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segunda-feira, 26 de setembro de 2011

RELIGIÃO - COMUNIDADES ECLESIAIS PREGAM A AUTOLIBERTAÇÃO PARA O HOMEM

A TARDE- SEXTA-FEIRA, 12 DE JANEIRO DE 1979
Texto Reynivaldo Brito

O Diretor do Centro de Estudos e Ação Social, padre Cláudio Perani, revela que as Comunidades Eclesiais de Base existentes em todos os país variam muito em suas fórmulas, aspectos e condições, porém, todas estão inspiradas no Concílio do Vaticano II e defendem a libertação do homem por seu próprio esforço. Isto, inclusive, pode ser constatado na Bahia através do trabalho exercitado por alguns padres, em sua grande maioria jovens e estrangeiros que sempre estão presentes nos bairros e localidades esquecidos dos poderes públicos. Eles vivem e sentem o problema de perto e mostram aos populares a necessidade de uma ação para que as medidas e soluções sejam tomadas por quem de direito. Um exemplo é o trabalho que vem sendo desenvolvido junto às populações que lutam por uma moradia. Salvador, hoje apresenta um alto índice de falta de habitação, e constantemente a imprensa está noticiando mais uma invasão de terrenos pertencentes à Prefeitura Municipal ou grandes proprietários, e quando a polícia é acionada para expulsá-los geralmente o pessoal integrante das comunidades eclesiais procura amenizar o sofrimento desta gente através uma série de atitudes consideradas válidas e indispensáveis.
Diz o padre Cláudio Perani que as Comunidades de Base têm como uma de suas principais funções o desenvolvimento da consciência política, mas são apartidárias e não ideológicas. Apenas, elas despertam o povo para os seus direitos. Com isso, desencadeiam um processo de reflexão crítica sobre a realidade dos problemas locais e as causas dessas realidades. Para ele, não são novidades as Comunidades. Elas existem no Brasil há alguns anos como uma renovação como uma esperança eclesial. Elas começaram na década de 60, impulsionadas sob orientação da CNBB através de seu Plano de Emergência e do Plano Pastoral de Conjunto.
Outros consideram que as Comunidades de Base vão aos poucos substituir as paróquias, que de uma maneira geral não têm uma identificação maior com as populações. Elas são mais vivas e atuantes e, atualmente, encontram-se numa fase amadurecimento, pois já contam com fracassos, sucessos e experiências de alguns anos.


NA BAHIA

Na Bahia não existem muitos padres operários, lixeiros, e em outras atividades comuns ao homem das classes média e baixa. Apenas dois padres trabalham em indústrias, mas negaram-se terminantemente a dar qualquer declaração porque “assim prejudicaria o nosso trabalho”. Eles trabalham como operários e a direção das fábricas não tem conhecimento de sua real condição de padres. São simplesmente operários, vivem os mesmos dramas do baixo salário, alimentação ruim, transporte difícil, moradia sem as mínimas condições. Sua missão consiste mostra a seus colegas as reivindicações que devem fazer para melhorar as condições de trabalho.
Outros estão intimamente ligados aos bairros populares e fazem um trabalho mais de assistência social, mantendo e orientando as populações, ensinando mulheres a costurar, homens a trabalhar com eletricidade, carpintaria e assim por diante. A atuação que caracteriza mais a Comunidade de Base é a exercida junto aos invasores. Chegaram a publicar um livreto “Subsídios para uma história das invasões e dos desabrigados de Salvador” depois que “um contato direto com a amarga realidade das vidas de dezenas de famílias, passando pelas privações, sofrendo as consequências do desabamento de seus humildes lares, por longos meses numa persistente espera de um abrigo definitivo, nos mostrou a necessidade de levar toda a verdade de seu drama à população da capital baiana, para desperta-la na busca de uma solução conjunta para o problema habitacional das massas pobres”.

RENOVAÇÃO

Os integrantes das Comunidades de Base já realizaram três encontros. O primeiro realizou-se de 6 a 8 de janeiro de 1975, com a participação de representantes de comunidades do Brasil inteiro; o segundo teve lugar também em Vitória do Espirito Santo de 29 de julho a 1 de agosto do ano seguinte, com a presença de representantes e membros de 24 Igrejas do Brasil, num total de 100 pessoas, e o terceiro ,de 19 a 23 de julho do ano passado, em João Pessoa.
O padre Cláudio Perani continua afirmando que não é fácil ter um quadro objetivo da situação das CEBs, porque é uma realidade muito diversificada devido a várias interpretações esboçadas. Mesmo ficando no âmbito das camadas populares – uma Igreja que nasce do povo – atrás da palavra CEB encontramos estruturas e orientações bem deferentes, algumas vezes a palavra querendo indicar uma renovação mais profunda, um conteúdo verdadeiramente novo, outras vezes simplesmente acompanhando a moda teológico-pastoral e encobrindo o conteúdo de sempre – rótulo novo em garrafa velha. Para Perani hoje o termo CEB não é discriminatório de uma tendência renovadora na Igreja brasileira, mas se deixa perpassar pelas várias orientações que diversificam as atuais tendências dentro da Igreja.
O padre Cláudio Perani entende que o esforço de democratização da Igreja, dando maior espaço às suas bases, não somente determina uma renovação interna, mas também tem reflexos muito importantes para a sociedade toda. O critério fundamental deve ser a opção pelo povo – na linha de escolha preferencial do Evangelho pelos pobres – considerando na sua situação concreta e no processo, de libertação. Dai a importância das CEBs abrirem-se para temas concretos: salário, custo de vida, saúde, educação, moradia, sindicato, politica...Daí, também, a necessidade de reconhecer a consciência crítica do povo e de favorecer ações de reivindicação que façam crescer a solidariedade de classe. “Sem reduzir a missão da Igreja, ocultando sua dimensão de fé”.
Num longo artigo escrito para um dos números do Caderno do Centro de Estudos e Ação Social, o padre Cláudio Perani levanta vários aspectos com relação às CEBs, dizendo, inclusive, que hoje no Brasil a presença das CEBs começa a ter um peso político, e tal conteúdo político sempre existiu porque não há discurso ou eclesial – enquanto discurso religioso histórico – que seja neutro e não tenha incidência política. A novidade que preocupa certos setores consiste na mudança deste conteúdo político. Uma Igreja mais hierárquica e autoritária é levada mais facilmente a apoiar a autoridade civil e, como se constatou na história, torna-se sustentáculo do poder reinante. Na medida em que as CEBs, mesmo ficando numa problemática interna, realizarem uma Igreja mais popular e democrática, que questione o poder hierárquico, poderão quebrar tal solidariedade entre a Igreja e o Estado e tornar-se-ão elementos de oposição na sociedade. “Este é o primeiro aspecto da problemática politica”.
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