Objetivo


quinta-feira, 5 de abril de 2012

POLÍTICA - BAHIA: UM ESTADO EM CRESCIMENTO

Revista Manchete 14 de Outubro de 1978

Antônio Carlos Magalhães fala a MANCHETE sobre sua volta ao Palácio da Aclamação

Texto de Reynivaldo Brito / Foto de Lázaro Torres

Tem 51 anos de idade o futuro governador da Bahia, Antônio Carlos Magalhães. Médico, esta é a segunda vez que ocupará o governo, e começou a destacar-se politicamente nos tempos de estudante, quando dirigiu o Diretório Acadêmico e o Diretório Central dos Estudantes. Em 1954, elegeu-se deputado estadual, pela UDN, e depois deputado federal em duas legislaturas (1958 e 62). Foi indicado prefeito de Salvador em 1967 e governador do estado em 1970. É considerado bom administrador, tendo realizado grandes obras na Prefeitura construindo avenidas de vale para escoamento do tráfego, o Centro Administrativo, onde estão muitas das repartições públicas estaduais e até federais.

É apontado como um político hábil e combativo e sua escolha não chegou a surpreender devido ao seu prestígio na área federal. Conseguiu reunir velhos inimigos, indicando o filho do Senador Luís Viana Filho, atual Deputado Federal Luís Viana Neto, para vice-governador, e o filho de Juracy Magalhães, também Deputado Federal Juthay Magalhães para senador biônico, e o Deputado Federal Lomanto Júnior para o Senado por via direta. Tem, ainda, certo controle dos adesistas do MDB por ser aliado político do chefe da oposição na Bahia, Antônio Balbino. Ocupou até poucos dias a direção da Eletrobrás, desincompatibilizando-se em março do corrente ano para ocupar novamente o governo da Bahia.

– Como espera governar a Bahia?

– Dentro de um espírito de unidade indispensável à união dos baianos. Na medida do que pude, promovi esta união, qual seja de conciliar os interesses políticos das correntes que me apoiaram ou não e os interesses reais do estado porque, acima de tudo, está a administração que preciso apresentar aos baianos. Estou recrutando os homens mais capazes para formar uma equipe de governo à altura da Bahia e aí vimos procurando identificar os problemas mais cruciais . Do ponto de vista da Grande Salvador, eu diria logo que três problemas surgem e exigem prioridades: abastecimento de gêneros alimentícios, transportes coletivo e o relacionado à segurança do cidadão. Esta segurança é muito importante principalmente na Bahia, onde o turismo tem grande influência. Do ponto de vista do estado em geral, precisamos fazer mais estradas- troncos e a grande malha de estradas vicinais. Levarei para todo canto a eletrificação rural porque a Bahia é o estado que tem menos cidades eletrificadas. Esperamos eletrificar centenas de localidades na Bahia. O programa da agricultura, meta principal do futuro presidente da República, também terá prioridade em meu governo, sobretudo numa região que ainda hoje se mostra virgem em relação ao estado – o oeste do São Francisco. Aí vamos trabalhar com vista a manter a população rural, com um programa voltado para a agroindústria. O homem do campo não pode ser frustrado em seu trabalho, em seu suor e em seus esforços. Assim, quem já está na terra há muito tempo não pode ser vítima de grilagem e para isto estou trabalhando com um corpo de advogados a fim de apresentar sugestões ao governo federal e também proteger esses lavradores. Quero ainda dar ênfase à mineração porque a Bahia á um estado rico em minerais. Não esqueçamos o pólo Petroquímico de Camaçari – uma conquista dos baianos e trabalhamos bastante para que isto se tornasse realidade. É talvez o maior projeto da América Latina no setor e vão ser empregados 2 bilhões e 500 milhões de dólares em seu final. Já foram investidos até agora mais de 2 milhões de dólares e isto significará uma economia de divisas muito grande para o país, aumentando sensivelmente a arrecadação do estado. Teremos ainda uma preocupação com a medicina preventiva.



POLUIÇÃO COM REALISMO E SEM PAIXÃO

– Estando a Bahia num processo rápido de desenvolvimento industrial, como o futuro governador da Bahia vê o problema da poluição ambiental?

– Dentro de um realismo muito grande, mas sem paixão. A Bahia tem que se desenvolver e ninguém pode promover um desenvolvimento sem um pouco de poluição. Localizar esta poluição é uma atitude de inteligência, como nós estamos fazendo, instalando as fábricas longe dos centros urbanos, especialmente de Salvador. Um pouco de poluição existirá. Há poluição em todo lugar, todo mundo está fumando e poluindo o vizinho. Isto é tão grave como muitas outras existentes por aí. A Bahia preservará suas belezas naturais, mas nem por isso, deixará de se desenvolver, mesmo tendo que poluir um pouco.

– Como encara o movimento na região cacaueira que pretende criar o Estado de Santa Cruz, que englobaria vários municípios baianos?

– Evidente que encaro este movimento com isenção, mas acredito ser desnecessário o Estado de Santa Cruz, pois se existe aspiração de alguns municípios, é porque talvez, o governo não tenha dado ainda a devida assistência. Se forem bem assistidos todo mundo vai querer ser mesmo é baiano.

– Desejo saber se o futuro governador tem conhecimento de que os habitantes da região cacaueira reclamam que dão muito ao estado em termos de arrecadação e recebem pouco em troca?

– Na realidade é a região mais rica do estado e consequentemente, a que deve ajudar as outras. Não se pode governar um estado com as vistas voltadas para uma área e sim com um espírito de união, de unidade. Temos que atender os reclamos da região cacaueira e também as localidades mais carentes.

– O senhor diz que conseguiu a união da Arena, o seu partido, mas outros afirmam que o senhor dividiu o partido do governo. O que acha desta posição?

– Praticamente não existe divisão na Arena baiana, porque as grandes correntes, os líderes mais expressivos apoiam o meu futuro governo. A única exceção foi o atual governador. Mas o atual governador evidentemente entrou na política muito recentemente, entrou só para ser governador e consequentemente não pode fazer uma liderança em tão pouco tempo. Talvez por inexperiência não tenha participado deste conjunto de forças que conseguimos reunir. Posso, no entanto, afirmar que isto não vai pesar no geral.

– Como recebe a Bahia?

– Com os problemas naturais de um estado em crescimento, mas também recebo como um desafio à minha capacidade de trabalhar em equipe, e é o que desejo fazer. Agora, em verdade, os problemas serão maiores, sobretudo a expectativa do povo baiano em torno da minha volta. É muito maior agora do que em 1971. Esperam de mim milagres que não ocorrerão. Mas, haverá um esforço muito grande de nossa parte e vamos tornar as coisas praticamente impossíveis em possíveis, tal a vontade que temos de trabalhar, de realizar o máximo em benefício do povo baiano. Faremos um governo voltado para os interesses baianos e não seria por vaidade que voltaria ao governo, pois já o exerci.



“Terei uns três ou quatro secretários jovens, com menos de 35 anos de idade”

– O turista fica preocupado com a descaracterização da Bahia e principalmente com o estado de abandono de alguns monumentos a exemplo do Pelourinho. Como encara esta preocupação?

– Quando deixamos o governo, o Pelourinho estava em melhor situação do que a atual. Voltar para preservar a riqueza do patrimônio artístico e cultural da Bahia é um dever de qualquer baiano que ame esta terra. Não é sem razão que estamos deslocando para outra área da cidade as novas construções que obrigarão mais de dois milhões de pessoas, a área do Centro Administrativo. Mas, nosso objetivo principal é levar a cidade para este lado a fim de que possamos preservar a cidade antiga. A Bahia não pode abrir mão de seu patrimônio e um governante cônscio de seu dever deve encarar este problema com seriedade e prioridade.



CADA GOVERNO SERÁ SEMPRE UM NOVO GOVERNO

O senhor já anunciou o futuro prefeito, seu ex-secretário de Planejamento. Também anunciou o futuro presidente do Banco do Estado que foi o prefeito de Salvador quando governou a Bahia. Perguntaria se não haverá uma renovação em sua equipe, pois os auxiliares anunciados já fizeram parte de seu primeiro período à frente do governo do estado?

– Sim. Cada governo é um novo governo, até mesmo porque não desejo fazer um vídeo-teipe. Então estou procurando, e vou ter, secretários de todos os matizes, principalmente jovens abaixo de trinta e cinco anos, pelo menos três ou quatro que possam, inclusive, dialogar, como eu desejo, com todas as classes, com os estudantes e com os operários. Há uma plêiade de jovens capazes sem a oportunidade que vou dar-lhes no primeiro e segundo escalões do meu governo. Agora não posso anunciar nomes porque só o farei depois dos resultados das eleições de 15 de novembro.

– Por falar em 15 de novembro a vitória da Arena será expressiva, mesmo na Grande Salvador?

– A Arena vencerá em todo o estado e também na Grande Salvador. Teremos na Bahia talvez a mais significativa vitória da Arena no país. Elegeremos o senador com uma margem excepcional de votos em relação a seu competidor e vamos fazer 25 deputados federais entre os 32, um número bastante expressivo.

– Qual sua opinião sobre a atuação do MDB na Bahia? É uma oposição que poderá trazer problemas ao seu governo ou simplesmente não terá forças para coisa alguma?

– Eu prefiro sempre opinar sobre o meu partido e deixar o MDB cuidar de sua faixa. Se eu ficar pensando no MDB, não trabalho pela Arena e isto seria prejudicial.

– Voltando a Salvador, quais seriam os principais problemas que o senhor tem discutido com o Sr. Mário Kertsz, futuro prefeito de Salvador?

– Devemos levar em conta que o povo de Salvador é um povo alegre, feliz, que gosta de receber visitantes. É um povo apto para participar dos empreendimentos turísticos. Consequentemente, estamos identificando seus problemas como o do transporte coletivo, da educação, a preservação da beleza da Baía de Todos os Santos e os casarões que traduzem a nossa história para os visitantes poderem usufruir de tudo que temos a oferecer.

– Espera continuar a obra do Centro Administrativo, transferindo para lá as secretarias ainda não retiradas do centro da cidade?

– Espero que todo governo passe para o Centro Administrativo e consequentemente que a cidade cresça em sua direção. Posso dizer que quando terminar o meu governo todas as repartições públicas estarão no Centro Administrativo, uma obra irreversível. Sei que, infelizmente algumas repartições foram localizadas em pontos inadequados na antiga Salvador. Essas não serão levadas.

– Como o futuro governador vai conciliar o interesse político com o administrativo, já que o senhor é um homem político?

– Todo técnico que integra um escalão superior tem que ser político. Todo político que estiver na administração deve levar o lado técnico em consideração, e, consequentemente, realizará uma boa administração. Nenhum político poderá realizar uma boa administração se não estiver amparado por uma boa equipe de técnicos. Por outro lado, o técnico que entra numa administração sem se tornar um bom político não fará um bom trabalho, pois não tem a visão global dos problemas e não cumpriria bem a sua missão.



SUDENE TEM QUE SER REFORMULADA E FORTALECIDA

– O tão propalado esvaziamento da Sudene é prejudicial à Bahia?

– É. A Sudene tem que ser reformulada e fortalecida porque o Nordeste não pode viver sem o apoio da Sudene e do Banco do Nordeste. Estes dois organismos fortes serão instrumentos de trabalho excepcionais para, principalmente diminuir o desequilíbrio entre as regiões mais ricas e mais pobres do Brasil.

– Quando falamos em regiões pobres vêm à mente os montantes da dívida contraída pelo Estado da Bahia, que segundo alguns são expressivos. Isto preocupa o futuro governador?

– Não tenho ainda conhecimento das dívidas do estado de modo geral. Mas, espero vencer este e outros obstáculos e vencê-los galhardamente dentro do tempo possível. Essas são dificuldades naturais que todo governante enfrenta, especialmente quando encontra o estado numa situação difícil como está a Bahia.



“A vida nos ensina a ser mais calmos e mais ponderados diante dos obstáculos a enfrentar”

– Alguns rotulam o homem Antônio Carlos de temperamental, de tempestivo. Como encara esta sua imagem. É falsa ou verdadeira?

– Gostaria que sempre se examinasse os casos em que meu temperamento fez sentir mais forte se a razão estava ou não do meu lado. Este é o ponto principal. Mas, na realidade, a força do temperamento das pessoas também ajuda a realizar coisas muito grandes e a vida vai nos ensinando a ser mais calmos, mais ponderados diante dos obstáculos a enfrentar.

– Então o senhor está mais preparado para receber críticas que antes não lhe agradavam e contra as quais reagia intempestivamente?

– Há tempo do incendiário e há tempo do bombeiro. Em todo lugar que estiver uma chama será nosso dever não permitir que o incêndio ocorra mas, ao mesmo tempo, não queremos apagar as chamas vivas dos sentimentos sobretudo da juventude brasileira.



O filho, na política, por conta própria

– Um filho do futuro governador da Bahia está se iniciando na política concorrendo a uma cadeira na Assembléia Legislativa. Como o pai vê a entrada de um filho na política?

– Não dei apoio a meu filho, embora saiba que por ser meu filho isto vai representar um dado positivo para sua futura eleição. Na verdade, não sei. Pode ser favorável ou não. Ele se lançou na política por conta própria e baseado numa vocação que realiza e se fosse aconselhar digo que ele tem um irmão formado em Administração e que está na empresa privada e muito feliz. Se fosse permitido aconselhar diria que não entrasse para a política, porque tem muitos sofrimentos.

– Seria favorável à criação de um partido do trabalhador?

– Acredito que só devemos pensar em partidos depois das eleições de 15 de novembro. Aí sim, vamos examinar que partidos devem surgir, quais devem desaparecer ou prosseguir e formando assim, talvez, quem sabe, representações mais autênticas.

– Tudo leva a crer que seu sucessor será eleito por pleito direto. Está preocupado em preparar o seu sucessor ou mesmo novas lideranças políticas na Bahia?

– Acho a pergunta pertinente. Consegui renovar na administração, mas não consegui na política. Será um trabalho que vou fazer agora, mas espero contar com a ajuda dos homens que desejam e necessitam entrar na política, daqueles que acreditam nos políticos e na política. Assim teremos quadros num futuro próximo que resultem em novas lideranças como ocorre em toda parte do Brasil.

– Está comprovado que a renovação dos quadros políticos tem base na universidade. O senhor mesmo foi líder estudantil e os estudantes estão proibidos de fazer política. Não seria este um impasse a ser vencido?

– Entre política estudantil e subversão, há uma diferença muito grande. O que sou favorável é a uma política estudantil sadia.

– Como esperar enfrentar os problemas que estão aí para serem resolvidos, já que segundo suas palavras receberá a Bahia em situação difícil?

– Um escritor nordestino diz “que ninguém se perde no caminho de volta”. Mas, na política nem sempre a volta é a melhor coisa, porque se cria uma expectativa cada vez maior em relação àquilo que se pode realizar. É da natureza humana desejar fazer sempre mais e melhor que da vez anterior e eu venho com este propósito. Queria dizer que muita coisa pensei fazer e não pude e espero concretizar desta feita. Acredito que quando estiver no meio do mandato vou querer realizar novas coisas que talvez não consiga; mas é sempre neste estímulo de renovação, que graças a Deus está dentro do meu ser, que faço a política e a administração. Quero renovar, fazer coisas diferentes, preservar a Bahia tradicional, mas também empurrá-la no caminho do desenvolvimento, para que tenha posição de grande destaque no Nordeste e no total do país.



A época mudou e os tempos são outros

– Sobre a falta de liderança política e uma representatividade maior na Câmara Federal e no Senado. O que pretende fazer em prol da renovação?

– A época mudou e os métodos são outros. A representação baiana pode hoje não ser a melhor, mas seguramente é mais autêntica. Antes poderia ser intelectualmente melhor, mas não era representativamente melhor que a atual. Isto acontece de 1930 para cá. Tivemos senadores como o Aloísio de Carvalho, Antônio Balbino e Josafá Marinho e hoje temos excelente bancada: o Luís Viana Filho, Rui Santos e Heitor Dias, que representam bem a Bahia. Talvez na Câmara pudéssemos ter uma renovação maior e de valores melhores, e por isto mais precisamos dar uma autenticidade brasileira, formada por pessoas de várias faixas da população. Este caldeamento deve ser feito.

– Finalmente gostaria que o senhor falasse sobre sua passagem na Eletrobrás.

– A Eletrobrás foi para mim uma experiência de grande importância em minha vida, pois me deu uma visão muito ampla de uma grande empresa, uma das maiores do Brasil e isto talvez me facilite governar a Bahia. Foi um dos lugares onde trabalhei mais feliz em minha vida e de onde tenho as melhores recordações.












RELIGIÃO - PREFEITOS PEDEM AO PAPA SAÍDA DE BISPO POR SUBVERSÃO

Revista Manchete 2 de dezembro de 1970.

Questão fundiária

Inconformados com a atuação pastoral do bispo de Propriá, Dom José Brandão de Castro,(foto) vinte prefeitos sergipanos se mobilizaram para redigir um documento, que será enviado ao Papa João Paulo II , pedindo a transferência daquele prelado. Os prefeitos acusam astro de estar incentivando a revolta entre os camponeses, prejudicando assim os proprietários de terras da região. Mas o bispo te outra visão do problema. Sem temer as consequências do movimento e negando qualquer conteúdo subversivo em sua atuação, ele continua denunciando a ameaça de expulsão de várias famílias de posseiros. “São mais de trezentas famílias, no no município de Pacatuba”, diz ele.

JUROS

A Diocese de Propriá abrange trinta e cinco municípios e uma população de mais de duzentos e trinta mil habitantes. O bispo considera a situação agrária muito crítica: “O espaço das pastagens para o gado tem aumentado, enquanto diminuem os campos de plantação. A própria Superintendência de Desenvolvimento da Agricultura e Pecuária de Sergipe reconheceu que existem imensas áreas de pastagens ociosas, em comparação com a quantidade do rebanho existente, e acredito que alguma coisa deverá ser feita para ampliar a produção de alimentos. Após acentuar que a política creditícia governamental não ajuda o pequeno agricultor, Castro afirmou , que os juros bancários são exorbitantes. A seguir, apontou várias distorções nos projetos em execução na região. “o Polonordeste, por exemplo, está ocupando vastas áreas para plantio da cana, com vis tas à produção de álcool, o que não atende aos interesses da população local, porque nele não há lugar para o povo trabalhar”.

AMEAÇAS

Castro diz que já foi até ameaçado de morte em consequência de seu trabalho pastoral. “Os motivos que levaram o prefeito Antônio Brito, de Propriá, a liderar o movimento pela minha transferência – prossegue - se ligam à linha de atuação determinada pela Pastoral da Terra. Em consonância com a CNBB, temos procurado conscientizar os lavradores de região sobre seu direitos violados em muitas áreas , como na da Codevasf, na Fazenda Belém, que pertence à família do Prefeito de Propriá, e em outros locais”. Castro volta a negar veementemente o caráter subversivo que desejam dar ao seu trabalho pastoral, solidário com a linha dos sindicatos de trabalhadores rurais. “Na igreja – diz ele - cada crist
 ão pode expressar sua vontade. Não nego ao prefeito o direito de solicitar a minha remoção, embora não tenha certeza se vinte prefeitos assinaram realmente um documento com essa finalidade, como anunciou a imprensa. Na Igreja, o bispo é autônomo e para ser transferido deve ser levado em conta a sua vontade. E não tenho vontade de sair de Propriá.” Para Castro, a retomada da Ilha de São Pedro, no Baixo São Francisco, considerada propriedade da família Brito, deve ter sido a causa da iniciativa dos prefeitos.


INVASÃO
Castro recorda que vinte e três famílias , totalizando umas duzentas e quarenta pessoas do povoado de Caiçara, estavam há quase dois anos sem trabalho. Resolveram por isso, em setembro último, invadir a abandonada ilha de São Pedro, no que foram apoiados por habitantes de outros povoados e elementos do Sindicato Rural de Porto da Folha. A ilha foi a primeira sede da paróquia de Porto da Folha e seus habitantes eram os índios Xokós, dos quais descendem os caiçarenses, havia ali centenas de casas até um convento de capuchinhos, posteriormente destruído pela família Brito, ao expulsar os moradores no início deste século. Mas os Brito conseguiram uma liminar de reintegração de posse, apesar de a ilha não ser citada em nenhum documento como de sua propriedade. A questão está agora na Justiçadevido a uma ação movida pelo advogado dos lavradores, Antônio Jacinto Filho. Informa o bispo que este é um dos vários problemas de terra na região, acrescentando que mais de trezentas famílias da Fazenda de Santana dos Frades, no município de Pacatuba, estão alarmadas com as cercas levantadas no local, cortando ao meio suas glebas de plantação de côco. Comenta-se que a fazenda foi vendida a um grande proprietário de terras e para evitar que sejam desalojados os moradores vão pedir a manutenção de posse através do Sindicato dos Trabalhadores Rurais da região.
                                   

segunda-feira, 2 de abril de 2012

WINE & MUSIC : A LOJA DE DISCOS MAIS COMPLETA DE SALVADOR



 
Funcionando desde 1994, portanto estamos no mercado há 18 anos e temos resistido, sem perder a qualidadee, a todos os entraves relacionados ao meio fonográfico desde as concorrências predatórias dos mega stores, internet, piratas , além dos impostos achacantes. Com mais de 5 mil títulos expostos e cerca de 30 mil catalogados possui um acervo bastante eclético que visa atender desde os fãs de jazz, clássicos, e MPB, ao popular que curte o axé baiano, sem nenhum preconceito ou discriminação de gosto musical. Aqui o cliente é atendido com todo respeito e cortezia. Devido a crise pela qual passa o comércio fonográfico estamos com nossa loja funcionando no Aeroclube Plaza Shopping, o qual deve passar ainda este ano  por uma completa reforma,tornando-o um dos centros comerciais mais modernos do país. Fomos a primeira loja a associar a boa música ao bom vinho, mesmo sabendo que o baiano tem preferência por cerveja. Nossos clientes continuam acreditando nos CD , DVD e Blue Ray, por isto estamos atendendo também em domicílio através do site http://www.winemusic.com.br/ e pelos telefones 
(71) 33531055/34610534/99811218. As encomendas serão entregues pelos correios ou pessoalmente.
Temos o maior prazer em recebê-los sem distinção em nossa loja no Aeroclube Plaza,  na Avenida Otávio Mangabeira.

domingo, 1 de abril de 2012

POLÍTICA - DECEPCIONADO COM OS POLÍTICOS


COMENTÁRIO

Mais uma vez fui traído por confiar em político. A última vez aconteceu quando acreditei em Waldir Pires,dando meu sagrado voto para governador do estado.
Foi um fiasco geral, e meu voto terminou colocando na governança o pecuarista Nilo Coelho.Não é preciso dizer mais nada!
De lá para cá tenho tido a máxima cautela com os políticos, deixando muitas vezes de votar em determinados cargos como de vereador, deputado estadual e federal etc. Tive a sorte de não votar em Janio Quadros, Collor de Melo, Jacques Wagner, João Henrique e muitos outros que foram um verdadeiro rosário de maus gestores e políticos. Também, não votei no senador Demóstenes Torres,(DEM) que é de Goiás, mas sempre acompanhava a sua combatividade , o seu discurso duro contra as mazelas dos políticos, do governo e, de outras instâncias do poder.

Agora fiquei pasmo com tanta falcatrua, que dizem ter cometido este moço, que era gordo.Agora está esquálido e, mantém uma relação perniciosa com o tal Carlinhos Cachoeira, o qual está na cadeia por suas proezas contra a lei. Talvez ele tenha pisado na bola, porque perdeu sustância, como se diz em minha terra, quando alguém fica magro demais. Certamente, junto com a gordura que perdeu. Não sei qual método que utilizou, se teria sido o do tal balãozinho, mas tenho certeza que junto com a gordura foram desviadas algumas gramas da sua massa encefálica. Porque,não é possível que alguém de sã consciência entenda que uma pessoa combativa ,que vendia da tribuna toda uma argumentação de retidão e coragem tenha metido o pé e as mãos na lama por uma simples amizade...

Senador Demóstenes Torres,você está parecendo um zumbi andando ou melhor cambaleando pelos cantos do Senado, já que agora vive a se esconder de todos. Que triste fim para um gordo que ficou magro e perdeu a dignidade. Demóstenes é o retrato fiel da grande maioria de nossos políticos, os quais não merecem o nosso voto. Vamos protestar em todo o país contra este Congresso repleto de maus políticos.
Para meu consolo lendo a última edição de Veja deparo com uma entrevista do senador  Pedro Simon  , que vive tão perto do Demóstenes e confessa que também foi enganado. A conclusão que chego é que este senador goiano antes de ser polítco é um baita de um ator. Está na hora da televisão chama-lo para atuar nas próximas novelas. Talento não lhes falta!



quarta-feira, 28 de março de 2012

MEDICINA - NEUROPSIQUIATRIA INFANTIL ALERTA PARA O CARINHO E

REVISTA PAIS E FILHOS

OUTUBRO DE 1979

Convidados do V Congresso de Neuropsiquiatria Infantil, realizado em Salvador durante o mês passo\ado, os professores Julian Ajuriguerra e Luís Barraquer Bordas, dois dos mais importantes nomes na área, estiveram reunidos com mais de 600 especialistas de todo o mundo, no recém-inaugurado Centro de Convenções da Bahia.

Basco, o primeiro, e catalão, o segundo, eles foram certamente as granes estrelas do encontro, inclusive por seu passado de oposição política e de lutas pela independência das regiões onde nasceram. Não é sem razão, portanto, que a visão científica desses dois professores dá especial importância à liberdade na formação e no desenvolvimento da personalidade.

“Ä criança deve ter liberdade: sua natureza ativa e criativa leva-a muitas vezes a realizar coisas que o adulto não compreende, acabando por reprimir justamente o fruto dessa criatividade. Isso não quer dizer que a liberdade seja total ou que não seja importante obedecer a certas normas. Mesmo porque o homem é um ser social por excelência”, explica o professor Ajuriaguerra.



O primeiro filho



Com quase 50 obras publicadas em vários idiomas, exclusivamente sobre neuropsiquiatria infantil, Julian Ajuriguerra tem a criança como tema principal

de seus estudos científicos. Em trabalho que vem realizando junto a maternidade e creches em Paris, onde reside, fez importantes observações sobre o comportamento materno com o bebê, depois do primeiro parto e seus reflexos sobre o desenvolvimento dessas crianças.

“De um modo geral, a mulher que dá luz pela primeira vez não sabe lidar com os filhos e em 60% dos casos são menos carinhosas e responsáveis até mesmo do que as chimpanzés das montanhas. Isso mostra como elas estão despreparadas para a maternidade, muitas vezes uma condição que lhes é imposta pela sociedade e pelo homem.

A importância do contato íntimo entre mãe e o bebê é ressaltada pelo cientista basco ao explicar que enquanto o adulto tem seus modelos, seus códigos de linguagem, seu passado, a criança tem essencialmente um potencial a desenvolver. Cabe à mãe ou a quem lida com ela decodificar, desde o nascimento, os signos que ela exprime e dar-lhes um significado.

“Se não existir esse intercâmbio, o potencial que está inscrito nela não chegará a se desenvolver. Mas, se houver um relacionamento adequado, com apenas uma semana de vidam o bebê já conhece sua mãe. Em geral, a primípara se mostra muito angustiada, achando que não vai saber lidar com seu filho. Devo dizer, nesse caso que o melhor a fazer é adotar uma posição antiangústia para que as relações com o bebê aconteçam num clima de amor e, também , confiar na intuição, como uma capacidade natural da mãe reconhecer os desejos e as necessidades de seu filho”.

Estudioso das razões que levam as crianças a distúrbios neuropsiquiátricos, o Dr. Ajuriaguerra não credita ao meio social ou econômico a possibilidade de um ajustamento, “porque o rico não tem o monopólio do carinho, do amor. Muitas vezes, em famílias mais pobres, encontramos muito mais amor, solidariedade humana e carinho, enquanto nas camadas altas é comum a mulher ter pouco contato com o filho”.

Um cientista de Catalunha

Professor Catedrático de Neurologia da Faculdade de Medicina de Barcelona – capital da província de Catalunha – o professor Luís Barraquer Bordas é considerado um dos maiores neurologistas do mundo. De uma família tradicional de professores, médicos e políticos, Barraquer elogia o Rei Juan Carlos por ter dado recentemente a autonomia administrativa com que tanto sonhava o povo de sua terra, as deseja a independência da região.

Autor de um importante tratado de Neurologia Fundamental, o livro de cabeceira para todos os estudiosos do assunto, o professor Barraquer pronunciou em Salvador uma conferência sobre Transtornos da Fala e Linguagem nas Crianças.



terça-feira, 27 de março de 2012

TURISMO - LUZIMARES :AS PRAIAS VIRGENS DE GABRIELA

Revista Manchete 1980.


Em Ilhéus, no sul da Bahia, um grande empreendimento abre novos horizontes de mar, sol e coqueiros para o lazer dos brasileiros



Acompanhando o crescimento econômico do maior produtor de cacau do mundo, no Município de Ilhéus está sendo implantado “Mansões Luzimares”, que ocupará dois quilômetros num dos mais belos recantos deste país. São praias quase virgens, longe da poluição e do barulho excessivo das descargas dos automóveis. Um lugar onde o mar é senhor absoluto da paisagem. Lá estão sendo abertas ruas, avenidas, iluminação e serviços de apoio. Em Ponto do Ramo – ou como é conhecida na popularidade, Praia do Norte, em Ilhéus – máquinas e homens estão trabalhando ativamente para proporcionar o futuro conforto dos seus adquirentes. Eles irão curtir o sol que queimou a Gabriela de Jorge Amado, pescar os peixes que povoam aquele pedaço do Atlântico e, principalmente, descansar férias merecidas.
A decisão de implantar em Ilhéus as “Mansões Luzimares” representa o espírito de uma empresa brasiliense, colaborando com o empreendimento turístico, tão reclamado pela comunidade. O potencial turístico de Ilhéus é inesgotável, pois possui belíssimas praias semivirgens e tem uma história secular, de importância fundamental para a economia da Bahia. Foi lá que se desenvolveu a cultura do cacau no Brasil, quando homens rudes desbravaram a mata e plantaram o Fruto de Ouro – hoje tão disputado no mercado internacional. Naquela região formou-se toda uma cultura ligada á terra e tão decantada nos livros de seu filho Jorge Amado. Ilhéus é a capital da região cacaueira, com seu porto e um aeroporto capacitado ao pouso e decolagem de grandes aeronaves. Pensando em todas essas coisas a QUEIROZ decidiu-se escolher Ilhéus. Assim, a empresa está presente na caminhada em busca de uma retomada turística.

Este é o primeiro loteamento realizado em Ilhéus, dentro de um planejamento urbanístico sério e orientado. As máquinas estão trabalhando e seus condutores foram orientados para preservar ao máximo a natureza exuberante e o verde dos coqueiros. São mais de trezentos metros que formam uma faixa em frente ao mar. A praia onde está situado “LUZIMARES” tem 42 km de extensão a sua areia é tão compacta que permite o tráfego de veículos de porte médio. Um local apropriado para o banho de mar e a prática de esporte porque, além de não contar aglomerados humanos, recebe o ar puro que sopra do Atlântico. Uma empresa goiana-brasiliense é a responsável por todo o empreendimento, QUEIROZ IMÓVEIS, com toda a sua direção, Administração, computação e presidência funcionando ativamente no Edifício Venâncio IV, Conjunto 6, em Brasília, Distrito Federal. Seus técnicos , engenheiros, pesquisadores saíram do cerrado, viajaram pelo litoral Brasileiro e foram plantar sua bandeira na pujante e progressista cidade do Sul da Bahia, Ilhéus.

Passaram a oferecer mais uma opção aos habitantes de Brasília, Ilhéus – e de todas as cidades do país que desejam conhecer as “Terras do Sem Fim”. A empresa participa e organiza, assim, a beleza virgem que clamava pela mão do homem. Esta presença deve ser vista como uma presença harmoniosa, pois a natureza não pode e não deve ser mutilada. Tem que ser domada, com amor e trabalho orientado. O coqueiral imenso continuará e o adquirente terá oportunidade de ouvir o barulho de suas palmas provocado pelo vento do mar. Embora localizada em mar aberto, a praia é lindíssima. Uma plataforma de areia faz as ondas pequenas, mansas e próprias para o banho de mar tranquilo de uma família em férias. Uma estrada ligará Ilhéus a Luzimares e seu traçado é paralelo à orla marítima, por dentro do Coqueiral.



segunda-feira, 26 de março de 2012

MAÇONARIA - MAÇONS EM BUSCA DA UNIÃO

19 de novembro de 1977


REVISTA: Manchete

Em Salvador, uma grande convenção poderá marcar um novo passo na reaproximação entre as instituições maçônicas e a Igreja Católica


Reportagem de Reynivaldo Brito

Fotos de Arlindo Félix



Para todos aqueles que acompanham de perto o desenvolvimento da maçonaria no Brasil, tanto iniciados quanto profanos, a Segunda Convenção Nacional do Rito Brasileiro poderá ter resultados apreciáveis para o futuro imediato da instituição. Realizada neste fim de semana, em Salvador, sob o patrocínio do Supremo Conclave do Brasil e sob a responsabilidade da Loja do Grande Oriente do Estado da Bahia, esta Convenção foi encerrada com uma solenidade pública que sensibilizou a população de Salvador: os 500 convencionais desfilaram paramentados pelas ruas centrais da capital, visitaram a estátua do poeta Castro Alves e a cripta de Rui Barbosa, na sede do Tribunal de Justiça do Estado.
Segundo os observadores que acompanham mais de perto a evolução da maçonaria nestes últimos anos, esta Convenção Nacional deverá ter uma influência decisiva em dois domínios muito especiais: congraçamento cada vez mais estreito das duas grandes correntes maçônicas existentes no Brasil e normalização do relacionamento com a Igreja Católica.

No que se refere ao primeiro item, convém relembrar que a maçonaria brasileira acabou, com o correr dos tempos, se cindindo em dois ramos principais: o Grande Oriente e as Grandes Lojas do Brasil. Os historiadores reconhecem que o Grande Oriente do Brasil representa a maçonaria tradicional e regular, aqui instituída em 1822. Em 1925 houve uma divergência no Conselho da Ordem e os dissidentes que desejavam permanecer fiéis ao espírito da instituição, apesar das discordâncias sobre pontos não essenciais, resolveram se unir sob a égide das Grandes Lojas do Brasil. Atualmente, tudo indica que a tendência à reunificação vai ganhando uma força cada vez maior. Na maioria dos estados, os iniciados dos dois ramos se frequentam num regime de coexistência pacífica e até mesmo dinâmica. O presidente de honra da Convenção e grão-mestre do Grande Oriente da Bahia, deputado arenista Clemenceau Gomes Teixeira, explica que, em Salvador, apesar de as Grandes Lojas contarem com maior número de adeptos, não existe nenhuma oposição ou rivalidade. “Para provar a que ponto existe um congraçamento real entre ambas as tendências”, diz o Grão-Mestre, “basta dizer que o orador oficial da solenidade de instalação da 2. Convenção Nacional foi o Professor Walfrido Morais, que é orador da Grande Loja. Estamos um harmonia integral e nos consideramos todos irmãos.” Walfrido Morais, por sua vez, relembro que os maçons de todas as tendências jamais poderão perder este sentido profundo de fraternidade que os une em torno dos grandes vultos da maçonaria universal, entre os quais ele cita Goethe, Lessing, Mozart, Voltaire, Augusto Comte, Washington, Simon Bolívar, Garibaldi, Roosevelt, Tiradentes, Pedro I, Gonçalves Dias, Caxias, Deodoro, Carlos Gomes, Castro Alves, Rui Barbosa e tantos outros, cujo valor os iniciados conhecem e fazem questão de ressaltar.

O coordenador geral da Convenção, Murilo Fernandes Gandra, referindo-se às origens históricas do Rito Brasileiro, lembrou que desde sua instalação legal por Lauro Sodré, em 1914, só em 1968 é que ocorreu a oficialização normal, quando o irmão Álvaro Palmeira nomeou uma comissão de 15 membros para promover a reestruturação dos princípios específicos que deveriam reger a liturgia e o cerimonial da maçonaria brasileira. Para Murilo Fernandes Gandra, o que constitui a essencial da maçonaria é a preocupação de fraternidade que reúne homens livres e de boa vontade, sem distinção de raça, crença ou nacionalidade e sem discriminação de qualquer espécie.

No que se refere às relações entre a maçonaria e a Igreja Católica, é necessário lembrar que, apesar dos progressos realizados nos últimos anos em certos países da Europa, principalmente França e Itália, no Brasil ainda subsistiam certas dificuldades, decorrentes principalmente de conflitos do passado. As sucessivas condenações que penalizavam os cristãos decididos a aderir ao código maçônico se exacerbaram ao tempo da famosa Questão Religiosa e acabaram envenenando as relações entre as duas instituições. Depois que o então bispo auxiliar de Aracaju, Dom Luciano Duarte, aceitou, há alguns anos, o convite para fazer uma conferência na loja maçônica da capital, as tensões diminuíram consideravelmente. Durante a 2. Convenção Nacional, a alta cúpula da maçonaria brasileira decidiu condecorar o cardeal-arcebispo de Salvador, primaz do Brasil, Dom Avelar Brandão Viela, com o diploma de benemérito. O cardeal não só aceitou a distinção, como fez questão de enviar á Convenção uma mensagem de agradecimento na qual deixa bem claro que a Igreja respeita todos aqueles que, “no mundo de hoje, tão cheio de problemas, procuram iluminar as mentes na busca da verdade sem preconceitos, para o aconchego dos corações que anseiam por fazer o bem em todas as direções”. E o cardeal continua: “A Igreja sente-se mais do que nunca mãe e mestre... procurando ver e sentir os problemas dos outros através de um diálogo fraterno e bem fundamentado, procurando examinar sempre as ilhas de convergências, que são tantas, e tentando compreender as posições específicas de cada instituição ou sistema político e social”.

Para os iniciados que desejam realmente ter aberto um acesso ao espírito de ecumenismo que paira sobre o mundo depois do Concílio Vaticano II, estes resultados da 2. Convenção Nacional do Rito Brasileiro podem ser considerados como históricos.





AGRONEGÓCIO - INSTITUTO CACAU DA BAHIA



Instituto do Cacau da Bahia concentra suas atividades na comercialização do cacau e promove programas integrados de desenvolvimento regional, utilizando recursos oriundos da Cota de Fomento gerada da exportação do produto. Muitas prefeituras localizadas na região cacaueira recebem ajuda substancial do ICB, especialmente nos setores da Educação, Saúde, Saneamento, Transporte, Comunicações e Segurança Pública.

O atual presidente do Instituto do Cacau da Bahia, José Alves dos Santos, vem intensificando a participação cada vez maior do órgão na comercialização do cacau com o objetivo de defender o produtor contra as especulações do mercado internacional e, inclusive, estão sendo publicados diariamente os preços cotados na Bolsa de Nova Iorque.

O Instituto do Cacau da Bahia é uma entidade de administração descentralizada, de natureza autárquica, com personalidade jurídica e fora na cidade de Ilhéus, onde possui uma sede imponente. É o órgão pioneiro nas terras do cacau e hoje coordena, executa planos e programas de desenvolvimento regional; executa por delegação do governo federal a política do cacau no estado; participa de todos os anseios da comunidade e articula-se com instituições específicas, de âmbito nacional, visando o desenvolvimento do sul baiano.
A estrutura do Instituto do Cacau da Bahia é formada do Conselho Deliberativo, Conselho Fiscal e Diretoria. O Conselho Deliberativo compõe-se dos secretários da Agricultura, Fazenda, Planejamento, Ciência e Tecnologia, Transportes e Comunicações, Saúde Pública, Educação e Cultura; um representante da Ceplac e dois do Conselho Produtivo dos Produtores de Cacau, órgão que congrega os sindicatos rurais da região.
Nomeado em maio desde ano pelo atual Governador da Bahia, professor Roberto Santos, o atual Presidente do Instituto do Cacau da Bahia, José Alves dos Santos, já demostra sua visão empresarial através de medidas efetivas tomadas em defesa do pequeno produtor: está reestruturando internamente o órgão; reformulando os estatutos do Fundo de Beneficência dos Funcionários do ICB, com vistas, inclusive, á aquisição de casa própria do servidor e maior assistência a seus dependentes, além de estar atualmente elaborando um plano, juntamente com seus assessores, que virá dar uma nova força ao Instituto do Cacau. O objetivo deste plano é o cacauicultor, o homem que planta e colhe o cacau, que cria riquezas para a região e o país.
Espera o Sr. José Alves dos Santos que até o final de sua gestão o plano esteja implantado, principalmente os pontos chamados essenciais, a saber: que o resultado da comercialização do cacau seja desenvolvido de maneira direta ao produtor, que negociou o seu produto com o ICB; esta devolução será programada mediante prestação de serviços diretos a esses produtores, entre os quais financiamentos para insumos e implementos agrícolas, a juros módicos; imobilizações fixas; transportes de cacau e outros benefícios para o lavrador, traduzidos em termos objetivos, como financiamentos permanentes nos chamados períodos da entressafra.
Quanto à Cota de Fomento, que está estipulada em 0,72%, deve se aplicada em obras de infra-estrutura e devolvida, de maneira indireta, à comunidade residente no sul do estado.

RELIGIÃO - UMA BOLA DE FOGO PERSEGUE FAMÍLIA

Revista Fatos Fotos/Gente 22 de setembro de 1980

Foto Arestides Batista

O ajudante de caminhão Maximino Nunes dos Santos, residente na localidade de Balalé, município de Catu, no interior da Bahia, afirma estar vivendo momentos de dificuldades com sua mulher de 12 filhos, depois que o diabo em forma de fogo passou a persegui-lo provocando mais de uma dezena de incêndios em suas vestes e na sua humilde casa.

Na foto eles mostram a rede queimada pela bola de fogo

Conta Maximino que há uns quinze dias ninguém de sua família dorme em cama ou mesmo perto de panos, porque de repente tudo começa a queimar. “Quando a gente nem espera começa a sentir cheiro de pano queimando, e quando nos aproximamos para tentar apagar, as labaredas aumentam e viram-se contra nós. Parece que o fogo quer queimar a gente. Isso é coisa dele, se não fosse já teríamos nos livrado com os ofícios, ladainhas e mesmo latas de água que jogamos o fogo aparece.”
Ao lado de Maximino, que tem 51 anos, sua esposa, grávida, chora nervosa quando surge um desconhecido e sempre indaga o que deve fazer para livrar-se do estranho fogo.
Existem várias versões para a origem do fogo. Antônio dos Santos, velho funcionário da Prefeitura de Catu, revelou ter funcionado, no local onde está hoje a sua casa de Maximino, um terreiro de nagôs. “Eles inclusive faziam trabalhos embaixo das duas grandes jaqueiras existentes no terreiro.”
Muitos acreditam que o fogo tem se propagado, com certa facilidade, porque Maximino tem dois filhos que são mecânicos de automóvel e quase sempre chegam com as roupas sujas de gasolina e óleo. Outros asseguram que “é coisa feita” ou “coisa do diabo”.
Maximino está pedindo a todos que o visitam que peçam a um padre para benzer a sua casa. “Deus é mais forte e vai acabar com tudo isso”, fala esperançoso, e mostra uma queimadura na perna, provocada por um colchão que pegou fogo, enquanto um de seus filhos dormia; ao socorrê-lo, ele foi atingido pelas chamas.
Enquanto o padre não aparece, a família Nunes dos Santos abandonou praticamente a casinha, passando a morar debaixo das duas jaqueiras existentes no terreno. Maximino não consegue um só instante esquecer dos avisos que ele (o diabo) tem dado antes do fogo começar. Lembra que até na comida já houve interferência maléfica.
“Na semana passada, depois que minha mulher colocou o feijão para cozinhar, sentimos um forte cheiro de enxofre. Ficamos apavorados! Procuramos em vários locais, até que, ao chegarmos na cozinha, o cheiro estava mais forte, e quando examinamos a panela, encontramos uma pedra de enxofre com mais de um quilo de peso.”
Amedrontado, evitando falar o nome de Satanás, Maximino já teve quase toda a sua mobília destruída pelo estranho fogo que persegue a família. Há mais de quinze dias sem trabalhar, ele lembra a toda hora que tudo é por causa dele, e só espera que Deus “venha de uma vez acabar com este sofrimento, que ninguém mais aguenta. Minha mulher está grávida e sem dormir há vários dias”.

MEIO AMBIENTE - O QUE É QUE A BALEIA TEM ?

22 de fevereiro de 1982
REVISTA: FATOS E FOTOS GENTE
Fotos Waldir Argolo

Quase todo o Brasil viu, pela televisão, a fúria (ou a fome?) com que pescadores, auxiliares e gente do povo retalharam a baleia que fazia evoluções nas imediações do Yatch Club da Bahia. A maré estava baixa e o animal batia contra os arrecifes. Avistado, foi imediatamente cercado por várias embarcações de pequeno porte que o encurralaram na praia da Preguiça para o banquete coletivo. Ninguém se lembrou dos ecologistas nem das canções de Roberto Carlos em favor da espécie em extinção. As entidades de defesa ecológica nunca apareceram em situações semelhantes e assim sozinha e fora de seu habitat, à baleia foi trucidada. No dia seguinte, de suas sete toneladas só sobravam os ossos e um tremendo mau cheiro que enfestava o ar da praia.

TURISMO - ILHÉUS TEM PINTA DE CAPITAL


REVISTA: Manchete 1980
Texto: Reynivaldo Brito.
 Fotos: Nelson Santos

No lendário berço de Gabriela, o passado e o presente convivem harmoniosamente formando um grande futuro


A capital mundial do cacau, terra dos frutos de ouro e berço de Gabriela, é um dos locais mais privilegiados em todo o litoral brasileiro. Suas praias quase inexploradas oferecem recantos paradisíacos aos visitantes que para lá se deslocam em busca de paz na chamada alta estação, vindo através da BR-101 (Rio-Bahia) ou por vias aérea e marítima. Lá estão situadas as maiores plantações de cacau e extensões de praias margeadas por densa faixa de coqueiros. Tem ainda uma baía calma, onde outrora aportavam os navios de pequeno calado no velho porto, cuja construção foi iniciada por volta de 1924. Dois anos depois o cargueiro Falco levava diretamente para Nova Iorque uma carga de 47.150 sacos de cacau produzido por uma civilização marcada pelo suor e violência. Era o início e o reconhecimento de um trabalho que, com o passar dos anos, foi extremamente modificado e a violência deu lugar à técnica. De lá para cá milhares e milhares de sacas de cacau, massa, manteiga e torta são transportadas para os mais longínquos portos. Hoje, Ilhéus tem um moderníssimo porto em mar aberto, o porto do Malhado, que está constantemente lotado de navios cargueiros que trazem produtos manufaturados e levam para a Europa, Oriente e outros locais os frutos de ouro, que tanto representam nas exportações brasileiras.

A cidade de Ilhéus não é um ponto perdido no mapa do Brasil e já saiu do tempo em que era o cenário ideal dos romances de Jorge Amado, mas guarda com orgulho todos os traços marcantes da civilização do cacau. Daquele tempo carrego consigo o orgulho, o espírito malicioso, o humor e a sinceridade que estão estampados nos personagens do seu filho e grande escritor de renome mundial. Hoje, é uma cidade moderna, com 100 mil habitantes, ligada ao Brasil e ao mundo por redes de telefone e telex. Seu aeroporto tem capacidade para pouso e decolagem de grandes aeronaves, e as quatro companhias aéreas de vôos domésticos têm escala diária e apresenta um movimento de passageiros igual a muitas capitais nordestinas. Tem ainda nove agências bancárias e um movimento comercial de porte médio. Em suas lojas podem-se encontrar os mais novos lançamentos da moda internacional. Assim seus habitantes souberam aproveitar a dádiva da natureza plantando e colhendo o cacau – a planta dos frutos de ouro – e construíram uma cidade cheia de beleza e riqueza.
Riquezas naturais. Existe no município de Ilhéus uma lagoa maior que a Rodrigo de Freitas, a lagoa Itaípe, ou Encantada, e sobre ela existem várias lendas que fazem parte do folclore ilheense. Inúmeras pequenas cascatas nela despejam suas águas e as plantas aquáticas lá existentes resultam em reflexos indescritíveis, que aguçam a imaginação dos supersticiosos: a estes, o fenômeno aparece como sendo obra “dos duendes”. As ilhas flutuantes, cheias de jacarés, barrancos que se desprendem das margens e saem boiando, são vistas pelos nativos como diabos e outras conceituações. Na pedra da Arigoa, à meia-noite, ouvem-se lúgubres dobrar de sinos e, ao som de gemidos profundos e tétricos, canoas transportam sisudos jesuítas em uníssonas orações, como bem descreve o professor Arléo Barbosa.
Logo à entrada, para os que chegam por mar, encontra-se o morro de Pernambuco, coberto por um tapete verde, e durante as noites um pequeno farol anuncia a presença de arrecifes. É o guardião da entrada da baía onde circulavam os navios que se destinavam ao antigo porto, hoje abandonado.
Grande área do município apresenta a floresta fluvial tropical e o clima é agradável variando de 24,5C a 30C. No fundo dos vales há uma vegetação mais exigente, com as palmeiras que fornecem o palmito e as belas samambaias.
A fauna é típica da Floresta Atlântica, com muitos animais silvestres, como o porco-do-mato, paca, cotia, raposa, veado, quati, papa-mel, preguiça, ouriço-cacheiro, tamanduá-bandeira e algumas espécies de macaco: guariba, sagui e jupurá, que se alimentam de frutos, sobretudo de cacau, e por isto são caçados impiedosamente pelos agregados das fazendas. Tem ainda uma variedade incalculável de aves, entre as quais papagaios, periquitos, araras, arapongas, martim-pescador e muitas canoras a exemplos do curió, pássaro-preto, cardeal e muitas outras. Nos rios e lagos encontram-se muitas lontras e jacarés.
A cidade. A cidade de Ilhéus encanta o turista que a visita pela riqueza de sua topografia e pelo seu clima de poesia. Logo no centro da cidade está a Avenida Soares Lopes, com seus dois quilômetros de praia salpicada de amendoeiras e onde se descortina o horizonte e sopra um ar agradável do Atlântico. Durante as noites, os jovens passeiam de carro e, sentados nos bancos, ficam dezenas de casais de namorados, tranquilos, porque a violência e o medo, tão presentes nas cidades grandes, ainda não chegaram por lá.
No fim desta avenida ergue-se, majestosa, a catedral de São Sebastião, uma igreja de linhas góticas com suas torres eriçadas como a ferir o imenso céu azul. Na parte interior do templo, a brancura de suas paredes e o número reduzido de linhas curvas chamam a atenção do visitante. Subindo o Outeiro de São Sebastião, temos, no seu topo, uma igrejinha construída de pedras pintadas de branco e preto, de onde pode-se apreciar uma deslumbrante vista de toda a praia da Avenida, do mar aberto e da praia do Pontal, onde à tardinha aportam dezenas de barcos repletos de peixes. Subindo o Morro da Vitória, encontramos a igrejinha de Nossa Senhora da Vitória, e logo acima, na colina das Quintas, a capela de Nossa Senhora da Piedade, pertencente às irmãs ursulinas, que tem um altar-mor dos mais belos deste país. Aí funciona um colégio do mesmo nome, onde estão em regime de internato muitas das filhas dos fazendeiros da região. Prosseguindo o nosso passeio pela Capital do Cacau, atravessando a Ponte Lomanto Junior, de arquitetura moderna, que liga o Pontal ao continente por cima do rio Cachoeira, notamos que as praias têm ondas bem suaves e ali as águas são mais turvas devido às águas dos rios que desembocam no mar. É aí que está o ancoradouro natural, muito usado pelos pescadores, um verdadeiro cartão-postal.

Não podemos esquecer as extensas praias Norte e Sul onde estão os refúgios dos enamorados. Na praia Sul está o rio Cururupe, que forma uma piscina natural ao desembocar no mar e onde pode-se tomar banho de mar e água doce.


A dezoito quilômetros ao Sul, pode-se deliciar com a beleza das águas milagrosas da Estância Hidromineral de Oliveira, com sua pracinha, tendo ao centro uma igrejinha e a Toromba, que é uma queda d’água e piscina.

Sua gente. O povo de Ilhéus é acolhedor e ainda encontramos muitos dos personagens dos romances de Jorge Amado. Uma das figuras mais conhecidas é Demosthenes Berbert de Castro, o Demostinho, que dizem ser o Mundinho, o beijador das meninas, quando rapaz, da novela Gabriela, e agora, um defensor permanente das coisas de Ilhéus.

Novo estado. Cansados de fornecer grandes somas de recursos através de comercialização e industrialização do cacau e de receber pouca coisa em troca, os habitantes de alguns municípios da região cacaueira, entre os quais Ilhéus, estão iniciando uma campanha visando a criação do Estado de Santa Cruz, que teria como capital a terra de Gabriela. O assunto já foi examinado por uma comissão encarregada de estudar a redivisão territorial do país e até um mapa já existe, abrangendo vários municípios baianos. Todos acham viável a criação deste estado e um dos mais ferrenhos defensores é o Demostinho. Assim os municípios de Uruçuca, Itajuípe, Coaraci, Itabuna, Itapetinga, Lomanto Junior e muitos outros formariam o novo estado, que seria rico em cacau, café e minérios.
Ilhéus, sendo a principal cidade da região e como já dispõe de uma infra-estrutura de cidade moderna, seria a capital. Basta dizer que no último ano já entraram mais pedidos de construção que nos últimos seis anos. São vinte e dois projetos em média que, diariamente, são aprovados pela Prefeitura Municipal. O município está com 160 mil habitantes e na cidade cerca de 99 e 100 mil habitantes. Tem doze distritos e 40 povoados, alguns até com 9 mil habitantes. A arrecadação prevista para este ano é de 58 milhões e no próximo está orçada em cerca de 98 milhões, Segundo o atual Prefeito Antônio Olímpio da Silva.
No ano passado foram exportados mais de 800 mil sacas de cacau, pelo porto do Machado, sendo que 600 mil produzidas em Ilhéus e 200 mil em Camacã, que é segundo produtor do estado.
A Universidade de Santa Cruz, situada na rodovia que liga Ilhéus a Itabuna, conta hoje com mais de 3 mil alunos matriculados nos cursos de Direito, Filosofia, Administração e Economia, e colégios de nível secundário.


POLÍTICA - TRABALHO - LÍDERES DO MOTIM TIVERAM APRENDIZADO

OPINIÃO

Confesso que não fiquei surpreso com as gravações feitas pela Polícia Federal, com autorização da Justiça, das conversas entre os líderes do movimento grevista dos policiais militares.Os acontecimentos que se sucederam durante a paralisação com ônibus escolar queimado, arrastões, invasão e roubo em lojas, ondas de boatos aterrorizando a população, desobediência a ordem judicial, depredação e roubo do patrimônio público e privado , dezenas de assassinatos e homens armados encapuzados, à semelhança de bandidos, dando tiros em todas as direções nas avenidas já comprovavam para toda a população que essas pessoas estavam exorbitando e mereciam ser encarceradas da mesma forma que os bandidos que pululam a nossa cidade.
Os verdadeiros policiais militares não merecem ser liderados por este bando de ex-policiais, expulsos da Corporação, e de seus seguidores comparsas .
Eles aprenderam a agir desta forma com a mesma militância que levou ao poder algumas autoridades que estão ai reclamando. O própio presidente da tal associação, Marcos Prisco, que liderou este motim, declarou que teria sido escondido na sede de um sindicato na greve de 2001 por um sindicalista que hoje é uma alta autoridade. Portanto, são métodos utilizados equivocadamente por militantes radicais que agora na situação provam do veneno que espalharam em outras épocas. Como um bumerangue que se lança no ar e uma hora ele retorna para o mesmo lugar, agora é a greve que atrapalha sua administração, prejudica a população e suja o nome da nossa terra.
Como não são baianos algum dia arrumam as malas e vão embora deixando para trás esta nódoa impagável.

sexta-feira, 23 de março de 2012

CANGAÇO - DADÁ : A ÚLTIMA SOBREVIVENTE DO CANGAÇO

Ela dava tiros na polícia e costurava com Lampião. Hoje, em Salvador, a viúva de Corisco continua na máquina. Mas seu trabalho é consumido pelas senhoras da sociedade baiana

“Lampião chegou na minha casa e fez uma baderna danada. Na época, eu morava na fazenda Macururé, entre os Municípios de Glória e Paulo Afonso, no interior da Bahia. De repente, Lampião chamou Corisco e, em tom de brincadeira, disse pra ele: Como é: Você não quer desmamar esta menina? Corisco deu uma gargalhada, me pegou no colo, me colocou na sela do seu cavalo e saiu a galope. Depois foram doze anos de luta, correndo ou enfrentando a polícia por toda parte.”
Era 1927, Sérgia da Silva Chagas – que ficaria conhecida pelo apelido de Dadá – era uma garota de 13 anos. Cinquenta anos depois daquele galope que mudou sua vida, Dadá fala de Corisco com ternura – “nos amamos muito” – mantendo a imagem do Capitão Virgulino Ferreira da Silva, o Lampião, muito viva: “Ele era um homem bom. Um homem de palavra, que só falava uma vez e não contava vantagens. Fico triste quando vejo pessoas escreverem coisas que Lampião nunca fez. Os livros que têm saído sobre o cangaço só apresentam vantagens da polícia e coisas terríveis que nunca fizemos. São histórias inventadas para vender livros e filmes. Histórias de misérias, violências e crueldades que não praticamos. Tudo para venderem mais. É verdade que houve muitas mortes, mas a maioria era de traidores que não mereciam continuar vivos. Lampião era um homem bom. Distribuía com os pobres tudo o que tinha.”

Se Lampião distribuía entre os pobres tudo o que tinha, Dadá sustenta com o que ganha na sua velha máquina de costura mais de 10 pessoas – filhas e netos que dependem dela. Ironicamente, Dadá sobrevive hoje com o que aprendeu na caatinga: a costura. Mais uma, ela volta ao passado: “No cangaço, todos costuravam. Os homens cosiam as partes mais duras, os arreios de couro; as mulheres faziam os vestidos, as calças e os embornais. Quando, durante um certo tempo, a gente conseguia se esconder, cada companheiro recebia metros de fazenda, linha, botões e outros materiais. Todo mundo trabalhava e eu me lembro que Lampião gostava muito de costurar.”

Segundo Dadá, foi ela quem introduziu novos desenhos nos enfeites dos chapéus de couro dos cangaceiros e nas jardineiras dos dois lados: “Quando fiz uma jardineira para enfeitar o chapéu de Corisco todos quiseram uma igual. Assim, as mulheres do bando aprenderam a coser novos enfeites e os chapéus ficaram muito mais bonitos”.

Com tristeza na voz, falando lentamente, relembra outros momentos menos felizes: “Todos os quatro filhos que tive com Corisco – Josafá, Maria do Carmo, Maria Celeste e Sílvio Hermano – nasceram na caatinga, mas eu não pude ficar com nenhum deles. A gente sempre tinha que arranjar uma pessoa de confiança para entregar as crianças, senão a polícia ia buscar elas e até podia matar. A gente também não podia carregar um recém-nascido no meio daquela correria toda. Tinha vezes que a gente ficava muito tempo, até seis meses, escondido na fazenda de algum amigo”.

A vida de Dadá mudaria, novamente, numa tarde de verão no início de 1939 na localidade próxima ao município de Miguel Calmon, interior da Bahia.

Lampião fora morto no ano anterior; Corisco, já aleijado, foi denunciado por Velocidade – um ex-companheiro de cangaço. Dadá não esquece: “Corisco nem tinha mais condições de pegar numa arma, tinha montado uma lojinha e vivia honestamente. Veio a denúncia e começaram as perseguições, do mesmo jeito que tinham feito com Lampião. A gente já tinha abandonado o cangaço. Mesmo assim, a gente fugiu – mas foi em vão. Fomos atacados e meu marido morreu varado por vários tiros de metralhadora. Eu também fui baleada. Com a perna estraçalhada, me botaram na carroceria de um caminhão. Nem gosto de falar naquela viagem. Tudo o que eu tinha desapareceu”.
Hoje, com a perna amputada, Dadá foi obrigada a trocar as caatingas e serras do Nordeste por uma modesta casa em Salvador onde mora com seu segundo marido – um velho pintor de paredes aposentado – e passa os dias pedalando numa velha máquina de costura. Com a mesma técnica complicada, e ainda asando lona – material forte também utilizando nos embornais em que os cangaceiros colocavam balas e munições – continua produzindo as mesmas coisas. Só que, agora, seus embornais se transformaram em peças elegantes nas mãos de moças e senhoras da sociedade baiana. Em seus olhos cansados, só existe um sonho – aposentar-se como costureira – enquanto por seus dedos desfila uma verdadeira memória do cangaço.

Reportagem de Reynivaldo Brito / Fotos de Lázaro Torres

quinta-feira, 8 de março de 2012

LEONEL MATTOS - EVOLUÇÃO EM TRES LINGUAGENS

   ARTES VISUAIS                                                    

Todos conhecemos a inquietação e a criatividade do artista Leonel Matos, este baiano de Coaraci, que se fixou na Cidade Baixa, exatamente no bairro da Boa Viagem e, de lá vem alçando seus vôos acompanhado de suas aves repletas de significação.
Estive visitando a sua exposição no Espaço Cultural da Caixa Econômica Federal e pude constatar a evolução da obra do artista. Ele não tem receio de utilizar qualquer tipo de material do mais simples ao mais complexo e díspare. Lança mão do que está ao seu alcance e vai criando na sua trajetória imprevisível. Assim, nos presenteia com obras de arte de qualidade, as quais podem ser mostradas nos mais modernos e exigentes espaços do mundo.
Tem um olhar diferenciado de nós mortais. Vê e transforma o que não vemos. Enxerga o invisível e realiza o seu trabalho para o deleite de nossos olhos e nos instiga a pensar.
Encontrei, na visita que fiz a exposição, o artista e psicanalista Cesar Romero, que é um dos grandes nomes da nossa arte atual, além de escrever sobre arte. Lá conversamos sobre Leonel Matos e fiquei observando Cesar analisando tres objetos que ele criou utilizando rolos de papel higiêncico para se expressar.Os objetos nasceram basicamente de sua discordância do local onde colocaram sua exposição.
Porém, como lembrou Cesar inconscientemente Leonel expressa o que Freud observou em nós míseros seres humanos que a nossa primeira produção são os excrementos. E, lá está em sua obra o papel higiêncico fabricado com sua finalidade óbvia. Mas, aqui Leonel Matos lhe dá uma sobrevida digna e instigante.
É até difícil e talvez alguns vejam fora de lugar falar nesta funcionalidade orgânica de nós humanos, quando estamos olhando para a leveza e grandeza da obra de arte.
Também tem objetos feitos de resina e me sensibilizou muito o intitulado  "Símbolo Urbano"(foto). Merece estar num lobby de um desses prédios modernos, que ora se constrói em Salvador ou mesmo no acervo de um dos museus locais, pela sua expressividade .Certamente com o decorrer dos anos as pessoas vão lembrar de quem os criou.
Já os desenhos têm uma marca reconhecida de longe por todos que gostam de arte nesta cidade. Esta icnografia tem mil soluções e formas de serem apresentadas. Têm uma leveza impressionante.No primeiro momento contrasta com esta inquietação de Leonel, pensador rápido que atropela o seu fazer, e exige do espectador atenção redobrada para acompanhar o seu raciocínio.Traços finos, coordenados dão leveza  a esses objetos que me dão a impressão de almejarem sair daqueles espaços limitados e ganhar o universo.

quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

COMPORTAMENTO - TOPLESS: O BRASIL DESCOBRE OS SEIOS


 Reportagem Reynivaldo Brito e Marina Wodke
Fotos Aristides Batista e Antonio Carlos Esteves


                                                                                  2 de Fevereiro REVISTA: Manchete n.1.450






 As baianas fazem topless na praia dos Artistas


                      A gaúcha mostrou tranquilidade ao exibir os seios na praia.

Do Rio Grande do Sul ao Pará, todas estão aderindo à nova mania . A onda veio de longe, mais exatamente de Saint-Tropez. Demorou um pouco a chegar – culpa do nosso subdesenvolvimento. Mas agora parece que chegou, foi visto e venceu: o topless está em todas, nas praias do Sul e do Norte. Semana passada, foi a moça paraense que passou de moto – e de moto própria estava de seios à mostra. Agora, nas praias sulistas, as jovens exibem o busto que os ares pampeiros lhes deram. Na Bahia, o Cardeal Dom Avelar Brandão faz advertências, pois baianas e baianos aderiram à moda, só que, para os homens, à falta de seios, eles exibem outras partes que ficam à ré dos acontecimentos. Tudo bem. Se Nostradamus ressuscitasse não ficaria escandalizado: ele previu que no final dos tempos tudo ia dar numa grande confusão. No Rio, tudo bem numa boa; na Bahia, acalorados debates; no Recife, entrou areia no topless Para não fugir à tradição, o topless mais extravagante foi o baiano, que esnobou o top e preferiu o bottomless, variante bissexual do mesmo fenômeno. Deu-se que dois rapazes, em praia central, tiraram os calções e começaram a pular diante da máquina fotográfica de um amigo. Uma advogada que passava pelo local ficou escandalizada, chamaram a polícia, houve ameaças de enquadramento na lei que proíbe os atentados ao pudor e ofensa aos bons costumes. O episódio ocorreu no mesmo dia em que a polícia baiana liberou o topless quadrado e convencional, ao mesmo tempo em que dava conselhos aos maridos cujas consortes iam curtir a novidade: os esposos devem dar uma de esportiva espartana (e baiana) para não se sentirem ofendidos com algumas piadinhas – que sempre as há em horas tais. Já no Recife, as coisas foram bem diferentes: após garantir o uso de topless através de um habeas corpus preventivo, a estudante Carlene Barbosa, 19 anos, dirigiu-se fagueira à praia da Boa Viagem, mas foi surpreendida com a reação não das autoridades, mas da própria população. Resultado: foi obrigada a deixar a praia porque um grupo hostil chegou até a ação, jogando areia sobre ela.

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

CIDADE DE SALVADOR - A MORTE DOS SOBRADÕES DAS RUAS DO PELOURINHO



Revista Manchete
12 de agosto de 1978
Fotos Arestides Batista


Centenas de casarões oitocentistas que compõem o chamado Conjunto Arquitetônico do Pelourinho, em Salvador, estão ameaçadas de desabamento. Muitos já estão em ruínas devido à grande ocorrência de incêndios e depredações de toda natureza. O conjunto engloba várias ruas que vão do Terreiro de Jesus até o Carmo, onde estão localizados importantes monumentos históricos e igrejas, entre elas a Catedral Basílica, a Igreja de São Francisco, a do Carmo, e de São Domingos e a Rosário dos Pretos. Ali está também o Colégio dos Jesuítas e muitos prédios de inestimável valor arquitetônico, a exemplo do Solar do Ferrão. O Pelourinho é um dos pontos mais procurados pelos visitantes e tem fama internacional, por ser um dos poucos conjuntos coloniais localizados no centro de uma grande cidade. Foi ali que Salvador começou a se desenvolver e ali eram tomadas as decisões e realizados negócios na Bahia Colonial. Hoje, o turista vê apenas a Praça José de Alencar (mais conhecida pelo Largo do Pelourinho) com os prédios restaurados e com suas fachadas coloridas. Mas, ao percorrer algumas das ruas que estão por trás do largo, o visitante encontra dezenas de casarões em ruínas, o lixo tomando todo o leito das ruas e ruelas e as prostitutas perambulando a qualquer hora do dia.
São duas faces: o largo, que é o cartão-postal, e o restante do conjunto, que está desabando pela omissão dos órgãos responsáveis pela sua conservação e pelo descaso a que as várias irmandades religiosas relegaram seus imóveis. Esses prédios estão alugados a pessoas que os sublocam e ali residem centenas de famílias misturadas com a mais baixa prostituição. Poucos se atrevem a andar pelas ruas do conjunto, mesmo durante o dia, porque são alvo fácil de ladrões que arrancam os pertences das mãos dos visitantes e desaparecem misteriosamente por entre as ruínas dos casarões. Segundo informa o diretor da Fundação do Patrimônio Artístico e Cultural da Bahia, Mário Mendonça, seriam necessários inicialmente Cr$ 120 milhões para evitar que mais quarenta casarões venham a desabar. No entendimento que manteve com o governador da Bahia, Roberto Santos, foi informado de que o governo do estado não tem condições de liberar verba, que representa quatro vezes o orçamento anual do órgão que dirige.
Negócio. Ao mesmo tempo o arquiteto Mário Mendonça tocou num ponto crucial da questão: os proprietários dos imóveis tombados não se interessam em conservá-los, preferindo que o fogo os destrua ou que desabem, pois logo poderão ser desapropriados. É a filosofia do deixa-cair, como está sendo comentado em Salvador. O Conselho comunitário do Maciel, criado recentemente, que congrega religiosos e moradores da área, já denunciou por várias vezes pela imprensa baiana a necessidade de uma política mais eficaz e até agora nada de novo foi anunciado. No dia 10 de julho, mais dois casarões desabaram na Rua Gregório de Matos, deixando ao desabrigo mais de trinta pessoas. A maioria mulheres e crianças. Insistindo em suas dificuldades, Mendonça diz que até o próximo ano a Fundação não tem condições de preservar ou levantar os prédios desabados na Gregório de Matos. Esses casarões pertencem à Prefeitura de Salvador, à Irmandade de São Domingos e à Santa Casa da Misericórdia. Outros que ameaçam ruir estão nas ruas Inácio Acioly, Gregório de Matos, Francisco Moniz Barreto, no Paço e Ladeira do Carmo, totalizando, de acordo com o levantamento da Fundação do Patrimônio, cerca de quarenta imóveis.
Recursos. Já o diretor da 5a. Região do IPHAN, Fernando da Rocha Peres, revelou que solicitará recursos à direção nacional do órgão para serem aplicados nos casarões destruídos com o desabamento. Ele mesmo diz que é necessário uma política que venha a remover os problemas causados pela sublocação de vários imóveis pertencentes às irmandades e outras instituições baianas. Outros técnicos ligados ao problema asseguram que os proprietários cruzaram os braços na esperança que seus imóveis sejam restaurados pelos órgãos do governo e na realidade muitos deles não dispõem de recursos para recuperar os casarões. Os trabalhos de restauração são muito caros porque são demasiadamente demorados e exigem uma mão-de-obra especializada, além das limitações impostas a qualquer imóvel tombado pelo IPHAN. Assim muitos proprietários ficam à espera da tão prometida desapropriação. Enquanto isso, os casarões vão caindo e muitos certamente não serão reerguidos obedecendo à sua planta original. Para evitar maiores estragos, o trânsito está proibido parcialmente em vários ruas e também o estacionamento.
Um item que estaria prejudicando o trabalho de recuperação da área: é imprescindível que a Fundação seja proprietária do imóvel. Com isto o órgão será transformado dentro em breve numa grande imobiliária e obrigado a sublocar muitos dos casarões restaurados, porque não terá condições de ocupa-los na totalidade. Mas para isto seriam necessários muitos milhões de cruzeiros e o seu orçamento minguado nem está dando para escorar aqueles prédios ameaçados de desabamento. Por outro lado, uma modificação nesse item, ou seja, a Fundação passaria a recuperar qualquer imóvel que achasse de interesse arquitetônico ou histórico, iria beneficiar de imediato o proprietário ou proprietários do mesmo, e nunca mais teria o dinheiro aplicado de volta ou qualquer autoridade sobre ele. Diante desse impasse e das verbas precárias, só resta assistir de longe e denunciar o descaso a que está relegado um dos mais importantes conjuntos arquitetônicos do país. Paralelamente, a febre imobiliária que assola as capitais brasileiras, e também Salvador, vai atacando outras áreas consideradas privilegiadas e perto da orla marítima, onde a valorização é galopante. É para essas áreas que são desviados os recursos governamentais no oferecimento de toda sorte de serviços e infra-estrutura.
Escoramento. Antes de esgotar seus recursos, a Fundação do Patrimônio Artístico e Cultural da Bahia fez algumas restaurações importantes, especialmente no Largo do Pelourinho, até mesmo com financiamento do governo federal. Essas obras abrangem também o Quarteirão 10-M, parcialmente habitado, da Ladeira do Carmo, dos números 28 e 30, da Rua João de Deus, dos números 12 a 18, da Rua Gregório de Matos, vizinhos aos dois prédios que desabaram recentemente, o número 30 da Rua Leovigildo de Carvalho, e o 28 da Rua Inácio Acioli. Mas este escoramento é uma etapa primária do trabalho, que deve seguir-se à de consolidação e restauração. Como a Fundação não dispõe de mais dinheiro, esses prédios estão ameaçados de desabar.
Defesa. O diretor do IPHAN na Bahia, Fernando da Rocha Peres, conhecendo os problemas que enfrentam os monumentos baianos, encaminhou ao Governador Robertos Santos um expediente onde sugere a criação de uma comissão especial para elaboração de um elenco de medidas protetoras dos bens imóveis e móveis de excepcional valor histórico e artístico existentes no estado e mais particularmente em Salvador. Esta comissão deveria ser coordenada por um dos diretores das fundações estaduais e presidida pelo secretário da Educação e Cultura. Dessa comissão participariam também representantes da Prefeitura de Salvador, do IPHAN, Secretaria de Segurança Pública, Arquidiocese de Salvador, Corpo de Bombeiros, Associação Baiana de Imprensa, Fundação Cultural do Estado e Fundação do Patrimônio Artístico e Cultural da Bahia. Ele também defende que o governo deve solicitar da Secretaria de Planejamento da Presidência da República e do Ministério da Educação e Cultura, através dos órgãos competentes, os recursos necessários para cobertura financeira do que for planejado e deverá ser executado.
Cartão-postal. Os prédios do Largo do Pelourinho e da Rua Alfredo Brito (a que desce do Terreiro de Jesus até o Largo) estão pintados e restaurados. Ali o turista pode fazer belas fotos coloridas sob muitos ângulos. Mas o problema se agrava nas ruas paralelas e transversais, onde vivem centenas de prostitutas e subempregados. Elas ficam sentadas nos batentes dos velhos casarões, dirigindo palavrões e convites aos passantes. Mas se encontram também no Pelourinho vários artesãos que trabalham em tipografias rudimentares, fazendo molduras e flores e desenvolvendo um rico e variado sistema primário de produção. Enquanto as verbas não chegam, os casarões continuarão caindo e sendo destruídos pelo tempo e pelo fogo. Criada há dez anos, somente agora a Fundação do Patrimônio Artístico e Cultural da Bahia terá o seu plano diretor, que absorverá todos os problemas da área, incluindo o Modelo Operacional de Recuperação Física Ambiental e Cadastramento e o Modelo de Ocupação Físico-Social, com vistas a promover o desenvolvimento social. Para conclusão do plano, teremos que aguardar uns quatorze meses, quando estarão concluídas algumas das pesquisas encomendadas junto aos moradores de toda a área tombada.
Os turistas continuarão tirando seus retratos ao lado dos velhos casarões do Largo do Pelourinho, fotografando baianas ricamente vestidas e mesmo comprando berimbaus que não emitem um som afinado. Esta imagem continuará assim correndo os quatro cantos do país e mesmo do exterior, vendendo a boa imagem preparada pelos burocratas do turismo. Mas também as mulheres continuarão habitando os fétidos casarões que ameaçam desabar, os marginais roubando os transeuntes desavisados e as irmandades permanecerão à espera de uma dádiva do céu ou da ajuda dos homens encarregados da política de conservação da área. São duas faces para serem vistas e vividas.
(Reynivaldo Brito/Salvador)

CONTROLE DA NATALIDADE - BAIANO ACHA QUE BRASIL PODERIA SER PIONEIRO


Revista Manchete 12 de agosto de 1978


Cientista baiano Elsimar Coutinho, que tem feito várias experiências no campo de reprodução humana, está convencido de que em pouco tempo haverá também bancos de óvulos (como já existem os de espermatozoides) e que qualquer mulher poderá contratar neles a implantação de um óvulo fecundado para ter um filho com determinadas características – moreno, olhos verdes, 1,75 de altura etc.
Embora ele assegure não haver muitas dificuldades – sob os aspectos técnico e humano – para a fecundação in vitro e posterior implantação no útero, faz questão de alertar que a experiência “tem de ser repetida algumas vezes” até o sucesso absoluto. “Nem sempre o óvulo fecundado que é introduzido na paciente se desenvolve”, afirmou.
O Dr. Elsimar Coutinho acha que se a experiência agora completada com êxito na Inglaterra tivesse sido feita aqui no Brasil, talvez a reação não fosse de imediata aceitação. “Mas como foi feita por um médico estrangeiro, todo brasileiro bate palmas. Não sei se alguém já pensou o que aconteceria se, por uma deficiência hereditária recessiva, a criança nascida em ambiente de laboratório apresentasse alguma deformação física. Certamente o médico seria acusado de fabricar monstrengos e condenado por organismos médicos. Seria crucificado vivo.”
Diz também o cientista que preconceitos e incompreensões impediram que o primeiro bebê de proveta da história nascesse na Bahia, pois sua equipe está preparada tecnicamente e em recursos humanos para realizar a experiência com sucesso. “O que me levou a abandonar o projeto é que estou respondendo injustamente a processos por ter prestado informações à imprensa sobre minhas experiências na área de reprodução humana. Isso porque alguns colegas que ocupam cargos em órgãos de fiscalização do exercício profissional não acompanham como deviam o desenvolvimento da ciência.”
Após lembrar que o Brasil tem “milhares de crianças que precisam ser adotadas”, o Dr. Elsimar admite não saber se seria justo colocar um programa assim como prioritário. Diz também que no momento está desenvolvendo alguns projetos prioritários na área da reprodução humana “que virão beneficiar não apenas uma ou duas pacientes, mas toda a coletividade”.
Para o cientista, o risco da fecundação in vitro e posterior implantação no útero “é relativamente pequeno porque quando se gera um óvulo defeituoso ele não implanta. Os defeitos maiores podem ocorrer depois da implantação, quando através do organismo materno o embrião é atingido por substâncias tóxicas que vêm determinar as deformações físicas. Mas qualquer mulher grávida está sujeita a isso”.
Quando à necessidade de a mulher se sujeitar á repetição da experiência até que ela obtenha êxito, argumenta o Dr. Elsimar que o mesmo ocorre com a inseminação artificial. E alerta: “Os colegas brasileiros que estejam em condições de realizar a experiência devem estar preparados para repeti-la muitas e muitas vezes.”

POLÍTICA - ESCRITOR VOLTA DO EXÍLIO


Manchete - 12 de agosto de 1978.
É chamado à polícia e retorna sua vida normal
Depois de oito anos de exílio, retornou a Salvador o poeta, escritor e sociólogo Fernando Batinga de Mendonça, que viveu no Chile, Alemanha Ocidental, Portugal e França, onde publicou algumas de suas novelas e contos. Chegou procedente de Lisboa, numa viagem patrocinada e organizada pelo Alto Comissariado da ONU, com sede em Genebra, porém, antes de partir, foi obrigado a assinar um documento declarando que retornava por livre e espontânea vontade e que, ao pisar em solo brasileiro, cessava qualquer garantia por parte das Nações Unidas. Mesmo correndo o risco de ser preso, Batinga preferiu voltar ao Brasil para, entre outras coisas, rever o filho de 8 anos de idade.
Na polícia. No dia seguinte ao desembarque, Batinga foi intimado a comparecer à Polícia Federal, onde teve de responder a mais de cem perguntas sobre suas atividades e contatos no exterior. “Achei normal essa convocação e fui tratado como um ser civilizado”, disse Batinga, acentuando que retornava com o propósito de reaprender o Brasil e ajuda-lo a sair “desta crise que não é só política, mas também, social, econômica e cultural”. Enquanto falava a MANCHETE, em Salvador, Batinga se preparava para retomar suas atividades regulares. Já tem uma viagem programada para o sul do país e lançará, ainda este ano, a novela Corpo da Morte, onde trata da violência do mundo atual. “E’ uma novela que fala de torturas, exílio e violência, mas tudo se desenvolve no contexto da ficção”, informa Batinga, que faz ainda outras observações: “Estivemos convivendo com outras sociedades e culturas e isso nos possibilitou uma vivência muito grande, que por certo estará refletida em nossa produção intelectual. É preciso saber que não estávamos lá a passeio e sim na condição de exilado, o que nos assegura outro plano de percepção das coisas”.
Sofrimento. Batinga saiu do Brasil em 1970 e foi para o Chile em companhia do também escritor José de Oliveira Falcon. Ao lado de boas recordações – a redação de vários trabalhos sobre os movimentos de libertação de países africanos e a publicação de artigos sobre a cultura brasileira –, há lembranças dolorosas, como o suicídio de Falcon, em 1971, em Santiago, de Maria Auxiliadora Barcelos, em Berlim, e de Frei Tito de Alencar, na França, todos eles exilados políticos. Batinga relembra também sua prisão, quando da derrubada do governo Salvador Allende, no Chile. Justamente com mais de seis mil pessoas, foi conduzido, em 1973, para o Estádio Nacional, onde muitos adeptos do regime deposto foram torturados e fuzilados. Em dezembro de 1973, por interferência direta de Bonn, conseguiu viajar para a República Federal da Alemanha, onde passou a trabalhar como professor na Universidade de Frankfurt. Ao se mudar para Portugal, impetrou um mandado de segurança para obter passaporte e retornar ao país, tendo ganho de causa, no Tribunal Federal de Recursos, por unanimidade. “Acredito que o Brasil não pode prescindir de nenhum de seus filhos, muitos deles altamente qualificados em vários setores da atividade intelectual”, completa Batinga.
(Reynivaldo Brito/Salvador)