Objetivo


domingo, 8 de maio de 2016

RAUL SEIXAS - O LIVRO 3

Encontrei o Raul Seixas numa manhã no início do mês de outubro de 1978 num dos apartamentos do Salvador Praia Hotel, em Ondina. Tinha marcado com antecedência a entrevista porém, quando chegamos ao hotel ele mandou que eu e o fotógrafo fóssemos até o apartamento onde se hospedara. 
Lá chegando, o encontramos envolto em um longo lençol branco a fazer caretas e poses estranhas. 
Estava tomado pelo vício e ao lado pude ver uma garrafa vazia de éter. Imaginei que o Raul estava perto do fim. Ele mesmo disse que suas atitudes, muitas vezes incompreendidas, são resultado de uma “maluquez controlada”. Vejamos a reportagem:

Durante quatro meses o cantor e compositor Raul Seixas esteve na Bahia revendo parentes, amigos e o sertão onde pode conviver com os vaqueiros e sentir de perto a cultura sertaneja. Desde 1967 que Raul não parava de trabalhar e chegou a sentir de perto o cansaço ocasionado pelas constantes apresentações em shows de televisão e teatro, e, principalmente, devido a muitas viagens que fez pelo interior do país. Nascido em Salvador e desacostumado com tanta ocupação, o cantor sentiu de repente a necessidade de parar por algum tempo. A princípio esperava parar apenas por um mês , mas foi ficando, e de repente o tempo passou sem perceber que já estava há quatro meses vivendo praticamente uma vida rural. Hoje, Raul já está completamente restabelecido e preparado para o lançamento do seu próximo LP que ele denominou de “O Judas”, onde fez uma reavaliação da importância deste personagem na história da Igreja Apostólica Romana.
Porém, mesmo vivendo uma temporada numa fazenda de parentes, Raul não chegou a abandonar suas músicas e o seu violão. Foi neste ambiente que fez algumas novas composições e muitas serenatas em plena noite juntamente com os agregados da fazenda onde estava descansando. Suas brincadeiras também não foram esquecidas e lá pôde brincar com as vacas, cabras e pescar na hora que bem entendia porque o seu lema era o descanso sem a preocupação de horários e etiquetas. Um ambiente, portanto, bem identificado com a personalidade extrovertida do artista. Raul é capaz de chocar qualquer pessoa que não o conheça de perto com suas caretas e outras manifestações que ele define como resultado de “uma maluquez controlada”.
NOVA VIDA
Acha, Raul Seixas, que depois que conheceu Tânia Mena Barreto está curtindo uma vida nova. Uma vida enriquecida com a presença da companheira que vive preocupada com os mínimos passos do Raul, mas sem interferir, sem ditar regras ( também se as ditasse ele não aceitaria) e, sim, compreendendo o sucesso e a necessidade de uma vida pública. Isto porque por onde passa sempre surgem os fãs solicitando autógrafos e elogiando o seu trabalho.
Tânia pôde acompanhar de perto o descanso de Raul Seixas e ela mesmo revela que “ele estava precisando parar. Assim, novas composições e uma nova vida contribuirão para dar continuidade a um trabalho iniciado há pouco mais de dez anos”.

APRENDIZAGEM

“Vivo aprendendo e estou atento às manifestações culturais do povo brasileiro . Tenho uma preocupação em refletir no meu trabalho uma ambientação brasileira, uma visão brasileira do mundo. As brincadeiras que por ventura faço no vídeo ou no palco são certamente brincadeiras que muitos desejavam fazer, e não o fazem de público porque não dispõem de instrumentos. O microfone, o palco e o vídeo me dão esta oportunidade que procuro aproveita-la em toda sua força e técnica. Foi dentro desta visão que resolvi vir à Bahia onde pude tomar um novo banho de gente, de povo, da gente sertaneja que lavra a terra e que não tem a preocupação com o relógio. Eles trabalham até quando o sol se esconde no horizonte. Os minutos e uma hora a mais ou a menos , não lhes perturbam. O que interessa é produzir e principalmente garantir o sustento de suas famílias. Isto é uma coisa maravilhosa, aliada também à pureza. O homem que vive na cidade grande não poderá nunca imaginar como são puros os sertanejos, e isto é muito importante a gente sentir, especialmente o artista que é um criador”.
Diz Raul Seixas que “trago comigo uma maluquez controlada” a ponto de entender as visões distorcidas de pessoas alheias ao seu trabalho .
Muitos acreditam que ele só vive envolvido com tóxicos e que sua criação sofre muito a influência de momentos de loucura. Para estes, ele tem uma resposta: “Realmente muitos confundem o meu comportamento brincalhão, as minhas maluquices com o consumo de drogas ou coisas semelhantes. É uma tremenda bobeira. Não consumo drogas e o que gosto mesmo é de uma cachaça. Aliás, o baiano de modo geral gosta de uma boa birita. Creia malandro, é birita mesmo. Sem essa de tóxicos porque sei e tenho minha convicção do grande mal que causam ao jovem. Hoje, o consumo de tóxicos tem aumentado e muitos culpam as companhias ou os pais. Eles não pode intervir em meu trabalho profissional. Quando reclamam de alguma coisa passo a mão em suas cabeças e vou em frente. Eu tenho é que procurar produzir e melhorar cada vez mais o meu trabalho. O trabalho não só dignifica como também me dá toda a razão de viver. Não consigo viver sem a música. Ela faz parte do meu eu e mesmo quando não estou compondo fico maravilhado com uma música de outro artista que ouço num rádio ou mesmo na televisão”.

TODOS OS PÚBLICOS

Recentemente, a gravadora que produz os discos de Raul Seixas fez uma pesquisa sobre o tipo de público que ele alcançava e todos ficaram espantados . É que suas músicas e todo o seu trabalho musical são aceitos e consumidos pelos mais variados tipos de público. “ Imagine bicho que desde o adolescente até à vovozinha as minhas músicas têm aceitação. Isto criou uma confiança cada vez maior no meu trabalho e me dá forças pra continuar cultivando a minha maluquez controlada. Digo controlada porque a gente sempre freia para não exagerar,receber recriminações. Sou um artista, e tenho responsabilidade e por isto tudo tem que ser dosado para evitar problemas”.
Para atender todo este público, ele diz usar dos canais que lhes são oferecidos como a televisão, o teatro e os palcos dos clubes sociais quando realiza seus shows pelo interior do país. “A gente tem que dizer as coisas e quando a palavra pode ser multiplicada por um disco, um microfone ou uma fita cassete tenho que aproveitar da melhor maneira possível”.

O JUDAS

O cantor Raul Seixas faz em seu disco uma reavaliação da figura do Judas, que é inclusive o título do seu novo trabalho. "O Judas é uma figura sensacional.Fiz uma música onde mostro que foi feito um pacto entre Cristo e o Judas. Nada de traição. A música “Judas” foi feita de parceria com Paulo Coelho e mostra a outra face de Judas. O Judas homem, suas fraquezas e sua lealdade perante o Cristo. Esta figura me impressiona porque grande parte da humanidade quer jogar suas fraquezas, suas decepções em cima deste homem que foi amigo inseparável do Cristo. Se ele foi amigo é porque tinha qualidade, e essas qualidades precisam ser reconhecidas por todos. Veja você que os historiadores estão agora preocupados em reavaliar o personagem Calabar. Querem tirar a ideia de traidor, daquele que entregou seus companheiros aos inimigos. É dentro desta visão que apresento o Judas, como o amigo de Jesus, um homem que está sendo injustiçado através dos séculos”. “Isto pode chocar algumas pessoas , mas na realidade , nos dias de hoje, temos muitas pessoas vivendo o triste papel do Judas que traiu o Jesus e isto me angustia. Muita gente é injustiçada e é para eles que dedico este disco”.
Além do disco, Raul Seixas está ultimando os preparativos para lançar o seu livro dedicado às crianças brasileiras. O livro tem o título de “O Verbaloide”, mas ele não quis adiantar detalhes do seu conteúdo, “porque ainda estou refazendo algumas coisas. Na hora oportuna, falarei sobre ele, mas posso adiantar que é perfeitamente identificado com a criança do século XX”.
Em janeiro, ele irá para os Estados Unidos onde gravará um LP, mais precisamente em Los Angeles. Um trabalho já foi feito nas universidades americanas sobre sua linha melódica, seu modo de encarar as coisas com vistas a uma aceitação de mercado. Espero conquistar os americanos. Aliás, por que não tentar? Imagine que recebemos por aqui e consumimos muita música americana, sem qualquer preconceito, e creio que isto poderá acontecer ao inverso. Muitos artistas brasileiros já têm um mercado por lá e creio que agora chegou a minha hora”.
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