Objetivo


sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

MÚSICA - APÓS 40 ANOS ,CAYMMI REVÊ AS PRAIAS E A GENTE QUE INSPIRARAM SEU CANTO



Caymmi no Abaeté

Texto de Reynivaldo Brito 
Fotos Reynivaldo Brito e Arestides Batista
 Jornal A Tarde, Salvador, Bahia , Brasil
Em 7 de janeiro de 1980.

Caymmi no Bonfim com Reynivaldo Brito

O moço Dorival Caymmi está completando 41 anos como artista que continua cantando as belezas de sua terra, o pitoresco acrescido de um conhecimento profundo de sua gente e das belezas naturais. Com seu jeito dengoso ele abraçou preguiçosamente o violão e concordou em rever os pontos principais e aquela gente que tanto lhe serviram de inspiração para suas principais canções que estão vivas no coração dos jovens e velhos que habitam este Brasil.
Daí a razão de muitos insistirem em chama-lo de o “moço” Caymmi devido à sua presença sempre viva e também por sua música tocar de perto todas as pessoas independente da idade ou crença. Juntos percorremos as belas praias da velha Salvador, a Lagoa do Abaeté, a Praia de Itapuã e a Igreja do Bonfim e por onde estivemos Caymmi era cercado com carinho pela gente humilde que povoa esses locais nos dias de semana. Para todos um riso aberto e palavras confortadoras pronunciadas devagar e com seu sotaque arrastado, tão próprio dos moradores de Salvador.
Ele pôde reencontrar personagens de suas canções como os velhos pescadores , o ex-jogador do Esporte Clube Bahia , que foi integrante do primeiro time que ganhou o campeonato brasileiro, chamado “Brasileirão”, hoje tão combatido pela crítica esportiva. Reviu as velhas jangadas que ‘descansavam”à beira mar, presenciou a puxada de rede na Praia de Itapuã e foi abraçado por uma bela morena de pouco mais de 15 anos. Portanto, visitou os pontos que lhe inspiraram e voltou a conviver com aquela gente simples e cheia de sabedoria. Aqui um relato de sua conversa com esta gente e as suas impressões sobre as mudanças ocasionadas pela febre imobiliária que assolar e aniquila muitos pontos turísticos deste país.
                                                 
                                                     EMOCIONADO

  Quando chegou à Lagoa de Abaeté , Caymmi ficou emocionado. Seus olhos percorriam os quatro pontos da lagoa e procuravam acompanhar o movimento contínuo das lavadeiras que entravam e saíam das suas águas negras para apanhar água e para lavar as peças da gente da cidade. Mirava a areia branca “que nem açúcar refinado “e de repente começou a falar ; “Lembrei-me agora de Lindaura que foi uma babá que acompanhava um casal carioca que convidara para passar as férias aqui e viemos visitar a lagoa. A babá ficou tão contente que se atirou n’água e desapareceu. Foi um drama terrível e só fomos encontra-la já sem vida algumas horas depois.Este fato marcou bastante e também outro contado pelo pintor Pancetti que sempre vinha aqui trabalhar. Certa vez ele presenciou um marinheiro todos vestido de branco tirar sua roupa e começou a nada e nunca mais voltou. Lembrei agora também das estórias que me contavam as lavadeiras , de uma grande serpente que devorava os homens que caíam na lagoa e de um candomblé dos espíritos que batia todos os dias à meia-noite. Estes fatos foram suficientes para me inspirar a canção que fiz “A Lenda do Abaeté “que diz : “No Abaeté tem uma lagoa escura / Arrodeada de areia branca / Ôh de areia branca “. E continua : “O pescador deixa que seu filhinho / Tome jangada / Faça o que quizé / Mas dá pancada se o filhinho branca / Perto da lagoa / Do Abaeté..”Mas olha que não venho aqui há vários anos . Vejo que a lagoa está muito mudada, mas guarda a relatividade do tempo. Fiz esta canção na década de 1930 e a população que habitava as redondezas era bem menor. Hoje a coisa não está boa porque quando fiz esta música concebia dentro de uma paisagem mais bem cuidada e mais natural. Veja que tratei do fatalismo que me inspirou a babá Lindaura e hoje presenciamos o aparecimento de um corpo de um desconhecido que tinha desaparecido há cinco dias. Veja o contraste da beleza do verde desta vegetação rasteira com a areia muito branca e as águas escuras. Veja o contraste do fatalismo com a beleza. De fato a minha canção ainda está por aqui. Aqui ainda existe a idéia da minha canção.

                                             EM ITAPUÃ

Revela Dorival Caymmi, ao deixar a Lagoa do Abaeté , que sua idéia de fazer uma poesia e canções ligadas à sua gente remonta de sua juventude quando vinha com seus colegas para veranear naquela praia que era muito distante do centro de Salvador, naquela época, e que a travessia era uma verdadeira maratona. Atravessavam vários quilômetros andando a pé pela praia carregando seus apetrechos e alugavam casebres humildes onde passavam as férias. . “Sempre quis conhecer e fazer uma poesia dentro de ma realidade. Uma poesia presa às raízes dos pescadores que conheci pessoalmente por essas bandas. Senti de perto o seu drama e de suas famílias quando eles partiam em cima de frágeis jangadas e pequeninos barcos”.E começa a dedilhar o violão entoando a “Canção da Partida”, que diz : “Minha jangada vai sair prô mar / Vou trabalhar, meu bem-querer, ? Se Deus quiser quando eu voltar do mar / Um peixe bom eu vou trazer / Meus companheiros também vão voltar / E a Deus do céu vamos agradecer/ ...
Assim, grande parte de sua obra musical reflete esses ambiente, essas vidas, esses dramas. A espera da família do pescador que fica preocupada quando o tempo muda ( isto é , quando o tempo fica brabo, o mar agitado) , das rezas que as esposas e noivas fazem para seus amados, o adeus repetido e demorado na beira d’água e a triste cantiga da noiva que não teve a felicidade de reabraçar seu amado que ficou no mar.
“Veja você, grita Caymmi, que recentemente encontrei o Gerôncio – passa a explicar – é um dos mais antigos pescadores da Bahia, da Bahia da época do bonde que não volta mais. Ele ainda está sobrevivendo aqui. As coisas vão se modificando, mas se a gente observar com mais cuidado a febre da urbanização ainda não conseguiu afastar as jangadas , os jumentos andando preguiçosamente na areia dura da praia e os pescadores consertando suas redes.Este visual me emociona e como que dou uma volta à década de 30 e relembro o ambiente em que compus a maioria de minhas canções, fundamentadas nesta gente que tanto amo e com a qual convivi com intensidade durante minha juventude”. De repente os olhos do velho Caymmi de cabelos brancos começam a se encher de lágrimas de emoção e saudade.
O motorista toca a velha Brasília para a frente e o coqueiral vai surgindo verdejante e com suas folhas balançando como a dar adeus ao cancioneiro e logo adiante encontramos uma nova cena comum em sua obra que já dura quarenta anos. Era um barco de pescadores que acabava de retornar trazendo em seu bojo uma quantidade razoável de peixes. Caymmi solicita que paremos e num gesto de emoção abre a porta do carro e sai correndo ao encontro do pescadores. Muitos dos quais conhecia de nome e intimidade. Reinicia falando da alegria da volta . Conversa com o mestre responsável pelo comando do barco e não se contém, abaixa-se e pega alguns peixes que teimavam em pular na areia cálida da praia. E volta a falar de outra canção praieira que em certo trecho diz “O mar... / Pescador quando sai / Nunca sabe se volta / Nem sabe se fica...”Mas graças a Deus eles voltaram alegres com a volta propriamente dita e também como o sucesso do seu trabalho no mar onde tiram o sustento de suas famílias. É uma alegria redobrada que sito quando abraço e aperto as mãos desta gente rude e cheia de amor”.
E para completar o quadro eis que uma jovem corre a seu encontro e faz questão de posar com o “moço “Caymmi, imediatamente ele fala “eis otros quadro vivo de Itapuã . As belas morenas que cantei naquela música que diz : Sereia morena / Vem toda manhã / Se banha nas águas ? De Itapuã...

                                    TUDO AREIA
Dorival Caymmi diz que o bairro de Itapuã era uma fazenda e que naquela época era tudo areia. A única rua calçada era onde morava Genebaldo Figueiredo que era então diretor da Limpeza Pública da Cidade, o qual conseguiu um calçamento rudimentar de sua rua. Aqui tinha um mercadinho popular para onde os pescadores e gente humilde traziam sua pequena produção. Era quase uma economia de troca de peixe por frutas, etc. Hoje, Itapuã é um bairro moderno cheio de casas de gente fina... Mas ainda dá para a gente lembrar do João Peixeiro que descia com seu jumento com os caçuás cheios de peixes para entregar à sua freguesia e que transformei num personagem valentão numa das minhas canções. Do Cirilo, outro pescador que recentemente quebrou um braço quando subia num coqueiro e que até hoje pesca utilizando um dos braços e a boca para segurar a linha e também do Bento que digo “Bento cantando modas / Muita figura fez/, bento tinha bom peito/ E pra cantar não tinha vez / As moças de Jaguaripe/ Choraram de fazer dó / Seu Bento foi na jangada / E a jangada voltou só...?
                                          MOLEZA BAIANA

- Sou um cara supertranqüilo . Nasci na Bahia numa época onde a população era bem menor. Isto aqui era um paraíso. Aqui era a porta aberta, o que era meu era seu. O dinheiro valia pelo status que a pessoa tinha. Havia a hospitalidade baiana.Não havia dinheiro fácil. Quando um cara tinha dinheiro era seguro. Não gostava de gastar , mas a comida dava para todos. Hoje estamos vivendo uma época de fome. Naquela época se comia na Bahia, as comidas apimentadas e gostosas. Não se enganava o estômago como acontece hoje – diz Caymmi com seu gingado baiano. Quando indagado se é verdade que as pessoas sempre fazem relação de seu jeito dengoso com o próprio viver baiano, ele diz : As pessoas sempre dizem isto. Dizem até que sou a própria vida baiana, dengosa, mole e devagar. Isto acontece na beira-mar. Mas tem milhares que dão um duro danado. O meu comportamento tem alguma semelhança com a minha terra. Isto para mim é gratificante por que revela a minha identidade cada vez maior com o que fiz e continuo fazendo.Não sou um sujeito atávico, um sujeito fora d’água e sim um baiano que canta para todo mundo as nossas belezas. Tenho uma identificação muito grande com a minha terra, embora muitas vezes tenha sido obrigado por problemas profissionais a viver fora da Bahia”.
Volta-se , pega o violão e começa a cantar: “Você já foi a Bahia, nega? / Não?/ Então vá!... Lá tem vatapá! Então vá! / Lá tem caruru! / Então vá.. É isso ai, amigo a Bahia é tudo isto, os seus sobrados, as suas fontes de azulejos portugueses, as sacadas de ferro batido, o mar azul como de lugar nenhum”.
E, finalmente , terminamos o nosso roteiro visitando a igreja do Bonfim onde está Oxalá protegendo com seus braços crucificados a velha Bahia. E como ele mesmo diz: “Quem vai ao Bonfim, minha nega,/ Nunca mais quer voltar. Muita sorte teve,/Muita sorte terá”. E lembra que cantou as 365 igrejas que talvez não sejam realmente 365 igrejas. Mas o povo diz que na Bahia há uma igreja para cada dia do ano, embora somem apenas uma centena. Mas o que Caymmi diz todo mundo canta e repete e a Bahia ficou com a fama de ter 365 igrejas. Até parece verdade, porque agora mesmo desde o mês de outubro que as festas religiosas são festejadas com muita reza, samba e alegria. Sim, porque na Bahia há uma mistura entre a festa religiosa e a profana, só que tudo dentro de um sincretismo respeitoso, e às vezes incompreendido por determinadas autoridades eclesiásticas.
Agora esmo já foram realizadas as festas de São Nicodemus do Cachimbo pelos trabalhadores do cais do carvão, Santa Bárbara ( Iansã), ( dia 4), Nossa Senhora da Conceição ( dia 8) Oxum, Santa Luzia ( dia 13) e a da Boa Viagem até o Carnaval.

                    O ‘MOÇO’ E OS NOVOS BAIANOS
Há quatro décadas cantando e gravando, Caymmi é sempre lembrado por novos intérpretes. Recentemente Gal Costa, Bethânia, Caetano e muitos outros voltaram a regravar antigos sucessos do cancioneiro da Bahia. Falando sobre este fenômeno musical, Caymmi revelou que observa o fato com naturalidade embora com certa vaidade. “Vejo como uma verdade humana de pessoas que têm a célula mater do amor à terra, o gosto pelas suas coisas, Não vimos há pouco tempo a pescaria, os pescadores voltando do mar? É isto ai, não muda. A visão minha é que a gente tem que estar ligados às raízes. O que o homem faz e cria com pressa, com modismos e sem substância tende a desaparecer em pouco tempo. Só fica o que tem essência. Nada fica que tem caráter provisório. No fundo esses jovens que criaram e criam gêneros, ritmos e coisas novas e que são seguido por muitos, de quando em vez são obrigados, por não sei o que, a retornarem às suas origens.
É o caso de muitos deles que hoje interpretavam antigas canções minhas e de autoria de outros compositores antigos. O pessoal da geração de Caetano Veloso, Gilberto Gil, Roberto Santana, Maria Bethânia e Glauber Rocha entrou na geração da moda. Não estavam aliados com o problema cultural mais universal, das coisas que ficam. Faziam uma coisa baiana, um baianismo. O que é a moda? Vamos entrar nesta onda... Atrás do trio elétrico ... Vamos contestar.... Nasceram neste clima como artistas. Mudaram sua presença visual com cabelos e atitudes desconcertantes, mal alinhados. Era a hora do black- power , dos Beatles, utilizando todos eles uma comunicação rápida e massificantes. A gente continuava dizendo, olhe estou aqui, olhe o samba de toda, o samba lelé e a verdade como sempre tende a aparecer mais cedo ou mais tarde. O inédito, o curioso tende a ser esquecido com rapidez, veja as discotecas. Estão morrendo... Mas a felicidade é que a gente boa, esta gente criadora não a perdeu as suas raízes, a sua ligação com esta terra e hoje está olhando com mais maturidade as coisas e está fazendo coisas e regravando outras mais consistentes e verdadeiras. Antes a música deles era difícil e não dava para ser entendida por todos, somente os intelectuais chegavam lá.
Caymmi continua falando sem parar e revela que “adoro Caetano cmo letrista, mas é uma letra difícil de entendimento pelo povo de modo geral, e acredita que a música tem que ser universal, tem que ser entendida por todos. Hoje, eles estão mais ligados a grupos. Antigamente o trabalho era isolado. O Chico Alves, a Aracy de Almeida, o Noel Rosa, o Caymmi.Hoje todos são descendentes de uma Bossa-Nova, Tropicália e assim por diante. Mas eles estão amadurecendo e cada um cuidando com mais primor do seu trabalho musical e cinematográfico. Fico feliz porque sinto que estão amadurecendo bem”, concluiu.
                                         E O CANDOMBLÉ, CAYMMI?
- Ah! É uma longa história. Responde instantaneamente e abre uma larga risada. E completa. “Tudo começou como uma brincadeira de jovens que não tinham o que fazer naquela época.Hoje sou um homem ligado ao candomblé e agora mesmo estou fazendo algumas obrigações para meus santos . Sou Oba de Xangô do terreiro de Axé Opô Afonjá, de São Gonçalo do Retiro, que é dirigido por mãe Estela. Veja só, minha mulher chama-se Stella. Uma boa semelhança de nomes. Mas voltando, devo dizer que antigamente não acontecia muita coisa na Bahia e eu e meu grupo sempre procurávamos algumas coisas para fazer durante a noite. Ai começamos a ter notícias que tel candomblé ia bater. Começamos a freqüenta-los , gostávamos da música, da dança e também da comida farta que era distribuída aos presentes durante as cerimônias. Foi quando o mundo intelectual começou a defender o candomblé da ação policial que violava sua intimidade, prendendo pais e mães-de-santo e apreendendo instrumentos sagrados. Começamos a ficar indignados com aquilo. Vieram os pesquisadores Donald Pearson, Pierre Verger, Roger Bastide e o mestre Estácio de Lima. Todos gostavam do candomblé, o respeitavam, inclusive o Jorge Amado, que era garoto como eu. Aí começamos a olhar melhor o candomblé com os ensinamentos desta gente. E tudo transcorreu de tal forma que de católico não-praticante termine i sendo Obá de Xangô . Tenho verdadeira fé pelo candomblé e sua gente a qual homenageei com a canção “Mãe Menininha”, que é toda doçura, sabedoria e bondade. É mais um quadro de minha obra esta canção que o Brasil, todo cantou e canta.Cansados, levamos o velho Caymmi a seu recanto na Praia de Amaralina bem em frente ao mar. Não podia ser em outro lugar já que sua obra está integrada e ligada ao mar de sua gente
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