Objetivo


quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

CINEMA - GLÁUBER BRIGA COM INTELECTUAIS


5 de Dezembro de 1977
REVISTA: FATOS E FOTOS / GENTE

PARA GLÁUBER ROCHA
BRIGAR COM INTELECTUAIS NÃO É NOVIDADE.
SEU ENCONTRO É COM O POVO
O FATO Com Tarcísio Meira, Walmor Chagas e Mauricio do Vale no elenco, Gláuber Rocha inicia a 8 de dezembro as filmagens de Idade da Terra, abordando aspectos da vida de Cristo. Com esse trabalho, o diretor baiano da à arrancada para o que ele classifica de “a segunda revolução cinematográfica brasileira”. Ao todo, o plano inclui 12 filmes com um investimento de 60 milhões de cruzeiros. Num quarto de hotel, Gláuber, agitado, andando de um lado para outro, fala com exclusividade para FATOS E FOTOS/GENTE na polêmica linha que marcou seu trabalho e pautou as mais recentes declarações à imprensa. Como esta sobre Pelé: “Ele é um garoto-propaganda das multinacionais. Se antes jogava futebol, agora é jogador. Virou bola nas mãos dos mercenários.” A acusação se deve ao fato de Pelé pretender promover o cinema e a música brasileira no exterior, como relações públicas da Warner.
Futebol à parte, Gláuber parte para as análises: política, cultura, cinema e a sua revolução.
Vou lutar para fazer a segunda revolução cinematográfica brasileira juntamente com meus colegas baianos e de outros estados do Norte e Nordeste. Estamos unidos e com o propósito de exigir da Embrafilme o direito que nos cabe para fazer o saneamento necessário no cinema, que está entorpecido pelos enlatados e excesso de importação estrangeira. Sobre esse primeiro trabalho da série, é bom ressalvar que Cristo nasceu na Ásia Menor e sempre foi filmado do ponto de vista de artistas europeus e americanos. Agora vou fazer o Cristo no Terceiro Mundo, o Cristo visto pelos oprimidos. É um filme inspirado em Cristo do Apocalipse e não no Cristo dos quatro Evangelhos. Também abordarei aspectos da vida de São Paulo. Não vou reconstituir Roma ou qualquer outra cidade porque isto não nos interessa. O que desejo é dar à vida de Cristo uma linguagem cinematográfica latino-americana.
Muitos produtores não acreditaram no meu projeto e queriam que fizesse uma pornochanchada ou um policial. Eu já os conheço e só reclamo é que depois de trabalhar tanto ainda tenho dificuldade para arranjar produto para financiar meus filmes. Demorei 14 meses para organizar esta produção de Idade da Terra, o que dá a impressão de que um sujeito que trabalha não merece a menor consideração. Depois de nove longas e quatro curtas-metragens, me sabotam e tentam impedir o meu trabalho. Mas, desde 1960 que os conheço porque muitos deles aprenderam alguma coisa de cinema comigo. Continuo contra os filmes de pornochanchadas e policiais. Os produtores de cinema no Brasil e a maioria dos diretores continuam com a mentalidade de investir pouco dinheiro ludibriando o público e aproveitando-se do decreto que obriga a exibição de filmes nacionais.

“Os artistas confundem pobreza com estilo”
”Se em 1960 houve uma revolução artística no cinema brasileiro, hoje vemos a criação de condições para nossas produções. A Embrafilme foi criada e é uma empresa de economia mista que coproduz oferecendo facilidades industriais. Mas, ainda enfrentamos a decadência da crítica, a desonestidade dos produtores que só falam de cultura para pedir proteção e dinheiro ao governo e mesmo grande parte dos diretores que não se esforça para melhorar a técnica, o estilo, o som e a interpretação dos atores. Isto é um dos aspectos de crise artística que atravessa o Brasil, provocada de um lado pela censura e do outro pelo conformismo intelectual. O cinema brasileiro busca sair de sonho de cineclubistas para se transformar numa indústria florescente. Mas, isto não quer dizer que a quantidade (100 filmes por ano) garanta a qualidade de 10 filmes. Até hoje o cineasta brasileiro vive lutando para construir condições econômicas para fazer cinema.
Somente agora é que vejo a possibilidade de uma dedicação à criação, embora reconheça que nosso parque tecnológico de imagem e som ainda é subdesenvolvido. E ,ainda o mercado de exibição continua dominado pelas companhias estrangeiras. A vantagem é a existência da Embrafilme, que é uma empresa de economia mista, que inevitavelmente será a maior da América Latina, da África, Espanha e Portugal. É uma distribuidora em expansão, que pode exibir o filme brasileiro em nosso território e no exterior.
Com exceção de alguns diretores, como Nélson Pereira dos Santos, Arnaldo Jabor, Joaquim Pedro de Andrade, o cinema brasileiro está cheio de diretores ruins e sem qualquer capacidade criativa. Como também são ruins a maioria das peças de nosso teatro, os romances e os discos que têm aparecido ultimamente no Brasil. Temos hoje a garantia econômica e é necessária uma revolução cultural na cabeça dos críticos, diretores e atores para criar condições de ambição para se fazer um grande cinema. Aqui a maioria dos intelectuais é modesta; o que em arte significa mediocridade. Os artistas confundem pobreza de imaginação com estilo realista e optam sempre por soluções individualistas, pessimistas e fatalistas o que demostra a grande falta de esperança no futuro de nossa sociedade. Não basta falar de temas brasileiros para se fazer uma grande arte. A arte se faz com as vísceras, com a loucura dos sonhos, com o delírio da imaginação, com as aventuras da fantasia e com a indisciplina diante das regras preestabelecidas.”

“Geisel mudou minhas perspectivas”
“Brecht já dizia: Pobre do povo que precisa de heróis. Quando o povo está fraco é que precisa de heróis e o artista se transforma num mito, porque é diferente. Enquanto o público protege o artista, a maioria dos críticos procura destruí-lo querendo negar o valor do seu trabalho com argumentos que não têm nada a ver com o trabalho propriamente dito. Exigem dos artistas posições políticas que defendam suas obras e de interesses deles (críticos) que tanto podem ser comunistas ou fascistas. Daí vários artistas estarem a serviço de partidos políticos. O que acontece? Fazem uma arte medíocre, mas são elogiados pelos interessados. Os artistas em si são políticos, mas independentes de tutelas. No Brasil de hoje, eu ganhei vários inimigos porque reconheci no Presidente Ernesto Geisel um líder revolucionário que mudou significativamente minha perspectiva sobre o Brasil e o mundo. Assim, desde março de 1974, quando apoiei o nosso presidente, numa declaração de repercussão internacional, venho sofrendo calúnias, perseguições e até ameaças. O que demostra que a repressão à liberdade de pensamento não é apenas um fato oficial, mas uma tradição da fina flor da intelectualidade nacional. Ninguém se preocupa em observar que o General Geisel está mudando o Brasil, nos retirando do impasse ditatorial rumo a uma democracia econômico-social e cultural. Preferem dizer que estou louco que recebo dinheiro dos ministérios para fazer propaganda do governo. Admitir que sou honesto, que tenho razão na minha visão política, obrigaria esses intelectuais a revisar seus pontos de vista. Mas, os intelectuais brasileiros ficam com medo de fazer autocrítica e de reconhecer a dialética da História, que é contrária a qualquer sistematização filosófica. Assim, eles defendem o modelo norte-americano como ideal para nossa sociedade, desconhecendo que a revolução de 1964 já superou o conceito de democracia liberal capitalista e ao mesmo tempo em que recusa o modelo social imperialista soviética e o modelo patriarcalista chinês ou a social-democracia europeia.”

“Me recusam pelas posições que assumi”
“A revolução brasileira busca um modelo neodemocrático cujos objetivos, como tem salientado o Presidente Geisel, é o homem pobre que não recebe nem as migalhas do grande bolo. Já é tempo de as pessoas conscientes deste país assumirem a responsabilidade de ver em Geisel o redentor de um país que estava se afogando no charco da fome, da miséria e do desrespeito aos direitos humanos. E, depois do que o presidente já fez e está fazendo, a oposição deveria abrir mão de suas campanhas casuísticas e apoiar o General Geisel para que ele possa executar profunda e definitivamente as reformas econômicas que poderão gerar uma nova legislação política, um novo relacionamento social, uma nova transação psicológica, uma nova criatividade artística e científica.”
“Já briguei conscientemente com uns duzentos intelectuais decadentes entre Rio de Janeiro, São Paulo, Paris, Nova Iorque e Brasília. Porém, estou feliz porque estou me encontrando com 110 milhões de brasileiros. Sei que muitos dos meus detratores já sabem que estou certo, mas eu não preciso de juízes porque o meu juiz é a minha consciência.
Para os que afirmam que sou protegido do governo, digo que meu filme Cabeças Cortadas, um longa-metragem que rodei em 1970 na Espanha, está proibido no Brasil desde 1973. E a Censura não manifestou nenhum interesse em reconsiderar esta posição. Vários jornais e revistas têm recusado artigos de minha autoria, não com receio da Censura, mas porque faço elogios ao Presidente Geisel. Duas importantes editoras nacionais se recusaram a publicar um romance que escrevi sobre a vida do Ex-presidente João Goulart. Além disso, sofro restrições econômicas e discriminatórias. Uma delas, que faço questão de citar, é o caso do organizador da Jornada Nacional de Curta-Metragem, que todos os anos acontece na Bahia e que tem como coordenador o Sr. Guido Araújo. Ele proibiu a exibição de meu curta Di Cavalcanti, que foi premiado, sob a alegação que era um filme oficial. É um burocrata que não conhece nada de cinema e que não tem condições para proibir a exibição de um filme de minha autoria”.

“O cinema está regredindo no Rio e São Paulo”
“A constituição do pólo baiano é o resultado de uma regressão intelectual e econômica que sofreu o cinema da Bahia desde que eu e Roberto Pires saímos daqui em 1963. O pique industrial do cinema baiano, que produziu Tocaia no Asfalto, A Grande Feira, de Roberto Pires, e Deus e o Diabo na Terra do Sol, foi substituído por uma mentalidade mesquinha e às vezes policialesca de um grupo de burocratas que nada entende de cinema. Daí o pólo ser constituído apenas de Cr$ 1,5 milhão que devem ser aplicados anualmente em produções de curtas e longas-metragens. Qualquer curta no Brasil custa no mínimo Cr$ 300 mil cruzeiros e em longa uns Cr$ 3 milhões. O pólo, além de nascer com um atraso de 13 anos, é um anacronismo típico de província, onde se confunde indústria cinematográfica com concurso de declamação. A Embrafilme, que colabora neste projeto investindo apenas Cr$ 500 mil cruzeiros, cometeu uma inexplicável ingenuidade acreditando que esta irrisória quantia servisse para estimular. A Embrafilme este ano está investindo Cr$ 50 milhões em televisão. Esse capital é consumido em grande parte por produtores do eixo Rio-São Paulo, sobretudo por produtores do Rio de Janeiro. Assim, os problemas brasileiros são filmados através de uma ótica desses estados beneficiados. Ora, a Bahia possui grandes cineastas como Roberto Pires, Orlando Sena, Olney São Paulo e Rex Schindler, que além de grandes são pioneiros e criadores do cinema Novo baiano que antecede o Cinema Novo carioca. Se formos levar em conta o problema da capacidade, veremos que a Bahia tem direito a pelo menos 30% da verba da Embrafilme para produção. E, certamente com a garantia de que os filmes baianos seriam melhores do que o cinema que se faz hoje no Rio-São Paulo, que está regredindo aos tempos da chanchada e do dramalhão. É preciso sanear a área que está entorpecida pela falta de criatividade, entre outras coisas.”
A REBELIÃO E OS MITOS
“O argumento/roteiro de A Idade da Pedra (Gláuber oscila entre esse título e A Idade da Terra) é tão sumário quanto às peças anteriores destinadas a Barravento (1961), Deus e o Diabo na Terra do Sol (64), Terra em Transe (67) e O Dragão da Maldade Contra o Santo Guerreiro (69). Não fazemos referência aos outros cinco longas-metragens glauberianos realizados no exterior porque a seus roteiros não tivemos acesso: O Leão de Sete Cabeças (1970), Cabeças Cortadas (71), Histórias do Brasil (71-76) e O Câncer (68-76).
Com efeito, Gláuber não trabalha com argumentistas e roteiristas: essa é uma função que ele mesmo exerce, e com vigor. Além disso, junta as duas coisas numa só: o argumento já é o roteiro, ou seja, ao descrever a história (a trama) já põe as indicações técnicas – sequência l, interior dia etc. – necessárias à execução da filmagem. Contudo, o mais singular é que esse argumento/ roteiro, supostamente longo por conter duas peças, representa um quarto de qualquer outro trabalho semelhante.
Isso porque Gláuber apenas visualiza a cena: ele não a descreve em pormenores. Por exemplo: se precisa rodar uma sequência de massas só quando chegas á locação (lugar de filmagem) vai dispor os extras em posição de luta (caso se trate de um conflito), estabelecer o ângulo (enquadramento) da câmera, verificar a luminosidade solar etc. Quer dizer, ele tira partido das circunstância, não vai para lá com uma idéia preconcebida. Claro: os elementos básicos estão mais ou menos previstos – que atores funcionarão naquela cena, seus diálogos etc. – mas Gláuber sabe que sempre se pode obter mais do que está simplesmente dito no papel.
A Idade da Pedra é exatamente isso. Violando um pouco o sigilo solicitado, é legitimo oferecer uma ligeira idéia da história aos leitores, considerando o grande interesse suscitado por todo filme glauberiano. O argumento/roteiro contém apenas trinta e poucas laudas.
Nele se narra a vida, paixão e morte do homem na Terra – a saber, desde a era das cavernas, passando pela pedra lascada, o feudo, a Idade Media, as guerras napoleônicas, até hoje –, para se deter mais precisamente na América Latina e sua dramática insurrecional.
A História do Homem seria um título mais justo se não fosse presumido. E, depois, a intenção de Gláuber não é fazer documentário, mas uma obra ficcional, criativa, repleta de lances reveladores e capaz de despertar o espectador para o seu destino na Terra.
Shakespeare contribui com seu universo único e seus personagens marcados pela excepcionalidade. Gláuber não nega essa aproximação, embora adaptada ao sentimento latino-americano.
O observador atento poderá notar, ao ver o filme, um monólogo mais fatalista (á Hamlet), a utilização dos mitos gregos, a organização do caos sempre presente nas fitas glauberianas. O talento, a aparente insensatez, os planos feéricos, o relâmpago do gênio, o take supostamente medíocre – tudo isso é possível em Gláuber, uma voz do Terceiro Mundo.”
Alberto Silva
Crítico de cinema







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