Objetivo


segunda-feira, 26 de setembro de 2011

ARTES VISUAIS - OBRA DE YEDAMARIA ESTUDADA NUMA UNIVERSIDADE AMERICANA


ARTES VISUAIS
A TARDE – TERÇA-FEIRA, 26/02/1991
Texto de Reynivaldo Brito


Uma homenagem e reconhecimento justos vão coroar a obra de uma das mais importantes artistas desta terra impregnada pela cultura africana. Trata-se da pintora e gravadora Yedamaria que está seguindo para os Estados Unidos, onde uma exposição retrospectiva de sua obra será montada na Califórnia State University, Northridge, acompanhada de um belo catálogo bilíngue com várias ilustrações em cores. Lá também fará algumas palestras sobre sua experiência como pintora e sua ascendência social como artista negra. O Departamento de Estudos Pan-Africano estará envolvido no projeto e a publicidade do evento ficará a cargo dos próprios estudantes da universidade, ligados ao setor de arte. A curadoria da exposição é da Dra. Mikelle Omari. Ela hoje é conhecida no exterior como a mais importante pintora negra brasileira da atualidade, tem mestrado nos Estados Unidos e obras em acervos de vários colecionadores estrangeiros.
Yedamaria vem de uma família de professores. Seu avô foi professor nos anos de 1884 a 1912. Sua mãe também era professora e lecionou vários anos. Ela escolheu a arte como forma de expressão e através dela passa sua experiência aos alunos de Belas Artes. Mas a arte fala forte no sentimento desta mulher de fibra que sabe captar a beleza dos objetos simples, que muitas vezes estão descansando preguiçosamente ou despretensiosamente sobre uma mesa se toalha rendada. É um peixe que foi arrancado de seu habitat natural e jaz num prato frio de louça. Ela consegue pintar o peixe neste estado de completa ausência de vida com uma força expressiva que nos traduz tranquilidade e beleza. As frutas coloridas e doces se multiplicam em sua obra. São elementos fundamentais à própria existência primitiva de vida que Yedamaria se identifica e nos serve num banquete mágico. As figuras humanas colocadas em suas telas com os olhares impregnados de fé e esperança neste país que balança e teima não cair. Com suas naturezas-mortas Yedamaria coloca sua família reunida como se habitasse uma antiga casa-grande cheia de parentes de uma família de prole numerosa.
Ela também não esconde que o fato de ser uma mulher negra teria enfrentado maiores dificuldades para que sua obra tivesse um reconhecimento internacional ou mesmo local. Confesso que embora não saiba detalhes dessas dificuldades, não vejo com os mesmos olhos este sentimento de minha amiga Yedamaria. Acho que as dificuldades são comuns a todos artistas, principalmente aqueles que não dispõem de um certo suporte econômico. Pretos e brancos sofrem para trilhar o caminho do reconhecimento. Porém, se nasceram de famílias abastadas, de pais conhecidos no seio da sociedade o trilhar do caminho da fama e do reconhecimento fica mais fácil. Ainda mais no meio artístico a discriminação é quase nula pela própria abertura de sentimentos que têm os intelectuais e artistas. Mas, respeito este sentimento de Yedamaria e admiro acima de tudo a sua luta individual em vencer, a sua persistência em produzir uma obra de qualidade que venho ressaltando há vários anos.
Yedamaria recolheu para o curriculum que leva para os Estados Unidos uma série de depoimentos de críticos e artistas sobre sua obra. Escolhi alguns trechos para ilustrar esta matéria, procurando estabelecer um conjunto harmonioso, como é a sua obra.

Vejamos:
" Na madrugada do mar, os saveiros partem as velas soltas, para a repetida aventura da Bahia de Todos os Santos, nesse mistério de Iemanjá e de vida e morte para os homens cor-de-cobre. Da realidade lírica e dramática vive a pintura de Yedamaria, moça baiana cujos olhos estão cheios do mar e dos barcos. Quem me falou nela pela primeira vez foi Lina Bardi. “Preste atenção a essa jovem, tem talento e futuro”, disse-me a então diretora do Museu de Arte Moderna da Bahia, na tarde magnifica da inauguração da exposição do Museu de Arte Popular, no Unhão restaurado. Em meio a uma discutível exposição da moderna plástica baiana, à qual faltavam alguns nomes fundamentais de nossa arte atual, vários novos tentavam impor-se aos visitantes com seus quadros, óleos, aquarelas, desenhos. Os responsáveis pela mostra haviam recolhido muitas promessas, moços cheios de ímpeto e entusiasmo.
Dessas vocações, quantos sobraram, quantos prosseguiram trabalhando? Alguns poucos, apenas, e entre eles a jovem Yedamaria com seus barcos, suas cores baianas, sua tônica de um lirismo lascinante. Veio a exposição individual, no Teatro Castro Alves e, de repente, a Rampa do Mercado mudara para o Campo Grande. Como se toda a realidade da Bahia só tivesse ela, a pintora, alhos de ver as velas dos barcos, a carcaça dos barcos, a água a rodeá-los, mar infinito.
Não sei que outras coisas irá ela pintar, como continuará seu trabalho, a evolução de sua temática. Sei que seus barcos ai estão; realidade de arte baiana atual. Já o nome da jovem pintora se inscreve mais além da promessa e da incipiente vocação. Tenho muita confiança em Yedamaria. Em seus barcos de luz e cor, ela partiu para conquista sua arte, conquista que realiza dia a dia, em duro e consciente trabalho.

JORGE AMADO

"Ao escrever agora sobre Yedamaria tenho diante dos olhos, na parede de minha sala de trabalho, há quase 20 anos, um quadro de sua exposição de 1963, no Museu de Arte Moderna da Bahia, então sob a feliz direção de Lina Bardi.
A mais jovem ainda pintora, recém-saída da Escola de Belas Artes já revelava toda a sua força criadora e grande expressividade, nos belos quadros da fase dos barcos de cores tão quentes e dramáticas.
Yedamaria segue pelo tempo com as mesmas qualidades, mas agora deixando transparecer um refinamento de personalidade definida, da mão mais afinada, de amadurecimento do ofício.
Dominando todas as técnicas da gravura, os procedimentos da monotipia, da ponta-seca, da Colorgraph, alcançam pelas suas mãos os melhores resultados.
A unidade desta exposição com temática de natureza-morta confirma, pela segurança das composições, no cromatismo harmonioso de tons calmos e suaves, a forma completa da artista Yedamaria na sua plenitude.
Capaz de percorrer os melhores caminhos da arte moderna com experiência própria e erudição acentuada, as influências fauvista no colorido marca nas colagens de frutas e objetos outros a atualidade que, a partir de Braque e Picasso, constituem de maneira radical processos técnicos próprios da arte do século xx.
Yedamaria é a mais importante das artistas negras da Bahia e talvez do Brasil, ainda com uma inestimável folha de serviços na cultura e educação, como professora primária, secundária e superior, pois é professora Universidade Federal da Bahia.
A Sociedade Protetora dos desvalidos fundada por ex-escravos, ao comemorar 150 anos de sua fundação, organizou uma exposição retrospectiva de sua mais ilustre Sócia, a pintora Yedamaria."

CARLOS EDUARDO DA ROCHA

"Uma das satisfações da vida de um artista plástico reside no convívio com seus colegas e amigos, e esta é ampliada quando descobrimos que, o trabalho floresce, que o esforço e a dedicação assim como o talento, continuam crescentemente, enriquecendo a vida.
Yedamaria regressa dos Estados Unidos, com o Mestrado em pintura e gravura, trazendo consigo alguns exemplares do seu aprendizado e da sua contribuição.
Os trabalhos apresentados têm grande força no que tange ao cromatismo e revelam, paralelamente, em perfeito domínio da linguagem técnica. Na temática, estão presentes referências pop assim como uma acentuada atmosfera Fauve. Notamos nas naturezas mortas, além da harmonia de cores e nuances reforçado pelo exuberante tratamento das superfícies, a cristalização de uma maturidade criadora e a excelência do seu domínio técnico chega, por vezes, a confundir o espectador, mesmo quando especialista."

MÁRIO CRAVO JUNIOR

"Yedamaria faz parte da segunda geração de artistas modernos da Bahia. De formação universitária, a sua importância como artistas é altamente relevante, sendo o seu trabalho mais um exemplo de coerência profissional. Nas diversas fases de sua pintura, a espontaneidade criativa composicional, a cor vibrante, instintiva, emocional são constantes e revelam um forte temperamento artístico. A importância de Yedamaria deve ser também considerada em função do seu papel como educadora, atuando positivamente no desenvolvimento da percepção e personalidade de centenas de jovens, na escola média e superior."

JUAREZ PARAIZO

"Poucas palavras definem com muito mais acerto a poderosa presença de Yedamaria nas artes plásticas baianas. Sua posição no meio artístico da Boa Terra deve-se a força, das suas obras, plenas de consciência criadora, integradas aos nossos costumes, à nossa gente. É características baiana, não é sublime porque é terra, povo e mar. É produto da influência de alguém? – isto não acrescentaria nada ao valor da sua obra. Yedamaria tem em sua produção artistas a atmosfera tipicamente baiana. Captando a Bahia com sua notável sensibilidade, tornou-se um dos seus mais representativos artistas plásticos. Assim nos barcos geminados, carregados de luas ardentes."

YVO VELAME

"Depois de seus descobrimentos na Europa, o contato com o ambiente artístico dos Estados Unidos da América foi naturalmente profícuo para a pintora e gravadora Yedamaria, uma artista vigorosa, mas procedente do meio acomodatício, provinciano e folclórico da Bahia, atualmente denominado por um inflacionismo de artistas oficiosos, turísticos, e aduladores. Espirito arejado e sensível. Pra ela, a despeito do meio social, a arte não é uma condição de conforto. Agora, num plano mais amplo e sem perde a sua nota emocional de som eminentemente nativo, com as suas pinturas e gravuras de técnicas mistas, nos oferece uma arte em certo modo refinada e de intenso e expressivo cromatismo."
WILSON ROCHA
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