Objetivo


sexta-feira, 6 de abril de 2012

RELIGIÃO - OS CAMINHOS SANGRENTOS DO FANATISMO

O amanhecer de sábado, dia 30 de abril, sete corpos de crianças, mutilados e afogados, apareceram boiando na praia de Ipitanga, próximo ao Aeroporto Dois de Julho, em Salvador, BA. Suas idades oscilavam entre oito meses e cinco anos. Quatro dias depois, uma garota de nove anos, que vagava num matagal próximo à localidade de Tubarão, no subúrbio de Paripe, foi encontrada por um motorista e entregue ao Juizado de Menores. A polícia baiana, após vasculhar os arredores, prendeu sem reação os vinte e um membros da Seita Universal Assembléia dos Santos, elucidando o caso das sete crianças mortas e o da abandonada. Era um fato típico e selvagem de misticismo primário. Os integrantes da seita são ex-lavradores semianalfabetos e vieram do município de Mundo Novo, a 290 quilômetros de Salvador. Eles haviam vendido suas terras e tudo o que possuíam, entregando o dinheiro a José Maurino Carvalho, o Matota, seu líder e profeta, que ficou encarregado de prover a subsistência de todos, além de comandar sua conduta, impondo-lhes um fanatismo religioso que pregava a comunhão de bens e o sacrifício de tudo que, segundo ele, “pudesse agradar Satanás”. Em  Mundo  Novo  os vinte membros da seita lhe obedeciam cegamente e o profeta os intimou a partir para o que ele chamava de Monte das Oliveiras, uma duna branca de vegetação rasteira, que margeia a praia de Ipitanga. No caminho, resolveram abandonar Rosemerie, a garota de nove anos, para que morresse à míngua e pagasse os seus pecados. Chegaram ao local escolhido e lá montaram uma tenda de quatro paus fincados na areia, coberta com toalhas de plástico. Com o dinheiro dos seus fiéis, o profeta adquiriu os mantimentos necessários à sobrevivência do grupo. Os demais, durante o dia, ficavam na tenda rezando ou fazendo trabalhos caseiros. No dia 29 de abril, à noite, Matota convenceu os demais integrantes da seita a sacrificarem seus filhos. Segundo explicava, as crianças estavam condenadas porque eram pecadoras. Elas pertenciam a Satanás. Não eram de Deus e deviam ser mortas. Ele ameaçava os adultos afirmando que “se pecassem, o Espirito Santo os abandonaria e eles ficariam loucos”. Estava formado o clima de medo e fanatismo. Desenvolveu-se, então, o julgamento das crianças, presentes o profeta e os pais, que resolveram jogá-las nas ondas da praia de Ipitanga. Os crentes entraram na água e foram passando as crianças de mão em mão, entregando-as ao profeta e à sua mulher e secretária Marata, que as atiravam na água.
As que tentavam voltar à praia eram novamente lançadas ao mar. Assim, sete meninas e meninos foram sacrificados pelos pais, em consequência do fanatismo e da ignorância.

Origens

No entanto, a consciência traiu um dos fanáticos, que passou a “ouvir vozes e chamados” e deu a pista à polícia. Foi Godofredo Oliveira, 58 anos, que para seguir o profeta abandonara seus treze anos como administrador de uma grande fazenda de gado e entregara ao sacrifício a sua filha de dois anos. O profeta José Maurino de Carvalho, o Matota, apesar de impor a morte dos filhos de seus adeptos, poupou, porém o seu da morte. Preso, na Delegacia de Homicídios, de Salvador, ele explicou: “O menino foi castrado pelo Cristo. É primogênito e filho de Deus. Por isso não precisava morrer. Já os outros eram pecadores. Batiam e xingavam os pais. Portanto, não eram de Deus. Tinham que morrer.” José Maurino, 28 anos, nasceu em Santo Antônio de Jesus, cidade do Recôncavo Baiano, Onde frequentou inicialmente a matriz católica e alguns templos protestantes. Foi ali que reuniu precários ensinamentos bíblicos e começou a ouvir “vozes que ditavam um novo mandamento”. Mas, antes de começar seu proselitismo, esteve em Salvador, sempre pensando em fundar uma igreja “que reunisse todas as igrejas”. Ele afirma: “Deus não quer a desunião dos seus verdadeiros filhos. Deus só tem uma igreja, que é a Assembléia Universal dos Santos.” Em Feira de Santana, onde vendia de porta em porta plásticos coloridos para botar nas telas de televisões em preto e branco e transformá-las em aparelhos de “se ver em cor,” conheceu Maria Nilza Oliveira Pessoa. Ela foi sua primeira crente e também sua mulher, passando a se chamar Marata. E nessa altura – em que os demais membros da seita já demostram arrependimento pelo destino que deram aos filhos e sentem medo da Justiça – Marata é a única que ainda acredita totalmente no seu marido e profeta. Em seu interrogatório, José Maurino, magro, com aparência de débil mental, interrompe a conversa todo instante perguntando por Marata e mostrando-se inquieto com o destino da mulher.

Todos os membros da seita estão recolhidos em diferentes delegacias de Salvador. Essa medida foi adotada devido à revolta do povo, que ameaçava linchá-los na 1ª. Delegacia, para onde tinham sido levados. O professor de Medicina Legal e Social, Estácio de Lima, a quem foi permitido conversar com o profeta, declarou: “Não posso dizer que problema psiquiátrico é o dele. Matota esteve comigo poucas horas, logo que foi preso e recolhido à Delegacia de Homicídios. Então, ele me narrou as alucinações visuais e auditivas que por vezes o acometem. Cristo lhe aparecia prometendo benefícios e felicidade a quem o seguisse por seu intermédio. Acredito que é o Manicômio Judiciário e não uma penitenciária que deve guardar este fanático.”
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