Objetivo


quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

CULTURA - UMA NOVA CAROLINA DE JESUS SURGE NOS ALAGADOS

A TARDE – SEXTA-FEIRA, 12 DE AGOSTO DE 1977
Texto Reynivaldo Brito
Fotos: Arlindo Félix e Lula Carvalho




Solange, condenada sem Júri sofre há mais de trinta anos.
As lembranças de um passado triste, incompreendido e marginalizado levaram Solange Ribeiro, uma moradora de Alagados – bairro de palafitas que abriga mais de 100 mil pessoas, - a escrever um livro intitulado “Condenada Sem Júri”, onde relata toda sua dor. Seus contos, poemas e pensamentos ecoam como gritos contra a marginalização a que vem sendo conduzida desde sua infância. Sua aparência é de uma mulher frágil, mas que tem uma grande facilidade de se comunicar com as pessoas e uma vontade ferrenha em vencer.
Assim 17 anos depois que surgiu “Quarto de Despejo”, de Carolina Maria de Jesus, a favelada paulista recentemente falecida, eis que outra moradora de uma área-problema resolve transportar para o papel os seus sofrimentos. O seu maior sonho é editar o livro na esperança que todos os problemas que enfrenta sejam solucionados. Com a editoração do livro, Solange Ribeiro espera educar seus setes filhos e “melhorar a situação de minha família”. Ela não sabe que Carolina Maria de Jesus, mesmo depois do sucesso do livro, levou uma vida humilde e de sacrifícios até sua morte.
O livro
– Estávamos exatamente no ano 1940 quando as enchentes ameaçavam transbordar aquele famoso Rio Paraguaçu. Numa cidadezinha do interior, por nome São Felix, nascia mais uma criança do sexo feminino que puseram o nome de Solange. A alegria ao nascer foi nenhuma. Nasci na Segunda Guerra Mundial e vim para uma guerra de conflitos sentimentos que hoje vivemos. Pois foi minha concepção, e fui envolvida numa rede de conflitos que viviam meus pais. Eles que não conheciam a palavra amor. Poderia ter nascido uma heroína, pois São Félix é irmã gêmea de Cachoeira, a Cidade Heróica, que resistiu contra o invasor estrangeiro, Mas, não foi nada disto. Não posso jamais imaginar o que se passava dentro de seus sentimentos. Nunca pensei que por ser filha adulterina o destino me odiasse a passos lentos. ”Naquele tempo não tinha maturidade para julgá-los”. Estas palavras estão contidas no capitulo principal e que dá o nome ao livro da favelada Solange Ribeiro. Ela continua fazendo um relato amargurado de sua infância. Fala de suas decepções e do comportamento sexual irregular de seu pai que tentara até possuí-la.
Estudou o primário em São Félix, uma cidadezinha que dista quase cem quilômetros de Salvador. Aos quatro anos de idade foi morar com a esposa de seu pai de nome Onélia Bastos Ribeiro, que ainda reside na Cidade de Cachoeira. Seu relacionamento com a madrasta continua até hoje e ela a chama de titia. Diz Solange que “titia é uma pessoa maravilhosa”. Mas, com vinte anos de idade Solange não aguentando mais as investidas de seu pai transfere-se para Salvador. Estávamos no ano de 1960 quando conheceu seu primeiro esposo com o qual teve dois filhos. Com cinco anos de casada seu marido suicidou-se, a exemplo de seu irmão de nome Frederico. Segundo ela, as mortes não tiveram qualquer ligação. “Foi pura coincidência. Meu marido tinha problemas de saúde e financeiros. Desde cedo que enfrentamos uma vida dura. Mas o pior foi o seu desaparecimento”.
Depois desde triste acontecimento, Solange continuou seu destino e teve mais dois filhos com um companheiro sobre o qual não gosta de falar, vive com um motorista de táxi, desempregado, chamado Nelson Santos, com o qual já tem dois filhos.
Os Poemas
Além do livro “Condenada sem Júri” Solange Ribeiro escreve poemas que trazem à tona os mesmos problemas relacionados em seus contos. Um deles intitulado: “Aos Heróis dos Alagados”, é este:
“Conheço grandes heróis, / Que são bem pouco lembrados / Sabem eles quem são? / Nossos queridos alagados. / Os anos vão passando / E nós naquela ilusão / Em ver nosso barraco em terra / Diante de nossa visão / As crianças estas coitadas / Não sentem seu grande drama / De crescer e ser gente um dia / Pelo asfalto do lixo / Brinquedos, remédios e comida / Não se fala é puro mito”.
Aí Solange demostra sua amargura em ver seus filhos brincando nas pontes que ligam uma palafita a outra. Constantemente crianças caem dessas pontes e espetam-se, quando não morrem afogados nas águas escurecidas e podres de Alagados.
Outros poemas de Solange fala de sua mãe que desapareceu quando tinha quatro anos de idade. Ela afirma que sua mãe mora no Rio de Janeiro, mas nunca teve notícias como está passando. Este ano escreveu um poema dedicado a sua mãe que diz: “A Mamãe” – “Quando lhe vi um dia / Tinha apenas quatro anos / Pensa que lhe esqueci? / Se pensa é puro engano! / Lembro da despedida / Foi um mês de novembro / Você chorava tanto / Vê como ainda me lembro! / Todos os dias eu fico / Esperando a sua volta / Creio que nesse dia mamãe / De saudades estarei morta!...”
Ela não resiste e apela para que sua mãe apareça pois “era bem importante que reencontrasse minha mãe. Papai já morreu e tenho apenas a minha “titia” que está com a saúde muito abalada”.
“Meu pai morava em Cachoeira e trabalhava como escriturário numa firma de exportação e dominava alguns idiomas. Falava com muita desenvoltura. É tudo que lembro, além das investidas, que muito me marcaram”, adiantou.
O Sonho
O maior sonho, no momento, de Solange Ribeiro é editar o seu livro. Foi com este objetivo que procurou o radialista França Teixeira, que tem um programa esportivo na Rádio Clube da Bahia. Fez uma carta e levou o caderno onde estão contidos seus escritos. Mas infelizmente não teve oportunidades de falar com o radialista. Esteve duas vezes, sem sucesso, na estação. A única pessoa que ouviu a favelada foi uma recepcionista que a recomendou as redações dos jornais locais. Aí continuou sua peregrinação e foram publicadas duas pequenas matérias sobre seu livro. Em seguida uma estação de televisão fez um filmete mostrando o seu barraco e falando sobre seu livro. Diz Solange que “agora estou começando a lidar com pessoas humanas, capazes de compreender o meu sofrimento. Eu já fui procurando por um senhor da Editora Lampião, de São Paulo. Espero, com a confiança em Deus, que meu livro seja editado. Com ele quero mostrar as pessoas os meus sofrimentos. Na esperança que alguém olhe por mim e por milhares de pessoas que moram nestes barracos de Alagados”.
“Editando este livro – continuou – espero modificar toda a minha vida e conseguir a educação de meus sete filhos. Nenhum deles está estudando, por falta de fardamento e livros”. Expliquei a Solange que hoje as crianças poderão ir para a escola que lá elas ganhariam fardas e livros com recursos da caixa escolar. Porém mostrou-se desinteressada, talvez já desesperançada com tanta miséria. Em seguida deixou escapar que “uma moça me deu vários cadernos”. Nesses cadernos que foram dados para as crianças ela esta escrevendo seus contos e poemas.
A miséria
O barraco onde reside Solange Ribeiro, seus setes filhos e o companheiro Nelson Santos não mede mais de três metros quadrados. O piso é de tábuas velhas com grandes buracos por onde passeiam ratos e insetos. Nas paredes de tábuas de caixotes estão escritos vários pensamentos de sua autoria. Eis alguns dos pensamentos: “Antes de condenar-me procure absorver teu próprio eu“. Outro diz o seguinte: “O ignorante é o sábio oculto”. Além destes existem outros pensamentos e alguns em francês, língua que aprendeu quando estudou para submeter-se a um concurso público para o cargo de postalista. Ela foi reprovada devido a seu grau de instrução, primário incompleto.
Atualmente nenhum membro da família de Solange está trabalhando. A comida está sendo enviada pelos vizinhos. A luz e água foram cortadas por falta de pagamento. Segundo revelou “depois que fui divulgada caiu um chuvisco sobre nós. O Nelson (seu companheiro) desempregou-se, cortaram a luz e a água. Mas não há de ser nada porque Deus é mais”. E continua: “Atualmente ninguém está trabalhando. Já trabalhei, mas isto foi antes de casar. O primeiro emprego foi na firma construtora Soares Leone como telefonista de PBX. Em 1962, já casada, trabalhei numa empresa técnica em eletricidade, como telefonista. De lá nunca mais trabalhei fora de casa. Talvez por isto minha situação financeira tenha piorado, porque quando meus companheiros se desempregavam a coisa ficava preta”.
Solange atribui que uma das principais razões do seu estado de miséria é devido à sua condição de filha ilegítima. Em vários trechos do livro fala sobre este problema, vejamos: “resolvi escrever este livro porque é parte de minha vida. Nele eu desabafei e conto minha condição de filha adulterina. A caneta e o caderno foram meus maiores amigos nos instantes mais cruciantes de minha vida. A minha presença quase ninguém percebia. Era feia, magra, sem nenhuma aparência física. Fui gerada não sei por quê. Eles não pensaram que no sexo deve haver reciprocidade de afeição. A responsabilidade de um novo ser a encarnar faz-se necessário á preparação. Sinto que ficaram revoltados com a minha presença no mundo. Não sei se lutaram por minha expulsão quando fui feita. A minha jornada evolutiva foi enfrentada com fortes minuanos, borrascas e insucessos, decepções e tudo que pode ferir um ser humano”.
O livro da favelada baiana é recheado de revelações sobre seu estado de miséria, suas decepções e especialmente sobre a condição de uma pessoa marginalizada pela sociedade competitiva. Ela tem plena consciência de sua pobreza, que poderia livra-se com a publicação do livro que escreveu. Basta dizer que é tão grande seu desejo que já bolou até a possível capa. No esboço que fez, Solange apresenta uma mulher sentada com olhar contemplativo, mãos cruzadas e com um vestido longo. No alto desenho uma balança. Num dos pratos escreveu a palavra paz e noutro Fé. A balança está ligeiramente inclinada para o prato onde está escrito paz. Uma paz que ela busca, através de seus escritos, num desabafo de seu sofrimento diário. A Fé, segundo ela, representa a esperança de que as pessoas tomem conhecimento de sua existência e façam alguma coisa por sua família.


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