Objetivo


quinta-feira, 29 de julho de 2010

CULTURA - ESQUECIMENTO

CRÔNICA
Reynivaldo Brito


Uma das manifestações dos jovens é chamar de velho quem esquece alguma coisa, sejam nomes de pessoas, ruas ou mesmo algum caso vivenciado no passado. “Você está velho!”. É a sentença que vem forte e avança sobre o interlocutor com uma onda destruidora.Porém, esquecer é uma vantagem do ser humano, porque o nosso cérebro vai apagando o que não interessa. Ele vai varrendo para algum lugar aquelas pessoas que a gente deixou de ver há alguns anos e fatos que não nos interessam de alguma forma. Lembro agora da música de Oswaldo Montenegro intitulada “A Lista”, quando ele pergunta por onde andam os amigos de dez anos atrás. É verdade, sumiram ou estão envolvidos em suas vidas e, nunca mais nos encontramos. Alguns até já deixaram este mundo em busca de um lugar mais tranquilo e talvez verdadeiro. Sempre esqueci as datas de aniversários de parentes, amigos e conhecidos. Tenho esta dificuldade em guardar datas de qualquer fato.Armazenar em minha memória estes números está mesmo fora de cogitação. Porém, quando começo a procurar no meu “google” particular , vão surgindo pedaços de lembranças que juntado-os termino por lembrar completamente ou quase ,de alguns fatos e pessoas que não vejo ou vi faz bom tempo. Agora, com a internet, esta utopia de guardar tudo em nossa memória virou realidade. Você pode armazenar não apenas nomes e datas, mas, também, imagens das pessoas e busca-las quando bem entender. Sabemos que os custos deste processo vem baixando a cada dia e que o quantitativo de informações aumenta geometricamente. São informações que ficam para sempre, porque elas são difíceis de serem deletadas, porque sites como o Wayback Machine são capazes de encontra-las, mesmo que você tenha apagado, em questão de segundos. Portanto, se você armazenou uma informação ou imagem que não quer mais, cuidado, ela pode voltar à cena a qualquer momento. Já o nosso cérebro esquece mesmo e, só vem à tona com um grande esforço e se você quiser. Enquanto na máquina um bom manipulador de informações pode resgatar seus segredos em poucos segundos. Diz o estudioso da sociedade da informação Viktor MayerSchöenberger , da Princeton University, que pelo “esquecimento , a nossa mente se alinha com o nosso passado, com nossas preferências do presente, tornando mais fácil a sobrevivência e a vida mais suportável. Esquecer nos ajuda a evoluir, a crescer, a seguir em frente – para aprender novas coisas”.Isto me faz lembrar a necessidade que a gente tem de esquecer maus momentos vividos como por exemplo um acidente, a perda de uma pessoa querida,maus tratos sofridos de qualquer espécie, uma agressão verbal ou física, ou seja tudo desagradável que apareceu em nossa frente. Imagino quantas pessoas más, inconvenientes e detestáveis a gente precisa esquecer e nos livrar o pensamento. Isto o nosso cérebro faz com maestria colocando-os num limbo qualquer nos livrando deste incômodo desnecessário. Assim a memória deixa lugar para os bons momentos, as boas ações, para as pessoas agradáveis que nos cercam, enfim, contribui para que levemos uma vida melhor possível. O armazenamento de tudo, de todo este lixo que às vezes nos batemos nas ruas ou nos lares vai sendo colocado no lugar que merece.Vejam o sofrimento de muitas pessoas públicas que num momento de infelicidade deixaram escapar algumas palavras ou frases infelizes, e mesmo imagens, como o caso do diplomata Ricupero, que não sabia que o microfone da televisão estava aberto; das muitas besteiras ditas pelo nosso presidente que prima pelo messianato; Ronaldo, o jogador, que declarou ser branco,e mandou uma dedada para uns mal educados que os insultava; assim poderemos ressuscitar no Google centenas delas que mancharam a vida e a carreira dessas e de outras pessoas.
Já o nosso cérebro nos ajuda a esquecer e perdoar.
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