Objetivo


domingo, 24 de junho de 2012

VIOLÊNCIA - DE MENOR

OPINIÃO / VIOLÊNCIA
 Texto de  Reynivaldo Brito
  Foto Google

A sociedade brasileira tem testemunhado em todo o país centenas de crimes cometidos por menores.Crimes muitas vezes bárbaros, perpretados por jovens envolvidos com quadrilhas, algumas delas chefiadas por adultos, os quais deixam para o menor a triste incumbência de assassinar as pessoas. São mortes que resultam em marcas impagáveis e tristeza em muitas famílias que vêm seus entes queridos sendo mortos sem que os autores sejam devidamente punidos. Assassinar virou banalidade no Brasil. “Ah cara, matei a tia!”, declarou recentemente um menor criminoso que não mostrava qualquer arrependimento do seu ato. Esta semana outro menor assassinou uma jovem advogada em São Paulo, que ficara assustada quando foi abordada ao chegar a sua residência. Um tiro na cabeça tirou-lhe a vida deixando órfã uma criança. Fatos como este  tem ocorrido às centenas até em cidades do interior.
Existe uma distância muito grande entre o ideal e a realidade. Os que defendem o Estatuto da Criança e do Adolescente na sua íntegra são idealistas. Eles têm argumentos fracos sobre esta escalada da violência praticada por menor. Certamente é muito pouco que um menor assassino só fique três anos numa unidade correcional. Eu pergunto: Será que uma vida só vale três anos de perda de liberdade do seu autor?  Hoje, um jovem de 16 anos já tem todas as informações possíveis do que é certo ou errado. São aptos a votar, dirigir. Por que não estão aptos a pagar pelos crimes que cometem?
Tenho visto no noticiário menores com físicos bem desenvolvidos, que tramaram como adultos crimes  hediondos, com demonstrações de perversidade. Outra coisa,  muitas vezes esses registros  em cartórios são feitos algum tempo depois do nascimento e, esses " menores" criminosos se beneficiam do Estatuto. Também é preciso ficar atento que este menor criminoso pode ser um psicopata irrecuperável , que não tem qualquer sentimento ou arrependimento  em matar um cidadão.
Vejam, que segundo dados da Secretaria Nacional de Direitos Humanos, somam 60 mil adolescentes cumprindo medidas sócio-educativas, sendo 14 mil em regime de internação e os demais em regime aberto. Um número assustador, que vem crescendo, exatamente por causa da impunidade. E o pior é que as estatísticas não mentem porque 70% desses adolescentes reincidem ao crime. Portanto, é um regime falido, que só beneficia o infrator, e, nós cidadãos, ainda somos obrigados a custear esses locais, verdadeiras escolas do crime. São raríssimas exceções os jovens infratores que realmente saem recuperados.
Considerar incapaz um menor de 16 anos em pleno século XXI “é querer tapar o sol com uma peneira”. É ser complacente demais com a violência. Esses menores criminosos, autores muitas vezes de crimes bárbaros, têm que pagar com a privação da liberdade por muitos anos, como acontece com os criminosos comuns.
 Sou contra a pena de morte , mas sou a favor da prisão perpétua para crimes bárbaros, a exemplo deste cometido por esta  criminosa que matou e esquartejou o marido, recentemente em São Paulo.
Agora estão elaborando o projeto do novo Código Penal onde as mudanças sugeridas pela comissão de juristas ampliam o poder do Estado na vida do cidadão. Dizem, os que já tiveram acesso às propostas, que estão previstas punições até  para quem não faz o bem , e que trazem bandeiras do politicamente correto. Mas esqueceram do menor criminoso. Deixaram para o Estatuto da Criança e do Adolescente, e assim continuaremos assistindo horrorizados as barbaridades cometidas pelos De Menor. Pode?. 

sábado, 23 de junho de 2012

COMPORTAMENTO - SER MISS É UMA BOA

















Marta Vasconcelos                                                                          Marta Rocha


REVISTA: Manchete 3 de fevereiro de 1979.
\Texto Reynivaldo Brito
Está começando mais um concurso mundial de beleza. As rainhas de outras épocas dizem o que pensam


Nenhuma Miss Brasil conseguiu ser tão amada quanto Marta Rocha, a Miss Brasil de 1954. Afastada, por várias razões, dos concursos de beleza, ela acha que as mudanças ocorridas estão diretamente ligadas aos novos interesses da mulher moderna. O exemplo dado por Marta para explicar o seu ponto de vista é o desejo da sua filha Cláudia:
“Ela, como toda jovem do seu tempo, está querendo estudar na Europa ou nos Estados Unidos, coisa rara de acontecer no meu tempo. A mulher, nos anos 50, era mais reprimida, menos livre. Foi para poder viajar, conhecer outros lugares, que me inscrevi no concurso de Miss Bahia. Meu pai só permitia viagens se toda a família fosse. Hoje isso não acontece mais. As jovens desfrutam de uma liberdade que não tínhamos. Por isso, não se sentem atraídas pelo apelo de um concurso de beleza. Quero deixar bem claro: não faço qualquer tipo de restrição ao concurso. Ele foi muito importante para mim e só deixou de ser para outras moças, de 1968 para cá, após a vitória da minha conterrânea Marta Vasconcellos. Foi justamente nessa época que o comportamento da mulher começou a sofrer profunda alteração. Essa é, na minha opinião, o motivo por que os concursos de beleza não causam impacto igual ao dos anos 50 e 60. Mas, como estamos passando por uma fase de saudosismo, talvez eles venham a renascer com a mesma força de antes”.

IEDA VARGAS: "O TÍTULO DE MISS MUDA A VIDA DE UMA PESSOA"


Desde os 14 anos, quando Marta Rocha conquistou o título de Miss Brasil e ficou no segundo lugar no de Miss Universo, Adalgisa Colombo Teruskin sonhava com o título de Miss. E acabou conseguindo, quatro anos depois, realizar o seu sonho. Mas, seis meses após haver conquistado o título – ela foi Miss Brasil em 1958 –, entregou o cetro para poder casar com Jacksson Flores. Hoje, casada com o empresário Flávio Teruskin, o seu segundo marido, Adalgisa é uma ardente defensora dos concursos de beleza:
“Eles só deixaram de ser importantes no Rio, São Paulo e Belo Horizonte, por falta de promoção nos jornais, revistas e emissoras de televisão. Mesmo assim, nas cidades e capitais fora desse eixo, os concursos sendo muito prestigiados, lotando os locais onde são promovidos. Por exemplo, a Rainha das Piscinas, em Porto Alegre, leva uma multidão aos lugares onde é realizado, há mais de 20 anos. O mesmo acontece em todos os lados. Quem tem a oportunidade de participar dos júris por esse Brasil afora, confirma as minhas palavras. No meu tempo, eram poucas as candidatas que cursavam faculdade. De uns anos para cá, várias foram às misses que cursavam medicina, psicologia e outros cursos. Algumas chegaram até a abandonar o cetro para poderem concluir seus estudos. Também, a organização atual é melhor do que a do meu tempo. Quanto aos ataques das feministas, acho que elas são é recalcadas...”
O que Marta Rocha tentou e não conseguiu, nove anos depois uma gaúcha conquistou: o título de Miss Universo. Seu nome: Ieda Maria Vargas. Casada há nove anos com José Carlos Athanásio, tem um casal de filhos: Rafael, com oito anos, e Fernanda, com cinco. Ao contrário das demais misses que se tornaram apenas donas-de-casa após o casamento, Ieda Maria continuou trabalhando. Já foi apresentadora de um telejornal numa das emissoras de Porto Alegre – onde reside – e atualmente é representante de modas, o que a obriga, na ausência de um manequim, a desfilar. Ela resume, ao revelar os sonhos de sua filha, Fernanda, sua posição em relação aos concursos de beleza:
“O grande sonho dela é um dia chegar a ser Miss como eu fui. É apenas um sonho de criança. Acho que tudo tem o seu tempo. Agora o tempo dela é de ser simplesmente criança. Mas se quiser ser Miss mais tarde, não criarei obstáculos.”
Rafael, o filho, apesar de achar maravilhoso a sua mãe ter sido Miss Universo, diz não entender como ela conseguiu o título sem ter olhos verdes – na sua opinião toda Miss Universo deve ter olhos verdes. Mas entre os sonhos e opiniões dos filhos, Ieda Maria Vargas Athanásio é também uma defensora dos concursos de beleza:
“O meu caso aconteceu com muita moça. Antes do concurso , elas alimentavam apenas sonhos. Quando se tornaram misses – municipais, estadual ou brasileira – ganharam chances que antes não tiveram. Sua maneira de pensar e o cotidiano das suas famílias sofreram transformações para melhor. Este é um dos aspectos positivos do concurso.”

MARIA RAQUEL:  "O CONCURSO PERDEU PRESTÍGIO PORQUE A MULHER DE HOJE É DIFERENTE"
Maria Raquel de Carvalho – ela usava o sobrenome Andrade, quando foi Miss Brasil, em 1965 – tem a aparência calma e a fisionomia tranquila, mas se confessa nervosa. Sem ela admitir, jamais alguém iria perceber, pois seu sorriso é leve, o jeito é suave e a voz não se altera. Aos 32 anos, casada há oito anos com o empresário Carlos Fernando de Carvalho, mãe de dois filhos – Carlos Fernando e Carlos Felipe –, ela é uma das locomotivas da sociedade carioca, recebendo citação quase diária nas colunas sociais. Maria Raquel é, hoje, totalmente diferente daquela menina tímida e discreta, que na escola preferia ficar em segundo e não no primeiro plano:
“É bem possível que eu não fizesse outra vez, mas não me arrependo. O saldo foi positivo. Conheci muita gente durante todo o tempo em que fui Miss Brasil e muitas delas eu gostaria de reencontrar e saber o que foi feito das suas vidas. Quanto ao fato do concurso não ser hoje, em termos de prestígio, o que era antes, várias são as razões. Uma delas é a mudança de comportamento atual. Acredito que ela, agora está buscando outras coisas e não apenas a valorização da sua beleza física. Não são todas, concordo. Muitas ainda gostam de participar de um concurso de beleza, visando à ascensão social, uma carreira de modelo ou manequim e outros propósitos. A falta de promoção, também, reduziu muito a participação do público. Recordo que, na época, os jornais, revistas e a televisão falavam constantemente no assunto. Hoje não se lê nada sobre os concursos regionais e nacionais.”


MARTA VASCONSELOS : "ACONSELHO AS CANDIDATAS A PASSAREM  PELA EXPERIÊNCIA "
Loura, olhos azuis, 1,71m de altura, corpo bem feito, Mara Raquel conserva todos os traços da beleza que a tornaram Miss Brasil, em 1965. Não concorda, porém, quando se pretende atribuir ao nível das moças que se apresentaram nos concursos de beleza como uma das principais razões para o seu desprestígio:
“Alguém pode negar que a Lúcia Peterle é uma mulher bonita? E as outras que participaram e venceram igualmente eram lindas. Esse argumento não pode ser aceito como válido, por ser mentiroso. Acredito, até, que o concurso possa volta aos seus bons tempos, já que estamos vivendo uma fase de saudosismo.”
Marta Vasconcellos Loureiro foi à segunda brasileira a conseguir o título de Miss Universo em 1968, cinco anos depois da conquista de Ieda Maria Vargas. Contrariando os costumes da época, Marta entrou no concurso noiva e, no dia seguinte ao da entrega do cetro de Miss Universo, em 1969, voltou a Salvador para se casar com engenheiro Reinaldo Loureiro.
Com os filhos já crescidos, Marta preferiu montar uma academia de estética feminina, projeto que não teve continuidade. Ela gosta de rever os lugares onde esteve, quando era Miss Universo:
“Foi um ano de muitas viagens e compromissos que não me permitiam conhecer as cidades por onde passei. Mas eu não tenho queixas do que me aconteceu. Aconselharia qualquer candidata a passar por essa experiência, que amadurece a pessoa e lhe dá oportunidade de conhecer outros costumes e de fazer novas amizades. O concurso sofreu alterações determinadas pela mudança de costumes do nosso povo. Continua, no entanto, sendo uma experiência válida para as candidatas. Sendo boa observadora, não se deixando levar pela glória, ela consegue sair enriquecida, como gente. Por isso eu não sou contra e dou o meu apoio aos que continuam a promovê-lo. Mal ou bem, está sendo vendida uma imagem do Brasil”.

Reportagem de Tarlis Batista, Reynivaldo Brito e Bernardete Schmidt Fotos de Antônio Rudge, Aristides Baptista e Paulo Franken


















IMPRENSA - OS BACHARÉIS DA CASA


IMPRENSA
Jornal A Tarde - domingo , 15 de outubro de 1978.


Gente jovem faz "A Tarde" mais moça no ano  1966.
                                           
OS BACHARÉIS DA CASA


TEXTO:  JORGE CALMON

 "O ingresso nas Redações de um número predominante de graduados em Jornalismo foi um dos fatos mais significativos ocorridos na imprensa brasileira nestes últimos dez anos. É certo que já anteriormente outros graduados haviam surgido nos jornais, do mesmo modo que antigos profissionais aproveitaram também a criação do curso, para adquirirem o título universitário. Foi, porém, a partir de dezembro de 1969 que os diplomados passaram a ter preferência nas admissões, conforme a garantia que lhes veio trazer a lei daquela data, que regulou o exercício da profissão. Amparados por essa lei, foram preenchendo, no decorrer destes quase dez anos, as vagas que se abriram nos quadros, e hoje devem constituir a maioria 

o pessoal de Redação em qualquer jornal da cidade maior.
Foto ao lado Professor. Junot Silveira, editor geral da edição dominical e Genésio Ramos, editor de esportes.
A esta altura, caberia saber se é ou não benéfico à imprensa e, por extensão, ao público o privilégio dado por lei aos bacharéis em Jornalismo.
A indagação decerto modo é antiga: reside na velha pergunta sobre se o jornalista já nasce feito, ou se uma escola pode produzi-lo.
Antes da lei atual, o recrutamento dos jornalistas, pelos órgãos da imprensa, era livre, o que permitia aos jornais buscarem, em quaisquer áreas, rapazes intelectualmente bem dotados. Por ser turno, o fácil acesso ao trabalho em jornal representa para os jovens de menores recursos o meio de terem assegurada a subsistência, ou de custearem os estudos, tal como aconteceu, na Bahia mesmo, com grande número deles.
Foto Reynivaldo Brito, chefe de Reportagem e Marco Antônio, repórter.


Essa situação tinha, porém, aspectos negativos. E um deles, para os próprios jornais, vinha a ser a constante mobilidade do pessoal de redação, já que o Jornalismo era para muitos apenas uma atividade provisória, que abandonavam logo que formados, ou assim conseguiam emprego dentro da carreira escolhida. Na imprensa conservavam-se aqueles poucos que por ela se deixavam seduzir, atraídos pela magistratura da opinião, bem como um ou outro que desejava ingressar na política e via no jornalismo um instrumento em favor de suas ambições. Para os jornais, era um freqüente problema arranjar substitutos para os repórteres que periodicamente se desligavam, revoada habitual nos meses subseqüentes às formaturas nas faculdades.
Mas, nem todos iam trabalhar em jornal para atender, puramente, à s necessidades de subsistência, ou por votação, havia também os aventureiros precoces, que tratavam de somar ao minguado dinheiro recebido quinzenalmente de Gerência, proventos de outras origens, faturando por debaixo do pano, as mais das vezes cobrando por notícias de publicação normalmente gratuita. 
Foto Eliezer Varjão, repórter Grande Salvador;José Oympio, editor de Suplementos e Antônio José, repórter de Esportes.
Esse tipo de praga lavrava principalmente entre a reportagem.
Muito embora objeto de suspeitas, os finórios sempre conseguiam agir sem se deixar surpreender, até que um dia afinal, o excesso de confiança levava-os a resvalar num passo mais grave, fosse uma tentativa de extorsão, fosse um ato de impostura, e desse modo forneciam o motivo para a demissão sumária.
Dessa referência a alguns maus jornalistas do passado não se deduza que eles formavam mais que um grupelho, em cada Redação, representando o anverso da medalha, em oposição aos muitos profissionais honestos, aos articulistas de talento, aos idealistas intransigentemente fiéis.
Os aproveitadores podiam ingressar com facilidade nas Redações,naquele tempo, pela razão principal de não existir uma fonte determinada onde os jornais fossem buscar o pessoal de que careciam.
A criação do Curso de Jornalismo veio atender, em parte, a esta necessidade, e cerca de duas décadas mais tarde, a lei de dezembro de 1969 deu ao referido Curso a responsabilidade exclusiva de preparar os profissionais da comunicação.
Aliás, a lei de 1969 é algo contraditória, porque, se por um lado faz concessões provisórias para a contratação de jornalistas não graduados, por outro lado revela-se excessivamente abrangente, quando estende até à função de revisor das provas uma tarefa de simples controle de qualidade a exigência do diploma universitário. Terá algum dia de ser alterada, nesse ponto.
O curso de Jornalismo serviu, entre outros fins, para recolher vocações e, assim, oferecer, desde cedo, preparo profissional àqueles que desejam fazer vida de imprensa. Por outra parte, o painel de disciplinas voltadas para os setores do jornal, do aspecto gráfico ao aspecto gerencial, quis proporcionar uma aprendizagem rápida, variada e ampla, como não a poderiam obter, em anos e anos de permanência numa redação os jornalistas autodidatas.
Prestigiando o Curso, a lei de 1969 visou, ainda, a afastar da profissão a concorrência dos não-graduados e, por este meio, assegurar aos jornalistas militantes mercado certo de trabalho, com a percepção de salários condizentes conseqüência que, por sinal, já era vislumbrada pelos responsáveis pela instituição do curso e, na Bahia, anos mais tarde, pelos que o reorganizaram.
Resta saber se realmente se efetivou o principal objetivo de lei, isto é, se o Curso satisfez à importante missão que lhe foi entregue, de abastecer a imprensa de profissionais plenamente capacitados para o trabalho.
A resposta será, que ao menos no caso baiano, ele correspondeu parcialmente à expectativa, deixando, porém, boa porção de sua tarefa sem o esperado atendimento.
Não cabe aqui o exame das razões que concorreram e concorrem para o rendimento deficitário. Haverá quem deva fazer esse exame de consciência. Registre-se, no entanto, que do Curso de Jornalismo hoje chamado Curso de Comunicação, porém ainda prisioneiro de uma eclética Escola de Biblioteconomia e Comunicação tem saído excelentes profissionais, que hoje ocupam postos-chaves 
os diversos veículos, e nos quais, além da competência, dois atributos podem ser especialmente observados: o espírito profissional, na inteira dedicação à prática do jornalismo, e a correção com que se conduzem. Talvez que assim aconteça porque o jornalismo não é para eles um agasalho transitório, mas uma opção refletida permanente.
De lamentar é que o mesmo Curso, de que provieram elementos daquele teor, tenha facilitado o diploma a outros que, efetivamente, ainda não estavam em condições de receber o passaporte profissional. Estes últimos, já sem a assistência dos seus professores, têm de completar ardualmente a formação no dia-a-dia na reportagem quando conseguem ser admitidos. Em relação a eles, é forçoso reconhecer que o Curso foi deploravelmente descuidado.
Para a Redação da “A Tarde”, e também para outros departamentos deste jornal, têm vindo numerosos graduados.
Homens e mulheres. Que já formam, atualmente, a maioria da população redacional. Capazes, ativos, imaginosos, firmes nas opiniões, sua rumorosa presença confere à redação nova vivacidade. Com seu espírito crítico a sua mentalidade de mudança, mas respeitando a experiência e o equilíbrio dos mais antigos, representam a aragem de renovação periodicamente exigidas pelas instituições que não envelhecem, e que conseguem isto justamente porque confiadas às gerações que se sucedem: como é o caso deste jornal, quando atinge,com a mesma vitalidade, 66 anos bem vividos. "
Foto à esquerda dos repórteres Zoraide Vilas Boas, Antônio Alfredo Castro e Tito Lívio.
Foto à direita Pinheiro Cal, editor internacional;Jeremias Macário, repórter de Economia e Heloísa Sampaio, chefe do Setor de Diagramação e Arte do Departamento de Publicidade.
                                             


                               OS QUE VIERAM DO CURSO

Diplomados em Jornalismo, pela UFBA, e outras universidades brasileiras que mantém aquele curso, pertencem hoje aos quadros de “A TARDE”.

ANA MARIA VIEIRA,                                       MARIA HELENA LEAL COSTA,
ÂNGELA MARIA BARRETO,                          MARIA ISABEL DOS SANTOS,
ANTENOR BARRETO,                                    MARIA JOSEFA ALONSO CATELA,
ANTÔNIO JOSÉ DOS SANTOS FILHO,        MARIA LÚCIA BERBERT DE CASTRO                               
ANTÔNIO RAIMUNDO,                                MARIA DAPENHA BENEVENUTO,
AZIMONETE SANTANA,                              NEUZA SENA FERREIRA,
CELESTE AÍDA SAMPAIO SILVA,              RAIMUNDO MARINHO,
CORA MARIA TAVARES DE LIMA,              REBECA SCATRUT,
ELIEZER VARJÃO,                                        REGINA TESTA,
ELIZETE RODRIGUES DOS SANTOS,         REYNIVALDO BRITO,
GENÉSIO RAMOS,                                        RUBENS NEWTON,
GRÁCIA MARIA NASCIMENTO,                 SANDRA VENTURA REGIS,
GUIOVALDO MONTEIRO,                           SELMA MORAIS,
HELOÍSA SAMPAIO,                                    SONIA ARAÚJO,
JEREMIAS MACÁRIO,                                  TITO LÍVIO 
JOSALTO ALVES,                                         ZORAIDE VILASBOAS.
JOSEMÁRIO LUNA,                                        São estudantes do Curso de
JOSÉ OLYMPIO DA ROCHA,                        Comunicação da UFBA:
JUNOT SILVEIRA,
LÍCIO FERREIRA,                                         ADILSON BORGES DOS SANTOS,
LUIZ AUGUSTO GOMES,                             ADILTON FRANÇA,
LUIZ EDUARDO DÓREA,                            ANTÔNIO ALFREDO DE CASTRO,
LUIZ MANOEL GUIMARÃES,                    ARIEVALDO DONATO
MANOEL PINHEIRO CAL,                           FERNANDO DAVID SOARES,
MARCO ANTÔNIO B. MOREIRA,               JOSÉ ADROALDO ANTUNES,
MARGARIDA CARDOSO SOARES,            JOSÉ DA PAIXÃO,
MARIA ÂNGELA BOTELHO,                      JOSÉ WELLINGTON 
MARIADAS GRAÇAS FILADELFO,             ROGACIANO MEDEIROS 
                                                                       ROSALVO DO ESPIRITO SANTO

ARTES VISUAIS - A VITÓRIA DA CRIAÇÃO COLETIVA

ARTES VISUAIS
A TARDE QUARTA FEIRA, 12 DEZEMBRO DE 1973.
Texto Reynivaldo Brito  Fotos Gildo Lima

Estudantes universitários dos estados do Norte e Nordeste do País estão participando do salão Universitário Nordestino de Artes Plásticas, sob o patrocínio do Ministério da Educação e Cultura Funarte e da Universidade Federal da Bahia, em comemoração ao centenário da Escola de Belas Artes. Foram inscritos 103 jovens artistas com 236 obras, sendo selecionados 41 trabalhos de 88 estudantes. As obras estão expostas à visitação pública até o próximo dia 5 de agosto no “foyer” do Teatro Castro Alves.
No dia da abertura do Salão Universitário Nordestino de Artes Plásticas os organizadores foram surpreendidos com um incêndio no barracão onde estavam guardadas as obras recusadas pela comissão encarregada da seleção e premiação. O fogo em poucos instantes destruiu completamente o velho barracão da Escola de Belas Artes e todas as obras ficaram reduzidas a cinzas. O Corpo de Bombeiros foi acionado e também a Polícia  Técnica, mas até o momento não foram divulgadas as causas do sinistro.
                             
                                            OBJETIVOS DO SALÃO

Informa o coordenador do Salão e Diretor da Escola de Belas Artes da Universidade Federal da Bahia, professor Ivo Vellame que “o Salão atingiu seus objetivos com uma participação de mais de uma centena de universitários da Bahia, Ceará, Pernambuco, Rio Grande do Norte, Alagoas, Maranhão, Piauí e Sergipe. Os contatos foram mantidos nesses Estados com os reitores das universidades e pessoas ligadas às artes plásticas”.
Como resultado foi apresentado um levantamento parcial da produção artística nestes estados e também o Salão proporcionou um entrosamento entre os universitários. A comissão julgadora foi formada pelo professor Clarival Prado Valadares ( Rio de Janeiro), Marcelo de Carvalho Santos (diretor da Fundarpe, de Pernambuco), Henrique Barroso, museólogo e professor da Universidade federal do Ceará; professor Juarez Paraíso e pelo crítico Reynivaldo Brito, ambos da Bahia.
Segundo o professor Clarival Valadares “O Salão merece nossos aplausos porque tivemos a participação não apenas do estudante de Belas Artes mas também de universitários de outros setores como Jornalismo, Arquitetura e Geologia. Ao participar do Salão, o estudante está também participando de um processo de educação mais amplo. Um dos premiados é de Pernambuco, não apresentou uma obra concluída. Não uma arte do virtuoso, não do primitivo, mas uma arte forte que reflete o meio ambiente em que vive”.

                                       ABERTURA E PREMIAÇÃO

O Salão foi aberto no último dia 22, quando foram conhecidos os jovens artistas premiados. O primeiro lugar coube ao Grupo Lama, da Bahia, que apresentou um trabalho de arte integrada. O grupo materializou o trabalho numa tela que serviu como um logotipo e apresentou um espetáculo de dança e música com projeções e “slides” e fotografias. Participaram quase duas dezenas de universitários na produção deste trabalho, o que demonstra o espírito universitário e de trabalho coletivo, afastando a figura da verdade, do homem que produz apenas um objeto. O grupo recebeu o prêmio intitulado “Miguel Navarro Y Canzares”, no valor de CR$ 20 mil cruzeiros.
 Na foto uma cena da " Mensagem" do Grupo Lama, primeiro prêmio.
Coube ao estudante “Murilo Lessa Ribeiro”, também baiano, o segundo lugar, prêmio “João Francisco Lopes Rodrigues”, de 15 mil cruzeiros; o terceiro lugar foi conseguido pelo estudante cearense Pedro Costa Elmar, prêmio “ Manoel Ignácio Mendonça Filho”, de 10 mil cruzeiros, e o quarto lugar, prêmio “Escola de Belas Artes” ao estudante Manoel José Conde, da Bahia. A comissão resolveu instituir Menção Honrosa, para o trabalho do estudante do Piauí, Donato; para os desenhos de Santana, da Universidade de Feira de Santana.

                                         OPINIÃO DE CLARIVAL

Ficou constatado que os três maiores centros de produção de artes plásticas no Nordeste são Recife, Salvador e Fortaleza, tendo em vista não apenas a quantidade de trabalhos enviados como também pela qualidade. Outros estados participantes demonstraram que existe uma total falta de incentivo e informação. Os jovens universitários precisam de uma maior atenção das reitorias e dos órgãos ligados às artes visuais, na opinião do coordenador do Salão, professor Ivo Vellame.
Falando sobre o Salão o professor Clarival Prado Valadares vê sua importância "  porque atraiu a participação do estudante, não necessariamente do estudante que faz a profissionalização da arte, mas também do estudante que tem seu pendor artístico. Isto não significa de maneira alguma a idéia de fazer um trabalho menor em expressão de arte.E, sim de fazer um trabalho maior de universalidade em termos absolutos. Ao participar do Salão, ele leva em sua bagagem universitária uma compreensão melhor do trabalho artístico, e também, ao participar está educando-se. O Salão é a primeira fase que precede a problemática da participação artística. Registrou-se a freqüência de vários participantes do Nordeste. As obras apresentadas foram de bom nível e alguns apresentaram trabalhos de qualidade, mas nunca uma arte do virtuoso e, este Salão não teve nenhuma participação do primitivo ou primitivismo.
Esta deve ser respeitada no seu campo de origem. Ali se motiva e se consome e não quando ela extrapola a procura de mercado nas camadas ricas, que é falso no artista primitivo ou primitivista. É esta procura que visa receber um pagamento por uma arte menor. Agora, o Terreiro de Jesus está cheio de uma arte que se chama de “Arte Folclórica”. É uma praça de espantalhos, não existe de modo nenhum o valor. Pensar que a arte é um produto primário é erro completo. Arte é um produto diferenciado e tem que ser um produto da mais alta graduação da responsabilidade.E o campo universitário é tremendamente favorável."
“O prêmio maior coube ao Grupo Lama que fez um trabalho coletivo, de expressão corporal demonstrando os aspectos: apelo para uma mensagem utilizando como inspiração um texto de Kafka; a deficiência bem característica dos próprios dançarinos, que não formam uma elite, um corpo de baile, são estudantes, que se esforçaram e apresentaram um trabalho digno. A mensagem do Grupo Lama está nas suas restrições e alta dignidade”.
O professor Clarival apontou ainda a presença da Funarte, que é dirigida por Robertto Daniel Parreiras, que está dando todo apoio a vários movimentos de arte em diferentes regiões do país. “É preciso entender o problema do estudante brasileiro principalmente aqueles que criam. Hoje já não se admite as categorias niveladas pelo grau de perícia. Há uma substituição de critérios que procura o trabalho que signifique a participação coletiva em detrimento da individual”.
“Vimos à presença maciça de trabalhos individuais. Só o Grupo Lama que quebrou esta coisa” e prossegue.  “ Não quero tirar valor da criação individual. Mas é   preciso  que o trabalho seja feito com a participação coletiva. Até nas escolinhas de arte há uma tendência de um trabalho coletivo hoje em dia. Os primeiros exercícios manuais, gestuais são feitos com a participação de mais de uma criança. Outros, entretanto ainda apresentam os trabalhinhos individuais como uma coisa definitiva. É um grande equívoco.Tivemos ainda neste Salão um grupo bom de desenhistas. Exemplos que demonstram o progresso do desenho e daí a razão de alguns prêmios que decidimos conceder. Além disto, é bom ver que nos preocupamos com a contemporaneidade do trabalho. A própria Bienal de Veneza recuou como vedetismo da premiação individual que criava vedetes, para olhar melhor àqueles que tiveram vivência com a própria criatividade. Uma reformulação de conceitos e propostas a partir das experiências de teatro de Robert Wilson, que é um grande artista contemporâneo."
Disse ainda Clarival que " o próprio Teatro se encarrega de fazer dentro de sua caixa todas as possibilidades das artes visuais. Temos que ter um entendimento que as categorias sedem seu individualismo para essa expressão muito mais coletiva, que são dos grupos de dança, teatro, pantomina. O Teatro faz a renovação do cenário integrado e isto é fantástico. Portanto, um abandono da arte cortesã em torno da arte coletiva, que é de todos, ou seja, a arte do circo, circense.A arte que vem pairando nas estradas, nas cidades do interior, que é uma arte momentânea e universal."


                                     
 A ESCOLA É UM NINHO

Já Marcelo de Carvalho Santos, diretor da Fundarpe, de Pernambuco, refletiu durante vários momentos sobre o ensino das artes nas Escolas de Belas Artes. Depois de algumas reflexões, ele afirma que "a arte evoluiu, os tempos correram e ficamos cada vez mais exigentes e as escolas não acompanharam este desenvolvimento. Os mestres continuam achando que a “gramática” da a arte é a mesma e só aquelas concepções formais é que importa. Com isto, a criatividade do artista fica reprimida para atender a necessidade acadêmica. Daí o surgimento de algumas oficinas e ateliers dentro das próprias escolas de Belas Artes. Por sua vez as direções dessas escolas têm que obedecer às determinações do Conselho Federal de Educação. Arte não pode ensinar com uma rígida contagem de créditos como acontece na área da tecnologia. O artista vai amadurecendo, não depende do número de crédito. As vezes, o estudante obedece a gramática do mestre mas na realidade não é ou será um artista na concepção da palavra. Ele será um castrado."
"Daí eu dizer com um pouco de ironia, que muitas vezes os movimentos de arte são feitos, apesar das escolas de Belas Artes.Quando a gente vê um Salão de Arte com a participação de universitários e ficamos impressionados com o nível dos trabalhos apresentados é uma alegria muito grande. É evidente que não existem aqui trabalhos acabados. Tudo está por fazer porque são jovens artistas que começam a encaminhar suas mensagens e propostas. O que precisa é que continuemos estimulando e levando-os a apreciar sua produção. A Escola de Belas Artes deve ser um ninho, um lugar onde o estudante deve se desenvolver sob a orientação de seus mestres, porém com uma, certa liberdade."
Pela ordem: A obra de Murilo, segundo prêmio; Obra do cearense Pedro Costa, "Do Clássico ao Cubismo", terceiro prêmio;  e "Desenho", de Deca Conde, quarto prêmio.
" Daí a importância deste Salão que deu o primeiro prêmio a um trabalho de arte integrado. É evidente que a arte deve ser consumida por grande parte do público. Uma arte que traduza não um tema épico, mas a realidade que estamos vivendo. A arte tem que cumprir o papel de comunicação entre os homens. Realmente é admirável o esforço daqueles moços. Encontramos falhas, mas sob o ponto de vista de realização e produção da mensagem eles atingiram os objetivos, e por isto espero que continuem e disseminem a criação de outros grupos.A atitude perante a arte é que se exige dela uma contemporaneidade, e, como o artista se coloca diante dos seus contemporâneos e do seu povo."
O professor Henrique Barroso, do Ceará, aceitou o convite para membro do júri para fazer uma avaliação “do que fazemos e do que está sendo feito em outros estados da região. O Salão tem uma linguagem de contemporaneidade e acho que os resultados foram positivos e válidos. Os artistas premiados talvez não sejam os que reflitam uma melhor qualidade técnica. Mas eles revelaram um caráter de participação e conteúdo e por isto, mesmo reconhecidos”.

                                        AS PROPOSTAS DOS PREMIADOS

Baseado num texto de Franz Kafka o Grupo Lama apresentou um trabalho de arte integrado que arrebatou o primeiro prêmio . Inicialmente, não concordei em dar o primeiro prêmio ao Grupo, embora achasse que o trabalho tinha méritos. Depois, refleti que o esforço empreendido pelos seus integrantes e os objetivos alcançados ultrapassavam e venciam qualquer barreira. Aliás, eles tinham conseguido vencer várias barreiras porque as restrições impostas para um trabalho coletivo sem recursos financeiros e técnicos são tremendas. Assim terminei sendo um defensor do primeiro prêmio para este grupo, que desde os primeiros momentos foi defendido por Clarival Prado Valadares e Juarez Paraíso. O Grupo Lama não parou. Seu trabalho continua e nos dias 28 e 29 às 18 horas, serão apresentados dois espetáculos no ICBA. O trabalho foi intitulado de “Mensagem” e a criação, produção e direção geral ficou a cargo de Márcia de Azevedo Magno e Carlos Lauria. Convidada especial: Maria Fátima Fonseca e participação de David Magalhães, Leila Tourinho de Miranda, Jacinta Ferraz, Luís Carlos Pitanga, Dione Azevedo, Fátima Maria e Ariene Brito. Os slides e fotografias foram de Carlos Maguary.
O segundo lugar coube a Murilo Antônio Ribeiro que apresentou três telas a óleo. Mesmo antes do Salão estive visitando a antiga Galeria Sereia e encontrei o Murilo trabalhando. Gostei das obras, fiz algumas considerações sobre a necessidade de limpeza e certo cuidado com o pincelar.
Um trabalho criativo onde o artista desenvolve uma temática consciente e tem exatamente a contemporaneidade que tanto falou o professor Clarival Prado Valadares. Isto está presente nas suas figuras principalmente na tela onde ele mostra quatro espectadores e dois jogadores de futebol vestidos de palhaços. Noutra, Murilo apresenta dois palhaços em frente a um cesto como estivessem num piquenique e, ao fundo, a silhueta de um espigão.
E finalmente, na terceira tela aparece um imenso cachorro de barriga cheia com uma etiqueta “É cachorro, mas, não ladra e não morde”. Uma pintura serena e uma temática vibrante que merece ser desenvolvida numa ilha onde a unidade deve estar presente.
O terceiro colocado foi o cearense Pedro Costa Simas que inspirado numa fotografia antiga de seus antecedentes desenvolveu uma temática demonstrando talvez uma vontade de ressuscitá-las.São duas belas moças que atravessam o tempo. Sai de um desenho acadêmico até chegar ao cubismo.Uma idéia inteligente e acima de tudo toca a sensibilidade que tiveram oportunidade de visitar o Salão.
O quarto lugar coube a José Conde, um jovem estudante que já tem domínio da pena. São figuras deformadas com uma temática de certo conteúdo social. A figura do rei tomando seu banho, a presença dos estandartes, enfim talvez queira satirizar o poder da comarca.A comissão criou ainda menção honrosa para os artistas Donato, do Piauí e Santana, de Feira de Santana.
Finalmente, quero salientar que o Salão é da mais alta importância para o desenvolvimento das artes na Bahia e especialmente para os universitários que estão em processo de aprendizagem e educação. Aqueles que tiveram seus trabalhos recusados devem refletir vendo as obras expostas, que certamente são de melhor qualidade e estão de certa forma ligadas a contemporaneidade. Uma reflexão que não deve ser apenas dos estudantes, mas também dos professores das escolas de arte e também dos profissionais.  Reynivaldo Brito













TURISMO - SUIÇA - A DEMOCRACIA DIRETA EXISTE

SUÍÇA - POLÍTICA / TURISMO 
A TARDE QUINTA-FEIRA, 18 DE OUTUBRO DE 1979
Texto Reynivaldo Brito
Fotos Google

Com apenas 41.293 quilômetros quadrados e uma população de seis milhões e quatro centos mil habitantes a Suíça dá ao mundo um exemplo de prosperidade e harmonia social. Localizada no centro da Europa, atravessou ilesa os últimos conflitos mundiais e sustenta hoje uma política de neutralidade que só tem contribuído para impulsionar o seu desenvolvimento econômico e social. Foi exatamente lá que pude sentir quanto é importante para um povo, o exercício da democracia. Na Suíça quem governa é o povo.
Os Suíços têm em comum a paixão pela liberdade e um profundo sentimento de comunidade, além de respeito às minorias. Se isto não acontecesse, a Suíça desapareceria porque seus cantões são verdadeiros estados independentes, mas que aguardam entre si através uma confederação o respeito mútuo pelos compromissos assumidos.
Foto da cidade de Friburgo que tem um charme especial  e encanta os visitantes.
É muito difícil explicar o impacto que sofre alguém que não conhecia outro país (a não ser através da leitura), e de repente desembarca na calma e bela cidade de Genève (Genebra) onde está localizada a sede européia da Organização das Nações Unidas. Senti uma sensação semelhante àqueles personagens de um seriado de televisão que regridem e avançam no tempo e no espaço quando entram num tal Túnel do Tempo. Foi assim que aconteceu. Em apenas 13 horas de vôo a bordo de DC-10 da Swissair saí de um país que tropeça por caminhos incertos e desembarquei num país que anda velozmente e sem os comuns atropelos e derrapagens.. Senti o primeiro impacto quando fui, juntamente com meus nove companheiros de viagem, recebido no aeroporto por duas funcionárias do Ministério das Relações Exteriores. Daí em diante surgiu um verdadeiro rosário de fatos que vieram superar toda a expectativa que me enchia o coração. Uma expectativa de alegria e ao mesmo tempo cheia de interrogações e pré-julgamentos.

                                              DEMOCRACIA DIRETA

Tem instituições originais que refletem em seu caráter e desconcertam quase sempre o visitante. O povo é cioso de sua soberania e só a delega a representantes respeitados, reservando-se o direito de pronunciar-se sobre todas as questões importantes. Por isto o seu regime político é da democracia direta onde estão ausentes os pacotes de abril ou março, e as famigeradas reformas partidárias a que estamos, obrigados a suportar.
Lá existem duas instituições características que são o referendo e a iniciativa popular que existem desde as pequenas comunas, cantões e no plano federal. E o referendo é obrigatório em matéria constitucional através de votação popular. O voto - este fantasma que os brasileiros ouvem falar através da imprensa - é um instrumento poderoso, basta dizer que o Plano Financeiro do atual governo já foi rejeitado por três vezes, pelos suíços, que não concordam especialmente com o aumento dos impostos. Este exemplo poderia servir para que nossos economistas encastelados em planos de recessão ou milagres econômicos mudassem o passo, que só tem contribuído para aumentar o distanciamento entre a sociedade brasileira, onde os pobres estão cada vez mais pobres e os ricos cada vez mais ricos, e a sofredora classe média está em vias de desaparecimento.
A estabilidade é tão grande que a rejeição do Plano Financeiro do governo em nada abalou a estrutura política. O voto negativo não é uma moção de desconfiança ao governo ou ao parlamento.
Significa que existem divergências e em conseqüência é necessário descobrir uma solução mais adequada à vontade popular.
O povo suíço reserva-se igualmente o direito de iniciativa e basta que 50 mil cidadãos, na esfera federal, ou número menor, variável de um cantão a outro, de uma comuna a outra. Para uma proposição constitucional e em seguida vem a votação popular.
O suíço descobriu há muito tempo que o meio mais seguro é evitar que o poder caia nas mãos de um. Assim acabaram em debaque a maior parte das repúblicas antigas, medievais e modernas.
Com esta prudência o governo é dirigido por sete membros, simples primus interpares. O chefe do Estado é todo o colégio a quem, além disso, o poder Executivo é coletivamente confiado. Seus membros dividem entre si os ministérios mas tomam em comum todas as decisões importantes e são solidariamente responsáveis. São eleitos pelas Câmaras durante um período de quatro anos e não têm poder de dissolvê-las.


                               O EXÉRCITO

Se alguém resolvesse de repente percorrer todas as casas e chalés, ficaria impressionado com a presença em todas elas de fuzis, capacetes, mochilas, cartucheiras cheias de munições, botas e uniformes militares. Sim, porque o soldado suíço é o cidadão que deixa a escola de recrutas aos 20 anos e leva consigo todo este aparato militar que fica sob sua guarda e responsabilidade, isto acontece com todos os homens até os 50 anos de idade, quando cessam suas obrigações militares. Com este exército miliciano a Suíça tem condições de em poucas horas mobilizar um grande continente. O seu exército é moderno e equipado. Tive oportunidade de observar a presença do exército nas geleiras dos Alpes, nos vales em diversos acampamentos espalhados por diversos cantões. O exército está constantemente em manobras, treinando os seus novos recrutas.
 Foto de Zurique que é banhada pelo rio Lammat, e tem a Cidade antiga e, a moderna com seus prédios luxuosos.
Nos anos em que não recebem ordens para manobras, o cidadão deve apresentar-se para inspeção, igualmente armado e equipado para controle de todo o material. Se estragar um dos instrumentos será substituído às suas custas. Além disto, está obrigado a fazer anualmente exercícios de tiro até aos 40 anos. Foi por esta razão que encontrei homens passeando nos campos com seus fuzis de guerra e de quando em vez ouvia um tiro ressoando nas montanhas.

                                               AGRICULTURA E ENERGIA

Até meados do século XIX, os suíços eram em sua maioria agricultores. Em 1960, os camponeses representavam mais de 12% da população, e a proporção está agora bem menor, em decorrência do desaparecimento das pequenas explorações. Os suíços aproveitam os pequenos espaços, os jardins, e áreas localizadas no vales e montanhas para plantar. Você encontra nesses pequeninos pedaços de terra, máquinas sendo utilizadas pelos colonos. Tudo devidamente mecanizado e com isto conseguem uma rentabilidade satisfatória. A Suíça é cuidada como um jardim bem cultivado. Dos seus 250 mil hectares de terras cultiváveis os suíços conseguem retirar o seu trigo, óleo, tabaco, batatas, açúcar e legumes em abundância. Seus vinhedos, em particular os da Suíça francesa, dão excelentes vinhos. É auto-suficiente em pecuária e laticínios. Porém, o país importa muito alimento, especialmente frutas tropicais, arroz e outros de importância capital. Daí a necessidade de aumentar a sua produção industrial para compensar esta importação.
O comércio de gasolina é livre e exercido pelas companhias internacionais que compram a maioria do petróleo refinado em países vizinhos. O governo está atualmente desenvolvendo uma campanha de economia de combustível, mas não interfere diretamente no comércio, por ser um país capitalista que respeita o livre comércio, mesmo em tempo de crise.
A indústria é a atividade mais importante do país, principalmente os setores químicos e máquinas. Basiléia, é a metrópole da química suíça e também um dos centros da química mundial. Começou produzindo colorantes, fixadores e gomas e necessários à indústria produtora de bens de consumo.
Porém, o que desejo salientar é que o operário suíço é exemplo de responsabilidade. As grandes corporações de operários, artesãos e de fabricantes vêm florescendo com muito sucesso devido à precisão, ao trabalho minucioso, à perícia das mãos e ao gosto sóbrio. Basta lembrar a ouriversaria e principalmente seus relógios. Há poucos anos foi menosprezada a linha de relógios populares, mais barato como os de quartzo e eletrônicos fartamente fabricados pelos japoneses para dar força aos relógios de qualidade como os Baume e Mercier, Cartier, Rolex, Omega e outras marcas famosas. É impressionante e quase indescritível falar de joalherias suíças.
Uma infinidade e a preços altos são vendidos correntes, brincos, medalhas, relógios e pulseiras. Coisas lindíssimas que enchem os olhos de qualquer pessoa que gosta de jóias.
A indústria de máquinas tem a característica de ser representada por um número muito grande de pequenas e médias empresas espalhadas por todo o país, altamente especializadas, equipadas não para uma produção em grande série como acontece com a indústria americana, mas para construção, sob medida, exatamente daquilo que se encomenda e deseja.
Aliada a esta indústria, outro grande segredo é o de comercializar livremente com o mundo. A Suíça não reconhece governos e sim países. Portanto, não rompe relações comerciais ou diplomáticas se este ou aquele país está sendo governado por um ditador ou um comunista. Esta fórmula visa superar a falta total de recursos naturais, de matérias-primas, em sua maioria importadas. Só assim consegue sobreviver e prosperar e as greves lá não existem. Tudo é feito amigavelmente porque o empresário sabe o quanto vale um operário, que em suma é responsável pelo sucesso da empresa. Do fruto suas mãos virão os dólares de fora e assim a prosperidade é dividida. Lá você entra e sai com os produtos que desejar pagando taxas insignificantes. Aqui, para o indivíduo viajar, tem que pagar CR$23 mil cruzeiros e o protecionismo- que é proibido lá – à empresa nacional só tem contribuído para a fabricação de produtos de baixa qualidade, que o consumidor é obrigado a aceitar porque a importação é dispendiosa e quase impossível. Lembro que ao desembarcar no Aeroporto do Galeão, quase que tive de deixar uma máquina fotográfica para a alfândega tal às imposições tarifárias que me queriam impor.Depois de conversar muito foi que consegui livrar-me do emaranhado primitivo do protecionismo.

                                                           PAZ SOCIAL

O plano social é um dos menos estatizados do mundo, e as relações trabalhistas repousam muito mais sobre acordos do Direito Privado, concluídos entre operários, empregados e patrões, no contexto das profissões, que sobre leis e regulamentos estabelecidos pelo Estado.
Existe na Suíça, segundo os manuais, uma rede com mais de mil convenções coletivas de trabalho, que são periodicamente emendadas e revisadas.
Sindicatos trabalhistas e patronais negociam, de maneira quase permanente, e se consideram parceiros iguais. O sucesso do sistema é atestado pelo fato de que as greves não têm lugar na Suíça. Basta dizer que no setor da metalurgia, a paz social entre operários e patrões reina há mais de vinte e cinco anos. Tudo é resolvido com respeito e ambas as partes sabem o que têm direito ou não.
Não diria que é um modelo de Estado social, mas suas instituições, por serem diferentes das maiores partes dos países não são, por isso, menos eficazes. Uma prova, revelam os suíços, é que muitos estrangeiros têm abandonado seus países de origem para trabalhar em seu território, isto porque os salários são compensadores e gozam de muitas vantagens, pois o país é o que apresenta maior renda per capita do mundo.


Quanto à educação, poderia dizer que é o país por excelência pedagogo. As autoridades cantonais, soberana nesta matéria, devotam o maior cuidado à instrução pública e fazem-no com sucesso, e muitos abastados enviam seus filhos para serem educados na Suíça. As universidades, em número de sete: Basiléia, Berna, Friburgo, Genebra, Lausanne, Neuchâtel e Zurique e a Escola de Altos Estudos Econômicos e Sociais, de Saint-Gall, são cantonais e famosos no mundo inteiro. É curioso destacar que a maior parte dos estudantes da Universidade de Genebra é de estrangeiros e que a Confederação só mantém um estabelecimento, mas de grande importância, que é a Escola Politécnica Federal, na cidade de Zurique.

Foto:  a qualidade da mão-de-obra suiça é respeitada em todo o mundo.
Lá os professores têm salários altos e compatíveis com a função, e não dispõem de grandes turmas com mais de 100 alunos, como estamos acostumados a ver em nossas universidades que são carentes de tudo. Os professores conhecem pessoalmente seus alunos que recebem orientação de acordo com as necessidades individuais.


sexta-feira, 22 de junho de 2012

COMPORTAMENTO - DA ILUSÃO DO CALOURO À REALIDADE DO DOUTOR

COMPORTAMENTO
Jornal A Tarde , segunda-feira , 21 de dezembro de 1970.
Texto Reynivaldo Brito
Ilustrações Edu
A euforia domina centenas de rapazes e moças que foram aprovados no vestibular. Rapazes carecas, sujos e embriagados. Um manto de ilusão cobre-lhes as cabeças. Mas, depois de dois ou três meses , já conhecem um pedacinho da realidade...

“Felicidade passei no vestibular...”, O verso de Martinho da Vila traz um momento de ilusões envolve milhares de jovens que por esse Brasil afora. As dificuldades iniciais, como o pagamento da matrícula – quando a faculdade é particular – e os livros caros começam a lançar por terra as perspectivas de um mundo novo e maravilhoso. A realidade é outra. As decepções são muitas. Elas se apresentam desde a primeira aula, quando um professor velho e alquebrado começa a vomitar um palavreado chato e maçudo. O estudante recorda as suas antigas aulas no colégio, quando os professores falavam de tudo, menos do assunto que deveria ser estudado.
Vem o currículo universitário. Outra decepção. Esperava encontrar assuntos palpitantes e depara-se com algumas matérias distanciadas da realidade profissional. Noites são perdidas cotidianamente para estudar assuntos que nunca irá utilizar. Quatro ou seis anos passaram. “E depois de tantos anos / Só decepções, desenganos”... Olha para trás e vê que pouca coisa aprendeu. A perspectiva de emprego começa a ser uma preocupação diária. A concorrência é desleal para o novo doutor. E agora José?

                                                                CALOUROS

José está rodeado de mocinhas casamenteiras primas e amigas que desejam “laçar” o novo doutor. Beijinhos e risadinhas faceiras fazem parte deste teatro do absurdo. Depois, elas se vão e o nosso José vai sozinho e desconsolado para uma cidadezinha do interior. Às vezes uma coleguinha de infortúnio conseguiu “laça-lo” e vai com a pasta pura. Mas com um novo estado civil... casado!

Curso colegial foi concluído. Vai à Copesa para providenciar sua inscrição no vestibular. Fica em dúvida na hora da opção que carreira ou carreiras pretende seguir. Mas, depois de algum tempo, resolve que vai ser bacharel em qualquer coisa.
Depois da aprovação no vestibular, vem aquela euforia que todos nós estamos acostumados a presenciar. São centenas de rapazes e moças que desfilam em frente às faculdades ( antes, pelo centro da Cidade) sujos de roxo-terra e outras tintas, sem camisas e vestidos em fantasias extravagantes, que os veteranos obrigam-lhes a ostentar. Discursos sem razão de ser são proferidos pelos calouros. Matriculou-se no primeiro ano de Faculdade. Os veteranos começam a chama-lo de burro, que é um dos sinônimos para o novo universitário. As decepções começam a surgir. Julgava ser recebido com carinho por seus colegas. Vai às primeiras aulas e os professores lhe apresentam cada um em particular, uma relação quilométrica de livros. Julga que precisa comprar todos eles e fica desnorteado. Mas a maioria dos mestres faz isto para impressionar. Poucos daqueles livros relacionados serão realmente utilizados por José.
E o sambista carioca Martinho da Vila continua “Livros tão caros, / tantas taxas pra pagar./ Meu dinheiro muito raro / Alguém teve que me emprestar”. Sim teve que emprestar quando o novo universitário tem um parente que mora na Capital. Está morando numa pensão que já apelidou de “Balança, mas não cai”, no Largo da Palma. Os ratos disputam com ele e mais de uma dezena de colegas de infortúnio, os poucos metros de pisos esburacados. As paredes de seu quarto já estão lotadas de cartazes de mulheres nuas. Flâmulas, recortes e outros objetos fazem parte deste mundo de estudante universitário.

                                                       DIFICULDADES


É hora de “paletar”. Aperta a pastinha que ganhou de presente e começa sua maratona. Vai de casa em casa visitando políticos em busca de uma colocação. São dois, três ou mais meses, que passa numa penúria desgraçada, até que recebe um convite e se “enterra” numa cidadezinha do interior... Sem água, sem luz , sem nada...

O dinheiro para o transporte até a escola e o restaurante universitário – quando já está no segundo ano de Faculdade – falta de vez em quando. Um empréstimo aqui e outro ali, assim ele passa de quatro a seis anos.
Festinhas que são realizadas nas faculdades, José não perde uma só. É uma nova faceta em sua vida. Lá vai encontrar meninas universitárias e outras mocinhas casamenteiras que foram trazidas por algum universitário. As suas colegas do restaurante geralmente são de classe média e passam pelas mesmas dificuldades. Estão eufóricas e esqueceram-se dos namorados que deixaram no interior. “É um tabaréu”, dizem. Querem apanhar a todo custo o novo universitário. Um bate-papo enquanto dançam e está acertado o namoro de José e Maria, às vezes namoram-se durante todo o período universitário e, quando chega o dia da formatura, está na hora de realizar o casamento. Nova ilusão. Muitas vezes casaram-se sem condição econômica. Mas já se acostumaram de certa forma, às necessidades, porque curtiram durante os anos de Faculdade quase os mesmos problemas que terão que enfrentar com o novo estado civil.
José está vestido num smoking alugado. Vai para a festa de formatura. É o seu grande dia. O anel brilha em seu dedo anular. As meninas estão entusiasmadas para descobrir se ele é um dos recém-formados. Uma auréola de contentamento envolve José. Quatro horas de músicas e meninas de máxis que desfilam para ele soltando risadinhas amarelas e traiçoeiras. Mas tudo termina e a festa de formatura não foge à regra.
“E agora, José/ A festa acabou, / o povo sumiu/ a noite esfriou.”, os famosos versos.
de Carlos Drummond de Andrade nos leva a pensar e parodiar o grande poeta mineiro.
“E agora, José?”Está sem mulheres/ Está sem discurso? Está sem carinho.

                                              SONHOS DO DOUTORZINHO


As portas da escola estão fechadas. Recebeu na hora da colação de grau um canudo de papel sem significação. Nem ao menos o verdadeiro diploma lhe foi entregue. Mas, o anel reluz em seu anular. Olha para a frente e não enxerga muitas perspectivas...

“Mas felizmente consegui me formar”... Este verso da música “O pequeno burguês”, de Martinho da Vila traduz uma realidade dura para o doutorzinho. E para completar o quadro lembremos-nos da poesia de Drummond – “José”- “E agora José? / A festa acabou,/a luz apagou,/o povo sumiu/ a noite esfriou/ e agora, José?...”
Um sentimento de tristeza começa a tomar conta do novo doutor. A alegria da família que veio do interior, não consegue apagar de seu pensamento aquela frase célebre. Que fazer? Os sonhos evaporaram. Os colegas ganharam novos caminhos. Se foi um estudante de Direito, recorda-se das ilusões, quando no primeiro ano de faculdade sonhava ser um Senador da República. No segundo, deputado federal. No terceiro, deputado estadual. No quarto, prefeito do interior. No quinto e último ano de escola, promotor ou juiz e finalmente, agora que se formou vai se enterrar numa cidadezinha com menos de dez mil habitantes, para advogar.
O ex-estudante de Medicina que em seu primeiro ano universitário pensava que logo iria ser diretor de um grande hospital também, vai enfrentar problemas. Vai para um município onde não existe luz, água encanada e televisão. A maioria dos habitantes não têm condições financeiras de lhe pagar uma simples consulta e muito menos de comprar os remédios que indicou. O curandeiro da cidade é um forte concorrente e muitas vezes o novo doutor pensa em fazer as malas e procurar outra cidade. Mas também termina se fixando onde está.
O ex-estudante de engenharia que passou meses e meses a fio perdendo noite com cálculos imensos, fica a ver navios... Um emprego qualquer seria a primeira solução para o início de sua carreira. O mercado de trabalho também é restrito para este campo,principalmente, para quem não tem nome e “tutu” para fundar uma firma construtora. Muitos deles vão trabalhar como assistentes de uma obra planejada e executada por profissional de renome.

                                                       MEIO DA RUA

A faculdade fechou-lhe as portas. Mas José ganhou uma pastinha de presente de formatura. Aperta a pasta debaixo do braço e ganha às ruas em busca de uma colocação. Os amigos e os deputados “enrolões” começam a ser visitados por ele. Uma promessa aqui e outra ali e assim já se passaram três ou quatro meses. Quando encontra um colega que lhe pergunta: “Como é José?, já está empregado?” Uma frieza terrível corre-lhe o corpo, desde as pontas dos dedos dos pés até o último fio do cabelo. A palavra quase não saía de sua garganta seca de tristeza. Faz uma enorme força e responde: Ainda não, e você?”Uma resposta vem de logo: “Claro rapaz”!”. O deputado fulano de tal falou com o Secretário... “e arranjei um contrato”. Mas o nosso herói não desanima. Passa outros meses na penúria até que arranja uma colocação no interior de um município. Lá ele é chamado de doutor pelos habitantes da cidade. Mas, é um homem qualquer na multidão, sem sonhos, sem meninas com risadinhas traiçoeiras. Diz Drummond : “sozinho no escuro / qual bicho-do-mato / sem teogonia, / sem parede nua / para se encostar / sem cavalo preto / que fuja a galope, / você marcha, José! / José, para onde?