Objetivo


segunda-feira, 9 de agosto de 2010

RELIGIÃO - DOM TIMÓTEO AMOROSO, UM EXEMPLO DE DIGNIDADE

Jornal A Tarde 11 de julho de 1990.                                                                                        
Texto Reynivaldo Brito
Foto Arestides Batista

                                                                        
Um exemplo de amor ao próximo e à liberdade . Um religioso afeito as coisas de seu tempo, que sabe enxergar ao longe os anseios desse povo sofrido. Um amigo dos artistas, dos profissionais liberais, da gente simples. Um amante da renúncia, da vida simples e despojada do verdadeiro monge.Um defensor incansável dos Direitos Humanos e um exemplo de fé. Um símbolo . Aí estão alinhados alguns elementos que podem ajudar a formar um perfil de Dom Timóteo Anastácio Amoroso, que amanhã estará completando 80 anos de idade. Uma data significativa para este homem que passou grande parte da sua existência servindo. Sua contribuição como homem e pastor já foi relevada e enaltecida várias vezes. Lembro-me de quando ele renunciou ao honroso cargo de abade do Mosteiro de São Bento , onde permaneceu dirigindo por 16 longos anos. Mais uma demonstração de que não tem pretensão em ocupar cargos ou espaços de poder. A sua missão é simplesmente servir e, deixando o cargo, acreditava que poderia servir ainda mais aos carentes, e é isto que tem feito.
Na foto ao alto Dom Timóteo envolto em seu hábito longo e alvo, tendo ao fundo o secular mosteiro, o monge é o retrato vivo da simplicidade.
Nasceu num meio muito religioso e de lá para cá vem aprofundando esta busca , este encontro com o seu Deus. Numa entrevista longa que ele deu no ano passado a José Antonio Saja e Maristela Bouzas, nos revela um pouco de sua crença: “Essa minha relação com Deus é uma coisa viva. Um Deus moralista,dos mineiros. Mas, também, um Deus que apela para a profundeza do ser. Sou um procurador de Deus. Um buscador de Deus. E isso define inclusive, a minha vocação em especial”. A vocação monástica de Dom Timóteo pode ser sentida quando ele afirma que “nós somos, em grande parte , aquilo que nós vemos, que nós vemos e que vimos, desde criança. Posso dizer de um modo geral, de todos os sentidos, mas concentrado no sentido da vista, que é esse sentido mais abrangente. Somos em grande parte aquilo que a gente vê. Há um berço das sensações; mais abaixo desse berço há um eu profundo, onde, então, essas sensações se transformam como que num desenho. Então, uma imagem se forma. Tudo é sempre uma representação, mas, na medida que a gente caminha na vida, a representação de Deus vai ficando cada vez mais precária, mais debilitada. Porque a gente começa a descobrir que esse Deus é surpresa constante , permanente, é sempre outro. E é sempre o mesmo”.
Para o monge Dom Timóteo, a grande dificuldade é que somos frágeis, e cada um de nós está sempre sendo chamado à periferia de si mesmo , com todas as fraquezas humanas. “Mas o próprio ambiente que vivo, a própria vida que escolhi e na qual Deus me acolheu, favorece esse reencontro constante.”

                                              PARTICIPAÇÃO NA SOCIEDADE

Lembra Dom Timóteo que o Cristianismo é o chamado a participar. Isso favorece ao homem, quer dizer, isto levanta os abatidos, desmarginaliza os que estão isolados, no isolamento sócio-político, sócio-econômico . Isso corresponde à dignidade do homem, que dizer, é uma pergunta que o cristão sempre fará, embora ele não seja como cristão que dá o texto da lei; mas ele tem uma visão profética, uma visão crítica e, também, uma fonte de inspiração evangélica para realizar uma vivência humana, social e individual, à medida da dignidade do homem. Isto é o que o Evangelho nos inspira. Por isso, o Evangelho forma adoradores verdadeiros do Pai, mas que só são adoradores , se nesta adoração eles têm o coração também aberto aos irmãos. Então, isso faz parte essencial do “Ethos” cristão. Ai você desenvolve isso em várias camadas de ser com densidade diferente... Mas nós estamos numa época tão crítica da sociedade internacional que a gente pensa logo numa nova estrutura política em que realmente os Direitos Humanos sejam garantidos”.
Ele chama a atenção de que muitos correm, o risco ao abraçarem alguns movimentos com grande atuação nos campos social e político, de perderem o ponto de referência da adoração. “Então ,ficarão no risco de querer reduzir o Cristianismo a um mero humanismo, muito elevado, muito belo, mas que não é suficiente , porque a dimensão horizontal, ela brota do tronco vertical. .. É como a cruz. A cruz brota da dimensão vertical. É esta dimensão que está lá plantada, em primeiro lugar. O que o Cristo levou nas costas foi a horizontal, em vista de juntar com aquela vertical. Então , Ele dá o tipo perfeito ao cristão.A cruz nos dá uma representação que é gráfica do que é o verdadeiro cristão. A gente está no ponto de encontro das duas hastes : a vertical e a horizontal. E deixa de ser cruz se não tiver ma das duas, deixa de ser plenitude. Então, é muito importante ! Ai, você tem que a presença profética, de denúncia, contra tudo aquilo que desfigura, que maltrata o homem e a presença sapiencial que inspira na construção , agora técnica, da sociedade, uma realidade à medida da dignidade do homem, de todos os homens. Então, há uma “encarnação”da misericórdia também no corpo político, social e econômico . Então, a misericórdia não se reduz as gestos imediatos de amor, nos encontros face à face , mas ela também é elevada ao nível quase que institucional. Então, isso é uma civilização de inspiração cristã, que não é exatamente uma civilização confissional. Por exemplo : já católico, cristão, propriamente confessional, mas no fundo não deu certo, embora tenha trazido muitas vantagens, muitos benefícios. Mas, você sabe, a fraqueza do homem, os interesses secundários, que são muitos infiltram nisso tudo e, então você não tem estado confessional teocrático, um “aitolá “católico” .
Para Dom Timóteo “o pluralismo faz a gente descobrir, realmente , outras representações possíveis e legítimas. No início dos tempos modernos, os missionários descobriram novos povos. A Europa e a Civilização Ocidental, de certo modo, quase que ignoravam o resto do mundo. Sabia assim : “Marco Pólo foi à China ainda na Idade Média, mas não trouxe conseqüências na visão geral do mundo. Ao passo que as descobertas, no tempo dos Descobrimentos , suscitaram problemas. Esse pessoal inesperado, qual a situação dele no conjunto do universo religioso ? Eles têm alma, eles t6em direito, eles são filhos de Deus ? Então, a voracidade colonialista começou a explorar , e aí, os primeiros papas da Renascença tiveram que se manifestar, justamente, em defesa da qualidade humana daquelas populações.
E prossegue : “Naturalmente com um convite para eles receberem o cristianismo, e se europeizar... Mas reconhecendo ao menos teoricamente o direito de serem europeizados. Isso depois, no século seguinte, o Bartolomeu de Lãs Casas, em defesa dos pré-colombianos , da América e tudo... portanto, até dos indígenas brasileiros. Mas isso deu tempo à igreja , também, a se colocar diante dessas novas soluções. Hoje é fácil , a igreja assina qualquer declaração de Direitos Humanos, mas ela levou tempo a ver isso com clareza e liberdade. Leva tempo , com efeito, o poder de se reestruturar diante de novas circunstâncias , que modificam o quadro de mentalidades...”

                                                                  O HOMEM

Na década de 1940 , o advogado Luiz Antonio Amoroso Anastácio resolver abraçar a vida religiosa. Aqui chegou em 1965, após ser eleito abade, e tempo depois escandalizava os mais reacionários com sua “Missa do Morro”, quando introduziu ritmos e instrumentos peculiares ao candomblé à capoeira, como o atabaque e o berimbau. Para aprofundar seus conhecimentos, chegou a tomar assento num terreiro, convivendo com mães e filhas-de-santo. Lá, pôde encontrar alguns símbolos do cristianismo. Este mineiro de Barbacena foi colega do saudoso Tancredo Neves na Faculdade de Direito de Belo Horizonte . Sempre escrevia seus versos e gostava de ir a festas com seus amigos e colegas. Terminou se formando em Direito no Rio de Janeiro , e lá conheceu uma conterrânea de nome Jenny, com quem casou, ficando viúvo, dois anos depois. Chegou a trabalhar como advogado no Rio de janeiro até abraçar definitivamente a vida monástica.
“Fazia 16 anos que fora eleito abade. E sempre achei que não nasci para abade. Me sentia meio cansado. Era hora de dar o primeiro passo e promover uma mudança. Muita gente pensou que fosse pressão de fora, de políticos mas não houve nada disso”, revelou Dom Timóteo. Isto é mais uma prova do seu despojamento, da sua tranqüilidade em renunciar a qualquer forma de poder.
Ao recebe o título de Doutor Honoris Causa da Universidade Federal da Bahia, no último dia 5, numa iniciativa de um grupo de amigos artistas , ele confessou que estava envaidecido. “Eu sou tremendamente vaidoso. Mas, com o passar dos tempos, com a idade, com o envelhecimento, o estímulo da vaidade é menor, porque a gente conhece melhor as nossas falhas, defeitos, limites , e vê que no fundo é ridículo ter vaidade”.
A proposta do título saiu da Congregação a Escola de Belas Artes e não poderia a iniciativa sair de outro lugar. Lembro-me de algumas frases ditas por Dom Timóteo sobre os artistas que realmente me comovem. Vejam : “Eu gosto , gosto de cada um de vocês, mas gosto dos artistas, dos músicos, pintores, dançarinos etc. porque eles permitem levantar um pouco o véu da , desculpem, chatice da existência e mostrar o mundo, ou positivamente ou negativamente, como não deve ser o mundo. Quando eu vejo na fase dos bonecos de ex-votos do Sante ( referia-se a Sante Scaldaferri, seu amigo ) aquelas formas monstruosas, é uma ironia, o sentido tremendo, é a revolta do artista contra a deformação maligna. É a feiúra inaceitável que o nosso coração acusa e rejeita”.
Não só o amigo dos artista, mas o ser humano solidário, que soube enfrentar ameaças em defesa de muitos. Tenho em meu poder uma cópia de uma carta que Haroldo Lima, hoje deputado federal do PC do B, enviou para Dom Timóteo onde relata que em 1970, próximo ao Natal, “meus 10 anos de vida clandestina, vida sem nome, sem diversões, sem contato com os amigos, mas vida com ideal”... foram interrompidos com sua prisão, seqüestro e daí travou contato com a tortura. Temia a morte e “sentia que minha vida ali no Doi-Codi do Rio de Janeiro não valia um cruzado”. Depois sentiu que num determinado momento os seus algozes passaram a ter um certo cuidado com sua sobrevivência. O médico já lhe tomava o pulso e lhe auscultava para controlar o limite de sua resistência às torturas. Certo dia, relata Haroldo Lima, um torturador perguntou-lhe “por que o abade do Mosteiro de São Bento de Salvador intercedia por mim”, isto foi suficiente para reanimá-lo, porque percebera que não fora esquecido por seu velho amigo. “A palavra do meu velho amigo Dom Abade soara em minha defesa, incomodando aos que me torturavam, alertando, fazendo com que sem próprio nome ecoasse na câmara de terror, inibindo a mão que poderia desfechar o golpe fatal, contribuindo assim, diretamente , para salvar a minha vida”.
E, por esta sua disposição em ajudar os oprimidos, em defender a vida das pessoas ameaçadas, ele foi taxado de “abade vermelho”.
Durante o período da ditadura invadiram o Mosteiro de São Bento em busca de estudantes, que, perseguidos pela Polícia, ali procuraram abrigo. Vários monges foram ameaçados e até mesmo sofreram agressões físicas. Ele saiu do mosteiro e foi à Secretaria de Segurança Pública protestar, com muita veemência, junto ao então Secretário Gilberto Pedreira.
Na realidade, esta cabecinha branca e arejada de Dom Timóteo não tem nada a ver com outros setores da igreja tidos como extremados. Em primeiro lugar, é um homem do seu tempo, um homem que acompanha com muito interesse o que se passa ao seu redor e no mundo e que tem uma militância intelectual. É um poeta de mão cheia, um humanista, um crente em Deus e, portanto, não poderia comungar outros ismos, a não ser o do próprio cristianismo ou catolicismo.

DOIS POEMAS

                                                                                        
LAMENTAÇÃO DA ONDA

Sem a humilde enseada que seria do mar,
e onde o sossego da onda cambaleante?
Vaga flor sem raízes desfolhadas nas margens,
veleiro doido que o vento, afinal, ancorou
numa curva enseada.
Onda hipertensa em regime de sal,
lábios sedentos, na areia soçobrados,
sugando a linta inocente as
entranhas da terra
Em que deixa o ressaibo das vagas
E apazigua o conflito das ondas
essa angústia de mar sem raízes,
presa fácil dos ventos,
eterno fascinado das estrelas.

Sem humilde enseada o mar seria
o trânsfuga cativo de si mesmo,
majestoso deserto, estepe fria fria,
nau sem destino, caravela a esmo,
com sua inextricável agonia
e a regorgitação do amaro absinto,
flutuando num Gênesis extinto.


Rude corpo de terra que balizas
a tonteira dos pélagos , e âncoras
a salsugem de angústias imprecisas...

Sem o silencioso abraço das dunas,
Que seria do oceano com todos os seus lamentos,
Despetalado malmequer à mão dos ventos,
inconseqüente , desarvorada escuna?

No teu rapto suspensa em repouso e de prece,
no dorso fascinado dum mar caído em transe
rolas,despojada, ao assalto do ser.

Belo Horizonte 4.02.1960.



ODE À SERRA DO CURRAL

Ó tranqüila muralha,ó vaga adormecida,
expulsa de ti mesma e, contudo ,ondulante,
Crista de onda,onda exposta pelo mar
ansiado,entre os braços da terra.

No teu rapto suspensa em repouso e de prece,
no dorso fascinado dum mar caído em transe
rolas,despojada, ao assalto do ser.


Só te defende a profundeza maternal
que consagra ao encontro, à pilhagem,
na espera duma essência mais alta,
dum grau de ser imóvel,
com raízes nas águas turbulentas.
O mar não é montanha degradada,
mas montanha é o mar pacificado.

Cordilheira em silêncio, oceano arrependido,
espuma alienada às histórias do vento
e calma solidez à beira dos abismos.
Entre na comunhão dum mundo novo.

És húmus nutritivo de corolas
em susto sob o olhar estupefacto
de espécies nunca mais oferecidas.
Tuas penhas descansam jovens astros
doentes de fobia do oceano.
Impregna-te um silêncio consolado
por conchas em surdina às mãos da Noite
que destrança em teus flancos seus cabelos
Donde rolam os sonhos e as estrelas
e o orvalho que goteja as madrugadas.
Em ti o dia tem nascença e morte.

Sou teu pai, teu pastor e sou teu filho,
e esposo-te, montanha, e me recebes
na surda aspiração duma oferenda.
Ó tranqüila muralha, ó mar coagulado
em calma solidez, em calma solidão,
roxo pressentimento de picadas
ascendentes de assombro e de oblação
à nova-comungante em véu de noiva.

Belo Horizonte, março de 1959.
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