixá.


TRÊS DIAS


A festa durou três dias e três noites. Os cânticos tristes e alegres seguidos com o batucar dos atabaques davam uma idéia de uma festa que não mais tinha fim. Todos estavam cansados e o revezamento em certos dias teve que ser feito. Era um dançar e cantar sem conta, tudo para agradar o pai Ogum, que no sincretismo é o Santo Antônio,sendo seu dia terça-feira,sua cor azul escuro e contas também azuis. A comida preferida é feijoada ( a depender da nação)e inhame assado. Sua saudação é Ogunhaê e sua indumentária é composta de couraças e capangas.
Enquanto isto a comida era servida com fartura.Uma imensa cozinha sempre estava cheia de filhas-de-santo sorridentes que serviam aos integrantes do culto e convidados pratos cheios de feijão,farinha e pedaços de carne assada ou em ensopado.
Numa grande panela foi preparado o Ixé de Exu, que é constituído dos miúdos dos sete galos caboclos ( cabeças, pés,fígados,bofes e vísceras) cozidos com azeite de dendê e em seguida colocado aos pés de Exu.O restante dos galos também foi aproveitado para o ximxim feito com camarão e azeite e distribuído entre os presentes à cerimônia no primeiro e segundo dias. Exu estava “assentaodo”e Ogum já dominava tudo.

FEIJOADA DE OGUM

Finalmente, os integrantes do terreiro alcançaram o verdadeiro auge da festa com grande feijoada de Ogum. Quatorze homens devidamente escolhidos pelo pai-de-santo e ajudados por algumas filhas-de-santo começaram a preparar o barracão principal para a cerimônia. No centro do barracão foram colocadas três esteiras e três alas ( lençóis) brancos e em volta jarros com flores e castiçais com velas. As filhas-de-santo se acercaram, também os ogãs, alabês , ekedes, Kotas, mãe-pequena e outros membros do candomblé e algumas traziam tabuleiro com pipocas, que eles chamam de flores para o velho Omolu.
O doburú foi trazido porque o velho Omulu é amigo inseparável de Ogum,principalmente de Ogum de Ronda.Informa o pai-de-santo Zé de Ogum que o dono de sua cabeça é “um orixá do lado do Ifá que é a terra que não mais existe.Ele é velho e não tem mais condições de dançar.Quando o santo desce fico parecendo um velho, andando devagar e com meus movimentos de modo geral muito limitados”.Porém, quando o Ogum Wari toma conta do corpo do pai-de-santo, ele consegue dançar e cantar durante toda a cerimônia. Este orixá aparece empunhando uma espada e dança como se duelasse, altivo e um tanto indomável.Por se manifestar com feições distintas: Ogum Já,Ogum Xorokê ( ou de Ronda, que durante seis meses de cada ano se transforma em Exu) muitas pessoas o confundem com outros orixá.

QUEM É


O pai de santo Zé de Ogum embora seja um mulato corpulento e de cara feia é uma pessoa dócil. Ele passou toda sua juventude ajudando missas no interior da Bahia, na cidade de Rui Barbosa, onde chegou a ser um sacristão na igreja matriz. Quando houve uma campanha para revitalizar as vocações sacerdotais, eis que o sacristão José Santos Araújo ( seu verdadeiro nome) foi enviado para o seminário de Santa Tereza., que funcionava no imóvel hoje ocupado pelo Museu de Arte Sacra,da Bahia. Passou algum tempo no seminário e seu gosto pela música o encaminhou a aprender órgão. Mas o destino do sacristão era outro. “Abandonei o seminário e comecei a sentir umas coisas diferentes. Pensaram que estivesse maluco e me mandaram para um sanatório.Não tinha nada de maluco”. Apenas segundo explica, hoje mais consciente, sentia a manifestação de seu santo Ogum e foi num velho e tradicional terreiro de candomblé da cidade de Cachoeira, localizada no Recôncavo Baiano, que tudo veio à tona.A mãe-de-santo de nome Paulina cuidou do ex-sacristão e ex-seminarista.Cumpriu todas as obrigações e tempos depois era um sacerdote,trazendo consigo a incumbência de zelar por Ogum e de cultuá-lo por toda a vida., Estava com 18 anos quando iniciou suas obrigações e, hoje aos 46 anos de idade o pai-de-santo Zé de Ogum continua cada vez mais ciente de suas responsabilidade e assume o seu trabalho com muito entusiasmo. Já teve terreiro nos bairros de Pero Vaz e Jardim Cruzeiro e na Cidade de Alagoinhas, hoje está em Lauro de Freitas, nos arredores de Salvador. O terreiro ocupa uma era superior a cinco mil metros quadrados e tem várias construções e santuários. É, talvez, um dos mais espaçosos de Salvador e do ponto de vista arquitetônico o mais bonito.
Hoje ele já tem mais de 25 filhas-de-santo feitas dentro de todo o ritual e cerca de 1.200 borizadas e catuladas espalhadas pelos estados de Sergipe,Bahia,Rio de janeiro e São Paulo, e é um dos mais freqüentados da Bahia.

terça-feira, 28 de dezembro de 2010

POLÍTICA - PROPAGANDA ENGANOSA

OPINIÃO
Texto Reynivaldo Brito

A propaganda oficial do governo estadual enaltece a toda hora os feitos da administração.Mas, a realidade e o dia-a-dia é outra coisa. Esta semana uma patrulha da PM perambulou por 3 delegacias para registrar uma ocorrência de um preso que tinha capturado e, em nenhuma delas havia um delegado de plantão. Na última segunda-feira, dia 27, estive na Delegacia da Mulher acompanhando uma jovem vítima de uma agressão covarde e, de lá fomos para o IML. Eram por volta das 20 horas. Um caos total. Basta dizer que nem o RaioX estava funcionando. Como pode funcionar um IML para formalizar um corpo delito que nem Raio X funciona? Só mesmo em nossa Bahia. Tomografia , nem pensar.

A apresentação alegre e enganosa dos anúncios de TV , principalmente dos veiculados utilizando-se de pessoas humildes, como garotas-propagandas, são repetidos tão frequentemente que uma estação tida como de oposição, nunca faturou tanto como neste governo petista. Eles gostam de cultuar a fama às custas do dinheiro público.

Os serviços de saúde, a exemplo dos postos e hospitais, estão em situação de precariedade total com falta de leitos, UTIs, profissionais de várias especialidades e remédios obrigatórios.Porém ,a propaganda vive mostrando o Hospital do Subúrbio. Construir não é difícil, o difícil é uma manutenção eficiente para atender a população, especialmente a carente, com dignidade.

Muitas escolas estão caindo aos pedaços. As estradas estaduais quase todas esburacadas. A BA-099 estava quase intransitável no trecho de Simões Filho até Dias D'ávila. Porém ,com a privatização recente os buracos foram tapados e já se observa alguma melhoria, embora em toda sua extensão o acostamento é impraticável. Veja você que são contra a privatização, mas privatizaram a BA-099 que já apresenta melhoria. É contrasenso em cima de contrasenso.

domingo, 19 de dezembro de 2010

POLÍTICA - DEMOCRACIA: É PRECISO APRIMORAR

OPINIÃO
Texto de Reynivaldo Brito


Estamos assistindo, mais uma vez, a outra manobra dos políticos, que sempre aproveitam um momento de total desmobilização da sociedade para praticar um ato contra ela. Desta vez, aumentaram em 62% os seus próprios salários. É época de Natal e, quando estamos voltados para os festejos, envolvidos em nossos afazeres, tendo em vista a proximidade do final de ano, recebemos este insulto. A exemplo dos vermes aproveitadores de nossas fraquezas físicas, eles, os políticos, metem a mão no Erário e levam o nosso dinheiro . O que eles passarão a ganhar é talvez os mais altos salários pagos a parlamentares em todo o mundo, superando inclusive os Estados Unidos, cuja economia é 12 vezes maior que a nossa.
É por isso que reclamamos dos impostos a pagar, porque o nosso dinheiro é mal utilizado, ou desviado nas tais emendas, que esses mesmos políticos arranjam para canalizar recursos para seus parentes e apaniguados. Uma vergonha!
Já os aposentados e os que ganham salário mínimo ficam assistindo revoltados, mais um acharque contra a sociedade brasileira. Somos os grandes culpados por eleger   até o palhaço Tiririca com mais de 1 milhão de votos. Imaginemos mais de 1 milhão de pessoas saindo de suas casas para votar num candidato sem nenhuma proposta. Isto é uma demonstração de que algo precisa ser feito para aprimorar a democracia.
O regime presidencialista tem se mostrado defeituoso, basta observarmos como os integrantes do PMDB e de outros partidos nanicos, verdadeiros balcões de negócios, se lançaram na conquista de cargos no governo federal. Algo está errado. É por isto que muita gente prefere não votar ou anular o voto.
Vivemos num país onde até o presidente da República derespeita a Justiça, faz chacota quando é multado por abusar do poder. Portanto, o que podemos esperar? Lula é um fenômeno. Todos concordamos. Porém, ele não estudou porque não quis. Se coloca acima de qualquer coisa. Diz que não lê revista nem jornal, como se isto fosse uma qualidade.
Veja o exemplo de seu companheiro de luta sindical, o Vicentinho, que mesmo depois de certa idade foi estudar e se formou em Direito. Lula prefere cultivar e enaltecer a sua história pessoal dizendo que nunca teve oportunidade de estudar. É mais uma mentira, entre as centenas de outras que, durante oito anos, jogou na cara dos iletrados e dos oportunistas de plantão, os quais os aplaudem e os veneram como se fosse um deus . Coitados! Dane-se o nosso país.
Sou contra a reeleição para cargos executivos e, mesmo no legislativo deveria ter um limite de dois mandatos para evitar que políticos profissionais se perpetuem. Estes, quase sempre sabem o pulo do gato, as manhas e como burlar as leis e regulamentos.
Ai se instala na estrutura do poder a corrupção que é um mal deste nosso país, sempre lembrado neste quesito por instituições internacionais. A cooptação desses políticos começa no município onde vereadores acharcam prefeitos, deputados estaduais acharcam os governadores e os federais e senadores acharcam os presidentes da República. É uma escadinha de privilégios e corrupções, que, caso seus atores fossem punidos, não tinha cadeia suficiente no país para trancafia-los.
E, o pior, é que não vemos solução. Basta ler o que diz o futuro Ministro da Justiça, o petista José Eduardo Cardoso. Ele está convencido da inocência de José Dirceu . Coitado do Dirceu, e de nós, palhaços do andar de baixo, como diz sabiamente Elio Gaspari.

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sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

MÚSICA - CAETANO DESABAFA:SOU DA PATRULHA ODARA. E DAÍ?




A Tarde 2 de março de 1979

Texto: Reynivaldo Brito



O cantor e compositor Caetano Veloso está revoltado com as últimas críticas dirigidas por algumas pessoas através de artigos publicados em jornais e revistas do sul do país, que tentam impingir-lhe a idéia de alienado, que apresenta um trabalho fora da realidade brasileira e sem uma conotação política.
Enfim,que pertence à “Patrulha Odara”, que estaria a fim de divertir. Mas, Caetano desabafou em sua casa no tranqüilo bairro de Ondina, num intervalo de seu show que apresentou recentemente no Teatro Castro Alves, com grande sucesso de público e crítica. Ele disse que pertence mesmo à tal Patrulha Odara que nunca se propôs a resolver a questão social do Brasil. Estou a fim de encantar e divertir as pessoas”. Para ele o brasileiro é muito ignorante e está tudo confuso no Brasil. Disse ainda que “enxerga é uma minoria privilegiada racista que quer impor seus comportamentos e idéias e que é um homem livre, não pertence a partido político e ideológico. E, que muitos artistas serão molestados por esses que integram hoje esta meia dúzia que faz restrições a seu trabalho. Outros serão alvo muito breve de críticas injustas.

Para Caetano Veloso as “pessoas são muito burras esteticamente , e chegam ao ponto de criticar por criticar. Mas, a música popular brasileira que está sendo feita , e consumida por aí, é a melhor coisa que se produz atualmente no Brasil. A música popular é melhor que a literatura, que o cinema e tudo mais. E esta crítica que vem se desencadeando tende a cair no vazio porque não é de esquerda, nem de direita. É uma coisa confusa e mal informada. Essas pessoas são burras esteticamente e não têm respaldo necessário para uma discussão maior, em outro nível. Daí passam ao ataque pessoal que é ridículo e inconcebível. Nós, os músicos, somos sagrados. Eu sou sagrado, o Gil é sagrado, o Milton é sagrado , o Chico Buarque de Holanda é sagrado. Nós somos sagrados”. Continuando seu desabafo Caetano afirmou que “se fôssemos fazer uma caricatura da sociedade civil brasileira poderíamos colocar esta pequena minoria racista como a corte e nós somos os bárbaros.Daí teria surgido a idéia de “Doces Bárbaros”,porque isto é coisa de Roma e África do Sul. Uma minoria privilegiada que não aceita a nossa presença.E falo aqui em nome de nós os músicos , aqueles que produzem.E, falando por mim, devo dizer que eu Caetano Veloso sou um homem puro. As pessoas têm medo disto.Imagine que as pessoas têm nojo até da própria mãe.Basta lembrar que a crítica caiu em cima de mim porque apareço na capa do meu disco deitado no colo da minha mãe. Eu não tenho vergonha da minha mãe.Tenho Orgulho, e é por isto que estou em pânico e ao mesmo tempo maravilhado com isto tudo que está ai.”



FUNÇÃO DO ARTISTA

Caetano acha que “ a função do artista na sociedade é produzir arte. As sociedades produzem este tipo de personalidade porque precisam de pessoas que façam arte.Elas forjam estas personalidades, pedem. Há uma demanda dessas psicologias, pessoas que estejam destinadas a produzir arte. O resto é corolário.Com isto não quer dizer que no meu caso, basicamente trabalho para o divertimento, para o entretenimento. Eu não vivo .....
Mais no tempo onde se tem uma noção assim muito pura da arte. Assim como um objeto intocável,muito puro. Eu acho que a gente faz entretenimento para um grande número de pessoas e esse é o nosso trabalho.Tanto eu como o Gilberto Gil, o Glauber Rocha, a Elizeth e muitos outros”.
-Ächo que existem grandes massas e que se faz um trabalho de entretenimento. E, se faz isto. Eu faço isto.Todo mundo faz isto. Todo mundo que faz disco faz isto.Isto é a realidade básica da nossa profissão e ninguém pode tentar esconder porque é isto. Agora eu não sou consumista no sentido de atender ao consumo imediato.Acho isto uma coisa boa.As sociedades são de massas. Há uma quantidade imensa de gente no mundo.As coisas são produzidas para esta gente.Um disco é uma coisa que é reproduzida e vendida para milhões de pessoas. Uns vendem 50 mil, outros 90 mil até 300 mil . Nos Estados Unidos tem gente que vende 5 milhões e 10 milhões de discos e assim por diante. Não sei, no mundo todo as pessoas vendem muitos discos. Não sei.
É verdade isto, isto existe e a gente trabalha nisto. E isto é arte. Não sei diferençar exatamente. Há uma demanda para a existência disto. Agora, que dentro disto os temas políticos apareçam ou não para mim pode acontecer. É uma coisa natural. Como os temas políticos são de interesse das pessoas e há uma demanda muito grande que também eles sejam tratados nas obras de arte. Agora, o que acho , é que há assim um consumismo . Trabalho dentro disto,dentro deste lance sabendo o que é, com a minha liberdade, na minha profissão e na minha função dentro da sociedade . Como não estou preso e obrigado a fazer música de discothéque , a fazer baião. Nada. Não sou obrigado a tratar de determinados temas porque estão na moda. Acho que há uma moda de esquerda, uma moda consumista de esquerda. Isto é, você vende uma moda de bandeira política de esquerda. Pode ser de maneira mais primária possível e algumas pessoas aceitam. Revelou ainda Caetano Veloso “que na verdade muitos estão nessa porque dá muita grana. Ficam dizendo : Ah ! Caetano não sei o que mais.É da Patrulha Odara. E daí? Sou mesmo da Patrulha Odara .”

RESPONSABILIDADE E PÚBLICO

Disse Caetano Veloso que “não identifica o seu público como universitário. Há muitos estudantes evidente que se interessam por mim e muita gente já deixou a universidade, e também estudantes secundários e mesmo gente que nunca foi à escola. Muita gente que não é estudante. O meu público não é basicamente de estudantes.”
Quanto à responsabilidade para com este seu público ele revelou que “minha única responsabilidade com o público que me acompanha é de manter a mesma responsabilidade ,relação como o que faço e com o que atraiu essas pessoas a gostarem e acompanharem o que estou produzindo. Como comento isto, como trabalho, minha liberdade , minha coragem. Isto é uma coisa boa. A minha sinceridade, é isto que está ai. A minha responsabilidade. E sou cem por cento responsável por isto. Por outro lado, não tenho muita responsabilidade para fazer aquilo que o público quer. Seja lá que público for. Ele pode estar com a opinião mais certa do mundo, quer que eu diga aquilo.Podem querer, mas eu não quero.Só faço aquilo que acho que devo fazer. Se não estou para dizer aquilo, não vou dizer.Quanto mais que não é isto que se passa.O que se passa é uma porção de gente confusa.O brasileiro é muito ignorante. Poucos chegam numa universidade precária, ( e nós somos um pequeníssimo número de pessoas que consegue chegar lá ). As universidades são precárias. É tudo confuso no Brasil. As pessoas não têm muitas informações .As universidade não são boas. Não existe um nível aceitável de informação. Quero dizer que não há, assim, platéias bem formadas,grandes minorias de massas que possam sustentar uma opinião. Mas ,não existe nada disso.É preciso até ter um cuidado no que falar. Eu mesmo sou confuso quando falo e devo ter cuidado para que não haja tantos mal entendidos. O que existe muito é mal entendido. O Brasil é muito grande, muito confuso e muito pobre “.

RACISMO

- Estou querendo e ganhei consciência que aqui é muito África do Sul. A sociedade civil brasileira, enfim, a vida civilizada, urbana brasileira é uma pequenina nata.As pessoas que chegam à universidade, que escrevem nos jornais e lêem as revistas são assim os brancos da África do Sul.Uma minoria racista, privilegiada e de direita ou de esquerda, distante completamente do que seja a verdadeira realidade do país Brasil. Esta é a angústia que sente Caetano Veloso que diz a seguir: “é uma angústia muito grande que sinto por tudo isto. Gostaria de compartilhar com meus compatriotas para ver se a gente amadurece esta colocação minha. Compartilhar para ver o que existe realmente”. Continua o seu desabafo duro e sincero . “Daí atribuir às críticas e uma campanha que algumas pessoas ditas de esquerda vêm tentando fazer ao grupo baiano como racistas. Acho que é uma metáfora da realidade.Acho que o fato de eu me dizer mulato, como eu disse numa canção, é o modo de traduzir uma coisa, que digo com meu modo de ser e, o fato de reagirem ao meu modo de ser, é também um modo de reagir à mulatice verdadeira que há em tudo isto. Acho racista esta coisa toda. Mas, não caracterzaria com tanta facilidade assim esta crítica como de esquerda. Esta crítica pretensiosa que se faz no Brasil procura se dizer de esquerda. Eu pessoalmene não caracterizaria como sendo de esquerda. Não há uma clareza muito grande nisto. Acho que, por exemplo, o que me revolta é ler um artigo como eu li do Mauricio Krusbusli, que escreveu no jornal do Brasil em que ele falava de mim e dava eu como morto. De mil ele disse que o Caetano era desde mil e novecentos e pouco. Ai eu já sou um gato escaldado. Já li aquilo, com muita tranqüilidade, estava também no artigo uma crítica ao Milton Nascimento que não corresponde também à realidade. O Milton Nascimento é um sujeito maravilhoso. Ele é um sujeito inspirado. É uma pessoa que porta o maravilhoso. Eu percebo sinto como artista e achei o disco novo dele “Clube da Esquina no. 2”algo maravilhoso, muito bonito.E ele tinha feito uma apresentação no Festival de Jazz e ,eu vi na televisão no Rio. Eu vi ali o maravilhoso. Embora estivesse ali uma apresentação do ponto de vista profissional cheia de defeitos, com todos os defeitos que você possa imaginar, porque já estava uma `coisa desleixada, já que eles tinham feito um show tarde, tinham feito uma grande farra e o show saiu confuso. Mas, os críticos que esculhambaram com ele tinham visto o show na parte da tarde. Mas, só falaram da noite. Neste artigo o Maurício diz que o Milton já começa a sua descida. E, falou mal do disco do Milton de uma maneira injusta e incoerente. Esquece de coisas boas que ele vinha falando até então. Isto é esquerda? Não é esquerda, nem direita. Isto é baixo nível moral.Para mim é isto, baixo nível moral. É uma coisa destrutiva e doentia. Estou dando este caso como exemplo, mas milhões desses estão acontecendo por ai.
Falando também de algumas críticas por ele consideradas injustas dirigidas por Maria Helena Dutra , o cantor Caetano Veloso disse que recentemente ela elogiou o meu show mas de maneira burra.Ela disse que neste, eu tirei os enfeites feios dos show Bicho, do “Bicho Baile Show”. Na verdade as roupas do Baile Bicho Show eram lindíssimas. É porque as pessoas são muito burras e praticamente não conhecem nada.Todas as fotos que vejo do Bicho Baile Show são lindas. As roupas são lindas, e no entanto falou que eram feias e que agora estou bem. Isto porque estou discreto vestido de short e camiseta, que é uma coisa simples. Pensando certamente que estou renegando aquela roupa maravilhosa do Bicho Baile Show, quando não é verdade. Não existe este negócio de renegar”.

Caetano volta a falar das críticas dirigidas a Milton Nascimento e confessa ter ficado muito contente por Milton ter falado, “ele que não é de muito de falar. Agora ele está falando botando pra fora. Acho isto genial.Mas o que sinto em música popular brasileira é que está tudo maravilhoso. Acho mesmo que o Chico é maravilhoso, vai ser atacado em breve por este pessoal.Vão demonstrar quão inimigos eles são do que tem de maravilhoso em Chico Buarque. A mesquinhez também o vai atingir, porque eu me sinto identificado com Chico, com Hermeto Pascoal, com Elizeth Cardoso, Isaurinha Garcia,Maria Bethânia,Dominguinhos, Jackson do Pandeiro. Acho que a música popular do Brasil é a única fresta. É realmente por onde passa alguma coisa assim, seja da força que vem de baixo do Brasil, seja do futuro do Brasil, do mundo ou do planeta ou do inconsciente do Brasil. Alguma coisa disto se passa atualmente pela música popular brasileira e fazem tudo isto para impedir que aconteça. É isto o que está acontecendo , porque elas representam a repressão. Se dizem ser de direita ou de esquerda, na verdade esses que se arvoram de críticos representam a repressão a isto que acontece, que não sei o nome, mas que eu represento. Não sozinho, mas juntamente com Chico Buarque, Lúcio Alves, Dóris Monteiro , Antônio Carlos Jobim e muitos outros. Eu tenho uma verdadeira mística em relação à música popular brasileira”.
Diz Caetano que “nossa música popular brasileira é melhor que o cinema, que a literatura, do que a política, do que a religião, do que tudo. Eu acho. Tenho uma relação mística com música popular do Brasil. E me sinto sagrado, porque faço parte de música popular do Brasil, porque componho , canto, e atuo nesta área. Vejo misticamente. Acho que nós que fazemos música popular no Brasil, seja originário do interior da Paraíba, entendeu? Ou filho da família Buarque de Holanda, nós somos todos sagrados e portadores de ma coisa extraordinária que não sei o que é, mas que está no futuro, mais embaixo, dentro, escondido no Brasil. E todos aqueles que fazem as coisas mesquinhas contra nós, porque falo em nosso nome, são inimigos de uma verdade grandiosa que eu não sei o que é, não sei dizer o que é, mas`que eu vivo. E que eles não querem que nem se insinui e e pronto ! É isto que vejo no Milton Nascimento eu revolto, quando o Mauricio Krusbusli diz que Milton teve ascensão e ubiu, desceu. Eu sou paranóico, sagrado. Acho que Milton é sagrado, que Chico é sagrado e que ninguém tem direito de ser louco . Eles têm seu emprego escrevem o que quiser. Eu falo o que quiser. Esta é a minha opinião”.

ESTÃO COM MEDO


Para Caetano Veloso “eles estão com medo e gostam muito de se identificar com a esquerda. Eu sinceramente não vejo esquerda, direita. O que vejo é uma confusão e falta de informação total. Eles pretendem falar em nome do povo, mas o que vejo é uma coisa muito vaga. Vejo muita gente por aí, com milhões de coisas. Sou do interior da Bahia já morei em Salvador, em São Paulo com e sem dinheiro, moro no Rio de Janeiro com dinheiro e tenho muitas visões e sensações do Brasil. Quase nunca vi alguém falar alguma coisa que se parecesse com o que vejo, exceto nas canções populares e nos filmes de Glauber Rocha e em alguns filmes e livros de outros autores, mas são poucos. A maioria das coisas não tem nada a ver com as coisas que vejo e sinto . Muito menos nestas críticas. Como sou vítima de um problema deles lá, eu reajo. Claro que reajo e é uma questão de honra, uma questão moral, também, não posso deixar de reagir”.





PATRULHA ODARA

Falando sobre a conotação que estão dando chamando os baianos de integrarem a uma tal de “Patrulha Odara” Caetano revela que “realmente pertence a esta patrulha. Quanto ao centralismo no Rio de Janeiro é uma coisa que existe e é utilizada por eles. “Eu acho que é. Que tem um peso esse negócio do Sul ou seja, o centro da sociedade civil brasileira , que é o Rio de Janeiro e São Paulo contra o subdesenvolvimento. Quer dizer , principalmente o Rio de Janeiro, já que São Paulo é um centro mais industrial, e, o Rio é um centro mais social, um centro cultural, social. É a Corte. O Rio é a Corte. Ali fica todo mundo nos bares, etc. Numa caricatura representaria muito bem os brancos da África do Sul. Mas acho que há muito racismo contra os baianos, contra o Nordeste. O Pasquim naquela época em que voltei de Londres fazia uma brincadeira constante de esculhambar com os baianos e nos chamavam de baiunus como se o Rio fosse a Roma e nós fôssemos os bárbaros. Isto até influiu em eu botar o nome de nosso grupo de “Doces Bárbaros” . Acontece que acho que a coisa toda é centrada no Gil, no Caetano e no Glauber. A coisa toda contra os baianos . Por ser baiano a gente tem uma certa união, coincidência de atitudes, uma coragem maior de mexer com esta coisa toda , a gente é independente, de apresentar um Brasil livre, de procurar que o Brasil se expresse de verdade. Então os caras ficam contra nós e a reação fica forte. Fica uma moda. É moda falar de Caetano, Gil, etc. Isto é péssimo porque vai desprestigiando, embora não pareça nada. Na verdade desprestigia. Quando falei do negócio do Milton Nascimento eu queria mostrar que é a mesma coisa. Não existe uma secção . A secção está no racismo, no preconceito. Acho que os baianos faziam o mesmo com os sergipanos numa situação semelhante. Mas acontece que não há uma situação semelhante”.




INVESTIDA DOS CEARENSES

Disse Caetano que “há tempos atrás , o chamado Grupo Cearense fez uma investida contra os baianos, mas que foi uma investida burra. Eles tentaram utilizar ( foi uma coisa suicida ) esta reação que existe contra nós, este racismo. A gente não é mau. Senão eu e o Gil teríamos acabado com isto. Mas ,a gente viu que foi uma coisa muito burra. Eles tentaram utilizar o preconceito contra nós como a catapulta de lançamento deles. Quer dizer, no momento que os cariocas estavam dizendo assim no Pasquim e naqueles bares de noite e nas ruas. Chega desses baianos. Tem que acabar com esses baianos. O Fagner , por exemplo, usa muito essas de dizer, vou pegar. É uma coisa meio sabida. Vou dizer que eles passaram, que é preciso vir gente nova. Mas ele falou tão burro, que apresentou como gente nova Capinam e Abel Silva. Ora, Capinam além de ser baiano e ter trabalhado no Tropicalismo é mais velho que eu. Então, ficou ridículo ele declarar isto na Revista Veja. Então o próprio Belchior fez uma coisa mais inteligente porque não criou inimizade e botou a brincadeira dentro de sua música, das letras deles. Uma coisa assim de “é preciso renovar o elenco”. É consumismo, tudo isto é consumismo. Eu sou puro. Eu. Caetano Veloso sou um homem puro. E escrevi esta frase numa carta que enviei a Revista Veja: Eu, Caetano Veloso sou um homem puro e a Veja cortou esta frase. Gostaria até que você contasse isto na sua revista ( Na época fiz esta matéria para a Revista Manchete, onde era repórter) . Não sei se pode. Mas, eu pergunto qual a razão de ter cortado a frase? Eu sou um homem puro. Mas diante desta estória do Fagner, isto é , falar como se eu fosse modelo de automóvel para todo ano ser renovado e jogado fora, acontece que não sou automóvel, nem sabonete. Sou um homem. Sou do Recôncavo da Bahia, nasci em Santo Amaro da Purificação , tendo pai e mãe , coisa que essas pessoas têm dificuldade enorme de admitir. Basta lembrar, porque fiz uma capa de disco onde aparece uma foto imensa minha com minha mãe, a crítica esculhambou, também o público não comprou um pouco por causa disto. As pessoas têm nojo da mãe. Eu não. Eu existo. Sou de carne e osso, tenho emoções , entendeu? Não estou a serviço de nenhuma ideologia. Sou uma pessoa. Estou em pânico e deslumbrado com tudo que existe ao mesmo tempo. Agora, este papo furado de que está certo e errado. É tudo mentira. Olho e ouço os caras falando e não acredito. Sou puro neste sentido. Não estou ai para ser sabonete e automóvel,não. Não estou nesta de que esses caras têm que mudar. Mas, se mudar estou aí. Encontro a nova realidade e ajo como ela tá. Vejo o que é que vou fazer aí no lance, e tudo bem. A gente nasce no mundo e não numa folha de papel em branco. Não. O homem não é parado. É neste sentido que acho uma loucura este negócio de consumismo. Acho um absurdo isto tudo”.

PRESO E EXILADO



Lembra Caetano que “a censura é prejudicial a seu trabalho. Diretamente para o meu trabalho tem prejudicado pouco. Porém indiretamente muito. É aí que estou com Chico Buarque quando ele falou que se você passa anos com a divulgação das obras muito limitada,você vai perder o diálogo , o nível do diálogo da criação. Explico: você deixa de ver várias peças de teatro onde acontecem determinadas e várias coisas, você não é estimulado a fazer outras, que vão além. Acho que a limitação da divulgação e de obras é uma coisa que lesa os artistas, mesmo que não seja diretamente. Acho isto ainda uma coisa mais profunda em relação a isto. Não fui muito censurado, mas é preciso não esquecer que fui preso e exilado . Então é uma coisa muito desparatada porque ao mesmo tempo que a censura atua assim, por outro lado, em determinados aspectos ela se mostra ( e é por isto que Glauber tem se mostrado meio simpatizante das possibilidades do governo militar no Brasil, entendeu? Porque a censura , como o governo militar tem um aspecto positivo neles, e acho que o Glauber vê isto assim como uma metáfora) em luta contra a sociedade civil brasileira. É aí que está a identidade”.


“DISCOTHÉQUE “

Diz Caetano Veloso que “esses críticos têm medo. Têm muitos problemas com relação as coisas que acontecem. Na semana passada uma moça que trabalha num jornal de Salvador veio com uma pergunta, era uma enquete, onde estava escrito para ela perguntar a mim o seguinte: o rock and roll foi tipicamente um movimento musical de forte conteúdo social e revolucionário, enquanto que a discothéque é conservadora e alienada. Fiquei chocado, porque isto é uma loucura, este tipo de pauta que estava me mostrando ( e a menina ria muito, achando aquilo muito ridículo), mas, me disse, eu estou aqui com a pauta, que é uma pergunta do jornal. Ora, o rock and roll é uma coisa muito velha, eu era criança quando apareceu. O rock and roll foi considerado na época o máximo do conservadorismo e da alienação. Nunca ninguém achou que aquilo era revolucionário, não. Até os Beatles que eram rivais do rock and roll, que surgiram dez anos depois ainda eram considerados conservadores e alienados. Ainda era uma coisa alienada e conservadora, no Brasil alguém se interessar pelos Beatles. Hoje, vinte anos depois as pessoas dizem que o rock and roll era revolucionário e a discothéque reacionária. Então fico vendo que é uma coisa de ter medo pelo que está acontecendo. Eu acho a discothéque na maioria das vezes chata. Não gosto de ouvir Donna Summers, acho que tem muita música igual. Agora gostava daquela discoteca Dancing Days’s que tinha no Rio. Adoro “soul music “ . Adoro ver e ouvir preto cantando. Preto americano. E mais, do eu tudo gosto de Bob Marley, da Jamaica. Eles não seriam nem capazes de diferençar se você botar um disco de Donna Summers e do Bob Marley e do James Brown, e dizem que tudo é discothéque e que está aí para destruir as características culturais brasileiras. Agora, eu não sou do MEC, não sou da censura. Não trabalho no MEC e nem na censura. Então não sou eu que vou controlar. Agora, eu tenho minhas escolhas e eleições. Quer dizer. Eu gosto do que gosto. Eu sou democrata, sou mulato democrata”.

ARTES VISUAIS - BETTY KING :A FAMÍLIA COMO REFERENCIAL

ARTES VISUAIS

Jornal A Tarde,Salvador 25 de julho de 1980.
Texto Reynivaldo Brito


A americana-brasileira Betty de Almeida King ou simplesmente Betty King , como ela gosta que a tratem, está de volta à Bahia, desta vez para uma exposição “Álbum de Família”na Galeria da Associação Brasil-Estados Unidos, no Corredor da Vitória. Nascida em New Orleans, nos Estados Unidos, em 1932, desde cedo mostrou uma forte inclinação às artes tendo estudado na Universidade de Lousiana e depois com Hans Hofman, em Princetentown. A seguir transferiu-se para a Europa estudando na École de Beaux Arts e na Grand Chaumier, de Paris. Volta aos Estados Unidos onde permanece alguns anos e casa com um brasileiro vindo a morar no Rio de janeiro e, depois em Salvador. Em 1968 rompe com tudo que havia estabelecido e volta à Europa e Estados Unidos para ver de perto a arte que estava sendo produzida por lá. A partir de 1970 fixa-se nos Estados Unidos e uma vez por ano tem visitando o Brasil.
Este é, em poucas palavras , um resumo da vida artística de Betty King esta americana-brasileira que tornou-se inicialmente conhecida como uma boa pintora ligada ao concretismo. Em seguida , dá uma dimensão maior de sua obra utilizando placas de alumínio anodizado, e agora está pesquisando a fotografia e realizando experiências com super-8. Porém, como demonstra na sua atual exposição não abandonou a prancheta. Vemos excelentes telas ligadas à família, porque a grande maioria representa uma transposição de cenas reais para a fantasia criadora da artista.

                                                                  SUA TRAJETÓRIA

Durante duas horas conversei com Betty King tentando estabelecer um pequeno histórico de suas atividades como artista.Porém ,este texto não pretende ser um documento concluído, pelo contrário , um documento que dê início a outro com novas informações que devem ser somadas sobre esta artista dócil e criativa.
Revelou Betty King que a arte sempre foi uma coisa inerente à sua própria personalidade de mulher,uma inquietude que carregava dentro de si e que explodiu pela primeira vez, quando ela ainda era criança. Betty pegou alguns insetos, cavou buracos e em seguida cobriu-os com vidro, chamando a todos para ver . Era a primeira exposição espontânea desta artista extrovertida.
                                                Na foto a abertura da sua exposição em Salvador em julho de 1980.
Ainda garota preparou uma série de objetos de cerâmica, todos utilitários, os quais permaneceram muito tempo integrando a sua coleção de brinquedos. Assim, os dotes criativos de Betty iam ganhando os espaços e o conhecimento no círculo de amizades. Continuou desenhando até que foi estudar na Universidade de Lousiana.
Conta Betty que, certa vez, achou um rolo de papel e utilizou tudo que havia em novos desenhos. Carregava consigo uma forte vontade de realizar, de criar, de expressar sua sensibilidade. Com isto os amigos foram se afastando e seus pais não conseguiam entender esta sua projeção para as artes.
Tudo foi feito para desvia-la.Como sua mãe saía do dia inteiro para o trabalho desejava que Betty cuidasse da casa. Mas, o desejo de criar sempre foi mais forte. Continuava pintando e vieram os primeiros elogios, necessários para definir sua opção pela arte. Enquanto, suas colegas procuravam ganhar dinheiro ou arranjar um marido, Betty cuidava de seus pincéis, de seus papéis e de suas figuras incompreendidas.

                                                             ERA DIFERENTE

“Era considerada diferente e sofri muito com isto. Enquanto todos procuravam as festas, os parques e os agrupamentos eu ficava, horas e horas, totalmente, dedicada ,à minha arte.Se é que poderia chamar o que fazia naquela época de arte. Recusei outros cursos que não estivessem ligados ao meu desejo de criar. Queriam até que estudasse violino e aprendesse balé clássico. Acho excelente quem sabe tocar violino e dançar , mas acontece que minha opção era por outra manifestação artística ou seja as artes plásticas”, adianta Betty King, falando um português entremeado de palavras incompreensíveis e com um sotaque muito carregado.
Depois de realizar o seu curso colegial em New Orleans a jovem Betty King parte para uma carreira promissora ligada à arte.Estuda em vários cursos regulares e livres e dedica-se totalmente a pintura. Porém, o destino levou-a a encontrar um industrial brasileiro com quem casou e teve dois filhos. O primeiro , de nome Marco, chegou ao Brasil com um ano e pouco de idade. Vieram morar no Rio de janeiro e depois em Recife, foi quando “entrei em contato com a Bahia e não mais queria sair daqui. A atmosfera das pessoas e da cidade encheu meu espírito. À esta altura já estava com duas crianças, tinha nascido Vânia”.
Tudo contribuiu para que ficasse principalmente depois que encontrou Pietro e Lina Bardi que estavam organizando o Museu de Arte Moderna da Bahia, cuja célula começou a funcionar no foyer do Teatro Castro Alves.
A amizade estabelecida entre Betty e Lina levou- a organizar a exposição individual no foyer do Teatro Castro Alves, com grande sucesso. Era sua fase concretista onde apresentava composições em formas não muito definidas, umas em tonalidades fortes e outras fracas que permitiam ao espectador uma visão lúdica. Juntando-as surgiam as figuras de mulheres, de crianças e bichos. Eram telas de cores tênues e delicadas, que embora feitas a óleo lembravam a técnica do pastel.Foi um sucesso total e todos gostaram dos trabalhos da jovem americana, Estávamos no ao de 1961. Logo depois em 1962 , participa de uma coletiva na Galeria das Folhas, em São Paulo, também ,sob o patrocínio de Bardi. No ano seguinte em 1963, expõe novamente no Museu de Arte Moderna da Bahia, sendo que desta vez surgem as figuras das baianas, dos pescadores, mais nítidos e melhor trabalhadas. Participa da coletiva Artistas do Nordeste, no Museu de Arte Popular, hoje, desaparecido. Em 1964 expõe na Galeria ACBEU, no Rio de Janeiro, também numa exposição coletiva.

                                                              ENCONTRO COM ARTISTAS

É bom lembrar um pouco da importância desde último evento. Betty King conseguiu reunir no Museu do Carmo importantes expressões das artes em nossa terra. Conseguiu retirar dos ambientes fechados e dos ateliers de artistas já famosos e joga-los no meio de um palco que mandara construir e que colocou no centro do pátio do museu.Ali os artistas faziam o seu trabalho atraindo a curiosidade de pessoas, antes totalmente desligadas da arte. Assim, Mário Cravo foi fazer suas esculturas, portando seu inseparável maçarico: outros dançaram e pintaram suas paisagens de Alagados ou casarios ou mesmo executaram uma arte carregada de contemporaneidade. Foi uma exposição marcante e que poderia ser repetida muito mais importante que as tais “oficinas”criadas recentemente pelos integrantes do Festival Arte/80. Isto porque , as ‘oficinas”estão trancadas a sete chaves nos velhos barracões da Escola de Belas Artes, e tratadas num plano secundário. Basta dizer que durante a realização do festival muita gente não está informada sobre a Oficina Nacional de Dança, sobre atividades teatrais e nada sobre artes plásticas. O amadorismo imperou mais uma vez.Mas ,esta é outra conversa.
Voltando a falar sobre Betty King, em 1967 retorna aos Estados Unidos e expõe na Rebeca Harkens House, em New York, e executa um bonito mural existente no Centro Industrial de Aratu.
Devo acrescentar que naquela época o CIA exercia um importante papel como mecenas das artes.Todos os meses era adquirido um trabalho de arte pelo então superintendente Rivaldo Guimarães e este trabalho servia de capa para a revista do CIA. Porém, esta época passou e o CIA tem hoje um razoável acervo.
Um dos anos mais promissores de sua carreira foi em 1969. Realizou exposições no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro, no Museu de Arte Moderna de São Paulo, no Instituto dos Arquitetos de São Paulo e executou um grande mural para a Alcan Alumínio do Brasil, São Paulo. Em 1970 expõe no Museu de Arte Moderna da Bahia e em 1971 realiza o mural existente no edifício da IBM, no Canela, e uma exposição no Museu de Arte Contemporânea de Pernambuco. E, assim vieram sucessivas exposições sempre marcadas pela personalidade forte desta artista.

                                                                ARTISTA VIAJANTE

Hoje, podemos chama-la de uma artista viajante. Uma artista que hoje está em Salvador, amanhã em São Paulo e no dia seguinte em New York. Três ou quatro dias depois ei-la de volta sorridente e querendo trabalhar. Realiza assim exposições em várias cidades do Brasil e principalmente nos Estados Unidos. Gosta de estar em constantes contatos com o que existe de mais moderno no setor das artes. Uma necessidade que marcou a sua trajetória de artista. Basta passar as vistas nos locais onde realizou exposições para sentirmos a inquietude e a vontade de realizar de Betty King.
Outro aspecto interessante na arte de Betty King é a utilização da figura. Mesmo quando trabalha com placas de alumínio anodizado, de quando em vez, encontramos as figuras de mulheres e bichos. Essas figurações acompanham Betty durante toda sua trajetória artística.Algumas vezes mais definidas, outras menos definidas. Mas ,sempre a figura, sempre os nus e as caras de gatos e cachorros. Ela explica este gosto pelos animais dizendo que “sempre procurei me expressar através de formas. Tanto quando trabalho na prancheta realizando as minhas pinturas, tanto quando estou trabalhando com metais, utilizando a segunda e terceira dimensões que tenho os animais presentes. É uma necessidade que sinto . Não gosto de ficar trancada”.
Já trabalhou várias vezes em fábricas com operários e a sua primeira experiência aconteceu na Bahia , ma Metalúrgica Invicta. Ficou realmente sensibilizada com o interesse dos operários em contribuir para a execução de um trabalho de arte, embora o entendimento deles fosse limitado. No entanto foi importante porque nada mais importante do que o contato com a arte. Esta conscientização-educação deve ser feita por todos aqueles que possam dar uma contribuição para os sem oportunidades.

                                                               EXPOSIÇÃO ATUAL

Revela Betty King que continua sentindo a necessidade de uma comunicação mais abrangente com o seu público.Agora está partindo para experiências com fotografias e cinema e, assim ,espera atingir um número cada vez maior de consumidores de suas mensagens.
Continuará se utilizando da figura como forma de expressão. Elas aparecerão em suas novas experiências com os corpos nus caras de cachorros e gatos, etc. Sempre a vida faz-se-à presente, porque Betty é uma artista que ama a vida e tudo que palpita.Basta observarmos que mesmo nas placas frias do alumínio anodizado ela consegue transpor a vida através de suas figuras não totalmente definidas e também da cor.
Agora ficamos mais confiantes em afirmar isto depois desta mostra da ACBEU que ela intitulou “Álbum de Família “onde desfila homens bigodudos, jovens com vestes esvoaçantes, o cachorro querido e, assim por diante. Há sempre na obra de Betty uma volta constante às suas raízes, à sua infância, revelando como que uma preocupação em preservar a família. Inclusive, durante a conversa que mantivemos pude notar que a família sempre este presente direta ou indiretamente em sua arte. Foi casada com um industrial quando freqüentou algumas indústrias e onde trabalhou com vários operários.
Quando indaguei se a família interferiu positivamente ou negativamente em seu trabalho ela não teve dificuldade em afirmar: “Ajudou, mas não sei até que ponto o trabalho superou a família e vice-versa”. O que existiu e existe é a procura do ponto de equilíbrio para controlar as duas atividades. Acho que a família é importante até como referencial e basta lembrar que seus filhos , sempre funcionaram como modelos e o cachorro de seu filho Marco, serviu numa fase inteira de sua carreira. Portanto, a ligação família-arte foi positiva para Betty Mas, teve um momento em que queria sair um pouco para ver a linguagem universal de colegas instalados em outros centros culturais e por isto voltou algumas vezes aos Estados Unidos e Europa. Esta necessidade de falar uma linguagem universal ainda carrega com muita força dentro de si. Creio que está trilhando este caminho.
E, finalmente , Betty diz "hoje sou uma artista que já vi esta linguagem universal. Já convivi com as pessoas que falam esta linguagem e estou buscando uma integração cada vez maior com ela. Espero que seja compreendida e a família como é uma coisa universal e intrínseca pode ser um caminho para abrir ainda mais as minhas potencialidades sempre na direção de fazer algo novo e atual”.

MÚSICA - APÓS 40 ANOS ,CAYMMI REVÊ AS PRAIAS E A GENTE QUE INSPIRARAM SEU CANTO



Caymmi no Abaeté

Texto de Reynivaldo Brito 
Fotos Reynivaldo Brito e Arestides Batista
 Jornal A Tarde, Salvador, Bahia , Brasil
Em 7 de janeiro de 1980.

Caymmi no Bonfim com Reynivaldo Brito

O moço Dorival Caymmi está completando 41 anos como artista que continua cantando as belezas de sua terra, o pitoresco acrescido de um conhecimento profundo de sua gente e das belezas naturais. Com seu jeito dengoso ele abraçou preguiçosamente o violão e concordou em rever os pontos principais e aquela gente que tanto lhe serviram de inspiração para suas principais canções que estão vivas no coração dos jovens e velhos que habitam este Brasil.
Daí a razão de muitos insistirem em chama-lo de o “moço” Caymmi devido à sua presença sempre viva e também por sua música tocar de perto todas as pessoas independente da idade ou crença. Juntos percorremos as belas praias da velha Salvador, a Lagoa do Abaeté, a Praia de Itapuã e a Igreja do Bonfim e por onde estivemos Caymmi era cercado com carinho pela gente humilde que povoa esses locais nos dias de semana. Para todos um riso aberto e palavras confortadoras pronunciadas devagar e com seu sotaque arrastado, tão próprio dos moradores de Salvador.
Ele pôde reencontrar personagens de suas canções como os velhos pescadores , o ex-jogador do Esporte Clube Bahia , que foi integrante do primeiro time que ganhou o campeonato brasileiro, chamado “Brasileirão”, hoje tão combatido pela crítica esportiva. Reviu as velhas jangadas que ‘descansavam”à beira mar, presenciou a puxada de rede na Praia de Itapuã e foi abraçado por uma bela morena de pouco mais de 15 anos. Portanto, visitou os pontos que lhe inspiraram e voltou a conviver com aquela gente simples e cheia de sabedoria. Aqui um relato de sua conversa com esta gente e as suas impressões sobre as mudanças ocasionadas pela febre imobiliária que assolar e aniquila muitos pontos turísticos deste país.
                                                 
                                                     EMOCIONADO

  Quando chegou à Lagoa de Abaeté , Caymmi ficou emocionado. Seus olhos percorriam os quatro pontos da lagoa e procuravam acompanhar o movimento contínuo das lavadeiras que entravam e saíam das suas águas negras para apanhar água e para lavar as peças da gente da cidade. Mirava a areia branca “que nem açúcar refinado “e de repente começou a falar ; “Lembrei-me agora de Lindaura que foi uma babá que acompanhava um casal carioca que convidara para passar as férias aqui e viemos visitar a lagoa. A babá ficou tão contente que se atirou n’água e desapareceu. Foi um drama terrível e só fomos encontra-la já sem vida algumas horas depois.Este fato marcou bastante e também outro contado pelo pintor Pancetti que sempre vinha aqui trabalhar. Certa vez ele presenciou um marinheiro todos vestido de branco tirar sua roupa e começou a nada e nunca mais voltou. Lembrei agora também das estórias que me contavam as lavadeiras , de uma grande serpente que devorava os homens que caíam na lagoa e de um candomblé dos espíritos que batia todos os dias à meia-noite. Estes fatos foram suficientes para me inspirar a canção que fiz “A Lenda do Abaeté “que diz : “No Abaeté tem uma lagoa escura / Arrodeada de areia branca / Ôh de areia branca “. E continua : “O pescador deixa que seu filhinho / Tome jangada / Faça o que quizé / Mas dá pancada se o filhinho branca / Perto da lagoa / Do Abaeté..”Mas olha que não venho aqui há vários anos . Vejo que a lagoa está muito mudada, mas guarda a relatividade do tempo. Fiz esta canção na década de 1930 e a população que habitava as redondezas era bem menor. Hoje a coisa não está boa porque quando fiz esta música concebia dentro de uma paisagem mais bem cuidada e mais natural. Veja que tratei do fatalismo que me inspirou a babá Lindaura e hoje presenciamos o aparecimento de um corpo de um desconhecido que tinha desaparecido há cinco dias. Veja o contraste da beleza do verde desta vegetação rasteira com a areia muito branca e as águas escuras. Veja o contraste do fatalismo com a beleza. De fato a minha canção ainda está por aqui. Aqui ainda existe a idéia da minha canção.

                                             EM ITAPUÃ

Revela Dorival Caymmi, ao deixar a Lagoa do Abaeté , que sua idéia de fazer uma poesia e canções ligadas à sua gente remonta de sua juventude quando vinha com seus colegas para veranear naquela praia que era muito distante do centro de Salvador, naquela época, e que a travessia era uma verdadeira maratona. Atravessavam vários quilômetros andando a pé pela praia carregando seus apetrechos e alugavam casebres humildes onde passavam as férias. . “Sempre quis conhecer e fazer uma poesia dentro de ma realidade. Uma poesia presa às raízes dos pescadores que conheci pessoalmente por essas bandas. Senti de perto o seu drama e de suas famílias quando eles partiam em cima de frágeis jangadas e pequeninos barcos”.E começa a dedilhar o violão entoando a “Canção da Partida”, que diz : “Minha jangada vai sair prô mar / Vou trabalhar, meu bem-querer, ? Se Deus quiser quando eu voltar do mar / Um peixe bom eu vou trazer / Meus companheiros também vão voltar / E a Deus do céu vamos agradecer/ ...
Assim, grande parte de sua obra musical reflete esses ambiente, essas vidas, esses dramas. A espera da família do pescador que fica preocupada quando o tempo muda ( isto é , quando o tempo fica brabo, o mar agitado) , das rezas que as esposas e noivas fazem para seus amados, o adeus repetido e demorado na beira d’água e a triste cantiga da noiva que não teve a felicidade de reabraçar seu amado que ficou no mar.
“Veja você, grita Caymmi, que recentemente encontrei o Gerôncio – passa a explicar – é um dos mais antigos pescadores da Bahia, da Bahia da época do bonde que não volta mais. Ele ainda está sobrevivendo aqui. As coisas vão se modificando, mas se a gente observar com mais cuidado a febre da urbanização ainda não conseguiu afastar as jangadas , os jumentos andando preguiçosamente na areia dura da praia e os pescadores consertando suas redes.Este visual me emociona e como que dou uma volta à década de 30 e relembro o ambiente em que compus a maioria de minhas canções, fundamentadas nesta gente que tanto amo e com a qual convivi com intensidade durante minha juventude”. De repente os olhos do velho Caymmi de cabelos brancos começam a se encher de lágrimas de emoção e saudade.
O motorista toca a velha Brasília para a frente e o coqueiral vai surgindo verdejante e com suas folhas balançando como a dar adeus ao cancioneiro e logo adiante encontramos uma nova cena comum em sua obra que já dura quarenta anos. Era um barco de pescadores que acabava de retornar trazendo em seu bojo uma quantidade razoável de peixes. Caymmi solicita que paremos e num gesto de emoção abre a porta do carro e sai correndo ao encontro do pescadores. Muitos dos quais conhecia de nome e intimidade. Reinicia falando da alegria da volta . Conversa com o mestre responsável pelo comando do barco e não se contém, abaixa-se e pega alguns peixes que teimavam em pular na areia cálida da praia. E volta a falar de outra canção praieira que em certo trecho diz “O mar... / Pescador quando sai / Nunca sabe se volta / Nem sabe se fica...”Mas graças a Deus eles voltaram alegres com a volta propriamente dita e também como o sucesso do seu trabalho no mar onde tiram o sustento de suas famílias. É uma alegria redobrada que sito quando abraço e aperto as mãos desta gente rude e cheia de amor”.
E para completar o quadro eis que uma jovem corre a seu encontro e faz questão de posar com o “moço “Caymmi, imediatamente ele fala “eis otros quadro vivo de Itapuã . As belas morenas que cantei naquela música que diz : Sereia morena / Vem toda manhã / Se banha nas águas ? De Itapuã...

                                    TUDO AREIA
Dorival Caymmi diz que o bairro de Itapuã era uma fazenda e que naquela época era tudo areia. A única rua calçada era onde morava Genebaldo Figueiredo que era então diretor da Limpeza Pública da Cidade, o qual conseguiu um calçamento rudimentar de sua rua. Aqui tinha um mercadinho popular para onde os pescadores e gente humilde traziam sua pequena produção. Era quase uma economia de troca de peixe por frutas, etc. Hoje, Itapuã é um bairro moderno cheio de casas de gente fina... Mas ainda dá para a gente lembrar do João Peixeiro que descia com seu jumento com os caçuás cheios de peixes para entregar à sua freguesia e que transformei num personagem valentão numa das minhas canções. Do Cirilo, outro pescador que recentemente quebrou um braço quando subia num coqueiro e que até hoje pesca utilizando um dos braços e a boca para segurar a linha e também do Bento que digo “Bento cantando modas / Muita figura fez/, bento tinha bom peito/ E pra cantar não tinha vez / As moças de Jaguaripe/ Choraram de fazer dó / Seu Bento foi na jangada / E a jangada voltou só...?
                                          MOLEZA BAIANA

- Sou um cara supertranqüilo . Nasci na Bahia numa época onde a população era bem menor. Isto aqui era um paraíso. Aqui era a porta aberta, o que era meu era seu. O dinheiro valia pelo status que a pessoa tinha. Havia a hospitalidade baiana.Não havia dinheiro fácil. Quando um cara tinha dinheiro era seguro. Não gostava de gastar , mas a comida dava para todos. Hoje estamos vivendo uma época de fome. Naquela época se comia na Bahia, as comidas apimentadas e gostosas. Não se enganava o estômago como acontece hoje – diz Caymmi com seu gingado baiano. Quando indagado se é verdade que as pessoas sempre fazem relação de seu jeito dengoso com o próprio viver baiano, ele diz : As pessoas sempre dizem isto. Dizem até que sou a própria vida baiana, dengosa, mole e devagar. Isto acontece na beira-mar. Mas tem milhares que dão um duro danado. O meu comportamento tem alguma semelhança com a minha terra. Isto para mim é gratificante por que revela a minha identidade cada vez maior com o que fiz e continuo fazendo.Não sou um sujeito atávico, um sujeito fora d’água e sim um baiano que canta para todo mundo as nossas belezas. Tenho uma identificação muito grande com a minha terra, embora muitas vezes tenha sido obrigado por problemas profissionais a viver fora da Bahia”.
Volta-se , pega o violão e começa a cantar: “Você já foi a Bahia, nega? / Não?/ Então vá!... Lá tem vatapá! Então vá! / Lá tem caruru! / Então vá.. É isso ai, amigo a Bahia é tudo isto, os seus sobrados, as suas fontes de azulejos portugueses, as sacadas de ferro batido, o mar azul como de lugar nenhum”.
E, finalmente , terminamos o nosso roteiro visitando a igreja do Bonfim onde está Oxalá protegendo com seus braços crucificados a velha Bahia. E como ele mesmo diz: “Quem vai ao Bonfim, minha nega,/ Nunca mais quer voltar. Muita sorte teve,/Muita sorte terá”. E lembra que cantou as 365 igrejas que talvez não sejam realmente 365 igrejas. Mas o povo diz que na Bahia há uma igreja para cada dia do ano, embora somem apenas uma centena. Mas o que Caymmi diz todo mundo canta e repete e a Bahia ficou com a fama de ter 365 igrejas. Até parece verdade, porque agora mesmo desde o mês de outubro que as festas religiosas são festejadas com muita reza, samba e alegria. Sim, porque na Bahia há uma mistura entre a festa religiosa e a profana, só que tudo dentro de um sincretismo respeitoso, e às vezes incompreendido por determinadas autoridades eclesiásticas.
Agora esmo já foram realizadas as festas de São Nicodemus do Cachimbo pelos trabalhadores do cais do carvão, Santa Bárbara ( Iansã), ( dia 4), Nossa Senhora da Conceição ( dia 8) Oxum, Santa Luzia ( dia 13) e a da Boa Viagem até o Carnaval.

                    O ‘MOÇO’ E OS NOVOS BAIANOS
Há quatro décadas cantando e gravando, Caymmi é sempre lembrado por novos intérpretes. Recentemente Gal Costa, Bethânia, Caetano e muitos outros voltaram a regravar antigos sucessos do cancioneiro da Bahia. Falando sobre este fenômeno musical, Caymmi revelou que observa o fato com naturalidade embora com certa vaidade. “Vejo como uma verdade humana de pessoas que têm a célula mater do amor à terra, o gosto pelas suas coisas, Não vimos há pouco tempo a pescaria, os pescadores voltando do mar? É isto ai, não muda. A visão minha é que a gente tem que estar ligados às raízes. O que o homem faz e cria com pressa, com modismos e sem substância tende a desaparecer em pouco tempo. Só fica o que tem essência. Nada fica que tem caráter provisório. No fundo esses jovens que criaram e criam gêneros, ritmos e coisas novas e que são seguido por muitos, de quando em vez são obrigados, por não sei o que, a retornarem às suas origens.
É o caso de muitos deles que hoje interpretavam antigas canções minhas e de autoria de outros compositores antigos. O pessoal da geração de Caetano Veloso, Gilberto Gil, Roberto Santana, Maria Bethânia e Glauber Rocha entrou na geração da moda. Não estavam aliados com o problema cultural mais universal, das coisas que ficam. Faziam uma coisa baiana, um baianismo. O que é a moda? Vamos entrar nesta onda... Atrás do trio elétrico ... Vamos contestar.... Nasceram neste clima como artistas. Mudaram sua presença visual com cabelos e atitudes desconcertantes, mal alinhados. Era a hora do black- power , dos Beatles, utilizando todos eles uma comunicação rápida e massificantes. A gente continuava dizendo, olhe estou aqui, olhe o samba de toda, o samba lelé e a verdade como sempre tende a aparecer mais cedo ou mais tarde. O inédito, o curioso tende a ser esquecido com rapidez, veja as discotecas. Estão morrendo... Mas a felicidade é que a gente boa, esta gente criadora não a perdeu as suas raízes, a sua ligação com esta terra e hoje está olhando com mais maturidade as coisas e está fazendo coisas e regravando outras mais consistentes e verdadeiras. Antes a música deles era difícil e não dava para ser entendida por todos, somente os intelectuais chegavam lá.
Caymmi continua falando sem parar e revela que “adoro Caetano cmo letrista, mas é uma letra difícil de entendimento pelo povo de modo geral, e acredita que a música tem que ser universal, tem que ser entendida por todos. Hoje, eles estão mais ligados a grupos. Antigamente o trabalho era isolado. O Chico Alves, a Aracy de Almeida, o Noel Rosa, o Caymmi.Hoje todos são descendentes de uma Bossa-Nova, Tropicália e assim por diante. Mas eles estão amadurecendo e cada um cuidando com mais primor do seu trabalho musical e cinematográfico. Fico feliz porque sinto que estão amadurecendo bem”, concluiu.
                                         E O CANDOMBLÉ, CAYMMI?
- Ah! É uma longa história. Responde instantaneamente e abre uma larga risada. E completa. “Tudo começou como uma brincadeira de jovens que não tinham o que fazer naquela época.Hoje sou um homem ligado ao candomblé e agora mesmo estou fazendo algumas obrigações para meus santos . Sou Oba de Xangô do terreiro de Axé Opô Afonjá, de São Gonçalo do Retiro, que é dirigido por mãe Estela. Veja só, minha mulher chama-se Stella. Uma boa semelhança de nomes. Mas voltando, devo dizer que antigamente não acontecia muita coisa na Bahia e eu e meu grupo sempre procurávamos algumas coisas para fazer durante a noite. Ai começamos a ter notícias que tel candomblé ia bater. Começamos a freqüenta-los , gostávamos da música, da dança e também da comida farta que era distribuída aos presentes durante as cerimônias. Foi quando o mundo intelectual começou a defender o candomblé da ação policial que violava sua intimidade, prendendo pais e mães-de-santo e apreendendo instrumentos sagrados. Começamos a ficar indignados com aquilo. Vieram os pesquisadores Donald Pearson, Pierre Verger, Roger Bastide e o mestre Estácio de Lima. Todos gostavam do candomblé, o respeitavam, inclusive o Jorge Amado, que era garoto como eu. Aí começamos a olhar melhor o candomblé com os ensinamentos desta gente. E tudo transcorreu de tal forma que de católico não-praticante termine i sendo Obá de Xangô . Tenho verdadeira fé pelo candomblé e sua gente a qual homenageei com a canção “Mãe Menininha”, que é toda doçura, sabedoria e bondade. É mais um quadro de minha obra esta canção que o Brasil, todo cantou e canta.Cansados, levamos o velho Caymmi a seu recanto na Praia de Amaralina bem em frente ao mar. Não podia ser em outro lugar já que sua obra está integrada e ligada ao mar de sua gente