Objetivo


segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

CINEMA - GLÁUBER ROCHA: SUA OBRA EXIGE UM ESPAÇO DIGNO

Publicado em 3 de dezembro de 1982.
Texto Reynivaldo Brito
Fotos A Tarde


No dia 22 de agosto do ano passado morria no Rio de Janeiro o mais discutido e aplaudido cineasta do Terceiro Mundo, o Baiano Glauber Andrade Rocha, e, em Salvador, no ex-Cine Guarani, hoje Cine Glauber Rocha, ocorreram recentemente uma exposição, uma mostra retrospectiva de seus filmes e alguns debates entre cineastas que viveram experiências juntamente com Glauber.


Na foto Gláuber filmando em frente ao Museu de Arte Sacra com figurantes da Idade da Terra. Nestas filmagens ele teve um desentendimento com o então diretor do museu o espanhol valentin Calderon.

Mas, nenhum estudioso da cinematografia nacional conhece tão bem a obra de Glauber como sua própria mãe D. Lúcia Rocha, que antes de ser mãe do cineasta deve ser vista como uma artista, responsável que foi pelo figurino de vários de seus filmes. Ela está presente a todos os acontecimentos que envolvem a vida e a obra de seu filho. Participa de opiniões, relembra fatos e agora está voltada para a concretização de uma idéia que é a criação de um espaço onde seja reunida a obra poética e cinematográfica deste baiano da cidade de Vitória da Conquista, reconhecido em todo o mundo como um dos mais inovadores diretores de cinema das últimas décadas.

                                                       INQUIETAÇÃO

- Desde os primeiros anos notei que Glauber não tinha o mesmo comportamento de seus primos. Vivíamos na cidade de Vitória da Conquista e lá os meninos normalmente gostam de montar cavalo, caçar e jogar bola. Glauber, porém, gastava o seu tempo lendo e consumia muitas horas folheando revistas em quadrinhos. Ele também leu muitos livros antes tidos como leitura para adultos. Leu a Bíblia muito cedo e discutia muitas de suas passagens. A leitura da Bíblia foi uma coisa quase natural pois sempre fomos presbiterianos e ele fazia muitos sermões sobre o que encontrava de interessante.



DESIGUALDADES


Lembra D. Lúcia ( foto)  que certa vez Glauber chegou em casa aborrecido: “Minha mãe como pode o prefeito ter uma casa tão grande e tão bonita e o tio Antonio não ter onde morar?”. Expliquei o porquê e ele ficou ainda inconformado. O tio Antonio de que falava era um empregado que morava numa pequena fazendola de propriedade da família Rocha., o qual tinha na época 12 filhos menores e vivia numa miséria terrível. Isto demonstrava, segundo D. Lúcia Rocha , que seu filho era um inquieto e inconformado com as injustiças do mundo. Esta inquietude fez com que saísse da escola regular e passou a ser alfabetizado em sua própria casa. E já perto de fazer admissão queria discutir a todo custo o descobrimento do Brasil, porque não aceitava a versão de que nosso país foi descoberto por acaso. Quando seu velho pai, Adamastor Rocha, mandava que fosse ajudar na loja ele ficava o tempo inteiro desenhando quadrinhos no rolo da máquina registradora com legenda e tudo que depois passava lendo para membros de sua família.Foi naquele instante que percebi que meu filho ia ser cineasta. Ele sabia nomes de diretores, assistentes, produtores de cinema de várias partes do mundo. E nestes filmes que desenhava no rolo da máquina os personagens eram pessoas da família e de suas ralações.”
Glauber crescia e a família teve que procurar a cidade grande para educá-lo . Assim o Sr. Adamastor e D. Lúcia vieram com seus filhos e se estabeleceram no bairro da Mouraria, em pleno centro de Salvador. Glauber, como todo bom protestante que se preza foi estudar no Colégio Dois de Julho, que na época tinha uma educação fundamentada em colégios protestantes americanos. Estávamos por volta de 1946. Lá ele escreveu uma peça intitulada “Llito, o príncipe de ouro", que montou juntamente com seus colegas. Ele fez o papel de príncipe e D. Lúcia Rocha fez o primeiro traje para o artista que iniciava sua carreira. Nesta época, lembra sua mãe, a professora Maria Nazaré Seixas me chamou e disse: “D. Lúcia descobri um artista. Ele será um grande artista, um gênio.” Ao que D. Lúcia retrucou : gênio ou genioso?
Foi neste ambiente protestante e lendo a Bíblia que Glauber, aos 13 anos de idade, concluiu o seu curso ginasial sendo o orador da turma. D. Lúcia ainda guarda o seu discurso que em certo trecho diz : “Colegas, parar agora seria fatal. Agora que tomamos o primeiro impulso, mais do que nunca necessitamos mergulhar nos mistérios dos livros, procurando com mais afinco o roteiro que nos levará, não mais a uma simples e primeira parcela, mas sim ao todo do tesouro maravilhoso, o mais valioso dos tesouros, o tesouro que o futuro guarda carinhosamente para todos nós que é o tesouro da sabedoria”
Glauber, o discutido jovem, sempre acreditou em Deus, diz D. Lúcia. Acreditava e muito. Sempre, desde criança, conversávamos abertamente sobre seus problemas e posso
afirmar que dos cineastas que conheço foi o que mais pregou o nome de Deus. Basta lembrar os temas e os nomes de seus filmes. Até em Barravento, onde ele mostra sua visão sobre o candomblé baiano, o nosso Deus está presente. Ele sempre dizia que “a minha igreja não tem portas”. O que existia de diferente nele é que era um crente fora dos padrões a que estamos acostumados conviver.
Voltando a falar de Glauber ainda adolescente, sua mãe lembra que depois de viver naquele ambiente burguês e de uma disciplina protestante severa ele matriculou-se no Colégio Estadual da Bahia ( Central) . “Foi uma decisão pessoal de Glauber que ira conviver com pessoas carentes e inteligentes, explica D. Lúcia. Ali sua criatividade cresceu. Participou de vários movimentos culturais no grêmio do Colégio da Bahia juntamente com Paulo Gil Soares, João Carlos Teixeira Gomes, Fernando Rocha, Calasans Neto e outros, hoje professores universitários, escritores e artistas baianos. Juntos fundaram a Jogralesca que foi um movimento cultural importante na Bahia. Mais tarde terminou o curso clássico e fez vestibular para Direito, sendo aprovado.

                                                                BOM FILHO

Um jovem tão inquieto que só queria saber de arte era um bom filho? Bom é pouco, revela D. Lúcia . Glauber era um filho extremado, inteiramente voltado para a família. Era muito atencioso comigo e com o pai. Quando meu esposo sofreu um acidente automobilístico e ficou inutilizado para o trabalho, Glauber sofreu muito. Quando em 1952 faleceu sua irmã Ana Marcelina de apenas 10 anos, de leucemia, seu sofrimento foi pior ainda. Lembro que ele fez na época um poema que ainda guardo. Quer ver? Antes que respondesse D. Lúcia desapareceu no corredor e retornou minutos depois com um papel datilografado: era o poema "Anunciação”, que diz em seus primeiros versos: “Nasceu de mim / Verdes naus em Floração / Sendo mais raivosos quão”. Glauber não se conformava com a morte da irmã e tivemos que mudar de casa. Fomos morar nos Barris e como as dificuldades financeiras aumentavam resolvi abrir um pensionato. O velho Adamastor continuava doente e D. Lúcia lutava sozinha para sustentar a casa. “Mas nunca deixei de dar toda a força a Glauber.” Lembra da dificuldade para que seu filho freqüentasse a Faculdade de Direito. Mas, logo depois começou a namorar Helena Inês que também estudava por lá e meses depois estavam casados e vieram morar na pensão de D. Lúcia.
De repente ela atalha e relembra que antes disto, logo que passou no vestibular, Glauber foi premiado com uma viagem ao Rio de Janeiro. As coisas tinham melhorado um pouquinho com a pensão e ele ganhou a viagem por ter sido aprovado no vestibular. Foi para o Rio de Janeiro e de lá fez uma carta pedindo Cr$500,00 para comprar um carro. “Como eu tinha umas economias devido a venda de algumas coisas que tinha em Vitória da Conquista, prometi que enviaria o dinheiro e assim fiz. Mas, quando ele retornou veio de navio e eu sempre indagando pelo carro. Foi quando ele me disse: "está aqui dentro”, apontando para sua mala. Quando chegamos em casa ele abriu a mala e ficou em minha frente com uma máquina, que era sua primeira câmera. Rimos muito. Foi com ela que ele iniciou as filmagens de “Barravento” e fez um pequeno filme com Helena Inês que é um ensaio de expressão corporal intitulado “Pátio”.
Outro fato curioso que ela lembra é que naquela época os calouros eram vítimas de trotes muitas vezes violentos nas escolas universitárias. “Certa vez, o Glauber me disse : mamãe ninguém vai raspar a minha cabeça. Não vou deixar que imbecil nenhum coloque a mão em minha cabeça. E, assim mandou que um barbeiro amigo cortasse bem baixinho o seu cabelo. Como vemos, tudo aconteceu muito cedo na vida de Glauber, mas nunca podia imaginar que sua morte também fosse ocorrer tão cedo. Basta dizer que foi nos primeiros meses da Faculdade de Direito que ele conheceu Helena Inês e com pouco tempo estavam casados. Vieram morar conosco, como já disse anteriormente e quando se separaram Paloma ficou em nossa casa. Hoje ela está uma moça e estuda Medicina, na Universidade Federal da Bahia. Assim ele trancou sua matrícula no terceiro ano de Direito e foi fazer “Deus e o Diabo na Terra do Sol”. Foi uma luta muito grande porque o produtor do filme Luiz Augusto Mendes, não tinha dinheiro para investir muito e Glauber ficava muito angustiado com as dificuldades. Quando ele terminou o filme mudamos para o Rio de Janeiro. Foi muito difícil no Rio. Sempre vivemos com dificuldades, e ali elas aumentaram. Eu continuava fazendo as roupas e ajudando não somente a Glauber como a Nelson Pereira dos Santos, Joaquim Pedro de Andrade e outros nomes ligados ao cinema novo. Quando ele foi fazer “Terra em Transe” já estava casado com Rosa Maria Pena, com quem viveu seis anos. Não tiveram filhos”.


                                                    PROBLEMAS POLÍTICOS

D. Lucia lembra dos dias tristes que viveu quando Glauber Rocha juntamente com outros intelectuais foram presos. “ Durante 17 dias fiquei sem saber onde ele estava. Resolvi procurar o ministro Juracy Magalhães que mandou um bilhete e terminei localizando Glauber, que estava preso juntamente com Carlos Heitor Cony, Thiago de Melo e outros. Quando foi solto ele terminou o filme que levou quase clandestinamente para fora do país, foi para a Itália e não pode mais voltar. Ficou sete longos anos no exterior, trabalhando e mostrando através dos seus filmes toda a inquietude que sempre foi uma marca registrada de sua personalidade. Na Europa ele rodou “O Leão de Sete Cabeças”, “Claro”, “Câncer”, “ABC do Brasil e Cabeças Cortadas”. Antes ele voltou uma vez ao Brasil e fez “O Dragão da Maldade Contra o Santo Guerreiro”. Nesta época brigou muito com a censura e retornou à Europa.
Conta D. Lúcia Rocha que “nesta ocasião sofri muito. Me dói muito lembrar que muitos o tacharam de louco. Mas ele era um gênio e como todo gênio foi incompreendido”. Ela relembra chorando que foi trabalhar na TV Globo para sustentar a família e sempre mandava algum dinheiro para ele, principalmente nos primeiros meses de exílio. Ela trabalhava tanto que adoeceu, e foi através do cineasta Luis Carlos Barreto que Glauber conseguiu retornar para junto de sua mãe doente. Em outubro de 1976 ele chegou e ela foi operada do coração em São Paulo devido à interferência de seus colegas de profissão, pois não tinha dinheiro suficiente para custear a operação. Ele chegou desconfiado, pois a situação política ainda estava tensa e não tinha passaporte.
Mas aconteceu outra desgraça em sua vida. Anecy Rocha, sua irmã e amiga, caiu no poço do elevador de um prédio. Ele estava escrevendo “Riverão Sussuarana”e no final do livro ele conta a morte de Anecy. Ficou inconformado e acusou na época o cineasta Walter Lima Júnior, então esposo de Anecy de tê-la jogado no poço. Morreu convicto que Walter assassinara sua irmã, embora a polícia não tenha comprovado nada. Um ano após, morreu Adamastor, seu pai, e onze meses depois Glauber retornava ao Brasil, vindo a falecer no Rio de janeiro.
Glauber tem ainda, além de Paloma, mais dois filhos menores de sua ligação com Paula Gaitan que são Erick Aruake e Ava Pátria Índia Iracema, e Pedro Paulo, de 7 anos de idade, com outra mulher, que hoje é funcionária da Embrafilme.
      A visão do cineasta de formação protestante sobre o candomblé baiano em seu filme Barravento

                                                        SUA OBRA

Conhecedora profunda da obra do filho, D. Lúcia tem inúmeros poemas, peças e outros escritos feitos por Glauber. Ela pretende instalar um centro cultural que cultue a memória de seu filho. Para isto conta com o apoio de intelectuais baianos e do governador Antonio Carlos Magalhães que está empenhado em sua concretização. D.Lúcia lembra que “sempre que ele viajava dizia : minha mãe leve meu material para a Bahia. Deixe tudo lá. E para satisfazer seu desejo fiz três viagens de ônibus trazendo várias malas com coisas dele. Certa vez trouxe 16 malas e fui presa na Rodoviária, confundida como boutiqueira, que compra roupas em São Paulo e Rio de Janeiro para vender aqui, devido ao número excessivo de malas. Mas estou com grande parte de sua obra, embora saiba da existência de outros materiais no exterior. Assim, pretendo que a memória de Glauber seja cultuada à altura de sua importância para a cultura deste país. Não falo apenas como mãe, mas também como admiradora da obra deste que foi e sempre será o mais ousado dos cineastas brasileiros”.
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