Objetivo


segunda-feira, 9 de agosto de 2010

RELIGIÃO - CRIANÇAS APRENDEM NA ESCOLA A PRESERVAR A CULTURA NEGRA

Jornal A Tarde 19 de janeiro de 1980.
Texto Reynivaldo Brito

Cansadas e inconformadas com a distorção a que são submetidos seus filhos nas escolas oficiais, mais de 100 famílias ligadas a um dos mais tradicionais terreiros de Salvador, que funciona no bairro de São Gonçalo do Retiro, resolveram criar uma mini -comunidade que integrasse suas crianças e moradores do bairro.Entraram em contato com órgãos federais, estaduais e municipais ligados à educação e fundaram uma escola onde a liberdade é quase total e as professoras dão ênfase às manifestações da cultura negra. Assim elas são orientadas pelos membros da Sociedade de Estudos de Cultura Negra do Brasil, que reúne antropólogos, lingüísticas ,sociólogos e historiadores.
Na foto Ó mó iyi / oni ile ekó mi / oni odara pupo ( você conhece esta casa? Ela é minha escola. Ela é muito boa) - a saudação em yorubá com que as crianças recebem os visitantes.

Pretendem , nesta experiência inédita no Brasil, evitar que as crianças do terreiro e do bairro sejam vítimas da perda de suas raízes culturais, colocando-as num processo contínuo de conscientização dos valores cultivados por seus antepassados. Ao mesmo tempo elas frequentam escolas oficiais para conseguirem os diplomas necessários à sua formação profissional, porque na escola da comunidade não existe uma avaliação formal com notas e conceitos. O que buscam os organizadores e idealizadores da comunidade é transmitir-lhes os traços mais significativos da cultura negra para que o processo cultural tenha uma continuidade garantida sem a possibilidade das graves distorções a que está submetida em diversos segmentos da sociedade.

                                                               SAUDAÇÃO

Ó MÓ YIY / ONI ILE EKÓ MI / ONI ODARA PUPU, esta saudação em yorubá significa: Você conhece esta casa? Ela é minha escola. Ela é muito boa”, e foi pronunciada num coro uníssono quando o repórter chegou para documentar o trabalho da comunidade. Elas estavam sentadas ouvindo as explicações da professora Maria das Graças Santana sobre algumas cantigas em yorubá que foram compostas especialmente para elas pelo Assobá e Alipini do terreiro de Opô Afonjá , mestre Didi. Ele também é encarregado de transmitir a língua yorubá às crianças e é um batalhador pelo respeito à cultura negra.
Informa a coordenadora da Secneb, Juana Elbein dos Santos ,argentina, doutora em etnologia e mulher de Deoscóredes dos Santos, o mestre Didi , que esta comunidade faz parte de uma experiência nova em todo o mundo, que fugindo aos padrões tradicionais das escolas de primeiro grau, consiste em estabelecer uma comunidade infantil no seio de uma comunidade já existente, com sua própria história e formas particulares de existência. Este é o primeiro projeto e vem atender também à necessidade de corrigir os altos índices de evasão escolar e de repetência a que estavam submetidas estas crianças devido à dificuldade em entenderem o código das escolas e das escolas entenderem os seus códigos. Seria uma espécie de falta de comunicação – revela Juana Elbein – que só é quebrada à medida que a criança cede aos conceitos emitidos pelos professores. Aqui em nossa comunidade, ao contrário, são usados os códigos da infância para a transmissão de conhecimentos”
Como toda obra cultural, a comunidade enfrenta problemas financeiros e especialmente a dificuldade em encontrar pessoal especializado para exercer as várias funções. Mas, a sociedade civil Axé Opô Afonjá cedeu terreno e os órgãos oficiais estão dando alguma ajuda.

                                                              RELIGIOSIDADE

Embora não sejam todas crianças ligadas religiosamente ao terreiro existe na comunidade uma preocupação em transmitir valores religiosos ligados ao candomblé – admite a etnóloga – serve como elementos de coesão não somente da comunidade do terreiro propriamente dito, como também da comunidade das crianças do Obá Biyi.
Ela considera que o equilíbrio domina a consecução da idéia em decorrência da existência de um grupo heterogêneo responsável pelo projeto. Deoscóredes defenderá a comunidade como Assobá do culto, uma espécie de guardião de honra do terreiro, por descender diretamente de sua criadora. Ao seu lado estão várias outras pessoas ligadas a especialidades como a antropologia, lingüística e etnologia. Enfrentam inclusive algumas críticas feitas ao projeto sobre a possível “Interferência”do grupo de pesquisadores em sua comunidade que tem seus valores próprios. Os críticos indagam “com que direito”agem essas pessoas envolvidas no projeto. Consideram a criação de um possível quilombo, cuja proliferação poderia levar ao “fechamento”da comunidade negra, voltando-se assim a uma situação ultrapassada.

                                                             APRENDIZADO

O projeto vem funcionando há mais de dois anos, e somente agora, depois do treinamento dos professores e auxiliares é que está sendo executado passando à realidade. O ensino é aberto, desenvolvendo a potencialidade nas crianças por áreas de interesse.
O material didático será desenvolvido pelos próprios alunos e em lugar da cartilha a criança conta a estória e depois escreve sua própria estória , começando a ser alfabetizada com as palavras que utiliza em seu vocabulário.
Informa a etnóloga que diversos e variados setores integram a atividade didática da comunidade. Além da parte de jogos,m desenho e linguagem, existe um setor de literatura oral, no qual as crianças contam e ouvem mitos e lendas ligados à sua raça.
Já no setor de arte, aprendem a música típica, integrada com dramatização e canto até em dialetos africanos. No setor ocupacional, as crianças da comunidade Oba Biyi aprendem a costurar com membros do terreiro, que são alfaiates e com costureiras que empregam em seus trabalhos de bordados, couro, búzios, ráfia e contas. Aí entram em contato com as cores e seus significados especiais.
As crianças também aprendem técnicas agrícolas e em convênio com a Emater-Ba será desenvolvido um projeto hortifrutigranjeiro, no qual serão produzidos os próprios alimentos da comunidade. Ao mesmo tempo receberão uma orientação profissional que lhes permita a mobilidade social. Elas têm acompanhamento nutricional criterioso, assistência médica e no próprio prédio da escola funciona, anexa, uma creche com capacidade de receber oito crianças recém-nascidas, 15 com idade de até dois anos e outras em idade pré-escola.

                                                                     OBÁ BIYI

O nome Oba Biyi foi dado em homenagem à primeira mãe-de-santo do terreiro que chamava-se Mãe Aninha. A atual é Mãe Estela que considera o projeto “muito importante para elas quando estiverem no curso secundário ou superior, saibam defender a seita, que é uma religião como outra qualquer. A seita já é conhecida e respeitada por pessoas de influência”
Para Jorge Amado, ligado ao candomblé , a idéia é excelente e vem demonstrar a importância da cultura negra na cultura brasileira. Essa comunidade dentro do Axê Opô Afonjá , de Mãe Aninha, Mãe Senhora, Mãe Ondina e Mãe Estela, adquire uma importância excepcional porque se situa dentro de uma casa de santo que conserva as mais puras tradições africanas."
Na foto a escola que funciona numa ampla casa do terreiro Axé Opô Afonjá, em São Gonçalo do Retiro.
Também o artista plástico argentino –baiano Carybé , que faz parte da comunidade, considera a idéia fabulosa, “uma coisa de bases sólidas e sérias quando muitos candomblés estão se transformando em clubes carnavalescos. O terreiro é sério e vai para a frente, sem confundir religião com folclore. É uma casa que nunca quis conquistar renome nem adeptos famosos. É aberta e fechada: aberta a quem quiser vir e fechada para este tipo de folclore. "
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