Objetivo


quinta-feira, 6 de outubro de 2011

EDUCAÇÃO - ALEMANHA : QUALIDADE SÓ COM FORMAÇÃO PROFISSIONAL

ALEMANHA - educação

A TARDE – Quinta-feira 28/10/1993
Texto Reynivaldo Brito

Estamos assistindo a uma movimentação, principalmente no setor empresarial, com manifestações em defesa da qualidade dos produtos e serviços oferecidos no País. Só que estão começando pelo fim. Não se pode pensar em qualidade sem uma base de formação profissional que garanta a continuidade deste processo, responsável pelo desenvolvimento dos países que estão na linha de frente da civilização moderna. Aí estão o Japão, os Estados Unidos, a Alemanha e até mesmo alguns chamados de “Tigres Asiáticos”, dentre outros. Estes países investem na formação profissional e acreditam que somente desta maneira é possível garantir a qualidade de seus produtos. Isto é possível graças ao entrosamento entre a escola pública e as empresas. É sobre esta experiência que trata esta reportagem, após uma visita de duas semanas à Alemanha conversando com autoridades, empresários, professores e estudantes. Lá também existem problemas e conflitos porque estamos tratando da formação do profissional, e onde está presente o homem, existem divergências. Porém, a formação “Dual” é à base do sucesso de grandes corporações alemãs.
Na foto à esquerda , mostra que nas escolas  profissionais o  manejo de  máquinas como as furadeiras de grande porte é comum entre os alunos.

Os alemães competem no mercado internacional com produtos de qualidade indiscutível. Os equipamentos ópticos, gráficos, seus automóveis (Mercedes-Benz e BMW), dentre muitos outros produtos são feitos com um esmero que espanta o desavisado. Tudo é feito para durar. Até uma simples carteira ou mesa de escritório é feita para durar muitos anos. A sociedade do descartável que implantaram no Brasil quase não tem espaço, porque os produtos são feitos realmente para durar. São fortes e bem feitos. Esta filosofia inclusive está sendo perseguida pelos japoneses que, após conseguirem miniaturizar quase tudo, agora buscam atingir um alto grau de qualidade e sofisticação.
A maioria dos jovens que termina a escola básica segue para as escolas de formação profissional. Isso é que os alemães chamam de sistema dualista ou dual, que resulta da união da formação prática numa empresa com a formação teórica na escola pública. Assim, a economia privada e o Estado juntos são responsáveis pela formação de milhões de jovens. Esta responsabilidade está faltando em muitos empresários brasileiros, inclusive nos dirigentes das grandes corporações, que podem criar escolas profissionais próprias para preparação de uma mão-de-obra qualificada, além de se beneficiar com a relação que se estabelece entre o aprendiz e a empresa. O trabalhador passa a gosta da empresa, produz mais, conserva melhor o maquinário e outros equipamentos de uso individual ou coletivo dentro da organização.
Na Alemanha, a União é responsável pelas normas de formação, enquanto que as escolas profissionais estão sujeitas a cada estado federal. Existem quase 400 profissões reconhecidas, mas a preferência dos Jovens recai sobre uma dezena delas, principalmente de mecânico de automóveis, instalador elétrico, comerciante, pintor e marceneiro. As mulheres preferem profissões como cabelereira, vendedora, comerciária e de assistente médica e dentária.
Estive visitando várias escolas profissionais em companhia de mais quatro jornalistas latino-americanos: Maria Guadalupe, da Bolívia; Alberto Borges, do Equador; Rosalina Orocú Mojica, do Panamá, e Carlos Juanes,de El Salvador, quando constatamos a seriedade com que o ensino é ministrado, além da disciplina quase monástica.

                                                   ALTERNÂNCIA

A formação do jovem alemão acontece diferentimente do que estamos acostumados a ver aqui no Brasil. Lá o aluno ao lado da formação na empresa, onde inclusive ganha uma bolsa que varia de 300 a 600 marcos no primeiro ano, indo até 800 marcos no último ano, o jovem frequenta a escola profissional de um a dois dias por semana, durante três anos. Nas aulas, além das matérias de formação geral o aluno recebe conhecimentos teóricos específicos. Esta escola é ainda obrigatória para todos os jovens menores de 18 que não frequentam uma outra escola. Porém, verifique que em algumas escolas ao invés de alternar os dias da semana na empresa e na escola eles preferem alternar semanas, isto é, passam uma ou duas semanas na empresa e uma semana na escola.
Numa indústria de máquinas de fazer cigarros, que é mantida por uma fundação milionária, visitamos a escola da empresa onde estudam 127 alunos e são empregados cerca de 7,5 milhões de marcos por ano na formação profissional, inclusive com a presença de alguns estrangeiros especialmente dos países da ex-Iugoslávia. Lá, verificamos que a formação tem uma disciplina que é essencial para a formação do homem. Não são ensinados apenas aspectos técnicos de como fazer uma peça de metal, mexer no computador ou fazer um desenho. É preciso tratar bem os equipamentos, limpar a área do seu aprendizado, cumprir rigorosamente os horários e estudar as lições passadas pelos mestres. O mestre tem uma ascendência muito grande sobre seus alunos que o respeitam muito e o tratam com referência. Esta disciplina foi uma das coisas que mais chamou a atenção do grupo de jornalistas latinos acostumados com a bagunça que reina em muitas escolas deste hemisfério.
Com isso não quero dizer que lá não existem problemas. Existem sim, e muitos. Tivemos oportunidades de ver na estação de trem de Hamburgo vários jovens drogados que ficam reunidos o dia inteiro naquele local bebendo e acertando seus encontros marginais. A Polícia assiste a tudo de longe só interfere quando acontece um problema maior. Esta área inclusive é considerada perigosa, e os turistas são avisados para não andarem sós por aquelas bandas em determinados horários.

                                                      
                                                           OUTRAS MANEIRAS

Também é verdade que ao lado do aprendizado na empresa e na escola profissional existem outras maneiras de formação profissional, escolhidas por um número cada vez maior de jovens. Um delas é a escola profissional especializada em tempo integral, que dura um ano, e a outra é a escola superior especializada, que acolhe os alunos com o certificado de conclusão da escola real, que, após dois anos de estudos, estão de posse do certificado de madureza da escola média-superior especializada. O aprendizado em oficinas próprias, estágios de aulas práticas e teoria integram seu currículo.
 Na foto estrangeiros são treinados e o estudo do alemão é obrigatório para início da formação
É certo que varia de dois a três anos o aprendizado nas escolas como as que mantêm a Siemens e a Mercedes-Benz, a depender da profissão que o aluno escolhe. Ele recebe uma remuneração que só tem aumento anual. É bom sempre lembrar que a inflação por lá é baixa. A Alemanha tem um alto padrão de vida, porém o custo dos produtos está alto em toda a Europa.
Esses alunos são regidos por normas educacionais baixadas pelos ministros federais, tendo como base sugestões dos conselhos que são formados por federações industriais, organizações estatais e sindicatos. Essas normas determinam o conteúdo dos currículos, mas todos são obrigados a prestar exames nas Câmeras de Indústrias, do Comércio, do Artesanato e da Agricultura e órgãos semelhantes. Estas câmaras compõem suas bancas examinadoras com representantes dos trabalhadores e professores da escola profissional.
São mais de 500 mil empresas de todos os ramos da atividade econômica que têm seus aprendizes que são submetidos, ao término de dois a três anos, aos exames das câmaras. Ai, os alemães garantem a qualidade e só realmente encontram emprego seguro aqueles que são aprovados. Os exames são rigorosos e os aprendizes tem que estudar bastante.
É difícil alguém começar a sua vida profissional na República Federal da Alemanha sem ter tido uma formação, o que comprova o sucesso e a efetividade do sistema dualista de formação profissional. A fiscalização é severa e feita pelas câmeras que não permitem enfraquecer a sua atuação e também provocar ao longo dos anos a perda da qualidade dos produtos a da mão-de-obra nos serviços oferecidos no país. Ao lado da formação profissional, também as universidades alemãs têm papel destacado na formação do jovem. A mais antiga delas é a Heidelberg, fundada em 1386. São mais de vinte universidades estatais e particulares. Na universidade rege a autogestão presidida por um reitor ou por um presidente, que é eleito para vários anos. Lá, o estudo nas universidades é concluído com o diploma, com o mestrado ou com a licenciatura, a seguir a possibilidade de obter-se uma maior qualificação através de doutorado. Também é feita uma seleção através de teste e entrevistas, principalmente para os cursos mais solicitados.
Já a formação de adultos atinge hoje mais de 10 milhões de cidadãos que buscam atualização do conhecimento numa sociedade industrial que se renova rapidamente, onde centenas são obrigados a mudar de profissão para garantir sua sobrevivência porque muitas ocupações vão aos poucos desaparecendo e dando lugar a novas. Aí comparecem muitos estrangeiros que se preparam para enfrentar uma nova vida.

                                                  LADO COMUNISTA

Também no leste, os alemães participavam da formação profissional, só que lá os jovens eram encaminhados obrigatoriamente para esta ou aquela profissão, levando-se em conta as vagas e a necessidade de formação, ou seja, estavam precisando de 10 mecânicos qualificados, então eram encaminhados 10 jovens, e assim por diante. Tinha um total de 55 escolas profissionais, todas estatais, as quais estão sendo paulatinamente adaptadas à nova realidade, inclusive com os currículos da ex-Alemanha Ocidental.
O certo é que a desvantagem da formação comunista tinha também um lado positivo: é que sua sobrevivência, bem ou mal, estava garantida. Ou seja, ao término do curso, você tinha um lugar assegurado. Agora, a liberdade de escolher o que se deseja, também não assegura um lugar de trabalho. É preciso competir e atingir uma boa formação para disputar o mercado de trabalho. Os próprios professores reconhecem que mesmo após a união das Alemanhas poucos jovens conseguem realmente trabalhar no que gostariam. Tudo é regido pela lei do mercado, portanto, tem que ser levado em conta qual a profissão que lhe garante uma sobrevivência com mais ou menos segurança. No lado comunista, muitas empresas estão sendo fechadas e centenas quebraram porque não acharam quem quisesse comprá-las. Um exemplo: ficamos hospedados num hotel localizado ao lado da estação de trens na cidade de Schwerin, o qual foi colocado a venda e ninguém se interessou. O hotel é antigo, com banheiros tão pequenos que mal dá pra você levantar o braço. O hotel é o melhor da cidade, está ameaçado de fechar deixando antigos funcionários do Leste desempregados.
Aliás, um fenômeno que está nos olhos do visitante é a frustração, após a euforia dos abraços e as festas que era oferecida pelos alemães ocidentais aos seus “irmãos” do Leste. Agora eles têm liberdade, porém, os produtos de consumo não estão – aliás como acontece com qualquer país capitalista, e a Alemanha não está insenta, porque não é nenhuma ilha de fantasia – à disposição dos que têm dinheiro. E, nem todos podem comprá-los. Você admira um BMW, uma Mercedes e roupas caras numa vitrine de um magazine de luxo, sabe que isso existe, mas não está ao seu alcance. A sedução do consumo é muito grande, frustra e vai fundo naqueles que estão sem condições de adquiri-los. O desemprego também é grande e muitos terão que ser reeducados. Para se ter uma ideia, a maneira de servir num restaurante ocidental é bem diferente da do Leste. Lá as pessoas não foram preparadas para atender bem ao cliente, conquista-lo e saber que ele é a alma do seu negócio. Estavam acostumados a servir por obrigação aos camaradas e quase sempre estavam com a cara fechada e muitos ainda continuam assim. Este pequeno detalhe é fruto de minha observação, não pode ser tomado como uma regra geral, mas, certamente existe e tenderá a desaparecer com o passar do tempo, pela exigência do próprio mercado.


segunda-feira, 26 de setembro de 2011

TURISMO - A CAPITAL DAS LAVRAS VIVE DO PASSADO


Texto e fotos de Reynivaldo Brito
Abandonaram Lençóis, a antiga capital das Lavras. Os casarões estão caindo e as ruas estreitas não apresentam movimento dos tempos onde o garimpo era uma atividade lucrativa. Os casarões vazios e sujos refletem apenas a lembrança e a tristeza da ausência dos saraus onde os grandes compositores e escritores europeus eram cantados e festejados. Lençóis está agonizando, principalmente depois que uma tromba d´água desabou em dezembro do ano passado, atingindo vários pontos da cidade. Parece que o destino veio apressar esta morte. Suas pracinhas estão esburacadas, a velha ponte de arcos romanos sobre o rio Lençóis também perdeu sua bela balaustrada e até o mercado está sendo desvirtuado com a presença de barracas de toda espécie.
O ”Salão” de onde os visitantes retiravam areia de todas as cores, está semidestruído e as inúmeras pequenas cachoeiras que descem das montanhas que lhes cercam é que teimam em dar-lhe toda a grandeza dos tempos de fausto. A cidade está localizada num vale rodeado de grandes rochas de granito, no zona centro-oeste da Bahia. Surgiu em 1845 quando ali chegaram os primeiros garimpeiros atraídos pela abundância de diamantes e carbonatos nos leitos dos rios Lençóis e São José. Vieram os coronéis com seus jagunços a desafiar os poderes constituídos. Conviveram por muitos anos naqueles chapadões imensos, onde só podemos hoje admirar as torrentes de águas brancas e inabitadas.

                                                                           BELEZA

A paisagem que lhe rodeia é bela e fascinante. A cidade calma, semelhante àquelas do oeste americano, fadada ao desaparecimento devido à escassez de diamantes e a consequente fuga de seus filhos e aventureiros.
Somente as estórias contadas à sombra dos casarões parecem sobreviver. Com dois filhos que ocuparam as cadeiras da Academia Brasileira de Letras – Urbano Duarte, fundador da cadeira número 12, e Afrânio Peixoto, que sucedeu a Euclides da Cunha na cadeira n.7, e as fanfarras e valentia do coronel Horácio de Matos, chamado de grande líder sertanejo, a cidade parece guardar pouca coisa de sua história. Parece que esqueceram da importância da cidade e o seu tombamento vem funcionando como uma injeção paralisante. Nem o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional – IPHAN – e nem mesmo os particulares proprietários dos imóveis vêm realizando uma obra digna de destaque. É como estivesse um à espera do outro, num encontro que jamais acontecerá.

                                                                PRIVILÉGIO

Localizado na Chapada Diamantina, o município de Lençóis é um dos mais privilegiados com recantos belíssimos e próprios para exploração turística. O visitante sente a amplidão de sua passagem ora calma, ora regressiva, com grandes elevações e rochas que surgem ao longe. As serras das Almas, do Itubira, da Furna, de Santo Antônio e muitas outras com seus picos eriçados sempre envoltos pela bruma. O Morro do Pai Inácio, que é um castelo de granito, quase intransponível e sobre a qual existem várias lendas. Uma dessas lendas diz que viveu há cerca de 100 anos um homem conhecido por “corvo humano” que disputava com os urubus as reses que morriam nas pastagens por picadas de cobras ou moléstias. Vivera ali muitos e muitos anos e viera de Minas Gerais. Aos 90 anos tinha feições de um homem de quarenta. Outros contam que o morro é chamado de Pai Inácio porque ali se escondera um perigoso jagunço perseguido pela polícia baiana. Um dia ele foi surpreendido pelos soldados e para não ser preso abriu um guarda-chuva que trazia consigo e pulou morro abaixo numa altura de cerca de 500 metros. Essas são as principais lendas que envolvem em mistérios aquele bloco colossal de quartzo que encanta qualquer viajante.
Logo abaixo encontrei o Rio Mucugezinho que desce das serras em corredeiras, formando, de quando em vez, pequenos poços onde os habitantes da região acorrem aos domingos e feriados para os saudáveis banhos de rio. As águas do Mucugezinho são escuras, porém limpas, e devido à correnteza não encontramos quase organismos vivos que venham a prejudicar a saúde do homem. As águas correntes chegam a formar espumas, quando vão de encontro aos rochedos e são muito frias.
Já ao sul da cidade de Lençóis subindo a serra, encontramos grandes formações rochosas e várias grutas onde os moradores procuram areias e orquídeas. São locais indescritíveis e muitos vivem de explorar essas grutas retirando areias de cores variadas que são usadas para fazer desenhos em garrafas. Um desses artesões é Manoel Reis dos Santos, conhecido por Nequinho, que prefere encher garrafa do que ser professor primário. Embora diplomado, nunca exerceu o magistério porque com a sua atividade consegue mais dinheiro que se estivesse ensinando. Há 16 anos trabalha com as areias coloridas e muitos turistas possuem em suas casas garrafas com as inscrições “Lembrança de Lençóis”. Ele está dando certa originalidade nos seus trabalhos porque consegue fazer desenhos enaltecendo a flora e fauna locais.

                                                          HOSPEDAGEM

É um pouco difícil a hospedagem em Lençóis, atualmente. Só existe o “Hotel de Dona Juliana”, á beira do Rio Lençóis, bem junto à centenária ponte de arcos romanos, que liga a Praça dos Nagôs ao Bairro de São Felix, construída por volta de 1860. Mas dos seus quartos de piso e forro de madeira sente-se o barulho das águas batendo contra os rochedos. Isto cria uma ambiência agradável especialmente para àqueles que nunca moraram numa cidade ribeirinha ou mesmo que estejam acostumados com o barulho intrigante de buzinas e motores de carros. Mas, está sendo restaurado um grande casarão colonial que será a Pousada de Lençóis. Nos fundos, existem as ruinas de um antigo centro de lapidação de diamantes. O curioso é que todo sistema funcionava através de uma roda d´água que dava energia necessária para o trabalho de lapidação. Hoje está abandonada e certamente será também restaurada para servir de mais uma atração turística da cidade. Não se pode também esquecer a flora riquíssima com as serras completamente tomadas por flores de todas as cores. Do mês de setembro em diante as serras ficam apinhadas de orquídeas lilás e brancas, dando um colorido ainda mais bonito. A fauna também é rica, porque ainda podemos encontrar trechos de floresta densa, onde estão escondidas muitas espécies.

                                                           DECADÊNCIA

O triste é observar que mesmo com tanta beleza natural o homem está deixando que a cidade morra. A civilização do diamante foi deixando para os pobres a conservação daqueles casarões que em época não muito distante foram palcos de importantes decisões para todo o sertão baiano. Muitos ali estiveram em busca de riquezas e ali gastaram muito dinheiro no consumo de bens supérfluos vindos de todos os países da Europa. Formaram-se aglomerados humanos porque a riqueza era fácil. Da noite para o dia um garimpeiro ficava milionário graças a um diamante ou carbonato valioso. Foram embora quando a lavra escasseou e com eles suas cantigas que se ouviam de longe misturadas com o barulho do cascalho removido pelas peneiras. Hoje, os que ficaram vivem de pequenos serviços ou estão recebendo uma mísera aposentadoria do Funrural. É gostoso conversar com os velhos garimpeiros, que a exemplo dos velhos pescadores sempre têm estórias fantásticas para contar.
Portanto, do garimpo restam as lembranças e a teimosia de uns poucos que ainda se atrevem a subir as serras para remover o cascalho em busca de um grão pequenino de diamante. Levam às vezes meses sem encontrar nada, e quando conseguem mal dá para cobrir as despesas que lhes garantam uma sofrida sobrevivência.
A cidade é tombada pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional – IPHAN, desde 1973, graças a um movimento realizado por um grupo de jovens, filhos de Lençóis, quando da realização em Salvador do II Encontro dos Govenadores sobre Defesa do Patrimônio Histórico, Artístico, Arqueológico e Natural do Brasil. Lá existem três oficinas de lapidação de diamantes e até hoje encontra-se em razoável estado de conservação a chamada Casa de Lapidação, que já existia desde 1885, onde a maquinaria primitiva era movida por uma roda d’água e por onde passaram muitos lapidadores estrangeiros de renome. Muitas outras unidades compõem o conjunto arquitetônico como o antigo prédio da Sociedade União dos Mineiros, que está sendo restaurado pela prefeitura local. Existem duas igrejas: Nossa Senhora dos Passos, que tem a planta em forma de retângulo e o prebistério separado da nave por arco cruzeiro, sendo a capela-mor da mesma largura que a nave. Ela não tem torre sineira e os sinos ficam localizados na empena do lado do Evangelho. Tem uma arquitetura interessante e o visitante desavisado pensa que o arco cruzeiro é um arranjo provisório, quando na realidade foi assim construído. Esta igreja tem muitas imagens centenárias e está localizada num alto que permite uma visão perfeita de grande parte da cidade. A igreja de Nossa Senhora do Rosário, atual matriz, está parcialmente desfigurada, porque antes do tombamento, exatamente na década de 50, dois padres holandeses chegaram a Lençóis e fizeram “uma reforma” inclusive colocando por cima do piso original outro de qualidade duvidosa. Esta igreja precisa ser restaurada para reencontrar a beleza perdida.
A casa Paroquial, que é um dos casarões remanescentes edificados no Tomba-Surrão, debruçados sobre o rio Lençóis e muitas casas onde as paredes dos muros e mesmo as internas são edificadas com pedras à vista. Conta ainda com um importante prédio de formato curioso e alto onde foi instalado o primeiro consulado francês do país. As ruas e ruelas com piso feito de pedras “cabeça de negro”.
São três mil e poucos moradores que vêm sofrendo a decadência de uma cidade, mas continuam esperançosos que o garimpo seja mecanizado, que o turismo chegue para conhecer suas belezas naturais e também que os órgãos responsáveis pela conservação dos monumentos históricos assumam a responsabilidade que lhes cabe. Uma esperança que está prestes a se transformar em realidade já que o turismo vem crescendo em nosso Estado e a pousada que ora estão instalando, poderá ser o primeiro instrumento que possibilite a sobrevivência de Lençóis.
Sem dúvida, vale a pena conhecer Lençóis para você conviver com os casarões coloniais, com os garimpeiros, sentir sua vegetação rica e ouvir o barulho de suas águas descendo das serras.

ARTES VISUAIS - OBRA DE YEDAMARIA ESTUDADA NUMA UNIVERSIDADE AMERICANA


ARTES VISUAIS
A TARDE – TERÇA-FEIRA, 26/02/1991
Texto de Reynivaldo Brito


Uma homenagem e reconhecimento justos vão coroar a obra de uma das mais importantes artistas desta terra impregnada pela cultura africana. Trata-se da pintora e gravadora Yedamaria que está seguindo para os Estados Unidos, onde uma exposição retrospectiva de sua obra será montada na Califórnia State University, Northridge, acompanhada de um belo catálogo bilíngue com várias ilustrações em cores. Lá também fará algumas palestras sobre sua experiência como pintora e sua ascendência social como artista negra. O Departamento de Estudos Pan-Africano estará envolvido no projeto e a publicidade do evento ficará a cargo dos próprios estudantes da universidade, ligados ao setor de arte. A curadoria da exposição é da Dra. Mikelle Omari. Ela hoje é conhecida no exterior como a mais importante pintora negra brasileira da atualidade, tem mestrado nos Estados Unidos e obras em acervos de vários colecionadores estrangeiros.
Yedamaria vem de uma família de professores. Seu avô foi professor nos anos de 1884 a 1912. Sua mãe também era professora e lecionou vários anos. Ela escolheu a arte como forma de expressão e através dela passa sua experiência aos alunos de Belas Artes. Mas a arte fala forte no sentimento desta mulher de fibra que sabe captar a beleza dos objetos simples, que muitas vezes estão descansando preguiçosamente ou despretensiosamente sobre uma mesa se toalha rendada. É um peixe que foi arrancado de seu habitat natural e jaz num prato frio de louça. Ela consegue pintar o peixe neste estado de completa ausência de vida com uma força expressiva que nos traduz tranquilidade e beleza. As frutas coloridas e doces se multiplicam em sua obra. São elementos fundamentais à própria existência primitiva de vida que Yedamaria se identifica e nos serve num banquete mágico. As figuras humanas colocadas em suas telas com os olhares impregnados de fé e esperança neste país que balança e teima não cair. Com suas naturezas-mortas Yedamaria coloca sua família reunida como se habitasse uma antiga casa-grande cheia de parentes de uma família de prole numerosa.
Ela também não esconde que o fato de ser uma mulher negra teria enfrentado maiores dificuldades para que sua obra tivesse um reconhecimento internacional ou mesmo local. Confesso que embora não saiba detalhes dessas dificuldades, não vejo com os mesmos olhos este sentimento de minha amiga Yedamaria. Acho que as dificuldades são comuns a todos artistas, principalmente aqueles que não dispõem de um certo suporte econômico. Pretos e brancos sofrem para trilhar o caminho do reconhecimento. Porém, se nasceram de famílias abastadas, de pais conhecidos no seio da sociedade o trilhar do caminho da fama e do reconhecimento fica mais fácil. Ainda mais no meio artístico a discriminação é quase nula pela própria abertura de sentimentos que têm os intelectuais e artistas. Mas, respeito este sentimento de Yedamaria e admiro acima de tudo a sua luta individual em vencer, a sua persistência em produzir uma obra de qualidade que venho ressaltando há vários anos.
Yedamaria recolheu para o curriculum que leva para os Estados Unidos uma série de depoimentos de críticos e artistas sobre sua obra. Escolhi alguns trechos para ilustrar esta matéria, procurando estabelecer um conjunto harmonioso, como é a sua obra.

Vejamos:
" Na madrugada do mar, os saveiros partem as velas soltas, para a repetida aventura da Bahia de Todos os Santos, nesse mistério de Iemanjá e de vida e morte para os homens cor-de-cobre. Da realidade lírica e dramática vive a pintura de Yedamaria, moça baiana cujos olhos estão cheios do mar e dos barcos. Quem me falou nela pela primeira vez foi Lina Bardi. “Preste atenção a essa jovem, tem talento e futuro”, disse-me a então diretora do Museu de Arte Moderna da Bahia, na tarde magnifica da inauguração da exposição do Museu de Arte Popular, no Unhão restaurado. Em meio a uma discutível exposição da moderna plástica baiana, à qual faltavam alguns nomes fundamentais de nossa arte atual, vários novos tentavam impor-se aos visitantes com seus quadros, óleos, aquarelas, desenhos. Os responsáveis pela mostra haviam recolhido muitas promessas, moços cheios de ímpeto e entusiasmo.
Dessas vocações, quantos sobraram, quantos prosseguiram trabalhando? Alguns poucos, apenas, e entre eles a jovem Yedamaria com seus barcos, suas cores baianas, sua tônica de um lirismo lascinante. Veio a exposição individual, no Teatro Castro Alves e, de repente, a Rampa do Mercado mudara para o Campo Grande. Como se toda a realidade da Bahia só tivesse ela, a pintora, alhos de ver as velas dos barcos, a carcaça dos barcos, a água a rodeá-los, mar infinito.
Não sei que outras coisas irá ela pintar, como continuará seu trabalho, a evolução de sua temática. Sei que seus barcos ai estão; realidade de arte baiana atual. Já o nome da jovem pintora se inscreve mais além da promessa e da incipiente vocação. Tenho muita confiança em Yedamaria. Em seus barcos de luz e cor, ela partiu para conquista sua arte, conquista que realiza dia a dia, em duro e consciente trabalho.

JORGE AMADO

"Ao escrever agora sobre Yedamaria tenho diante dos olhos, na parede de minha sala de trabalho, há quase 20 anos, um quadro de sua exposição de 1963, no Museu de Arte Moderna da Bahia, então sob a feliz direção de Lina Bardi.
A mais jovem ainda pintora, recém-saída da Escola de Belas Artes já revelava toda a sua força criadora e grande expressividade, nos belos quadros da fase dos barcos de cores tão quentes e dramáticas.
Yedamaria segue pelo tempo com as mesmas qualidades, mas agora deixando transparecer um refinamento de personalidade definida, da mão mais afinada, de amadurecimento do ofício.
Dominando todas as técnicas da gravura, os procedimentos da monotipia, da ponta-seca, da Colorgraph, alcançam pelas suas mãos os melhores resultados.
A unidade desta exposição com temática de natureza-morta confirma, pela segurança das composições, no cromatismo harmonioso de tons calmos e suaves, a forma completa da artista Yedamaria na sua plenitude.
Capaz de percorrer os melhores caminhos da arte moderna com experiência própria e erudição acentuada, as influências fauvista no colorido marca nas colagens de frutas e objetos outros a atualidade que, a partir de Braque e Picasso, constituem de maneira radical processos técnicos próprios da arte do século xx.
Yedamaria é a mais importante das artistas negras da Bahia e talvez do Brasil, ainda com uma inestimável folha de serviços na cultura e educação, como professora primária, secundária e superior, pois é professora Universidade Federal da Bahia.
A Sociedade Protetora dos desvalidos fundada por ex-escravos, ao comemorar 150 anos de sua fundação, organizou uma exposição retrospectiva de sua mais ilustre Sócia, a pintora Yedamaria."

CARLOS EDUARDO DA ROCHA

"Uma das satisfações da vida de um artista plástico reside no convívio com seus colegas e amigos, e esta é ampliada quando descobrimos que, o trabalho floresce, que o esforço e a dedicação assim como o talento, continuam crescentemente, enriquecendo a vida.
Yedamaria regressa dos Estados Unidos, com o Mestrado em pintura e gravura, trazendo consigo alguns exemplares do seu aprendizado e da sua contribuição.
Os trabalhos apresentados têm grande força no que tange ao cromatismo e revelam, paralelamente, em perfeito domínio da linguagem técnica. Na temática, estão presentes referências pop assim como uma acentuada atmosfera Fauve. Notamos nas naturezas mortas, além da harmonia de cores e nuances reforçado pelo exuberante tratamento das superfícies, a cristalização de uma maturidade criadora e a excelência do seu domínio técnico chega, por vezes, a confundir o espectador, mesmo quando especialista."

MÁRIO CRAVO JUNIOR

"Yedamaria faz parte da segunda geração de artistas modernos da Bahia. De formação universitária, a sua importância como artistas é altamente relevante, sendo o seu trabalho mais um exemplo de coerência profissional. Nas diversas fases de sua pintura, a espontaneidade criativa composicional, a cor vibrante, instintiva, emocional são constantes e revelam um forte temperamento artístico. A importância de Yedamaria deve ser também considerada em função do seu papel como educadora, atuando positivamente no desenvolvimento da percepção e personalidade de centenas de jovens, na escola média e superior."

JUAREZ PARAIZO

"Poucas palavras definem com muito mais acerto a poderosa presença de Yedamaria nas artes plásticas baianas. Sua posição no meio artístico da Boa Terra deve-se a força, das suas obras, plenas de consciência criadora, integradas aos nossos costumes, à nossa gente. É características baiana, não é sublime porque é terra, povo e mar. É produto da influência de alguém? – isto não acrescentaria nada ao valor da sua obra. Yedamaria tem em sua produção artistas a atmosfera tipicamente baiana. Captando a Bahia com sua notável sensibilidade, tornou-se um dos seus mais representativos artistas plásticos. Assim nos barcos geminados, carregados de luas ardentes."

YVO VELAME

"Depois de seus descobrimentos na Europa, o contato com o ambiente artístico dos Estados Unidos da América foi naturalmente profícuo para a pintora e gravadora Yedamaria, uma artista vigorosa, mas procedente do meio acomodatício, provinciano e folclórico da Bahia, atualmente denominado por um inflacionismo de artistas oficiosos, turísticos, e aduladores. Espirito arejado e sensível. Pra ela, a despeito do meio social, a arte não é uma condição de conforto. Agora, num plano mais amplo e sem perde a sua nota emocional de som eminentemente nativo, com as suas pinturas e gravuras de técnicas mistas, nos oferece uma arte em certo modo refinada e de intenso e expressivo cromatismo."
WILSON ROCHA

RELIGIÃO - COMUNIDADES ECLESIAIS PREGAM A AUTOLIBERTAÇÃO PARA O HOMEM

A TARDE- SEXTA-FEIRA, 12 DE JANEIRO DE 1979
Texto Reynivaldo Brito

O Diretor do Centro de Estudos e Ação Social, padre Cláudio Perani, revela que as Comunidades Eclesiais de Base existentes em todos os país variam muito em suas fórmulas, aspectos e condições, porém, todas estão inspiradas no Concílio do Vaticano II e defendem a libertação do homem por seu próprio esforço. Isto, inclusive, pode ser constatado na Bahia através do trabalho exercitado por alguns padres, em sua grande maioria jovens e estrangeiros que sempre estão presentes nos bairros e localidades esquecidos dos poderes públicos. Eles vivem e sentem o problema de perto e mostram aos populares a necessidade de uma ação para que as medidas e soluções sejam tomadas por quem de direito. Um exemplo é o trabalho que vem sendo desenvolvido junto às populações que lutam por uma moradia. Salvador, hoje apresenta um alto índice de falta de habitação, e constantemente a imprensa está noticiando mais uma invasão de terrenos pertencentes à Prefeitura Municipal ou grandes proprietários, e quando a polícia é acionada para expulsá-los geralmente o pessoal integrante das comunidades eclesiais procura amenizar o sofrimento desta gente através uma série de atitudes consideradas válidas e indispensáveis.
Diz o padre Cláudio Perani que as Comunidades de Base têm como uma de suas principais funções o desenvolvimento da consciência política, mas são apartidárias e não ideológicas. Apenas, elas despertam o povo para os seus direitos. Com isso, desencadeiam um processo de reflexão crítica sobre a realidade dos problemas locais e as causas dessas realidades. Para ele, não são novidades as Comunidades. Elas existem no Brasil há alguns anos como uma renovação como uma esperança eclesial. Elas começaram na década de 60, impulsionadas sob orientação da CNBB através de seu Plano de Emergência e do Plano Pastoral de Conjunto.
Outros consideram que as Comunidades de Base vão aos poucos substituir as paróquias, que de uma maneira geral não têm uma identificação maior com as populações. Elas são mais vivas e atuantes e, atualmente, encontram-se numa fase amadurecimento, pois já contam com fracassos, sucessos e experiências de alguns anos.


NA BAHIA

Na Bahia não existem muitos padres operários, lixeiros, e em outras atividades comuns ao homem das classes média e baixa. Apenas dois padres trabalham em indústrias, mas negaram-se terminantemente a dar qualquer declaração porque “assim prejudicaria o nosso trabalho”. Eles trabalham como operários e a direção das fábricas não tem conhecimento de sua real condição de padres. São simplesmente operários, vivem os mesmos dramas do baixo salário, alimentação ruim, transporte difícil, moradia sem as mínimas condições. Sua missão consiste mostra a seus colegas as reivindicações que devem fazer para melhorar as condições de trabalho.
Outros estão intimamente ligados aos bairros populares e fazem um trabalho mais de assistência social, mantendo e orientando as populações, ensinando mulheres a costurar, homens a trabalhar com eletricidade, carpintaria e assim por diante. A atuação que caracteriza mais a Comunidade de Base é a exercida junto aos invasores. Chegaram a publicar um livreto “Subsídios para uma história das invasões e dos desabrigados de Salvador” depois que “um contato direto com a amarga realidade das vidas de dezenas de famílias, passando pelas privações, sofrendo as consequências do desabamento de seus humildes lares, por longos meses numa persistente espera de um abrigo definitivo, nos mostrou a necessidade de levar toda a verdade de seu drama à população da capital baiana, para desperta-la na busca de uma solução conjunta para o problema habitacional das massas pobres”.

RENOVAÇÃO

Os integrantes das Comunidades de Base já realizaram três encontros. O primeiro realizou-se de 6 a 8 de janeiro de 1975, com a participação de representantes de comunidades do Brasil inteiro; o segundo teve lugar também em Vitória do Espirito Santo de 29 de julho a 1 de agosto do ano seguinte, com a presença de representantes e membros de 24 Igrejas do Brasil, num total de 100 pessoas, e o terceiro ,de 19 a 23 de julho do ano passado, em João Pessoa.
O padre Cláudio Perani continua afirmando que não é fácil ter um quadro objetivo da situação das CEBs, porque é uma realidade muito diversificada devido a várias interpretações esboçadas. Mesmo ficando no âmbito das camadas populares – uma Igreja que nasce do povo – atrás da palavra CEB encontramos estruturas e orientações bem deferentes, algumas vezes a palavra querendo indicar uma renovação mais profunda, um conteúdo verdadeiramente novo, outras vezes simplesmente acompanhando a moda teológico-pastoral e encobrindo o conteúdo de sempre – rótulo novo em garrafa velha. Para Perani hoje o termo CEB não é discriminatório de uma tendência renovadora na Igreja brasileira, mas se deixa perpassar pelas várias orientações que diversificam as atuais tendências dentro da Igreja.
O padre Cláudio Perani entende que o esforço de democratização da Igreja, dando maior espaço às suas bases, não somente determina uma renovação interna, mas também tem reflexos muito importantes para a sociedade toda. O critério fundamental deve ser a opção pelo povo – na linha de escolha preferencial do Evangelho pelos pobres – considerando na sua situação concreta e no processo, de libertação. Dai a importância das CEBs abrirem-se para temas concretos: salário, custo de vida, saúde, educação, moradia, sindicato, politica...Daí, também, a necessidade de reconhecer a consciência crítica do povo e de favorecer ações de reivindicação que façam crescer a solidariedade de classe. “Sem reduzir a missão da Igreja, ocultando sua dimensão de fé”.
Num longo artigo escrito para um dos números do Caderno do Centro de Estudos e Ação Social, o padre Cláudio Perani levanta vários aspectos com relação às CEBs, dizendo, inclusive, que hoje no Brasil a presença das CEBs começa a ter um peso político, e tal conteúdo político sempre existiu porque não há discurso ou eclesial – enquanto discurso religioso histórico – que seja neutro e não tenha incidência política. A novidade que preocupa certos setores consiste na mudança deste conteúdo político. Uma Igreja mais hierárquica e autoritária é levada mais facilmente a apoiar a autoridade civil e, como se constatou na história, torna-se sustentáculo do poder reinante. Na medida em que as CEBs, mesmo ficando numa problemática interna, realizarem uma Igreja mais popular e democrática, que questione o poder hierárquico, poderão quebrar tal solidariedade entre a Igreja e o Estado e tornar-se-ão elementos de oposição na sociedade. “Este é o primeiro aspecto da problemática politica”.

segunda-feira, 1 de agosto de 2011

TRÂNSITO - TRANSALVADOR É UMA PIADA!

OPINIÃO

Reynivaldo Brito

Lembro do tempo em que a Polícia Militar cuidava do trânsito de Salvador. Sempre nas horas de rush lá estavam os policiais orientando o trânsito e evitando os abusos de motoristas mal educados e irresponsáveis. Havia respeito no trânsito, principalmente de Salvador. Agora, tudo está um caos. A Transalvador é apenas uma caixa registradora para levar dinheiro para a Prefeitura, cujo titular ainda não disse pra que veio. Não sei o que o sr. Alberto Gordilho entende de trânsito. Veja o caos estabelecido a qualquer hora do dia e da noite nas imediações do Iguatemi, Rótula do Abacaxi, Bonocô, Avenida Paralela , Avenida Sete, Comércio e assim por diante. Até os bairros residenciais, hoje, apresentam graves problemas de circulação. Tem uma rua na Pituba chamada de Rua das Rosas, onde existem várias placas de estacionamento proibido e, os carros ficam o dia inteiro estacionados nos dois lados! Uma vergonha !Passo por lá todos os dias e nunca vi um preposto da Transalvador tomando qualquer atitude.
Nessa Rua das Rosas quem precisa trafegar fica se espremendo entre uma fila e outra de carros. Lá não tem sinalização no asfalto,dividindo as faixas embora seja uma rua de tráfego intenso e estreita. Na hora do rush formam-se 4 filas para alcançar a Avenida Paulo VI. Você já viu algum preposto da tal Transalvador por lá nas horas de rush? Eu nunca vi. Eles somem a partir das 8, 11:30 e 18 horas. Devem estar contando o dinheiro dos chupa-cabras ou se fartando por ai. São verdadeiros burocratas sem qualquer compromisso com a cidade e com o cidadão.

quinta-feira, 28 de julho de 2011

ARTES VISUAIS- QUANDO O ORIXÁ É ARTE E CULTO

ARTES VISUAIS



Jornal A TARDE 29 DE SETEMBRO DE 1971.
Texto Reynivaldo Brito

O escultor e tapeceiro Manuel Bonfim volta a fazer uma exposição de seus trabalhos, calcados em motivos afro-baianos no dia 10 a 15 de outubro na Galeria Canizares, da Escola de Belas Artes . São dezenove esculturas em baixo relêvo retratando os Orixás dos Candomblés e 10 tapetes sobre o mesmo tema.
A família de Manuel Bonfim trabalha unida. O seu filho de 13 anos ajuda o artista a entalhar os esboços. A sua esposa ,sobrinhas e primas costuram os tapetes que ele desenha e determina as cores. Tudo é feito seguindo a temática do afro-baiano que caracteriza seu trabalho já consagrado pela crítica de todo o país. Mas, o Manuel Bonfim é um homem pobre.
Embora os seus trabalhos estejam ornando mansões de embaixadores,políticos, industriais e intelectuais ele ainda não conseguiu comprar a velha casa onde mora no alto do Rio Vermelho, alugada há vários anos.Mas, o artista é um abnegado e ri da pobreza.

                                       O HOMEM

Manuel Bonfim - é o seu nome de batismo - nasceu em Salvador na Maternidade Climério de Oliveira, em 25 de maio de 1928. Até os 14 anos viveu na cidade de Nazaré das Farinhas da qual guarda alegres recordações.Mas, antes de ser escultor, frequentou, como todo garoto pobre algumas oficinas de trabalho.
Foi barbeiro,funileiro,alfaiate,ajudante de pedreiro, pedreiro e até operador de cinema em Itapagipe. Esteve no Exército de 1948 a 1949.
Foi o professor Mendonça Filho ( já falecido) na Escola de belas Artes da Bahia quem arranjou um emprego de servente e depois ajudante na EBA . Logo depois Manuel ficou como atendente na sala de Modelagem e lá aprendeu a modelar o barro. Porém, sua vocação de artista já afluia desde a sua infância quando ajudava a sua mãe a armar o Presépio de Natal , todos os anos. Com miolo de pão Manuel Bonfim fazia, entre outros, vaquinhas, carneiros, burricos, que eram pintados e serviam de admiração dos nazarenos.

                                       O ARTISTA

Logo que conheceu a modelagem , na Escola de Belas Artes, Manuel Bonfim passou a fazer uma série de trabalhos copiando a Vênus de Milo e algumas esculturas de Rodin, que considera o maior artista de todos os tempos "superando até Leonardo da Vinci".
Ainda hoje, trabalha na Escola de Belas Artes onde é assistente do professor Udo Quoff na cadeira de Cerâmica . É escultor nível 12, da Universidade Federal da Bahia, cargo conseguido através de concurso. Em 1950 serviu na cadeira de escultura em madeira quando o escultor Mário Cravo foi convidado para lecionar na Escola de Belas Artes. Assistia as aulas de Mário Cravo com vivo interesse. Ali aprendeu mais um ofício, escultor em madeira, e de lá para cá, é, praticamente, a única coisa que tem feito no terreno da arte plástica.

                                        OS ORIXÁS

Foi no livro de Carybé "As sete portas da Bahia" da Livraria e Editora Martins que ele entrou em contato com os Orixás.Já fazia temática afro-baiano:máscaras e outras esculturas africanas. Foi o primeiro artista a retratar na madeira os Orixás dos candomblés baianos.Carybé os desenhou em seu livro e Manuel os esculpiu em pedaços de madeira.
Depois,o próprio Carybé esculpiu alguns dos Orixás para um grande painel móvel de um banco baiano. Estes Orixás estiveram recentemente expostos na Guanabara e agora estão no Rio Grande do Sul.
Diz Manuel Bonfim que gosta de fazer os Orixás porque são autênticos e estão ligados à tradição da Bahia". Estes trabalhos são muito aceitose procurados por turistas que nos visitam.Os Orixás Iemanjá - Rainha do mar - Iansã que é Santa Bárbara e Oxalá , Senhor do Bonfim, são as tr6es peças preferidas.
                                            TAPETES

Atualmente Manuel Bonfim está produzindo tapetes calcados na temática afro-baiana. Foi sua esposa d. Maria Augusta, que o incentivou a entrar na tapeçaria. Ele desenha os tapetes, determina as cores e a sua família encarrega-se de confeciona-los. A princípio ficou com receio de ser acusado de copiador ou coisa semelhante, "tão comum entre os medícocres". Dai ele procurou um ponto original e conseguiu. Utiliza o "ponto esteira africana", que é uma espécie de bordado de origem africana.
"Este ponto é muito trançado, diferente do ponto arraiolo e do ponto espinha de peixe", explica.
Embora o ponto "esteira africana"tenha alguma semelhança com estes dois outros, não é o mesmo. Gastando muita lã e sendo dispendioso, não permitindo um bom lucro, com a venda, Manuel Bonfim está feliz porque os seus tapetes tem originalidade.

EXPOSIÇÕES

Manuel Bonfim fez uma primeira exposição em 1963 na Galeria Bazart , depois na Galeria Querino com o atual tapeceiro Renot, e em seguida , foi convidado para expor na Galeria Goeldi, no Rio de Janeiro. De lá para cá não mais parou. Já fez cerca de 10 exposições individuais e várias coletivas. Participou também de várias exposições de caridade e outras promoções de caráter beneficentes.
Para ele o artista não deve casar. Manuel Bonfim acha que o artista quando casa tem muita responsabilidade nas costas e fica muito preocupado com a família.Isto de certa forma prejudica a arte. Além do mais sou um cara muito preocupado porque além da reponsabilidade com o sustento de meus três filhos e de minha esposa ainda tive que arranjar um trabalho. Embora seja bem casado e goste muito de minha família, reafirmo que o artista não deveria casar".

Atualmente Manuel Bonfim restaura algumas molduras de quadros da Câmara de Vereadores de Salvador , enquanto o professor Rescala recupera as telas.
Trabalhou também durante 9 anos com D. Clemente da Silva, vigia no Museu de Arte Sacra e muitas das peças que estão lá expostas foram por ele restauradas.
Manuel é um artista realizado pelos trabalhos que faz. Mas, ainda falta muito para realizar-se totalmente, e isto só conseguirá quando comprar a casinha que mora e quando puder dar mais um pouco de conforto a seus familiares.

quarta-feira, 20 de abril de 2011

POLÍTICA - TRISTE BAHIA

OPINIÃO
Reynivaldo Brito

A Bahia está piorando a cada dia. A combinação ou descombinação entre o Governo do Estado e a Prefeitura de Salvador tem resultado em vários problemas para os baianos. A reeleição do governador e do prefeito foi uma atitude prejudicial aos interesses dos baianos. Ambos vêm demonstrando total incompetência para resolver problemas mínimos.Os exemplos são inúmeros e visíveis. Vejamos: o metrô , que não sai do papel, se transformou numa verdadeira piada .Basta lembrar que tem menos de 10 Km, e até já foi inaugurado pelo Lula? O sistema ferry boat vive à deriva. As estradas caindo aos pedaços. As ruas de Salvador estão intransitáveis .O Pelourinho tão decantado em prosa e verso, faz pena. A lagoa de Abaeté virou uma poça d`água. O turismo vem perdendo terreno para o Ceará e Rio Grande do Norte. É o estado de maior índice de miséria absoluta. A educação é um caos. A economia perdendo feio para Pernambuco.
Durante este período, as únicas obras relevantes foram os viadutos da Rótula do Abacaxi, cuja via continua travada, um verdadeiro abacaxi; a do Aeroporto Dois de Julho, está indo razoavelmente bem. O que mais? Nada! É muito pouco pra tanto tempo perdido!
Inoperância é a palavra chave para identificar esta dupla. A saúde pública e a educação, tanto no setor municipal quanto estadual, podem ser definidas como caóticas. A segurança pública vai claudicando e, já tem locais em Salvador onde a polícia não entra ..
Não temos oposição. A maioria dos veículos de comunicação vivem calados, para não dizer cooptados. Nós baianos quase não temos para quem apelar. Quando Pelé disse que o brasileiro não sabe votar foi criticado. O rei tem razão,quem mandou votar nesses caras!

quinta-feira, 24 de março de 2011

CIDADE DE SALVADOR - COMÉRCIO FAVELADO

OPINIÃO
Reynivaldo Brito

Depois de alguns meses sem ir à Cidade Baixa, mais exatamente a zona do Comércio, fiquei chocado com o que vi. Decididamente aabandonaramu àquela importante área da nossa Cidade. O Comércio está virando uma grande favela rodeada de velhos prédios carcomidos pelo tempo e de ruinas abandonadas por seus proprietários.Ninguém faz nada, nem a Prefeitura nem o Governo do Estado ,que está mais preocupado em paparicar Dilma e seguir o bonde partidário do que em governar a Bahia. Aliás, ai está um triste exemplo dos males que este sistema eleitoral causa ao povo. Vejam o Pelourinho, o Metrô fantasma e os constantes engarrafamentos .A cidade é um camelódromo só. Na Avenida Sete de Setembro ninguém anda.Vejam quantos anos estão no poder o prefeito e o governador, repito infelizmente reeleitos, se eles construiram uma nova avenida para melhorar o tráfego. Nada! Estes senhores estão à frente da Prefeitura e do Governo do Estado para quê? Ficam é gastando o tempo inteiro discutindo se um apóia o outro e vice-versa .Assim, vamos passando os anos numa cidade que está crescendo desordenadamente sem lei.
Voltando ao Comércio, você logo encontra o exemplo do abandono pelos poderes públicos.Um velho prédio do antigo Correios está lá completamente abandonado, com suas laterais sustentadas por toscos caibros e uma horrível cobertura de madeira .Embaixo dela dezenas de camelôs vendendo tudo que é buginganga desde os famigerados dvds piratas até frutas. Vi também várias pessoas com equipamentos consertando objetos, amolando tesouras e, assim por diante. Andei pelas avenidas do Comércio e a situação se repete a cada passo. Estamos numa cidade sem governo. Este prefeito João Henrique faz vergonha. É simplesmente um ausente, um indolente .Nossa cidade merece coisa melhor. Está na hora de reagirmos contra esta falta de administração. Cadê os jovens com suas redes sociais ? É hora de reagir.

segunda-feira, 21 de março de 2011

POLÍTICA - NOSSOS POLÍTICOS ...

OPÍNIÃO
Reynivaldo Brito

Acaba de ser criado um novo ajuntamento de políticos. Certamente não podemos chamar o ajuntamento que reúne Gilberto Kassab, prefeito de São Paulo, e outros políticos de partido político. Sabemos que em nosso país várias agremiações ,que se autodenominam partido , na realidade são ajuntamentos de políticos, via de regra interessados em defender o seu. Nunca defendem o eleitor, este eterno esquecido, mas, muito lembrado nos dias de eleições.
O próprio PMDB que tem muitos e muitos vereadores, prefeitos, deputados estaduais e federais, além de senadores, governadores e até um vice-presidente não passa de um ajuntamento de pessoas,as quais vivem brigando por cargos públicos.
Por que esta briga tão acirrada por um cargo público? Será que eles são tão patriotas que querem defender seus eleitores e o nosso país? Com certeza que não. O que voga são seus interesses pessoais.
Já o PT que vem crescendo, deixou de ser oposição e virou governo , perdeu a sua essência, e adotou os modelos e atitudes que tanto combatia. Basta lembrar do mensalão, do José Dirceu, de Erenice Guerra , de dólar na cueca e de muitas e muitas falcatruas,que seria necessário um livro com muitas páginas para descrever tanta patifaria.
Portanto, é hora de sairmos às ruas exigindo uma reforma política verdadeira, onde esses políticos de interesse sejam alijados de uma vez. Vamos acabar com fóro privilegiado para político corrupto, vamos acabar com caixa dois,acabar com reeleição com mais de 2 mandatos,vamos instituir a perda de mandato por mudança de partido. E, muitas outras medidas que venham moralizar a nossa política.
Se eu fosse político teria vergonha, porque as pesquisas feitas em nosso país ,traduzem o que pensa a sociedade deles.

POLÍTICA - PATRULHAMENTO


OPINIÃO

Reynivaldo Brito

Estamos assistindo a mais um patrulhamento sulista . Bastou Maria Bethânia ter conseguido aprovar uma solicitação para captar recursos para a feitura de um blog, onde recitará poesias, que uma enxurrada de mal resolvidos resolveu iniciar o patrulhamento. Parece até que estamos nos anos em que o Simonal foi patrulhado e execrado por alguns artistas. Por trás está a inveja, este sentimento sacana do ser humano. Só que vem disfarçado em defender o dinheiro público, como se fossem salvadores do mundo. É visível como os artistas gostam de uma boquinha e, como são ágeis em praticar o nepotismo, colocando seus filhotes nas repartições públicas, nos palcos e por aí vai.
Achei apenas que o valor é alto. Sou um admirador da obra de Bethânia e, também, de sua postura como ser humano. Confesso, no entanto, que mesmo tendo dezenas de videos o valor ultrapassa R$1,3 milhões. Com este valor muitos outros projetos poderiam ser viabilizados. Mas daí tentar enxovalhar Maria Bethânia, é demais! Não é hora portanto, dessas pessoas, que não têm qualquer credencial para falar em nome de ninguém, tentar macular a cantora . Isto sim é uma atitude condenável.

Sou contra a captação de recursos de incentivo fiscal para artistas consagrados, que atraem expontaneamente grande público, quer sejam cantores e cantoras, plásticos, de teatro ou cinema. Estes devem procurar outras formas de financiar seus shows, exposições, espetáculos e filmes. Eles têm condições de bancar, procurar outros apoios, que não através de renúncia fiscal. Estes incentivos devem ser deixados para os iniciantes ou para os que estão no meio do caminho. Estes sim, precisam de apoio.

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

CIDADE DE SALVADOR - AEROCLUBE É EMBLEMÁTICO

OPINIÃO
Texto Reynivaldo Brito
O caso do Aeroclube é emblemático para entendermos o descompasso que existe entre a sociedade e a Justiça de nosso país .Códigos antiquados permitem dezenas de recursos os quais contribuem para a impunidade e ,em consequência para prejuizos irrecuparáveis, tanto financeiros quanto morais e até físicos. Embasados em leis ultrapassadas, as quais permitem todo tipo de interpretações as ações judiciais vão se arrastando nos tribunais e, se transforman em vários e vários volumes, quase impossíveis de serem manipulados. Soubemos que o processo do Aeroclube já tem milhares de páginas e mais de 15 volumes!
Por discordância de algumas pessoas foi movida uma ação popular na Justiça Federal aqui em Salvador e depois de 3 anos o processo foi extinto. Agora, depende apenas de um magistrado do TRF dar a sua sentença para decidir o destino do Aeroclube. Ai estão envolvidos mais de uma centena de pequenos lojistas, que tiveram o seu patrimônio quase zerado, foram para o espaço mais de 5 mil empregos diretos de pessoas humildes, sendo que a maioria mora em bairros ao redor do empreendimento e, a cidade perdeu um de seus espaços mais diferenciados. Este modelo de shopping aberto atrai muitas famílias com suas crianças que vão brincar nos parques. É um dos empreendimentos mais democráticos que existem.
É claro que o magistrado ,que fica em Brasília, lê e julga dentro da letra fria da lei,ele não tem esta visão do que o Aeroclube representa para Salvador, para os pequenos lojistas vítimas deste embloglio ,para os milhares que perderam seus empregos e para os turistas que ficam espantados ,principalmente os que já conheciam o local antes do embargo.Eram cerca de 25 mil pessoas que transitavam diariamente pelo Aeroclube e, hoje ,só vemos ruinas e vigas retorcidas e enferrujadas devido ao salitre. Quem vai pagar esta conta?

quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

ARTES VISUAIS - WALDELOIR RÊGO, DA JÓIA EXÓTICA À ESTAMPARIA, UM CAMINHO DE TALENTO

ARTES VISUAIS
Jornal A Tarde em 30 de Novembro de 1971
Texto Reynivaldo Brito


Como disse Jorge Amado, Waldeloir Rêgo é "o preferido dos Orixás, aquele que sabe e tem o direito de saber - é o dono dos segredos. O moço baiano nasceu e se formou com a proteção de Senhora e Menininha, defendido por todos os lados".
Etnólogo famoso está entre os três estudiosos que mais conhecem candomblé no País, mas é, antes de tudo, um joalheiro afro-brasileiro de muito talento, ourives de Oxum e joalheiro de Yemanjá. Artista sério, já ganhou um prêmio da Academia Brasileira de Letras pelo seu livro "Capoeira de Angola/ Ensaio Sócio-Etnográfico", assunto do qual conhece todos os meandros. Na foto Waldeloir Rêgo pintando seus tecidos com motivos afros.
Suas jóias exóticas enfeitam, hoje, colos e pescoços de algumas das mais bonitas mulheres do País e do estrangeiro. Mas, não contente com isto, Waldeloir Rêgo investe incansável no terreno da estamparia. I.D
Waldeloir Rêgo disse que a Bahia tem uma grande fama de celeiro de arte, mas no fundo são as mesmas pessoas que fazem seus trabalhos há algum tempo. "Não há realmente renovação de valores. Quanto a "igrejinha" se existe, eu não conheço, nem participo dela ou delas. Procuro me comunicar com todos: os já consagrados e aqueles que começam. Acho no entanto, que é muito cômodo o indivíduo cruzar os braços e acusar outros artistas, já consagrados, de criarem "igrejinhas". O que é preciso - prossegue enérgico - é que esta gente trabalhe e faça coisas boas.

                                                          CRIAÇÃO

Waldeloir é um criador nato. Tanto nas estamparias como nas jóias existe uma liberdade de criação.O artista dispõe não só de formas mas também de elementos ricos em cor . Suas estamparias são dotadas de um cromatismo alegre e ao mesmo tempo místico dentro do complexo afro-brasileiro, já assinalados pelo escultor Mário Cravo.
"Vejo na obra de Waldeloir um renovador, mesmo sem renegar as suas raízes. Examinando -se a sua evolução nos últimos 9 anos constata-se facilmente a progressiva liberação dos condicionamentos litúrgicos presentes nas suas primeiras experiências, datadas de 1962, pois ali se encontravam o cristal e a cerâmica, exatamente os mesmos adereços de nosso candomblé. Já em 1968 a prata começa a se expandir como componente quase que fisiológico da sua joalharia, chegando a ser em 1969, predominante. Mesmo as experiências concomitantemente levadas a efeito pelo artista durante o período, na área do "silk-screen", evidenciam que suas preocupações primeiras condicionadas pela liturgia do candomblé,vinham, pouco a pouco, sendo liberadas das cadeias do imediatismo superficial, permitindo mostrar-nos a sua capacidade de produzir objetos realmente oriundos de atividade criadora".

                                                         O HOMEM

Waldeloir Rêgo nasceu a 25 de agosto de 1930,em Salvador e ingressou na Faculdade de Direito da Universidade Federal da Bahia, porém não chegou a concluir o curso. Foi ai que começou a escrever os primeiros artigos, resultantes da pesquisa das coisas e do povo da Bahia, culminando com a publicação do livro "Capoeira Angola / Ensaio Sócio-Etnográfico"que foi premiado pela Academia Brasileira de Letras, com o prêmio Josë Veríssimo, para Ensaio e Erudição, em 1968.
Ao sair da Faculdade de Direito voltou-se para as artes plásticas onde continua até hoje produzindo coisas belas. Participou em 1966 da Primeira Bienal Nacional de Artes Plásticas da Bahia; em 1967 do III Salão de Arte Contemporânea de Campinas; em 1968 do XVII Salão Nacional de Arte Moderna do Rio de Janeiro, e da Segunda Bienal Nacional de Artes Plásticas da Bahia; em 1969 participou do XVIII Salão Nacional de Arte Moderna do Rio de Janeiro e em 1970 do XIX Salão Nacional de Arte Moderna e expôs na Galeria Bonino, ambas no Rio de Janeiro.
Ganhou o Prêmio Nacional de Artes Decorativas, na Primeira Bienal Nacional de Belas Artes da Bahia, Medalha de Ouro no Terceiro Salão de Arte Contemporânea de Campinas e o Prêmio Isenção de Júri e Medalha de Prata do XIX Salão Nacional de Arte Moderna do Rio de Janeiro.
Waldeloir persegue uma temática afro-brasileira e sua atividade criadora vem se desenvolvendo na confecção de jóias artísticas, e pintura sobre tecido, pelo processo "silk-screen", em seu atelier próximo ao Convento do Desterro.
Nas jóias utiliza a prata e pedras semi-preciosas, e formas nascidas da recriação de detalhes de armas, insígnias, fôlhas sagradas e dos próprios utensílios de adorno dos deuses afro-brasileiros ou usados em seus rituais, vai elaborando seus colares, gargantilhas, anéis e pulseiras.
Certa vez afirmou o crítico de arte do Jornal do Brasil, Walmir Ayala, que Waldeloir Rêgo "é um exemplo de alto nível, nesta concepção da jóia como objeto precioso, por suas invenções de espaço, por sua aproximação à liberdade arquitetônica da escultura que é cada dia mais uma arte habitável. Só que as jóias de Waldeloir Rêgo habitam o corpo e pousam com a graça e a agressividade das coreografias do candomblé, na imagem de um colo, de um pescoço ou de um pulso".

                                         IGREJINHA

O artista é contra as "ïgrejinhas" tão reclamadas pelos novos artistas plásticos baianos que se acham prejudicados. Diz ele: "em primeiro lugar, falar de artes plásticas na Bahia é um negócio difícil e delicado sobretudo porque não há uma movimentação artística satisfatória em nossa terra e mesmo renovação de valores, como está acontecendo em outros centros do sul do País.
Existe uma falta de informação geral. O artista baiano em sua grande maioria está desinformado ou melhor está totalmente por fora porque não sabe o que está ocorrendo e se fazendo de novo em termos de artes, não só no eixo Rio-São Paulo como no exterior.
Tudo aqui - continua - fica no ouvi falar. É por esta e por outras razões que acho de suma importância a Bienal de São Paulo porque ali nós ficamos sabendo o que ocorre não só no Brasil como no exterior. É um contato necessário para o artista plástico".

Nota: Waldeloir Rêgo faleceu aos 71 anos no dia 21 de novembro de 2001.

segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

CINEMA - GLÁUBER ROCHA: SUA OBRA EXIGE UM ESPAÇO DIGNO

Publicado em 3 de dezembro de 1982.
Texto Reynivaldo Brito
Fotos A Tarde


No dia 22 de agosto do ano passado morria no Rio de Janeiro o mais discutido e aplaudido cineasta do Terceiro Mundo, o Baiano Glauber Andrade Rocha, e, em Salvador, no ex-Cine Guarani, hoje Cine Glauber Rocha, ocorreram recentemente uma exposição, uma mostra retrospectiva de seus filmes e alguns debates entre cineastas que viveram experiências juntamente com Glauber.


Na foto Gláuber filmando em frente ao Museu de Arte Sacra com figurantes da Idade da Terra. Nestas filmagens ele teve um desentendimento com o então diretor do museu o espanhol valentin Calderon.

Mas, nenhum estudioso da cinematografia nacional conhece tão bem a obra de Glauber como sua própria mãe D. Lúcia Rocha, que antes de ser mãe do cineasta deve ser vista como uma artista, responsável que foi pelo figurino de vários de seus filmes. Ela está presente a todos os acontecimentos que envolvem a vida e a obra de seu filho. Participa de opiniões, relembra fatos e agora está voltada para a concretização de uma idéia que é a criação de um espaço onde seja reunida a obra poética e cinematográfica deste baiano da cidade de Vitória da Conquista, reconhecido em todo o mundo como um dos mais inovadores diretores de cinema das últimas décadas.

                                                       INQUIETAÇÃO

- Desde os primeiros anos notei que Glauber não tinha o mesmo comportamento de seus primos. Vivíamos na cidade de Vitória da Conquista e lá os meninos normalmente gostam de montar cavalo, caçar e jogar bola. Glauber, porém, gastava o seu tempo lendo e consumia muitas horas folheando revistas em quadrinhos. Ele também leu muitos livros antes tidos como leitura para adultos. Leu a Bíblia muito cedo e discutia muitas de suas passagens. A leitura da Bíblia foi uma coisa quase natural pois sempre fomos presbiterianos e ele fazia muitos sermões sobre o que encontrava de interessante.



DESIGUALDADES


Lembra D. Lúcia ( foto)  que certa vez Glauber chegou em casa aborrecido: “Minha mãe como pode o prefeito ter uma casa tão grande e tão bonita e o tio Antonio não ter onde morar?”. Expliquei o porquê e ele ficou ainda inconformado. O tio Antonio de que falava era um empregado que morava numa pequena fazendola de propriedade da família Rocha., o qual tinha na época 12 filhos menores e vivia numa miséria terrível. Isto demonstrava, segundo D. Lúcia Rocha , que seu filho era um inquieto e inconformado com as injustiças do mundo. Esta inquietude fez com que saísse da escola regular e passou a ser alfabetizado em sua própria casa. E já perto de fazer admissão queria discutir a todo custo o descobrimento do Brasil, porque não aceitava a versão de que nosso país foi descoberto por acaso. Quando seu velho pai, Adamastor Rocha, mandava que fosse ajudar na loja ele ficava o tempo inteiro desenhando quadrinhos no rolo da máquina registradora com legenda e tudo que depois passava lendo para membros de sua família.Foi naquele instante que percebi que meu filho ia ser cineasta. Ele sabia nomes de diretores, assistentes, produtores de cinema de várias partes do mundo. E nestes filmes que desenhava no rolo da máquina os personagens eram pessoas da família e de suas ralações.”
Glauber crescia e a família teve que procurar a cidade grande para educá-lo . Assim o Sr. Adamastor e D. Lúcia vieram com seus filhos e se estabeleceram no bairro da Mouraria, em pleno centro de Salvador. Glauber, como todo bom protestante que se preza foi estudar no Colégio Dois de Julho, que na época tinha uma educação fundamentada em colégios protestantes americanos. Estávamos por volta de 1946. Lá ele escreveu uma peça intitulada “Llito, o príncipe de ouro", que montou juntamente com seus colegas. Ele fez o papel de príncipe e D. Lúcia Rocha fez o primeiro traje para o artista que iniciava sua carreira. Nesta época, lembra sua mãe, a professora Maria Nazaré Seixas me chamou e disse: “D. Lúcia descobri um artista. Ele será um grande artista, um gênio.” Ao que D. Lúcia retrucou : gênio ou genioso?
Foi neste ambiente protestante e lendo a Bíblia que Glauber, aos 13 anos de idade, concluiu o seu curso ginasial sendo o orador da turma. D. Lúcia ainda guarda o seu discurso que em certo trecho diz : “Colegas, parar agora seria fatal. Agora que tomamos o primeiro impulso, mais do que nunca necessitamos mergulhar nos mistérios dos livros, procurando com mais afinco o roteiro que nos levará, não mais a uma simples e primeira parcela, mas sim ao todo do tesouro maravilhoso, o mais valioso dos tesouros, o tesouro que o futuro guarda carinhosamente para todos nós que é o tesouro da sabedoria”
Glauber, o discutido jovem, sempre acreditou em Deus, diz D. Lúcia. Acreditava e muito. Sempre, desde criança, conversávamos abertamente sobre seus problemas e posso
afirmar que dos cineastas que conheço foi o que mais pregou o nome de Deus. Basta lembrar os temas e os nomes de seus filmes. Até em Barravento, onde ele mostra sua visão sobre o candomblé baiano, o nosso Deus está presente. Ele sempre dizia que “a minha igreja não tem portas”. O que existia de diferente nele é que era um crente fora dos padrões a que estamos acostumados conviver.
Voltando a falar de Glauber ainda adolescente, sua mãe lembra que depois de viver naquele ambiente burguês e de uma disciplina protestante severa ele matriculou-se no Colégio Estadual da Bahia ( Central) . “Foi uma decisão pessoal de Glauber que ira conviver com pessoas carentes e inteligentes, explica D. Lúcia. Ali sua criatividade cresceu. Participou de vários movimentos culturais no grêmio do Colégio da Bahia juntamente com Paulo Gil Soares, João Carlos Teixeira Gomes, Fernando Rocha, Calasans Neto e outros, hoje professores universitários, escritores e artistas baianos. Juntos fundaram a Jogralesca que foi um movimento cultural importante na Bahia. Mais tarde terminou o curso clássico e fez vestibular para Direito, sendo aprovado.

                                                                BOM FILHO

Um jovem tão inquieto que só queria saber de arte era um bom filho? Bom é pouco, revela D. Lúcia . Glauber era um filho extremado, inteiramente voltado para a família. Era muito atencioso comigo e com o pai. Quando meu esposo sofreu um acidente automobilístico e ficou inutilizado para o trabalho, Glauber sofreu muito. Quando em 1952 faleceu sua irmã Ana Marcelina de apenas 10 anos, de leucemia, seu sofrimento foi pior ainda. Lembro que ele fez na época um poema que ainda guardo. Quer ver? Antes que respondesse D. Lúcia desapareceu no corredor e retornou minutos depois com um papel datilografado: era o poema "Anunciação”, que diz em seus primeiros versos: “Nasceu de mim / Verdes naus em Floração / Sendo mais raivosos quão”. Glauber não se conformava com a morte da irmã e tivemos que mudar de casa. Fomos morar nos Barris e como as dificuldades financeiras aumentavam resolvi abrir um pensionato. O velho Adamastor continuava doente e D. Lúcia lutava sozinha para sustentar a casa. “Mas nunca deixei de dar toda a força a Glauber.” Lembra da dificuldade para que seu filho freqüentasse a Faculdade de Direito. Mas, logo depois começou a namorar Helena Inês que também estudava por lá e meses depois estavam casados e vieram morar na pensão de D. Lúcia.
De repente ela atalha e relembra que antes disto, logo que passou no vestibular, Glauber foi premiado com uma viagem ao Rio de Janeiro. As coisas tinham melhorado um pouquinho com a pensão e ele ganhou a viagem por ter sido aprovado no vestibular. Foi para o Rio de Janeiro e de lá fez uma carta pedindo Cr$500,00 para comprar um carro. “Como eu tinha umas economias devido a venda de algumas coisas que tinha em Vitória da Conquista, prometi que enviaria o dinheiro e assim fiz. Mas, quando ele retornou veio de navio e eu sempre indagando pelo carro. Foi quando ele me disse: "está aqui dentro”, apontando para sua mala. Quando chegamos em casa ele abriu a mala e ficou em minha frente com uma máquina, que era sua primeira câmera. Rimos muito. Foi com ela que ele iniciou as filmagens de “Barravento” e fez um pequeno filme com Helena Inês que é um ensaio de expressão corporal intitulado “Pátio”.
Outro fato curioso que ela lembra é que naquela época os calouros eram vítimas de trotes muitas vezes violentos nas escolas universitárias. “Certa vez, o Glauber me disse : mamãe ninguém vai raspar a minha cabeça. Não vou deixar que imbecil nenhum coloque a mão em minha cabeça. E, assim mandou que um barbeiro amigo cortasse bem baixinho o seu cabelo. Como vemos, tudo aconteceu muito cedo na vida de Glauber, mas nunca podia imaginar que sua morte também fosse ocorrer tão cedo. Basta dizer que foi nos primeiros meses da Faculdade de Direito que ele conheceu Helena Inês e com pouco tempo estavam casados. Vieram morar conosco, como já disse anteriormente e quando se separaram Paloma ficou em nossa casa. Hoje ela está uma moça e estuda Medicina, na Universidade Federal da Bahia. Assim ele trancou sua matrícula no terceiro ano de Direito e foi fazer “Deus e o Diabo na Terra do Sol”. Foi uma luta muito grande porque o produtor do filme Luiz Augusto Mendes, não tinha dinheiro para investir muito e Glauber ficava muito angustiado com as dificuldades. Quando ele terminou o filme mudamos para o Rio de Janeiro. Foi muito difícil no Rio. Sempre vivemos com dificuldades, e ali elas aumentaram. Eu continuava fazendo as roupas e ajudando não somente a Glauber como a Nelson Pereira dos Santos, Joaquim Pedro de Andrade e outros nomes ligados ao cinema novo. Quando ele foi fazer “Terra em Transe” já estava casado com Rosa Maria Pena, com quem viveu seis anos. Não tiveram filhos”.


                                                    PROBLEMAS POLÍTICOS

D. Lucia lembra dos dias tristes que viveu quando Glauber Rocha juntamente com outros intelectuais foram presos. “ Durante 17 dias fiquei sem saber onde ele estava. Resolvi procurar o ministro Juracy Magalhães que mandou um bilhete e terminei localizando Glauber, que estava preso juntamente com Carlos Heitor Cony, Thiago de Melo e outros. Quando foi solto ele terminou o filme que levou quase clandestinamente para fora do país, foi para a Itália e não pode mais voltar. Ficou sete longos anos no exterior, trabalhando e mostrando através dos seus filmes toda a inquietude que sempre foi uma marca registrada de sua personalidade. Na Europa ele rodou “O Leão de Sete Cabeças”, “Claro”, “Câncer”, “ABC do Brasil e Cabeças Cortadas”. Antes ele voltou uma vez ao Brasil e fez “O Dragão da Maldade Contra o Santo Guerreiro”. Nesta época brigou muito com a censura e retornou à Europa.
Conta D. Lúcia Rocha que “nesta ocasião sofri muito. Me dói muito lembrar que muitos o tacharam de louco. Mas ele era um gênio e como todo gênio foi incompreendido”. Ela relembra chorando que foi trabalhar na TV Globo para sustentar a família e sempre mandava algum dinheiro para ele, principalmente nos primeiros meses de exílio. Ela trabalhava tanto que adoeceu, e foi através do cineasta Luis Carlos Barreto que Glauber conseguiu retornar para junto de sua mãe doente. Em outubro de 1976 ele chegou e ela foi operada do coração em São Paulo devido à interferência de seus colegas de profissão, pois não tinha dinheiro suficiente para custear a operação. Ele chegou desconfiado, pois a situação política ainda estava tensa e não tinha passaporte.
Mas aconteceu outra desgraça em sua vida. Anecy Rocha, sua irmã e amiga, caiu no poço do elevador de um prédio. Ele estava escrevendo “Riverão Sussuarana”e no final do livro ele conta a morte de Anecy. Ficou inconformado e acusou na época o cineasta Walter Lima Júnior, então esposo de Anecy de tê-la jogado no poço. Morreu convicto que Walter assassinara sua irmã, embora a polícia não tenha comprovado nada. Um ano após, morreu Adamastor, seu pai, e onze meses depois Glauber retornava ao Brasil, vindo a falecer no Rio de janeiro.
Glauber tem ainda, além de Paloma, mais dois filhos menores de sua ligação com Paula Gaitan que são Erick Aruake e Ava Pátria Índia Iracema, e Pedro Paulo, de 7 anos de idade, com outra mulher, que hoje é funcionária da Embrafilme.
      A visão do cineasta de formação protestante sobre o candomblé baiano em seu filme Barravento

                                                        SUA OBRA

Conhecedora profunda da obra do filho, D. Lúcia tem inúmeros poemas, peças e outros escritos feitos por Glauber. Ela pretende instalar um centro cultural que cultue a memória de seu filho. Para isto conta com o apoio de intelectuais baianos e do governador Antonio Carlos Magalhães que está empenhado em sua concretização. D.Lúcia lembra que “sempre que ele viajava dizia : minha mãe leve meu material para a Bahia. Deixe tudo lá. E para satisfazer seu desejo fiz três viagens de ônibus trazendo várias malas com coisas dele. Certa vez trouxe 16 malas e fui presa na Rodoviária, confundida como boutiqueira, que compra roupas em São Paulo e Rio de Janeiro para vender aqui, devido ao número excessivo de malas. Mas estou com grande parte de sua obra, embora saiba da existência de outros materiais no exterior. Assim, pretendo que a memória de Glauber seja cultuada à altura de sua importância para a cultura deste país. Não falo apenas como mãe, mas também como admiradora da obra deste que foi e sempre será o mais ousado dos cineastas brasileiros”.

quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

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terça-feira, 4 de janeiro de 2011

RELIGIÃO - A GRANDE FESTA DE OGUM




Texto e fotos Reynivaldo Brito

Publicado jornal A Tarde 31 de julho de 1980.


O terreiro foi embandeirado de véspera para a grande festa de Ogum, o deus ferreiro, senhor da guerra, dono das estradas e amigo de Exu.No dia seguinte ,bem cedinho o terreiro já fervilhava de gente ligada ao culto, convidados e curiosos. Era a matança do boi, o qual passara toda a noite mugindo, preso a um imenso poste colocado ao centro do terreiro.
De repente aparece o alabê ( chefe da orquestra) acompanhado de dois ajudantes que conduziam os atabaques. Era o início da festa e o prenúncio que dentro em pouco entraria o pai-de-santo Zé de Ogum, sacerdote da mais alta linha de Angola, que tem um séquito de centenas de fiéis entre ogans, ekedes, filhos e filhas-de-santo. Os toques iam aumentando até que aparece um mulato baixo e troncudo todo paramentado com uma bonita bata de cor amarela carregando no pescoço dezenas de contas e miçangas. Os toques eram cada vez mais fortes e minutos depois acontecia a primeira “manifestação” de um orixá. Uma senhora negra de cabelos quase esbranquecidos começou a rodopiar e caiu ao solo, sendo imediatamente atendida pela mãe-pequena, do terreiro,que é a segunda pessoa do candomblé.
Minutos depois após a primeira manifestação várias outras pessoas recebiam seus santos e a cerimônia entrava no auge, com o axogum trazendo uma imensa peixeira para sangrar o boi. O círculo foi-se fechando e os toques aumentando. Um ligeiro golpe e o boi caiu tremendo, enquanto o sangue era apanhado numa grande tigela de barro para ser oferecido ao orixá. Ao término da sangria foram cortados a cabeça, as patas dianteiras , as pernas ,e os testículos para oferecer a Ogum.
Segundo Zé de Ogum , nem todo pai-de-santo pode sacrificar um animal deste porte, por custar muito caro e por não ter condições especiais dentro do culto. O boi foi sacrificado para Ogum, que é o dono desta roça, deste terreiro. Este ritual acontece todos os anos e as filhas-de-santo e outras pessoas que participam do sacrifício são obrigadas a permanecer 14 dias na casa sem poder sair.
O boi significa força, poder e decisão.O seu sacrifício tem como conseqüência a paz do terreiro e a concórdia entre seus freqüentadores. Todo o boi foi aproveitado pelo culto.O sangue que saiu de suas veias e artérias foi levado para o ibá, que é uma espécie de santuário onde fica o carrego do santo com os potes, bacias e louças. Ali o sangue , que eles chamam de menga foi colocado em cima das otás, que são pedras sagradas ,com mel e vinho, que é o néctar do orixá.Também vieram as quatro patas e a cabeça do boi que permaneceram durante 21 dias. Depois deste prazo todo o material apodrecido é retirado para fazer o boi-itá, que consiste na limpeza dos ossos. Tudo é jogado numa grande lata de gás com água fervendo até que os ossos ficaram alvinhos largando toda a crosta. Imediatamente em procissão, foram conduzidos para a itá. Concluído este sacrifício a paz está reinando no candomblé de Ogum, no município de Lauro de Freitas, nos arredores de Salvador.
Explicaram os membros do terreiro que a paz está garantida por 14 anos, mas salientaram que para que isto se concretizasse eles tiveram antes que sacrificar sete galos caboclos ( vermelhos) para Exu, que erradamente é sincretizado por pessoas alheias ao culto com o diabo. Dizem eles que no terreiro existem dois exus, o Xoroquê e o Tiriri, sendo este último confundido como escravo, quando na realidade é um orixá.


TRÊS DIAS


A festa durou três dias e três noites. Os cânticos tristes e alegres seguidos com o batucar dos atabaques davam uma idéia de uma festa que não mais tinha fim. Todos estavam cansados e o revezamento em certos dias teve que ser feito. Era um dançar e cantar sem conta, tudo para agradar o pai Ogum, que no sincretismo é o Santo Antônio,sendo seu dia terça-feira,sua cor azul escuro e contas também azuis. A comida preferida é feijoada ( a depender da nação)e inhame assado. Sua saudação é Ogunhaê e sua indumentária é composta de couraças e capangas.
Enquanto isto a comida era servida com fartura.Uma imensa cozinha sempre estava cheia de filhas-de-santo sorridentes que serviam aos integrantes do culto e convidados pratos cheios de feijão,farinha e pedaços de carne assada ou em ensopado.
Numa grande panela foi preparado o Ixé de Exu, que é constituído dos miúdos dos sete galos caboclos ( cabeças, pés,fígados,bofes e vísceras) cozidos com azeite de dendê e em seguida colocado aos pés de Exu.O restante dos galos também foi aproveitado para o ximxim feito com camarão e azeite e distribuído entre os presentes à cerimônia no primeiro e segundo dias. Exu estava “assentaodo”e Ogum já dominava tudo.

FEIJOADA DE OGUM

Finalmente, os integrantes do terreiro alcançaram o verdadeiro auge da festa com grande feijoada de Ogum. Quatorze homens devidamente escolhidos pelo pai-de-santo e ajudados por algumas filhas-de-santo começaram a preparar o barracão principal para a cerimônia. No centro do barracão foram colocadas três esteiras e três alas ( lençóis) brancos e em volta jarros com flores e castiçais com velas. As filhas-de-santo se acercaram, também os ogãs, alabês , ekedes, Kotas, mãe-pequena e outros membros do candomblé e algumas traziam tabuleiro com pipocas, que eles chamam de flores para o velho Omolu.
O doburú foi trazido porque o velho Omulu é amigo inseparável de Ogum,principalmente de Ogum de Ronda.Informa o pai-de-santo Zé de Ogum que o dono de sua cabeça é “um orixá do lado do Ifá que é a terra que não mais existe.Ele é velho e não tem mais condições de dançar.Quando o santo desce fico parecendo um velho, andando devagar e com meus movimentos de modo geral muito limitados”.Porém, quando o Ogum Wari toma conta do corpo do pai-de-santo, ele consegue dançar e cantar durante toda a cerimônia. Este orixá aparece empunhando uma espada e dança como se duelasse, altivo e um tanto indomável.Por se manifestar com feições distintas: Ogum Já,Ogum Xorokê ( ou de Ronda, que durante seis meses de cada ano se transforma em Exu) muitas pessoas o confundem com outros orixá.

QUEM É


O pai de santo Zé de Ogum embora seja um mulato corpulento e de cara feia é uma pessoa dócil. Ele passou toda sua juventude ajudando missas no interior da Bahia, na cidade de Rui Barbosa, onde chegou a ser um sacristão na igreja matriz. Quando houve uma campanha para revitalizar as vocações sacerdotais, eis que o sacristão José Santos Araújo ( seu verdadeiro nome) foi enviado para o seminário de Santa Tereza., que funcionava no imóvel hoje ocupado pelo Museu de Arte Sacra,da Bahia. Passou algum tempo no seminário e seu gosto pela música o encaminhou a aprender órgão. Mas o destino do sacristão era outro. “Abandonei o seminário e comecei a sentir umas coisas diferentes. Pensaram que estivesse maluco e me mandaram para um sanatório.Não tinha nada de maluco”. Apenas segundo explica, hoje mais consciente, sentia a manifestação de seu santo Ogum e foi num velho e tradicional terreiro de candomblé da cidade de Cachoeira, localizada no Recôncavo Baiano, que tudo veio à tona.A mãe-de-santo de nome Paulina cuidou do ex-sacristão e ex-seminarista.Cumpriu todas as obrigações e tempos depois era um sacerdote,trazendo consigo a incumbência de zelar por Ogum e de cultuá-lo por toda a vida., Estava com 18 anos quando iniciou suas obrigações e, hoje aos 46 anos de idade o pai-de-santo Zé de Ogum continua cada vez mais ciente de suas responsabilidade e assume o seu trabalho com muito entusiasmo. Já teve terreiro nos bairros de Pero Vaz e Jardim Cruzeiro e na Cidade de Alagoinhas, hoje está em Lauro de Freitas, nos arredores de Salvador. O terreiro ocupa uma era superior a cinco mil metros quadrados e tem várias construções e santuários. É, talvez, um dos mais espaçosos de Salvador e do ponto de vista arquitetônico o mais bonito.
Hoje ele já tem mais de 25 filhas-de-santo feitas dentro de todo o ritual e cerca de 1.200 borizadas e catuladas espalhadas pelos estados de Sergipe,Bahia,Rio de janeiro e São Paulo, e é um dos mais freqüentados da Bahia.