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quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

POLÍTICA - ESCRITOR VOLTA DO EXÍLIO


Manchete - 12 de agosto de 1978.
É chamado à polícia e retorna sua vida normal
Depois de oito anos de exílio, retornou a Salvador o poeta, escritor e sociólogo Fernando Batinga de Mendonça, que viveu no Chile, Alemanha Ocidental, Portugal e França, onde publicou algumas de suas novelas e contos. Chegou procedente de Lisboa, numa viagem patrocinada e organizada pelo Alto Comissariado da ONU, com sede em Genebra, porém, antes de partir, foi obrigado a assinar um documento declarando que retornava por livre e espontânea vontade e que, ao pisar em solo brasileiro, cessava qualquer garantia por parte das Nações Unidas. Mesmo correndo o risco de ser preso, Batinga preferiu voltar ao Brasil para, entre outras coisas, rever o filho de 8 anos de idade.
Na polícia. No dia seguinte ao desembarque, Batinga foi intimado a comparecer à Polícia Federal, onde teve de responder a mais de cem perguntas sobre suas atividades e contatos no exterior. “Achei normal essa convocação e fui tratado como um ser civilizado”, disse Batinga, acentuando que retornava com o propósito de reaprender o Brasil e ajuda-lo a sair “desta crise que não é só política, mas também, social, econômica e cultural”. Enquanto falava a MANCHETE, em Salvador, Batinga se preparava para retomar suas atividades regulares. Já tem uma viagem programada para o sul do país e lançará, ainda este ano, a novela Corpo da Morte, onde trata da violência do mundo atual. “E’ uma novela que fala de torturas, exílio e violência, mas tudo se desenvolve no contexto da ficção”, informa Batinga, que faz ainda outras observações: “Estivemos convivendo com outras sociedades e culturas e isso nos possibilitou uma vivência muito grande, que por certo estará refletida em nossa produção intelectual. É preciso saber que não estávamos lá a passeio e sim na condição de exilado, o que nos assegura outro plano de percepção das coisas”.
Sofrimento. Batinga saiu do Brasil em 1970 e foi para o Chile em companhia do também escritor José de Oliveira Falcon. Ao lado de boas recordações – a redação de vários trabalhos sobre os movimentos de libertação de países africanos e a publicação de artigos sobre a cultura brasileira –, há lembranças dolorosas, como o suicídio de Falcon, em 1971, em Santiago, de Maria Auxiliadora Barcelos, em Berlim, e de Frei Tito de Alencar, na França, todos eles exilados políticos. Batinga relembra também sua prisão, quando da derrubada do governo Salvador Allende, no Chile. Justamente com mais de seis mil pessoas, foi conduzido, em 1973, para o Estádio Nacional, onde muitos adeptos do regime deposto foram torturados e fuzilados. Em dezembro de 1973, por interferência direta de Bonn, conseguiu viajar para a República Federal da Alemanha, onde passou a trabalhar como professor na Universidade de Frankfurt. Ao se mudar para Portugal, impetrou um mandado de segurança para obter passaporte e retornar ao país, tendo ganho de causa, no Tribunal Federal de Recursos, por unanimidade. “Acredito que o Brasil não pode prescindir de nenhum de seus filhos, muitos deles altamente qualificados em vários setores da atividade intelectual”, completa Batinga.
(Reynivaldo Brito/Salvador)
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