Objetivo


terça-feira, 7 de setembro de 2010

CRÔNICA - MENINA DO CABELO ALISADO

CRÔNICA
Texto Reynivaldo Brito

Ele nunca soube se a menina também ficava indignada. Nem se acreditava em mandingas, feitiços, pragas e olho ruim .Tampouco se ela vestia vermelho nas quartas e branco nas sextas-feiras. Só a via subindo as ladeiras seculares da velha Bahia balançando as cadeiras distribuindo sua meiguice, como muitas outras que têm o cabelo duro. Elas travam uma batalha interminável. Amarram o coitado, estiram , espicham e até enrolam, tudo na santa inocência em busca da beleza. Não sei realmente o que buscam ,porque já nasceram belas. Essas meninas são ingênuas, maldosas e briguentas. Porém, têm uma sensualidade indescritível.
Antonio Paixão , vende pentes e cigarros na esquina da Rua Chile, conheceu uma delas, e foi paixão à primeira vista. Passava o tempo todo olhando as revistas numa banca de jornal localizada junto ao seu ponto .Ficava deslumbrado com aquelas páginas coloridas por onde desfilam meninas de todas as cores e gostos. Morenas e loiras com seus pertences expostos, como carne verde num açougue. Outras, mais compostas, desfilando em roupas extravagantes, as quais nenhum ser normal jamais vai vesti-las. Via as que aparecem nas revistas mostrando novas fórmulas mágicas de emagrecimento. Ainda, as das novelas e, as cantoras com textos acompanhando, informando de separações, reencontros e desencontros. Mas, nenhuma delas desperta a atenção de Antonio, o rapaz da banca de pentes e cigarros.
Está focado na menina de cabelo duro e enrolado que viu numa tarde de segunda-feira subindo em direção a Praça da Sé. Foi nela que ficou concentrado todo o seu tempo enquanto folheava dezenas de revistas novinhas repletas de garotas de todos os tipos e poses. A imagem que vislumbrava era da menina que vestia uma saia curta deixando à mostra pedaços de suas coxas torneadas e morenas. A blusa era uma gracinha de leveza e, assim caminhava balançando num ritmo doce.Quase levitando sobre o passeio.
Passados três dias, eis que a menina de cabelo duro e enrolado surge vindo da Misericórdia em direção a banca de Antonio. Ficou parado como que tivesse hipnotizado olhando e admirando a sua deusa, que mais uma vez, surgira do nada. A cada passo ia se aproximando e o seu coração palpitava com mais força à medida que a distância entre os dois diminuía. Ao chegar à sua frente a menina dirigiu-se a ele e indagou : O senhor sabe onde fica a loja Africana? Antonio logo se dispôs e informar que estava bem próxima da loja. Não se conteve e perguntou à menina de cabelo duro e enrolado: O que você quer na Loja Africana? Piscou o olho e respondeu, com um riso no canto da boca, estou procurando comprar uma chapinha para alisar o meu cabelo. Antonio reagiu dizendo em voz alta. Não faça isto! Você está tão linda com este cabelo duro e enrolado, que acho desnecessário gastar este dinheiro.
Mas, a mania de chapinha se espalhou pela cidade de tal forma que quase não mais vemos nas ruas e ladeiras de Salvador uma menina de cabelo duro e enrolado. Agora elas se transformaram em meninas de cabelos duros, lisos e brilhosos, perderam aquela graça da espontaneidade e da faceirice com um toque africano.
O dono da banca passou a observar outra coisa. Quase todas às vezes que avistava a menina do cabelo de chapinha notou que trajava a mesma surrada roupinha. Um vestidinho com uma blusa tomara-que-caia, rodado e da cor azul do mar. Este vestido ela vestia com uma simples calcinha por baixo deixando o dono da banca cada vez mais louco para ter um romance . Ela nem sonhava ou imaginava as elucubrações de Antonio e passava faceira esbanjando a sua simplicidade, um pouco temperada com certa meiguice e displicência.
O tempo foi passando e de quando em vez Antonio botava os olhos na menina misteriosa do cabelo alisado. Aí arquitetou perguntar o seu nome e telefone. Na próxima vez que passar por aqui vou puxar conversa. Se conseguir desengasgar na hora, vai ser o dia de maior felicidade para mim. Quase um mês depois, eis que surge em sua frente a menina. Ele nem sabia de onde viera, se da Misericórdia ou da Ladeira da Praça. A verdade é que estava diante dele com seus cabelos lisos e brilhosos e os olhos cintilantes. Ao vê-lo deu um riso de cumprimento. Antonio ficou emocionado e as perguntas que tanto arquitetou fazer não saíam. Vendo que ele estava um pouco aflito, perguntou. O senhor está sentindo alguma coisa? Não, não, respondeu Antonio. E deixou mais uma vez a menina escapar em direção a Ladeira da Praça, sumindo para sempre.
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