Objetivo


sexta-feira, 1 de abril de 2022

O MALEIRO DOS ESTUDANTES, DAS "MENINAS PERDIDAS", E DOS CANDANGOS

Dizem que o Zé da Julia chegou a fabricar  mais de mil
malas por mês.
 Os que conheceram o José Francisco Costa, o Zé   da   Julia, em plena forma estão beirando setenta   anos.   Ele era o fabricante das malas de couro cru   de  cor   amarelada encomendadas pelos pais dos   que iam   estudar em Salvador, dos que viajavam   para São   Paulo em busca de melhores   oportunidades  das  "meninas perdidas"quando   engravidavam e os pais   expulsavam de casa ou   despachavam para São Paulo   para casa de parentes,   e depois para os candangos.   Foram os candangos,   àqueles nordestinos e caipiras   de outros estados com  sua   mão de obra barata que   construiram Brasília, este ninho de rato que hoje   abriga  os que sugam o nosso dinheiro, os valores ocidentais  e a consciência dos brasileiros. A primeira oficina funcionou na Rua Oswaldo Brito, (Rua do Cemitério), número 40. Antes ganhou a vida como  tropeiro, amansador de burrro bravo e vaqueiro. Tinha uma barriga proeminente, era bom piadista e um amante do cinema, a ponto de ter uma cadeira cativa nos cinemas de Joãozito  (João Jacobina Brito) e depois no  Cine Rex, de Pedrito, João Messias e de   João Leão, que trouxe equipamentos  novos e a concepção de uma sala de cinema moderna. Sempre era o primeiro a chegar para a sessão do cinema ao lado da sua esposa. Não importava qual fosse o filme lá estavam o Zé da Julia e d. Carminha. Um fato curioso é que já naquele tempo ocorriam  roubos na Cidade, e certo dia sua oficina  foi quase totalmente saqueada por um  ladrão. Esta é parte da história de um homem natural de Ribeira do Amparo, nascido na Boa Hora,  que estava caindo no esquecimento.Tinha uma pequena indústria de fabricação de malas e outros artefatos de couro, e chegou a ter uma produção considerada de médio porte para a época e produzia mensalmente mais de 1.000 malas por mês. Ele recebia com regularidade encomendas de Brasília e de várias outras cidades da região. Chegou a ser reconhecido na época como um pequeno industrial e lhe enviavam uma publicação chamada Boletim Industrial que lia e guardava com cuidado.

O depoimento de seu filho  José Wilson Oliveira Costa relembra que Zé da Julia começou a vida como tropeiro levando daqui cereais como feijão, milho, farinha, e também açúcar e rapadura. Até o início do século XX Ribeira do Pombal e região tinham vários engenhos que produziam regularmente açúcar e rapaduras e com a chegada da industrialização foram perdendo seu espaço. Agora praticamente não existem. Só restam as grandes engrenagens enferrujadas abandonadas. As rapaduras que hoje são vendidas nas sextas-feiras vêm de Sergipe, Pernambuco e Alagoas. Alguma coisa ainda de Ribeira do Amparo.

Zé da Julia montado quando trabalhava como vaqueiro.

Na sua saga de tropeiro e desbravador Zé da Julia e  seus colegas saíam de Ribeira do Pombal e de outras  cidades vizinhas até Salvador para entregar as  mercadorias produzidas aqui  aos comerciantes do  Mercado das Sete  Portas na Capital baiana. Gastavam 15 dias viajando  de Ribeira do  Pombal para Salvador e 15 para voltar.  Contava o Zé da Julia  que durante as longas viagens  com suas doze mulas - os tropeiros  chamavam os  burros de mulas  independente de ser  macho ou  fêmea -  transportavam mercadorias, sofriam tentativa  de  assalto, enfrentavam chuva  e muito sol durante o  trajeto, o  que causava muito sofrimento. Durante as  viagens ocorriam com certa frequência  tentativas de  assalto. Ele se juntava com outros tropeiros e de  quando em vez quando pegavam o ladrão davam uma "coça" para aprender a não pegar no que é dos outros. No trajeto os tropeiros já tinham os lugares onde costumavam passar a noite com suas mulas. Tinham que retirar todas as mercadorias e soltá-las para comer e descansar durante a noite para na madrugada já ganhar a estrada. Muitas vezes chovia ou mesmo ocorria outra intercorrência qualquer  e tinham que pedir rancho num local desconhecido. O trabalho do tropeiro era feito no trato, na palavra.Quando o comerciante dizia que a mercadoria teria  que estar no dia tal então o tropeiro tinha que fazer de tudo para cumprir o prazo para  ganhar confiança e evitar problemas. 

Normalmente viajavam  com alguns colegas  e na volta já traziam de Salvador   jabá, (carne do sertão), bacalhau português daqueles bem grossos e outras mercadorias para os varejistas locais . Foi depois ser vaqueiro e  tinha fama de montar em qualquer burro bravo. Os que não têm contato com a zona rural não avaliam a dificuldade que é montar num burro bravo. Este animal não tem nada de burrro. Tem uma capacidade de aprender coisas que a gente duvida. Um burro não pisa numa cobra, num buraco qualquer. Ele empaca e levanta as orelhas quando pressente  alguma coisa fora do normal. Viaja de noite sem Lua e sem dificuldade. É um animal muito astuto, e Zé da Julia os amansava. Tinha um método especial de amansar burros.

Foto 1. José Wilson com o irmão Dinalvo. Foto2 . José Wilson
com a esposa Dileuza (Deca). Foto 3. Seu irmão Joselito
(NegoTinho), ex-jogador de futebol  da Seleção da Cidade.
 Lembro que meu pai tinha um burro na Fazenda Salgadinho  e os trabalhadores carregavam duas cangas de cana ou capim, uma de cada lado. Lá do local onde estava sendo cortada a cana ou o capim  soltavam o burro e ele ia sozinho até o curral. Depois que era retirada a carga  voltava para apanhar outra. Os trabalhadores o chamavam de Burro Velho. 

O Zé da Julia morava na Boa Hora, onde nasceu e na casa de seus pais onde tinha uma frondosa mangueira com dois grossos galhos em forma de forquilha. Ali ele passava uma corda feita de caroá ou sisal e ia puxando e soltando até o animal cansar. Passava alguns dias nesta labuta como estivesse serrando a mangueira até chegar a hora de passar a perna e montar. Era o momento dos pulos, coices, peidos,  das corridas desenfreadas e assim até o animal ficar dócil. Um burro manso tem seu valor. O seu filho José Wilson lembra que sua avó já tinha falecido e que "ele me levou e mostrou a mangueira que tinha um tronco tão grosso que precisava de dois homens para abraçá-la. A fenda entre os dois galhos onde meu pai passava a corda para amansar os burros já estava quase fechando, porque a mangueira engrossou mais ainda o tronco"

Zé da Julia casou com d. Maria Oliveira, na Boa Hora, e José Wilson,  disse que foi conhecer a primeira esposa de seu pai  quando ela já morava  em Dias d'Ávila. "Era uma pessoa muito agradável, gostava de mim e dizia que eu parecia muito com ele. Tiveram cinco filhos Pedro Fonseca , (o Pedrito),  José Fonseca , Vandete, Maria José e Maria Helena. Foi depois da separação que veio para Ribeira do Pombal e começou a fabricação das malas de couro cru."

Um dia ele foi para Tobias Barreto, em Sergipe, e observou um homem fabricando uma mala de couro cru. Ficou muito impressionado com a habilidade do sergipano que  pensou e decidiu: "vou tentar fabricar uma mala também.Se este homem pode, eu também posso", revelou   ao filho José Wilson . Foi numa loja comprou as ferramentas  e  voltou para a Boa Hora. Ficou  tentando até fazer a mala. "Vou me aperfeiçoar e vou viver de fazer malas", disse Zé da Julia. Neste período ocorreu a separação com d. Maria Oliveira ele sai da Boa Hora e veio morar em Ribeira do Pombal.

Foto 1 - D. Carminha pronta para dançar a Quadrilha
junina Conviver, em Camaçari, onde morava com o filho
José Wilson . Foto 3. D. Carminha descansando .
Chegou  com a ideia concebida  de viver de fazer malas. O couro para a confecção das malas ele foi
buscar na região de Tucano. Era basicamente couro cru curtido de boi , e na época a feira de Tucano era famosa por vender couros de boi, carneiro,cabra e de animais silvestres a exemplo de pacas,veados, jibóia, gato do mato, dentre outros. O couro que utilizava normalmente era de boi. Ele trazia esta matéria prima  de Tucano até Ribeira do Pombal viajando na carroceria dos caminhões que transportavam os feirantes. A estrada era de barro, cheia de camaleões de areia  e buracos, porque a manutenção era muito precária. 

O auge de sua fabricação foi nos meados  dos anos 50 a 60, chegou a empregar mais de dez pessoas, além de contar com a ajuda d. Carminha e de seus filhos  que trabalhavam  na fabricação das malas de couro . Comercializava as malas  para toda a região,  outros estados e até para Brasília. Chegou a fabricar por mês mais de 1.000  malas de couro cru. Essas malas eram transportadas por caminhão. Os seus maiores compradores eram um sergipano Zinho e o Maneca (os nomes completos  se perderam com o tempo) . Lembra que eles vinham com  caminhões e traziam muitas esteiras e cordas  novas de ouricurizeiro e sisal. 

As malas eram acondicionadas uma dentro da outra para diminuir o volume da carga. Assim colocava uma de 50 cm dentro de uma de 60 cm, essa de 60  cm dentro da de 70 cm, e essa em uma de 80 cm. Portanto, eram quatro por uma . Ai forravam as malas de couro com as esteiras , passavam a corda e depois a lona como proteção. 

O Zé da Julia nasceu na Boa Hora, em 1915, e seu filho José  Wilson  diz "não lembrar do dia e o mês. Era filho de d. Julia, minha   avó. O pai dele morreu quando  tinha quatro  anos de idade. Era o que me falava. Teve dois irmãos que eram mudos, que os chamavam de o Mudo e a Muda, nem falavam e nem ouviam.É o que sei".

 "Foi em Ribeira do Pombal  que ele conheceu  d. Maria do Carmo, nascida em 8 de setembro de 1931, filha de d. Loura, da Mirandela. Minha avó parecia uma indiazinha, e criaram juntos  seis filhos.Três dele que teve com ela e mais três de um casamento anterior dela. Os do casal  são José Wilson Oliveira Costa, Dinalvo e Edmilson  (Bita), e os delas, Joselito Oliveira (Nego Tinho),  José Carlos Oliveira  (Zé Preto), que foram jogadores da Seleção de Futebol de Ribeira do Pombal, e Maria Eunice Oliveira  (Ninha) que era professora e hoje está aposentada. 

                                                             FEITIO DAS MALAS

Foto 1. Casa na Rua Oswaldo Brito ( Rua do Cemitério)
onde começou a fabricação das malas. Foto 2. Casa na
Rua Cel. José Satíro  local de sua moradia e oficina.
Ele teve em média mais de 10 a 12 funcionários trabalhando em tempo integral na confecção das malas de couro cru. E à medida que os filhos foram crescendo, como se fazia antigamente, eram convocados para ajudar os pais. Inicialmente trabalham  nas tarefas mais fáceis e à medida que iam mostrando suas habilidades passavam a executar tarefas mais difíceis. Foi assim que José Wilson começou brocheando, que é o trabalho de colocar umas brochas de metais com cabeças douradas que têm a função de enfeitar a mala. Depois passou a desenhar os papéis que eram utilizados para forrar as malas por dentro. Esses desenhos eram feitos com uma tinta especial  que era dissolvida em soda cáustica. O pincel era feito daquelas penas que usavam para escrever com tinta de tinteiro. Prendia  um pedacinho de algodão enrolado na ponta da pena de ferro para segurar a tinta. Então desenhavam figurinhas de animais ou de flores. Ficava semelhante ao que conhecemos hoje como papel de presente, depois se colava o forro. Até a cola era feita artesanalmente porque ão existia a cascolar, e era feita com tapioca.

Disse José Wilson que "trabalharam com ele vários jovens lembrou do Zinho de Cota, que deu para o caminho errado. Era muito conhecido em Ribeira do Pombal. Trabalharam também o  José Rodrigues Pereira (Zé de Ana) e o sergipano o Zé da Poça , Raimundo Caninane, que depois foi ser tratorista da Prefeitura, Zé Preto e Pedro Fonseca (Pedrito) , meus irmãos, o Tinho já pegou o finalzinho dessa produção. Foram aparecendo as malas de fibras e a produção foi diminuindo até acabar."

Neste intervalo quando acabou o fabrico das malas d. Carminha montou uma barraca na feira  de Ribeira do Pombal e depois passou a vender confecções em todas as feiras da região para ajudar no sustento da casa. Assim de segunda a domingo estava cada dia numa cidade diferente comercializando. Ficou neste ofício até a morte de meu pai.  

 Foi ai  que Zé da Julia partiu para fabricar cinturões , arreios para cavalos, bainhas de facão e de facas, alpercatas  e outros utensílios de couro. Continuou fabricando malas por encomenda, e até umas pequenas maletas de 30 cm que eram usadas por comerciantes para guardar dinheiro e documentos , e as senhoras guardavam suas jóias e dinheiro. A maleta era bem enfeitada e tinha uma produção especial que agradava aos clientes . 

O auge do recomeço aconteceu quando Zé da Julia  pegou uma boa encomenda para fazer cinturões  que tinham quase 20 cm de largura e umas fivelas grandes de bronze muito bonitas. Fazia ainda nos cinturões umas tranças utilizando couro de veado que é muito macio. Nessas tranças ele usava tiras bem fininhas de couro de veado e assim  personalizava os seus cinturões. E no couro ele fazia uns desenhos e "a peça ficava muito bonita. O pessoal da roça  costumava encomendar sandálias ,bainhas de facão e de faca, arreios de animais .", disse José Wilson.

Quando alguém perguntava para que servia àqueles cinturões largos ele respondia que ajudava para pegar peso. Vocês já devem ter visto que hoje onde tem carregador nas lojas pegando peso como nas casas de materiais de construção os comerciantes  são obrigados a fornecer um cinturão largo para proteger o funcionário. Conta José Wilson como "ele era muito barrigudo, murchava a barriga e apertava o cinturão, e assim dizia que ficava mais forte e podia pegar mais peso."

 José Wilson lembra que seu pai era um homem muito alegre e tranquilo. Ele não se zangava com facilidade, mas quando alguém pisava no calo dele virava um bicho. Contador de piadas de salão, sem maldade e não costumava repetir piada. Ele tinha uma amizade grande com o juiz Juarez Santana e coincidiu algumas vezes que o juiz ia cortar o cabelo ou fazer a barba na barbearia de seu Paulino, que também era muito amigo do Zé da Julia. Ai o juiz sabedor que ele era contador de  piadas pedia para contar uma e não mais parava.O barbeiro seu Paulino ficava furioso porque tinha que parar seu serviço enquanto eram contadas as piadas e Juarez Santana se acabava de rir, se balançando na cadeira. "Era uma risada quase muda. Quando ele parava de rir pedia para meu pai contar outra. Foi assim até o dia que seu Paulino procurou meu pai que tinha sua oficina perto da barbearia e foi logo dizendo. Seu peste véio quando eu tiver cortando o cabelo do dr. Juarez desapareça daqui. Não me apareça aqui na minha barbearia. O tempo que gasto para cortar o cabelo do juiz eu cortava uns três ou quatro cabelos", conta José Wilson às gargalhadas..

Quando uma criança lhe perguntava: seu Zé por quê o senhor tem a barriga tão grande assim? Para evitar a perturbação das crianças ele quase sempre respondia pegando no barrigão: "Deste lado tem a cabeça de um menino que engoli, deste outro mais uma  cabeça de  menino. Eram  meninos desobedientes, ousados,  que não obedeciam aos pais e os mais velhos. Eu engulo tudo,  logo pequeno para não crescer." Com medo, os meninos desapareciam da porta da oficina. 

Se um cachorro ficava ali perturbando Zé da Julia começava a imitar os latidos do cachorro e depois se jogava  no chão e continuava imitando os latidos e fazendo  um barulho danado. Os cachorros saiam desesperados e nunca mais apareciam.  Tinha uma velhinha chamada Zefa Buião, que ficava sentada na calçada da igreja matriz de Santa Tereza. Quando Zé da Julia passava para comprar alguma coisa nas lojas de Sevary do Amaral Borges (Sevary) ou de seu Pedro Almeida Bastos (Pedrão)  assim que ela avistava o Zé da Julia corria com medo dele. 

                                             AMANTE DO CINEMA

Foto 1. Prédio onde funcionava o cinema de Joãozito,
 na Avenida Santa Cruz, hoje
 Avenida  Evência Brito.
 Foto 2. O Cine Rex , ficava neste imóvel na Rua 
Manoel Francisco Cruz.
"Quando  veio para Ribeira do Pombal já existia o cinema de Joazito ( João Jacobina de Brito) , que
ficava  vizinho a casa  de Britinho, na Rua da  Santa Cruz, hoje Avenida Evência Brito. Certo dia ele convidou minha mãe para assistir um filme. Quando começou a passar o filme e chegou um momento que tinha uma cena de um trem vindo em alta velocidade dando a impressão que iria invadir o cinema. Foi aí que ele se abaixou pensando que o trem ia mesmo passsar por ali. Quando  viram  ele se abaixando os outros especctadores se   acabaram  de rir e meu pai  ficou desapontado. Quando alguém  lembrava este  fato ele não gostava,"contou José Wilson.

 Mas, a partir daquele dia se transformou num frequentador assíduo do cinema e era o primeiro a chegar e sempre ao lado da esposa d. Carminha. O cinema não tinha ar condicionado. Ele sentia muito calor por ser corpulento e barrigudo, e por isto sempre procurava ficar numa determinada  cadeira mais próxima da porta que ventilava melhor. Já no Cine Rex  era dos irmãos Pedrito , Messias e do paulista João Leão. Existiam  apenas dois ventiladores grandes de pé, então tinha uma porta lateral do lado esquerdo que só era aberta para o pessoal sair. Outra porta do lado direito ventilava bem por ali. E esta vaga era disputada por três pessoas. Zé da Julia, o juiz Juarez Santana e João Gualberto dos Santos (Barrinha), era bem gordo e  filho do seu Adão. Por isto ele ia cedo para garantir a vaga, e o Barrinha descobriu e passou a chegar mais cedo.Quando o juiz Juarez ocupava a cadeira, e Zé da Julia chegava o juiz fazia questão de passar para outra cadeira e ai ficava aquele impasse . 

Tinha fama também de soltar muitos gases que  incomodavam as pessoas que estavam na sala de projeção. Ele contava que um dia dia no cinema de Joãozito durante a projeção do filme de Teixeirinha surgiu um  mal cheiro insuportável que foram obrigados a suspender a projeção e foram procurar para ver se tinha algum rato morto dentro do salão. Tinha sido o Zé da Julia que após  comer uns ovos cozidos e misturados com feijão soltou aqueles gases fedorentos.

"A Rua Coronel José Ramiro foi o segundo da  sua oficina . Dali ele  observava tudo que passava na frente para comprar. Aparecia gente vendendo frutas em galeotas, que na época eram feitas de madeira, hoje  substituidas pelos carrinhos de mão de metal; mulheres vendendo frutas como mangas, bananas, cajus com suas bacias na cabeça; comprava o famoso quebra-queixo de Décio que passava com seu realejo. Quando almoçava , deitava uma hora mais ou menos e quando acordava fazia uma farofinha de carne e ia trabalhar. Gostava muito de comer."

Quando era jovem caçou muito, mas com o passar dos anos trocou pela pesca. Caçou  peba verdadeiro, tatus, teiús, cotias  e outros bichos. Certa vez encontrou no mato um teiú engasgado com um sapo. Ele ficou observando aquela cena e notou que o sapo era  grande demais  para o teiú engolir, e assim ficou com as pernas de fora. Depois disto nunca mais conseguiu comer teiú.Gostava muito de pegar traíras e caboges nos tanques. Quando tinha notícia que um tanque ou açude em tal  lugar tem peixes,  lá ia o Zé da Julia em busca das iguarias. Não comia com azeite de dendê.Usava tempero verde e óleo de côco. Dizia que o dendê não era para comer, e sim para passar no couro que fazia com que os couro das  malas  ficasse  mais macio. Também, não comia óleo de salada industrial de jeito nenhum. Usava o toucinho para fazer a banha de porco. As pescarias eram durante a noite e sempre estava acompanhado da d. Carminha.

O sr. José Florêncio lembra do Zé da Julia
nas sessões de cinema com a esposa.
 Não gostava de frequentar bares. Quando filho dele mais velho o   Pedro Fonseca  (Pedrito) que foi para Sao Paulo e vinha nos   visitar ele acompanhava até o bar e tomava uma cerveja ou outra   e algumas doses do  conhaque Quixá, que existia na época ou o   de  Drurys. Fumava charuto. Certo  dia dia ao fumar um charuto   sentiu um gosto diferente e quando abriu o charuto encontrou um   ingongo dentro. Deste dia em diante deixou de fumar.

 "Também não gostava de homem do cabelo grande. Meu irmão o   José Fonseca , era bonitão e tinha um cabelo grande. Um dia ele  veio pedir dinheiro para  cortar o cabelo. Quando voltou o cabelo   estava  do mesmo tamanho. Meu irmão tinha usado o dinheiro   para curtir. Dias depois  ele tornou a pedir dinheiro para cortar o   cabelo. Ai meu pai  ele disse, "espere ai." Foi lá  dentro mudou   de roupa e levou meu irmão até a  barbearia de seu Paulino e   ordenou que cortasse bem baixinho. Meu irmão ficou tão   desapontado  que passou a usar por um tempo uma espécie de   touca. Este irmão ainda é vivo, mora em Dias D'Ávila, tem uns cinco anos que não tenho contato com ele", diz José Wilson.

Já José Florêncio Rocha, 64 anos, pedagogo , lembra que Zé da Julia era a primeira pessoa a chegar no Cine Rex. Ficava ali sentado com a esposa esperando o filme começar. Quando ele não aparecia a gente já sabia que  estava doente ou alguma coisa tinha acontecido. Os filhos dele sempre foram meus amigos, tem muitos anos que não tenho notícia deles. Era conhecido como o homem do couro ele fazia de tudo que se possa imaginar de couro. Todo grandão , mas era gente boa. Gostava de contar piadas  bem elaboradas , não sei de onde ele tirava essas piadas".

A filha da primeira esposa de Zé da Julia  contou que sua mãe tinha três filhos eu, Maria Eunice Oliveira ( Ninha), 70 anos,  Joselito Oliveira (Tinho)José Carlos Oliveira ( Zé Preto). Ele já tinha dois filhos do primeiro casamento que eram Pedro Fonseca (Pedrito) e Zé Maria. Em seguida na união com d. Carminha surgiram mais três filhos:José Wilson Oliveira Costa, Edmilson Oliveira Costa (Bita) e Edinalvo Oliveira Costa (Edi). Viveram muito bem. Quando  ele dizia "hoje é dia de a gente pescar." Ele e d. Carminha saiam de noite e voltavam pouco mais da meia noite. Às vezes trazia muito peixe e a gente colocava num tonel e ia tratando. Só dormíamos depois de tratar todos os peixes."

O sr. José Rodrigues Pereira,73 anos foi
um dos trabalhadores da fábrica de malas.
"Onde Zé da Julia estava ninguém ficava triste. Era só alegria. Ele brincava com a pessoa, contava uma piadas. as 17 horas parava o serviço e se aprontava  todo. Antes de ir ao cinema  passava na casa de d. Angelina de Souza soltava algumas  piadas. Ele ia quase todos os  dias ao cinema. Foi um pai maravilhoso para nós três. Quando acontecia faltar as coisas lá em casa, eu já casada, ele metia a mão no bolso tirava o dinheiro e dizia vá fazer sua feira. Foi um pai maravilhoso, foi quem nos criou ."Todos ajudavam na fabricação das malas, dos cinturões e de outros utensílios que ele fabricava. Conta Ninha que"ele cortava e  furava as bainhas de facão e eu e minha mãe fazíamos as costuras. Nas malas a gente fazia os desenhos.Todos os filhos ajudavam. Fomos vivendo assim até o dia que ele teve um derrame, e ainda viveu bastante, e a gente continuou trabalhando."  Ela não quis ser fotografada. 

O José Rodrigues Pereira, hoje, proprietário  do Bar do Chapa,  disse que trabalhou com Zé da Julia durante 4 anos. Faziam malas  ele o Zé Preto e as malas iam para Brasília. Só eu fazia umas 30  malas por semana. Ele mandava umas 1.000 por mês para Brasília. Era engraçado, não perdia um dia de cinema, e ninguém sentava na cadeira. Antes de ir ao cinema ele dizia "Carminha apronte ai. Também gostava de comer muito."

NR - quero agradecer ao Hamilton Rodrigues este incansável parceiro e também ao José Wilson, filho de Zé da Julia, que deu um depoimento que foi funtamental para a montagem deste texto.








sábado, 26 de março de 2022

CARDOSO VIVEU ENTRE O TRABALHO SOCIAL E A BOEMIA

Cardoso trabalhou muito, era  alegre e gostava de viver intensamente.
O Cardoso do Hospital nasceu na   Fazenda Lagoa   das Madeiras, que fica   próxima à cidade de Cícero   Dantas no   dia 10 de outubro de 1946 e foi batizado   como João Cardoso Durval. Quando   adulto, como   faziam antigamente   muitos nordestinos, esteve   trabalhando   em São Paulo, Goiás, Salvador, e   terminou   retornando para Cícero   Dantas lá casou com d. Maria do Carmo   de Souza  e   tiveram cinco  filhos. Veio   trabalhar em Ribeira do   Pombal numa   empresa capixada  e depois foi para   o   Hospital Santa Tereza. Era tão   envolvido  com seu   trabalho que ficou   conhecido como o Cardoso do   Hospital. Isto porque ajudava as pessoas a serem   tratadas no hospital,  ia buscar os doentes  em casa e quando melhoravam costumava levar de volta. Viajou muito para Salvador e Alagoinhas acompanhando doentes e também pessoas em busca do Auxílio Doença e mesmo aposentadoria e outros benefícios do INSS. Aqui conheceu d.Tereza Cristina com quem se relacionou por 35 anos até sua morte. Diz sua companheira que "decidimos comprar esta casa que tinha  uma pequena sala, um quarto e cozinha. Depois fomos aumentando devagarinho. Mesmo assim aqui reinava a alegria. Certo dia perto do São João dissemos vamos festar o São João? Foi aí que tudo começou com as quadrilhas. O André sanfoneiro já morava aqui perto. Fechamos a rua com um carro e colocamos o André Sanfoneiro para tocar. Era muito bom. Isto é cultura né? Claro que é." Pergunta d. Teresa Cristina e ela mesma responde. 
"Veja você que eu e o Cardoso conseguimos com as quadrilhas tirar muitos jovens das ruas. Eles ficavam preocupados em dançar, com suas vestimentas . Foram dez  anos de muita animação, chamavam  Quadrilhas da  Ana Brito. Mas, devido ao tempo fui ficando com a pressão alta e tive que parar em 2000. Mesmo assim alguns ainda vieram dançar aqui na rua. Até hoje as pessoas lembram.Vinha gente de várias outras ruas e mantemos nossas amizades entre os que  dançaram as quadrilhas. Eram jovens, hoje são professores, como é o caso de Renilson que é professor de Matemática, Kátia Santana a irmã de Robson Santana, tem muita gente.  Muitos que dançavam aqui agora participam da Quadrilha da Rua da Ribeira. Ficamos com as quadrilhas de 1990 até o ano 2000. O Cardoso gostava da cultura popular nordestina como quadrilhas, bacamartes, forró e da zabumba". 
Vemos ao lado Foto 1. Cardoso com  seus filhos da esquerda pra direita  a companheira Tereza Cristina, David Anderson Silva Durval , no  colo de Cardoso a filha Joanna D'Ávila, Cardoso ,Vandercleisson de Souza Cardoso, a vizinha Nara Oliveira e David Anderson Nascimento.   Isto mesmo, são dois com o mesmo pré nome  de David Anderson . Foto 2. O santinho de propaganda  eleitoral quando se candidatou a vereador pelo então PFL e não conseguiu se eleger. Foto 3. Ele com uma das coisas que gostava de fazer que era tomar uma cervejinha e bater papo com seus amigos na mesa de um bar.

                                                            COMO SE CONHECERAM

Tereza  Cristina, abraçada ao filho David Durval
no aniversário da filha Joanna D'Ávila e Cardoso
 A d. Tereza Cristina da Silva, 60 anos, conta "que  já tinha   visto o Cardoso algumas vezes no hospital em 1980, e em   1981 nos encontramos na Mirandela numa festa da   padroeira.  Começamos a conversar e no ano seguinte já   estávamos juntos, e em 1983 nasceu nosso primeiro filho.   Tivemos cinco filhos David Anderson da Silva Durval ,   Joanna D'ávila Durval, 34 anos; Ana Karoline, Manoel   Messias, falecido; 27 anos e   Theo Bernardo, de 24 anos."
 Dois dos filhos do Cardoso  do Hospital do  seu casamento   com d. Maria do Carmo, o Vandercleisson de Souza Cardoso, o Cleisson como é   conhecido,  e  David Anderson de Souza Cardoso vieram   para Ribeira do Pombal morar com o pai e Tereza Cristina   quando já tinham por volta de 10 e 12 anos de idade.
 "Cardoso trabalhava na parte burocrática do Hospital Santa   Tereza, e ao ver as pessoas em dificuldades para fazer   tratamentos   e mesmo para providenciar seus benefícios no   então INAMPS, depois INSS, em Alagoinhas, e até mesmo   em Salvador, ajudava a todos  e assim foi conhecendo as pessoas. Na maioria das vezes levava a mesma pessoa três a quatro vezes até  conseguir aquele benefício a que tinham direito. Depois  foi trabalhar na Associação Santa Tereza , que funcionava dentro do hospital. Trabalhou muitos anos até 1998 quando a associação  foi extinta por motivos políticos e financeiros. Com o decorrer da política e a chegada de Dadá como prefeito ele saiu, tendo permanecido ainda 40 dias quando Nilson Brito assumiu. Também, não voltou mais. Mas, Cardoso  continuava ajudando às pessoas que o procuravam." Diz ainda  Tereza Cristina que conheceu um senhor que ele  levou 33 vezes para Alagoinhas até receber o benefício de  Auxílio Doença a que tinha direito. Este senhor já faleceu ."Conta d. Tereza Cristina que " o finado Ferreira Brito quando prefeito oficiou ao INAMPS que ele era o responsável por tomar estas providências junto ao órgão, inclusive fazia as carteirinhas do FUNRURAL dos trabalhadores rurais com sua identificação e fotografia . Em Salvador conheceu a assistente social Arlene Chaves, que hoje trabalha na Prefeitura de Ribeira do Pombal, que colaborou muito com ele."

As animadas e famosas quadrilhas do Arraiá da Ana Brito.
Antes o João Cardoso  foi vigilante , em São Paulo, e depois apontador  quando  trabalhou  na construção  do Estádio  Serra Dourada, em Goiás. Depois na construção do Hospital Roberto Santos , em Salvador. De lá veio para Ribeira do Pombal trabalhar na terraplanagem de um trecho da BR-110. Era uma empresa capixaba  que abriu um escritório aqui localizado na Rua Joana Angélica, e já em 1980 já estava trabalhando tempo integral no Hospital Santa Tereza. 

Os pais de Cardoso do Hospital moravam numa fazenda próxima a Cícero Dantas chamada Lagoa das Madeiras. Seus pais eram Manoel Messias Durval e Joana Maria de Jesus. Foi criado lá, saindo quando completou 18 anos. Tinha sete irmãos: Valdenor, Maria de Jesus, Raimunda Maria de Jesus, Antônio, Lourival, Jumerinda Maria de Jesus e Marizete.

Lembra d. Tereza Cristina que ele "sempre foi um pai presente e tivemos cinco filhos: David Anderson Durval, Joanna D'ávila, Ana Karoline, Manoel Messias, falecido e Theo Durval. Como em todo relacionamento entre casais sempre existem as coisas boas e ruins. Mas, ele se superava com suas boas atitudes e qualidades . Até hoje os seus filhos não o esquecem. Convivemos 35 anos."

Cardoso  foi homenageado pela Prefeitura Municipal com a denominação do posto de saúde do bairro do Alto de Santo Antônio com o nome de Unidade Básica de Saúde João Cardoso Durval ( Cardoso do Hospital). O Cardoso do Hospital era natural do município de  Cícero Dantas onde nasceu no dia 10 de outubro de 1946 e faleceu no dia 15  maio de 2014, em Ribeira do Pombal. 

                                                    DEPOIMENTO DE UM FILHO

O Cardoso do Hospital e seu filho Cleisson.
O filho de Cardoso do Hospital o radialista e publicitário Vandercleisson de Souza Cardoso, conhecido por Cleisson,  lembra que  seu pai " tinha uma característica muito forte que o  acompanhou a vida inteira que era de ajudar as  pessoas. Quando ele foi trabalhar  numa empresa  como responsável pelo departamento de pessoal  começou a empregar as pessoas que conhecia .  Empregou alguns irmãos, e os amigos dele lá da roça   onde nasceu. Empregou muita gente. Tenho dois tios  que moram em São Paulo que até hoje trabalham na  construção civil e foram iniciados por meu pai. A  empresa que ele trabalhava foi construir o estádio  Serra Dourada, em Goiás, e ele foi trabalhar lá. Não  sei todos os detalhes porque eu não existia ainda. Depois a empresa ganhou a concorrência para construir o Hospital Roberto Santos, em Salvador, e lá se foi meu pai trabalhar."

"Foi casado com minha mãe Maria do Carmo de Souza Cardoso, a d. Carminha e tiveram cinco filhos: Wagner de Souza Cardoso, que faleceu antes de completar um ano; Vandercleison de Souza Cardoso , Vandercleia,Vandercleide e Vanderlândia. 

O filho que teve com a d. Zulmira Menezes, que é enfermeira em Cícero Dantas, é o mais velho vivo e chama-se David Anderson Menezes. Nasceu posteriormente ao falecimento do Wagner de Souza Cardoso, seu primeiro filho com minha mãe. Nesta cidade   abriu o Bar Cardoso, junto ao Mercado Municipal, portanto tinha uma clientela cativa. Até então  não bebia e deu para beber , vieram as farras e o bar faliu. Teve ainda outro filho com d. Jorailda  que deu o nome de  João Cardoso Durval Filho. A d. Jorailda  e o filho atualmente moram em São Paulo."

Da esquerda para direita:Joanna D'Ávila Silva Durval, David Anderson Silva
Durval,Théo Bernardo Silva Durval, Vandercleide de Souza Cardoso,
Vandercleia de Souza Cardoso, Vnadercleisson de Souza Cardoso, David
Anderson Nascimento, Cardoso do Hospital.Ao centro:João Cardoso Durval
Júnior,Vanderlândia de Souza Cardoso e abaixada Anna Karoline Silva Durval.
Continua o Cleisson "nasci em Salvador e minha mãe decidiu  ir para Cícero Dantas onde já tinham uma casa comprada . Meu pai não quis ir e veio para Ribeira do Pombal. Na época estavam asfaltando a Br-110 . Lembro que a empreteira era a Sociedade Tapajós de Mão de Obra. Pedro Gordo trabalhou com meu pai na Gurantãn, em São Paulo, e pediu a Ferreira Brito que o acolhesse. Foi assim que foi ser o secretário da Associação Santa Tereza que administrava o hospital e na época era municipal.Tinham         funcionários da            Associação e da Prefeitura trabalhando no hospital , mas eles não se misturavam . Nem na gestão porque  o setor de contas era afastado da direção do hospital. "

Ele sempre procurava viabilizar as coisas para as pessoas. Foi representante do INAMPS e ficou no hospital durante muitos anos . Devido a mudança da gestão da Prefeitura  com a chegada do Dadá a associação faliu . Depois passou a atuar como consultor dando assistência aos sindicatos rurais de Uauá, Ribeira do Amparo, Caldas de Cipó e Coronel João Sá  e se credenciou neste trabalho até morrer. Muita gente se aposentou graças às orientações e encaminhamentos de meu pai. O objetivo maior dele era de criar um posto de INSS em Ribeira do Pombal." No entanto não conseguiu concretizar este desejo. 

"Na verdade meu pai gostava muito de namorar. Embora não fosse uma pessoa bonita era jeitoso e teve quatro relacionamentos. Somos dez irmãos vivos. Minha relação com meu pai era muito boa. Sempre ia para Cícero Dantas ficar com minha mãe, tenho duas irmãs que têm quase a mesma idade e dois irmãos com o mesmo nome de David. Quando ele chegava em casa eu sentia uma sensação muito boa. Iluminava tudo na minha mente. Não sei explicar. Até amigos meus do tempo de infância se sentiam muito bem com ele."

Já minha mãe trabalhava na Prefeitura de Cícero Dantas. Vim com uns 11 anos morar com meu pai e Tereza Cristina. Depois quando cresci passei a trabalhar com ele no hospital foi quando aprendi a mexer com  computador. Só existiam poucos computadores em Ribeira do Pombal entre os quais um que era do hospital. Até hoje de quando em vez quando chego num local me identificam como  "Ah, é fio de Cardoso!".

Este é o seu Manoel Bocão , amigo de fé.
            LEMBRANÇAS DOS AMIGOS

O seu Manoel Ribeiro do Nascimento, o Manoel Bocão, de 80   anos,  foi dono de bar  Encontro dos Amigos nos anos 1970 a 80.  Seu bar era um local onde as pessoas que gostavam de uma   cerverjinha ou de uma cachacinha se encontravam para conversar,   e  o Cardoso do Hospital , que nesta época já era boêmio, também comparecia com  frequência ao seu bar.  "Ele era meu amigo, meu parente, meu   sangue, e foi meu vizinho na Rua Satíro José Santos por muitos anos.  Os filhos dele  frequentavam minha casa. Mesmo com seu falecimento   a lembrança é muito forte, inesquecível. Ele morou em quatro a   cinco casas diferentes na mesma rua. Foi comprando até   ficamos mais próximos, só tinha a casa de Manoel Messias no   meio ou seja entre a minha casa e a dele. Depois  foi morar na   Rua Ana Brito onde ficou até no dia que Deus levou. Ele não   queria sair de perto de mim."

Diz seu Manoel Bocão que Cardoso era tipo uma irmã Dulce, vivia para servir.  Meu amigo levava as pessoas para o hospital, e voltava quando estavam curadas ou medicadas para levá-las  para a casa. Lembro que  levava parturientes e depois retornava com a mãe e o filho para suas casas. Era assim que ele vivia. Também levava muita gente para se aposentar pelo FUNRURAL e o INAMPS em Alagoinhas e Salvador".

"Convivemos desde a infância em Cícero Dantas e depois viemos para cá. Cheguei aqui no dia 19 de novembro de 1968. Você sabe o que se comemora no dia 19 de novembro? É o Dia da Bandeira ! Quando cheguei trabalhei a vida inteira vendendo cachaça," e dá uma gargalhada. O seu Maneol Bocão , teve nove filhos. Diz "fui casado com a saudosa Maridália. Casei com 23 anos e ela tinha 15,  com 13 anos de casados Deus a levou . E preparou esta outra mulher, que por sinal é prima da primeira. Maria Ivanilda da Silva Nascimento, e eu a chamo  de Tia ."

"No  relacionamento com Maridália tivemos cinco filhos: Maria Magnólia Bezerra do Nascimento, Marilane, José Marques, Marilene e Ronaldo Pedro. Do segundo  com a d. Maria Ivanilda com quem vivo até hoje tivemos Marcelo Silva do Nascimento, Mirele e Manoel Junior Ribeiro do Nascimento."

O seu Pedro Contador trabalhou muitos anos com Cardoso .
Outro que era amigo  de Cardoso do Hospital é Pedro José da Silva, 66 anos, divorciado e tem dois filhos Edcarlos e Carlson . Para ele " o Cardoso não morreu . Só fez se mudar para outro plano, e a amizade está aqui no meu coração."

 Ele brincava muito com o seu  Pedro  chamando-o de Pedro Piroca e de Pedro Gordo, mas hoje todos o conhecem em Ribeira do Pombal por Pedro Contador. "Na realidade quem colocou este apelido de Pedro Gordo em mim foi seu Ferreira Brito porque trabalhávamos no Hospital Santa Tereza e tinha dois Pedros. O outro era magro e eu era gordo. O apelido foi para identificar os dois Pedros. Sou contador, mas devido a idade não estou mais trabalhando."

"Em 1975 estava morando em São Paulo trabalhando na Construtora Guarantan e numa das obras da empresa encontrei com João Cardoso , numa obra próxima a Interlagos . Fui levar um material no depósito da empresa e lá nos conhecemos. Depois fui transfeirdo para Salvador. Era ajudante de carpintaria, posteriormente passei para vigia, e encarregado da vigilância, auxiliar de escritório, e por último como encarregado do escritório. Foi em Salvador que reencontrei com Cardoso, que tinha saído da empresa , voltou e foi readmitido. Era a obra da construção do Hospital Roberto Santos. Depois saí da empresa, ele ficou até o final . Para minha surpresa outra coincidência ao retornar para  Ribeira do Pombal reencontro o Cardoso trabalhando no escritório da empresa capixaba  Madeira Indústria e Comércio , que era responsável pela construção do trecho de terraplanagem da BR-110 até a localidade de Nova Esperança , antiga Barata. Na realidade esta empresa pertencia ao grupo Goes Cohabita. Ai ele me ofereceu um emprego de greidista lá no trecho. Greidista é uma função de apontador das horas que os tratores trabalham nos serviços de terraplanagem.  Não sei porque razão a obra foi suspensa e  fiquei desempregado. Foi  ai fui trabalhar na portaria do Hospital Santa Tereza, onde fiquei um mês, depois  para o Almoxarifado, após a construção do novo pavilhão do hospital, que foi erguido pelo mestre de obras João Irênio. Meu trabalho foi sendo reconhecido e passei a ser Chefe do Departamento de Pessoal. Ai fui procurar  Ferreira Brito e pedi para contratar o Cardoso. Disse-lhe que era  um homem trabalhador, direito, filho de Cícero Dantas, já trabalhamos juntos por três vezes   e que assinava embaixo. Ai seu Ferreira me respondeu: "se você assina embaixo pode contratar, nem quero ver a cara." Então ele foi trabalhar como secretário da Associação Santa Tereza ."

Viviane Soares dançou as quadrilhas da Rua Ana Brito.
A radialista e cantora Viviane Soares  nasceu e  foi criada na Rua Ana Brito. "Nasci em casa com a ajuda de uma parteira, a mãe do Galeguinho Aboiador, conhecida como d. Zefinha Parteira. Falar  da Rua Ana Brito sem falar nele é a mesma coisa que tocar forró e não falar de Luiz Gonzaga. Uma figura que está no coração de cada um que o conheceu. Além de ter ajudado muita gente ele juntamente com sua companheira Tereza Cristina fomentaram a cultura organizando todos os anos as quadrilhas em três categorias crianças, adolescentes e adultos. Eu passsei por estas três categorias. O São João em Ribeira do Pombal nunca foi forte e nesta época então eram as quadrilhas de rua que animavam o pessoal e ajudavam até a economia porque muitos vinham vender suas cervejas, tira-gostos, doces etc. Ele nos faz muita falta. Sempre fomos vizinhos, era uma pessoa alegre que organizava as quadrilhas por prazer. Com certeza era um ser iluminado que merece todas as homenagens.. Infelizmente as quadrilhas da Rua Ana Brito ninguém conseguiu prosseguir."
"O Cardoso viveu intensamente todo tempo de sua vida"

 Finalmente a professor Kátia Santana Pereira Caetano ex-moradora da Rua Ana Brito foi também amiga  de Cardoso do Hospital e participou ativamente das quadrilhas que eram promovidas por ele e  d.Tereza Cristina. Ela disse que "falar de Cardoso é fácil porque era uma pessoa muito especial para nós que morávamos na Rua Ana Brito. Um ser humano que não media esforços para ajudar o próximo.Cardoso era uma pessoa muito alegre que gostava de viver e ele viveu intensamente todo o tempo de vida  aqui na Terra. Nos deixou muita saudade e Cardoso foi também o fundador das Quadrilhas do Arraiá da Rua Ana Brito. A nossa rua era muito parada e ele resolveu animar.  Primeiro  começou ornamentando a rua durante o São João, e em seguida teve a idéia de no ano seguinte  criar o Arraiá da Ana Brito. Então convocou crianças, adultos e os idosos, todo mundo foi convidado. Foi assim que deu início às quadrilhas que ficaram famosas na região. Fez o Casamento Caipira logo no primeiro ano. A quadrilhas foram crescendo e evoluindo. Fomos nos apresentar até em outras cidades. Cardoso era um ser prestativo que gostava de estar ao lado das pessoas, infelizmente nos deixou muito cedo".
NR-Quero agradecer em primeiro lugar ao meu parceiro Hamilton Rodrigues que dispendeu um esforço maior para colher e depois confirmar várias informações para que pudesse traduzir mais próximo da verdade possível quem foi o Cardoso do Hospital e para isto contamos a boa vontade do seu filho Cleisson. 
 

 


sábado, 19 de março de 2022

O DONO DE FARMÁCIA QUE TINHA UM ZOOLÓGICO

Marivaldo  dono de farmácia e de um pequeno zoológico.
O
nosso personagem desta semana é o José Marivaldo Ferreira de Aragão, o Marivaldo, já falecido, que durante muitos anos comandou a Farmácia Aragão, localizada na Avenida Oliveira Brito, onde se encontra até hoje sendo administrada por sua esposa Nivalda . Ele era natural da Cidade de Ribeira do Amparo onde nasceu em 31 de janeiro de 1938, filho de Antônio Ferreira de Cristo e Eleonora Sátiro de Aragão. Tinha cinco irmãos Marizete, Zafira, Maria da Penha, Dudu e Félix. Quando cresceu resolveu vir para Ribeira do Pombal em busca de melhorar de vida e trouxe seus irmãos para morar com ele. Em 1968 resolveu abrir a Farmácia  Aragão e no dia  1º de janeiro de 1973 casou-se com Nivalda Rodrigues Santana de Aragão, filha de Juviniano José de Santana e Alzira Rodrigues Santana que eram moradores de Ribeira do Pombal. Do casamento tiveram três filhos: Eleonora e Alzira, ambas farmacéuticas e Antônio Juviniano, que é médico médico psiquiatra. Os nomes dos filhos foram
Foto 1.Farmácia Aragão.Foto 2.A esposa  com os filhos.
Foto 3.Inaugurando  primeira farmácia.Foto 4. Posse
como vereador.Foto 5. Casando com d. Nivalda.
 em homenagem à seus pais.Faleceu precocemente aos 47 anos de idade,  em 9 de janeiro de 1985. No bairro do Pombalzinho tem uma Unidade Básica de Saúde com o nome de José Marivaldo Aragão, uma homenagem que lhe foi prestada em 2013.
Lembra o pedreiro e carpinteiro Simão Bispo da Cruz, de 84 anos, e também conhecido por mestre Simãozinho  da Zabumba, "conheci o Marivaldo  solteiro namorando com a menina do finado Viana e cultivamos uma boa amizade." Disse que o amigo  "era alegre e gostava de tomar uma pituzinha. Também fui amigo do seu irmão  Felix . Eu fiz uma casa para uma menina  e ele me pagava a diária e fornecia os materiais. Esta casa está em pé até hoje."
"Quanto a Marivaldo ele ajudou muito o pessoal pobre pirncipalmente do bairro do Pombalzinho, era um homem  direito, tanto ele quanto o irmão Félix . Ajudava a muita gente dava as dietas, alguns remédios e dizia isto serve para tal doença etc. Ele criou  um pequeno zoológico particular onde tinha cobra, cotia, caetitu, pavão, peru, guiné, ganso, macaco e até  salamandra . Muitas vezes  comprava os animais e também pegava até alguns feridos e cuidava.", diz seu Simãozinho da Zabumba. 
Naquela  época as pessoas criavam animais silvestres porque não existia
Simãozinho da Zamumba 
qualquer restrição oficial. Hoje todos nós sabemos que é proibido criar animais silvestres e os infratores podem até ser punidos. Prosseguiu Simãozinho "certo dia ele me chamou para atirar num caetitu porque não estava mais aguentando a criar o animal que fazia muito estrago. Peguei minha espingarda e  atirei  na testa do caitutu, e você sabe que os chumbos do tiro não mataram o bicho? Ai tive que chamar um amigo  que veio com outra espingarda e foi acertar no suvaco do caetitu já na Baixa de Zé Maurício. Olhe que minha espingarda era boa, mas não matou o caetitu. Na Semana Santa Marivaldo todos os anos dava o peixe para as pessoas e presentes para as crianças do Pombalzinho. Fomos amigos por cerca de 30 anos, até ele falecer. Foi uma grande perda," confessa Simãozinho.

Sebastião e Maria José.
  Já o amigo Sebastião de Almeida Gama, nascido em 5 de novembro de 1949 recorda que quando Marivaldo fundou a farmácia Aragão , existiam poucas farmácias na Cidade. Médicos também tinha o dr. Décio de Santana, dr. José Nelson e o médico do povo que era Wilson da Farmácia e Marivaldo que também indicava os medicamentos. Quando chegava uma pessoa querendo um medicamento para um parente que estava passando mal e não tinha dinheiro ele fornecia o medicamento , e dizia : quando se recuperar você vem e me paga. Por isto muita gente é grata a ele por atitudes como esta que costumava tomar. Foi vereador da Cidade e gostava muito de festas. Outro detalhe de sua vida é que foi escolhido várias vezes como paraninfo de formandos em datilografia e professora. Naquela época a formatura em Datilografia era comemorada cuja escola era de Manoel Messias e de sua esposa Almerinda que também tinham o escritório de contabilidade. Com o falecimento deles este escritório passou para mim e Maria José, minha esposa. Um detalhe é que continuamos a fazer a contabilidade da Farmácia Aragão até a presente data". 
Marivaldo  com  Zé Enfermeiro.
Lembro que ele foi paraninfo de uma turma de dez professoras pombalenses e fez uma festa contratando o conjunto Los Guaranis. Foi uma festa inesquecível que amanhecemos o dia comemorando. Até hoje lembro da alegria das pessoas."Ele foi meu padrinho de casamento no dia 19 de fevereiro de 1977, e me deu uma viagem para Caldas do  Jorro onde nos hospedamos num hotel que ficava na praça principal, que pertencia a uma professora, já falecida."
 O seu Jacinto dos Santos Anchieta, nascido em 3 de julho de 1945, era também amigo de Marivaldo Aragão. Ele mora no bairro do Pombalzinho onde  o amigo  comerciante tinha uma chácara. "Pombalzinho era uma roça, hoje virou um bairro com muitas casas e gente morando. Diz  que seu amigo Marivaldo cuidava dos animais e das pessoas. Foi um guerreiro, um homem que progrediu aqui, ajudou muita gente. Na chácara que até hoje pertence à família  recebia as pessoas e mantinha o seu zoológico onde criava muitos bichos. Muitas vezes pegava os animais nas mãos de pessoas que estavam maltratando e até comprava para depois soltar na natureza. 
O amigo Jacinto dos Santos.
O farmacêutico Roberval Santos dos Anjos, proprietário do Laboratório Elab, natural de Salvador, do bairro de Cidade Nova, hoje  com 70 anos de idade, logo que se formou em Farmácia e Bioquímica veio morar em Nova Soure. Lá conheceu o comerciante pombalense Antônio  Passos Nobre  que foi até àquela cidade atrás de seus serviços profissionais, e o convidou para conhecer Ribeira do Pombal mostrando que era uma Cidade mais desenvolvida , com uma população maior . Convencido, veio e conheceu o Marivaldo Aragão quando acertaram para ele ser o farmacêutico, atendendo a uma exigência legal, que obriga cada farmácia ter um farmacêutico formado como responsável. Marivaldo era muito entrosado na comunidade. "Vim uma vez aqui convidado para participar do seu aniversário e tinha um jogo de futebol, e nesta época eu jogava bola. Foi ai onde conheci o Marivaldo,sintopor  ele ter tido uma vida curta .Trabalhamos juntos alguns anos e comecei logo depois que o farmacêutico Jonas Santos, que era natural do Rio de Janeiro, resolveu voltar para sua terra. Foi aí que fui convidado para assumir. Antigamente o profssional podia ser responsável por três
O farmacêutico Roberval .
 farmácias, depois passou a duas , e hoje cada farmácia tem que ter um farmacêutico responsável, isto ocorreu devido o número de novos profissionais formados nas várias escolas de Farmácia que surgiram depois", explica Roberval dos Anjos. 
Ele é casado com Maria das Graças Oliveira dos Anjos , que  é também de Salvador, e tem dois filhos, sendo que o mais velho é farmacêutico também chama-se Caio Moreno Oliveira dos Anjos, e o segundo Iuri dos Anjos é administrador de empresas e educador físico. É quem cuida da parte administrativa do laboratório. "É ele quem direciona todos os serviços para a gente trabalhar. Temos vários pontos de coleta aqui em outras cidades, inclusive mais recentemente em Jeremoabo. Atendemod em  Nova Soure,  Cipó, Ribeira do Amparo e Banzaê e já contamos com mais de 30 funcionários", diz Roberval. dos Anjos.
NR - Quero mais uma vez agradecer ao meu parceiro Hamilton Rodrigues e a todos que vêm de alguma forma colaborando para que possa escrever esses textos registrando os nomes dessas pessoas que deixaram um legado para a nossa Cidade. Aos que se negaram a colaborar deixo aqui uma mensagem simples: Procurem melhorar .

sábado, 12 de março de 2022

KOIÓ O ANIMADOR DOS CARNAVAIS

 
 
Koió é um ex-bancário,dono de casa lotérica e também 
o grande animador dos carnavais e das festas juninas. 
Quando alguém pensa em carnaval e nas festas   juninas  em Ribeira do Pombal das últimas décadas   vem logo à tona o nome de Koió o verdadeiro   animador dos carnavais e do São João, além de   jogador de futebol  . Chama-se   Antônio José   Borges  da Silva, nascido em 27 de   agosto de 1957,   tem 64 anos de idade ,filho de Evandro Silva e d. Raimunda Borges. Pai de três   filhos Itana   Francisca, Evandro e Indira Borges   da Silva , tem   ainda  três irmãos José Evandro,   Maria  Eunice e   Maria Lutegardes Borges da Silva.   É  casado com   Tereza Cristiana Almeida Barbosa, há   35 anos, com   quem tem dois filhos . Antes do   casamento  nasceu a filha Itana Francisca .  Lembra   ter "brincado muito durante a sua infância e também de ajudar seu pai vendendo na padaria, que tinha na então Avenida Santa Cruz, hoje Avenida Evência Brito. Íamos para roça juntos . Meu pai além da padaria possuía  uma fazenda no Bodó, outra pequena nas Barreiras e um brejo."

 Koió em plena folia com os  Amigos do Mané
Foi trabalhar na Ematerba através José Borges Ribeiro, que era o  Gerente Regional, e isto aconteceu por indicação de seu amigo  Rogaciano Brito,já falecido. Depois fez o concurso do Baneb,  sendo  aprovado e tomou posse em 1980. Quando o Baneb foi  vendido ao Bradesco lhe chamaram e mandaram escolher entre ir  para as cidades de Pedro Alexandre ou Macururé, foi ai que  escolheu Pedro Alexandre, por ser mais perto, onde foi ser  gerente. Disse ter sido  vítima de vários assaltos, e que a cidade  de Pedro Alexandre sempre foi alvo constante dos assaltantes.
"Lembro que vinha na estrada voltando para a agência em Pedro  Alexandre depois de pegar um dinheiro em Jeremoabo . Notamos  que no retorno tinha um carro parado num restaurante  no entrocamento da cidade de Jeremoabo. Aí logo depois o  motorista percebeu que estávamos sendo seguidos e quando  entramos na estrada de barro  depois de uns dez quilómetros  vinha este carro atrás da gente numa velocidade incrível. Ele  passou pelo nosso carro e parou na frente uns cinqneta metros e  um dos  bandidos já desceu com uma arma na mão. Aí o  motorista deu um cavalo de pau e voltamos para Jeremoabo. Nos  livramos deles. Porém, um mês depois  voltaram e assaltaram a agência, dando tiros para todo lado e um cliente foi assassinado dentro da agência. Levaram na época R$39 mil e poucos reais."

Koió num dos bailes pré-carnavalescos dos Amigos do Koió
uma iniciativa de  Hamilton Rodrigues que aparece na foto.
 Após o assalto em Pedro Alexandre o transferiram   para a cidade de Casa Nova, na região do alto São   Francisco. Era uma agência melhor, foi uma espécie   de promoção. Até que gostou da Cidade, mas surgiu   a oportunidade de comprar a lotérica, por isto   retornou para Ribeira do Pombal. Isto aconteceu em   2004, e hoje temos sete colaboradores.  "Levei mais   de 30 anos no banco . Quando meu cunhado João   Moraes anunciou que ia vender a sua Casa Lotérica,   combinei com ele que ia pedir demissão para poder   comprar.", diz Antônio Borges, o Koió.
 "Mesmo assim não me livrei dos assaltos. Já fomos   assaltados três vezes. Um dia estava abrindo a Casa   Lotérica mais cedo para adiantar o pagamento das   pessoas que vinham receber o Bolsa Família, quando fui assaltado por dois marginais. Um estava na fila e o outro na porta. Tinha pouca gente neste dia. O cara foi para o guichê e apontou a arma para mim mandando que abrisse  porta para ele ter acesso ao interior onde ficam os caixas.  Ele ficou nervoso e deu pontapés na porta e eu gritava. Calma rapaz, estou procurando a chave. Mas, estava era ligando para o 190, infelizmente  não me atenderem. Abri e ele levou tudo que tinha. Graças a Deus estava dentro do limite e o seguro cobriu. Perdi só a franquia.", confessa o Koió. 

Ele recorda  de outra vez quando ia conduzindo um o malote e o  assaltante o seguiu. Ao chegar em frente da Loja  Honda o cara botou o revólver no seu rosto e tomou o malote .  Outra vez, o bandido entrou por uma pequena janela, da sua Casa Lotérica, cortou a fiação dos alarmes e das câmeras , ai pulou. Chegou a se cortar, e com um pé de cabra abriu o cofre e levou todo o dinheiro, também estava dentro do limite.

FUTEBOL,CARNAVAL E SÃO JOÃO

Foto 1. A turma que depois de jogar ia tomar  Visgueira.
Foto 2. 
Koió  é o terceiro em pé ao lado do goleiro.
Koió na realidade é um bom vivant, é um animador  de festas por natureza. Sempre gostou de jogar
futebol, de brincar o carnaval, e das festas
juninas . Confessa que gostava muito de jogar  futebol, e através da bola conseguiu um emprego em  Estância , no Estado de Sergipe. O Santa Cruz era  um  time de lá . Foi trabalhar na Sogipe empresa que  era do mesmo dono do Santa Cruz. O salário era  apenas da loja, não recebia nada do time. Era um  time  do Acesso e terminou relaxando não indo aos  treinamentos até  desistir. Também, jogou na Seleção  de Ribeira do Pombal, quando chegaram  a disputar  até o Intermunicipal, mas  foram eliminados. Nunca  quis ser presidente de time nenhum. Sempre ajudou a  Liga Municipal e outros times, mas nunca quis tomar  a frente, e é um torcedor fervoroso do Bahia, também  conhecido por Sardinha. 

Para brincar os carnavais criou o  Bloco Os Amigos do Mané . Surgiu de  um grupo de amigos  que se reunia para tomar umas cervejinhas no Bar do Mané. Certo  dia  eu, Deraldo, Besouro, Renato Souza e outras pessoas resolvemos fazer um bloco de carnaval. Isto aconteceu  em 1975 e começamos a sair com uma charanga nosssa mesmo com percussão e sopro. Foi crescendo aí contratamos o Carrinho da

Foto 1.Kóió , a esposa Cristiana e os filhos Indira e Evandro.
Foto 2. Koió com esposa,sua filha Itana e netos Theo e Luca.

Pitu, que sempre vinha para as festas de 15 de Outubro. Contratamos este carrinho durante três anos seguidos. O bloco foi crescendo a cada ano e passamos a contratar trios elétricos. Entre os trios contratados lembro do Valneijós e Jóia, tínhamos o patrocínio da Pombal Motor, de Wilson Brito, e os donos desses trios pegaram muita amizade com a gente. Só não participamos de duas Micaretas promovidas pelo então prefeito Dadá, acho que foi nos anos de 2002 e 2003", recorda  Koió.

Também para as festas do  São João o animado Koió criou um grupo Os Amantes  do Forró. Era também um grupo pequeno. "A gente estipulava o número de pessoas e aí quando outra queria entrar , tinha que vir no lugar da que tinha saído. Não queríamos aumentar o número.  Primeiro saíamos em cima do caminhão de Daniel. Usávamos a minha casa, a de Pedoca, a de Junior Cabeção para a festa . A gente começava bebendo por volta de 3 horas da manhã. O café era em minha casa, a merenda  na casa de Pedoca e o almoço na casa de Júnior Cabeção. No bar de Zé da Floresta iniciávamos com a bebida para animar a rapaziada.  Depois o pessoal começou a querer ganhar dinheiro com Os Amantes do Forró e aí complicou a coisa. Cresceu demais e vieram os problemas. O que eu gosto mesmo é da alegria, da festa. Soube que o Zé da Floresta depois desta pandemia quer reativar Os Amantes do Forró." 

Foi também um dos fundadores do Clube Visgueira . Onde tem folia lá está o nosso personagem distribuindo a sua alegria. A gente batia um baba eu , Nazareno e uma turma e depois ia tomar umas cachaças no Bar de Bebequé. A cachaça era uma mistura que Bebequé fazia e tinha o nome de Visgueira. Este nome Visgueira era porque a cachaça era boa e a turma sempre voltava para beber. Um dia alguém surgiu com a idéia vamos fundar um clube. Vamos!  Todos concordaram. Naquela época tinha esta amizade e se alguém dissesse vamos arrecadar uma grana para fundar um clube todos se dispunham a colaborar. Em pouco tempo a gente conseguia o dinheiro. Foi assim que conseguimos criar o Visgueira. Sou sócio patrimonial remido. Não gosto de participar de diretoria. Fui diretor algumas vezes  de Esportes, Social, e fui vice quando Waltinho da Cascata foi escolhido e disse que só assumia a presidência se eu fosse ser o vice. E assim fui . Tive problema de saúde e fui me tratar em  Aracaju, aí ele ficou sozinho,"diz Koió.

AS AMIZADES

   
Aí os Amantes do Forró se preparando para iniciar a festa.
O comerciante e animador José Alberto César, o Zé da Floresta, de 79 anos, é um amigo de fé de Koió. "Fundamos o Visgueira , também dos Amigos do Forró . Ele chamava as bandas e tinha muita credibilidade com o pessoal das bandas. Lembro que a Los Guaranis veio sem contrato, sem  nada  só com a palavra dele para se apresentar no Visgueira. Koió trouxe muitas atrações para se apresentar no Visgueira,  quando  era um Diretor Social . Era muito ativo. Ficamos uns quatro anos eu como presidente e ele Diretor Social. Foi uma época boa e de muitas festas no clube ".
 
Amigos Totonho (em pé) e Enchente falam da
alegria e da bondade de Koió com os pobres.
 "Nos Amantes do Forró eram uns duzentos integrantes e ele fazia comida para quatrocentas pessoas.Sobrava muita comida e o povo ia para bagunçar. Fomos obrigados a cortar o almoço. O Júnior Cabeção também mandava fazer  muita comida, que sobrava. Eu fazia também, mas todo mundo comia, porém, não ficava sobrando. Tinha o cuidado de controlar para evitar bagunça de gente de fora. O Koió é uma pessoa que ajuda os amigos quando estão em dificuldade. Quem não gostar de Koió não gosta de ninguém. Não se mete muito em política, vota mais não fica enchendo o saco de ninguém", conclui Zé da Floresta.

Já o José Alberto Rodrigues Santana, de 66 anos,  conhecido por Albertinho, é outro amigo de Koió. Ele é  eletricista  e considera que "o Koió  é o melhor cara do  mundo. Se precisar dele pode contar que vai lhe ajudar. É  muito animado e brincalhão e somos amigos desde criança.  Eu era goleiro nos times e ele jogava no centro.Se precisar de um remédio, de uma luz para pagar ele ajuda. Assina rifas, tudo ele está tentando ajudar. Fui padrinho de casamento dele, somos primos e ele batizou meu filho mais velho , o Tiago."

O que aparece sentado, é o Enchente, batizado Antônio Carlos Rodrigues de Almeida,  que corrobora a bondade de Koió que ajuda menino, véio, preto, branco. Era um bom jogador, um cabeça de área de primeira". O Antônio Silveira Bitencourt, 73 anos, conhecido por Totonho da Borracharia também repete quase as mesmas palavras sobre a figura do Koió. 

NR- Mais um texto em parceria com Hamilton Rodrigues que publicamos, agora sobre este personagem ímpar que é um ex-bancário, comerciante e um animador espontâneo do carnaval e das festas juninas em Ribeira do Pombal. Tem uma extensa rede de amizades e sempre procura atender àqueles que o procuram por alguma necessidade.