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quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

MEIO AMBIENTE - MARISQUEIRAS:NA LAMA DO MANGUE, A RAZÃO DE VIVER

A TARDE – TERÇA-FEIRA, 2 DE JANEIRO DE 1979
Texto Reynivaldo Brito
Quando a maré está na vazante e o mangue a descoberto uma multidão de mulheres e crianças corre com latas vazias e outros vasilhames para enfiarem os braços, pernas e rostos na lama podre de onde retiram pequenos mariscos que lhes garantem a sobrevivência. São centenas de marisqueiras que infestam os mangues em todo litoral baiano, especialmente em Salvador, à cata de pequenos mariscos que são vendidos a preços populares nas feiras livres e mercados da cidade. As roupas coloridas e os corpos seminus formam um quadro curioso, principalmente devido ao movimento contínuo de escavar com as próprias mãos a lama à procura dos papa-fumos e ostras. Logo que as águas começam a subir, o mangue vai ficando encoberto e as marisqueiras voltam alegres para seus barracos de onde sairão novamente no dia seguinte para o trabalho. Se está chovendo nada pode ser feito a não ser rezar para que faça tempo bom e possam voltar à lama em busca do sustento de suas famílias.
Esta atividade antes marginal acaba de ser reconhecida pelo governo através um decreto presidencial que regulamentou a profissão das marisqueiras e hoje elas já podem recolher a Previdência Social para gozarem de seus benefícios. Este decreto é fruto de um trabalho que vinha sendo desenvolvido pelas Voluntárias Sociais da Bahia através de sua presidente, D. Maria Amélia Santos (esposa do atual governador da Bahia, Roberto Santos). Depois do decreto, as marisqueiras de todo o país já têm todos os benefícios da Previdência Social, com direito a seguro de acidente do trabalho rural. Caberá, no entanto à Sudepe disciplinar o exercício das atividades dos novos beneficiários fornecendo-lhes as inscrições e os documentos comprobatórios.

                        NOS ALAGADOS
Na enseada de Itapajipe, em Salvador, está localizado o bairro dos Alagados onde residem sobre palafitas mais de 100 mil pessoas, muitas das quais vivem da cata de mariscos que é uma atividade importante, mas tudo indica que dentro de alguns anos essas pessoas terão que procurar outras atividades porque a enseada está altamente poluída por mercúrio e grande parte do mangue está sendo aterrada devido à implantação de um projeto habitacional. Naquele local predominam as pequenas ostras, papa-fumos, lambretas e rala-cocos. Já em outros mangues e baixios localizados no interior do Estado a poluição é quase inexistente e os aterros ainda não são necessários. Aí as marisqueiras ainda trabalham com certa segurança e tranquilidade.
A vida de uma catadora de mariscos é bem simples. Geralmente se deita por volta das 21 horas e acorda quando o sol começa a despontar no horizonte. Arruma nas latas e outros vasilhames, apenas pedaços de pano velhos para cobrir a cabeça e ruma para a lama. A hora de voltar depende da maré. “Quando a maré começa a subir a gente tem que sair, porque com a água alta ninguém pode trabalhar. Os mariscos ficam enterrados na lama e cobertos pela água e é muito difícil captura-los”, afirma D. Ermenegilda Santana, uma senhora negra de mais de 50 anos, que há 22 anos trabalha de marisqueira em Alagados.
Ainda não foi feito um levantamento completo de todas as marisqueiras da Bahia. No entanto, o delegado regional da Sudepe, Edvaldo Severiano dos Santos, acredita que existem centenas delas e cita que alas trabalham em cerca de 150 mil hectares de mangue. Para ele, este tipo de pesca não tem uma infraestrutura. Mas, está sendo implantado na Bahia um projeto bioestatístico, com vistas a controlar a pesca desenvolvida em toda costa baiana na área compreendida entre o Conde e Nazaré das Farinhas, dentre outros locais. Depois, será estendido até Porto Seguro e finalmente a Mouri, no extremo sul do Estado.
                                                                  DISPUTA
Poluído ou não, o marisco é ainda uma fonte de renda e a alimentação principal de centenas de pessoas. Os preços variam de acordo com a clientela, porém, um quilo gira em torno de Cr$ 50,00 e todos os turistas que visitam Salvador provam da “lambreta” que é uma pequena ostra vendida no Mercado Modelo como tira- gosto das batidas feitas com frutas tropicais. Aos sábados o Mercado fica lotado de gente jovem que toca instrumentos e toma as batidas ao som de berimbaus. Ninguém se lembra da poluição da enseada dos Tainheiros ou Itapajipe que mata milhares de mariscos. Também nos restaurantes dos hotéis de luxo e mesmo os localizados em toda orla marítima os mariscos são consumidos em grande escala. Os pratos são deliciosos, especialmente as moquecas que são feitas à base do azeite de dendê. Muitos acreditam que o fogo utilizado para cozinhá-los é necessário para “matar” a poluição.
Porém ,ao lado dos mariscos catados em Salvador e nos mangues do interior do Estado, já se consomem muitos outros importados de Alagoas e alguns estados vizinhos. Isto porque o marisco está se tornando difícil e a procura tem aumentado consideravelmente, especialmente depois da multiplicação dos restaurantes e da presença de turistas na chamada alta estação.
A verdade é que nas praias de Salvador já não se encontram com facilidade as lagostas, ostras, siris, caranguejos e camarões. Grandes quantidades vêm das ilhas que pontilham a Baía de todos os Santos e a maior parte de Alagoas, isto sem falar dos congelados que são comercializados nos supermercados.
O proprietário do restaurante Bargaço em Salvador, Sr. Leonel Evaristo da Rocha, revelou recentemente que usa duas caminhonetes frigoríficas para comprar mariscos em Maceió. “Há sempre uma indo e outra voltando de lá, de modo que dia sim, dia não, recebo siri mole, ostras gigantes, viúvas, lagostas e pitus”. Evidente que os mariscos menores ainda são encontrados em Salvador e que se é comprado fora sai mais caro devido ao transporte rodoviário que é dispendioso.
                                                                          CAMPANHA

Embora não se tenha ainda o número exato de marisqueiras no Estado, os técnicos ligados ao setor de pesca acreditam que existam mais de 10 mil em condições de serem beneficiadas. Para isto está sendo feito um trabalho de conscientização na Ilha de Itaparica, Conceição e outras localidades através da Secretaria do Trabalho e Bem-Estar Social. É a campanha do registro das marisqueiras que lhes garantirá a aposentadoria e assistência médica do INAMPS além da aposentadoria pelo FUNRURAL.


Para dar um caráter de maior segurança ás marisqueiras a Superintendência do Desenvolvimento da Pesca – Sudepe, órgão do Ministério da Agricultura, distinguiu a presidente das Voluntárias Sociais, Sra. Maria Amélia Santos, com o titulo de “Primeira Marisqueira do Estado da Bahia”, também pelos esforços que empreendeu e que resultaram na regulamentação da profissão de marisqueiras, oficialmente reconhecida pelo decreto presidencial n. 81563, de 11 de abril de 1978. Agora, elas estão sendo filiadas às colônias de pesca e têm garantidos todos os benefícios previdenciários.

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