Objetivo


quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

IMPRENSA - O CONSELHÃO

OPINIÃO

Foi criado o Conselho Estadual de Comunicação pelo governo do Estado com 70 membros!
Este tal conselhão teria surgido por uma determinação constitucional. Olhe, que existe tanta coisa mais importante por exigência constitucional que estão ai pendentes...
Segundo alguns analistas este seria o primeiro passo dado para num futuro, não tão distante, começar a interferir não apenas na distribuição das concessões de estações de rádios e televisão , mas também na propriedade e, no conteúdo da informação. A Bahia é o primeiro estado a criar este tal conselhão.
A criação deste conselhão na Bahia, com um número excessivo de membros, talvez tenha sido concebido propositadamente, porque certamente, ele nunca se reunirá com a maioria de seus 70 membros!
Quem já participou de entidades ou as dirigiu sabe muito bem disto.Portanto, é uma minoria que vai mandar no conselhão, e esta minoria pode ter seu viés político, que não coincidirá com a maioria da sociedade.
Saindo em defesa do conselhão o governador declarou que dele participam vários segmentos da sociedade. Basta dar uma olhada nos nomes dos dirigentes de várias dessas entidades para observarmos que rezam pela mesma cartilha ou foram cooptados através de outros partidos políticos que os apoiam.
Sabemos que os veículos de comunicação em sua grande maioria está em mãos de uma elite política, econômica e religiosa. No Maranhão com os Sarney; no Pará com Jarbas Barbalho; em São Paulo com os Mesquita, Frias e Saad; no Rio Grande do Sul com os Sirotsky; no Rio com os Marinho, e aqui com os Magalhães e Simões ; em Pernambuco com os Paes Mendonça. E, assim vai por esse Brasil afora.
As entidades de classe como os sindicatos dos jornalistas, a Associação Brasileira de Imprensa e a Abert a nível nacional até agora não se manifestaram com veemência contra este conselhão porque o fato aconteceu aqui na Bahia e, não tem portanto, muita repercussão como teria se fosse no eixo Rio-São Paulo.
Com relação as entidades ligadas aos jornalistas baianos certamente vão calar a boca, porque muitos de seus dirigentes não têm a disposição e interesse político em contestar a criação de mais um instrumento baseado no fortalecimento do estado em detrimento da vontade do cidadão.

POLÍTICA - THEODOMIRO NÃO ESPEROU A ANISTIA

REVISTA FATOS E FOTOS / GENTE
30 DE ABRIL DE 1979

A evasão de Thedomiro surpreendeu a políticos, policiais , juízes e advogados. Sua mulher, Maria da Conceição, aguarda uma confirmaçào da fuga. Barbudo, usando óculos assim estava Theodomiro nos últimos dois anos.

Theodomiro Romeiro dos Santos não confiava na Justiça, mesmo tendo sido ultimamente por ela beneficiado – sua pena de morte se transformou em prisão perpétua, depois em 30 anos e com a nova Lei de Segurança Nacional, em 16 anos. Por isso, mesmo desfrutando de excelentes possibilidades de vir a conseguir um julgamento favorável para o seu pedido de liberdade condicional, ele preferiu a fuga. Com todos os seus riscos. Em julgamento anterior, por crimes políticos e a morte do sargento da Aeronáutica Walder Xavier da Silva, viu negado o seu pedido para ganhar a liberdade, tal como havia acontecido com outros presos políticos. E perdeu todas as esperanças. Passou a crer que todos os demais julgamentos estariam revestidos de mesmas circunstâncias políticas que, na sua opinião, contribuiriam para uma sentença desfavorável. Não demonstrava, mas era um homem angustiado. E essa angústia aumentou, quando foi conhecer o segundo filho do seu casamento com Maria da Conceição Gontijo Lacerda. Se poucos eram os contatos com o primeiro, Bruno, a situação se agravaria com o segundo, Fernando. E a fuga passou a ser uma obsessão, mais forte do que os riscos. Ninguém sabe, por enquanto, como aconteceu, como foi tramado. Levantou-se a hipótese dele ter recebido ajuda do exterior. Uma pessoa, porém, recusa-se a crer que Theodomiro tenha fugido: é a sua mulher. “Só acreditarei que o meu marido fugiu, quando puder vê-lo ou, pelo menos, falar com ele. Do contrário, continuarei achando muito estranho essa fuga. Ele estava muito perto da liberdade. Tanto que vinha recebendo frequentes ameaças de morte. Eu não creio muito nessa fuga. Acho que aconteceu algo pior”, finalizou.

RELIGIÃO - OLGA DE ALAKETO UMA IALORIXÁ CONTRA A DROGA








REVISTA MANCHETE








30 de abril de 1979












Na terra da Mãe Menininha de Gantois, ela também é rainha.








A ialorixá Olga de Alaketo é uma das mães-de-santo mais respeitadas do Brasil. Ela reina em seu terreiro no bairro do Luís Anselmo, em Salvador, onde exerce seu poder temporal e espiritual sobre diversas filhas e filhos-de-santo, ogans, ekedes e outros elementos integrantes do candomblé. Olga está com 53 anos de idade e tem dez netos. É uma negra bonita e Iansã é dona de sua cabeça. Dança divinamente e gosta de frequentar em companhia de gente da alta sociedade a vida noturna do Rio de Janeiro e São Paulo. Quando Denner estava no seu esplendor de mestre da alta costura, Olga de Alaketo exibia, frequentemente, sua etiqueta.
Como toda mulher, é vaidosa e gosta de se apresentar bem vestida. Porém, na hora de suas obrigações acontece uma brusca transformação: Olga recebe o seu santo e reina com toda sua autoridade em Alaketo, que em ioruba significa um pedaço do céu. É também apontada como a única ialorixá baiana que viaja pelo país fazendo trabalhos de recuperação de jovens toxicômanos. Já esteve várias vezes na África e participou como convidada especial do Festival Internacional da Nigéria. Embora tenha uma vida de rainha, ela está sempre sensível às necessidades de suas filhas-de-santo. E um exemplo disto aconteceu no último festival da Nigéria. Quando chegou ao aeroporto de Dakar, Olga foi informada que só haviam reservado acomodações para ela. Zangada, preferiu dormir no aeroporto, ao lado de suas filhas-de-santo, até que tudo fosse contornado.
Olga de Alaketo afirma que hoje em dia o candomblé é respeitado por muita gente. “É uma religião respeitada. Mas, por outro lado, muitos estão entrando indevidamente no assunto e alguns até se arvoram em pais e mães-de-santo e não têm nem uma conta lavada. Isto tira o real valor do candomblé, porque confunde as pessoas. Outro problema é a exploração desenfreada que está acontecendo por parte de alguns compositores, que colocam em suas músicas nomes de Orixás e mesmo de mães-de-santo. A esses, eu tenho a dizer que tomem cuidado com os exageros. Uma homenagem ainda se admite, mas daí o indivíduo passar a colocar em suas músicas ou composições parte de coisas do nosso culto é uma afronta e, acima de tudo, uma desonestidade que não podemos admitir. Não gosto desse tipo de coisa. Agora estão usando até trajes de iaôs (iniciadas) durante o carnaval. Para mim carnaval é carnaval e candomblé é candomblé. Não podemos permitir que o candomblé seja diminuído. É preciso que as coisas sejam colocadas em seus devidos lugares”.
Descontraída, Olga de Alaketo diz por que frequenta boates e restaurantes da moda. “Vou em boate, em restaurantes, teatros etc. Vou bem acompanhada e sei me comportar. E ainda tem mais, se tiver que dançar eu danço, e como!
Só não faço beber porque não gosto de bebidas. Sei com quem vou. Às vezes fumo um cigarro. Sei com quem saio e com quem volto. Não frequento esses locais com qualquer pessoa. Aí é que está o segredo: saber escolher as pessoas que você pode acompanhar.
Embora no mundo a gente termine se misturando com quem é bom e com quem é ruim”.
Olga não quis falar das discussões existentes em torno da seriedade ou não de muitos dos terreiros de candomblé espalhados pelo país, especialmente na Bahia. Disse que “sobre isto não posso falar” porque quase não conhece os outros terreiros. Conhece poucos o terreiro do Gantois, “onde já fui algumas vezes, porque minha mãe era contraparente da Menininha de Gantois e quando me chamam eu vou. Mas, não me meto nessas coisas. Acabou. Vou ainda na casa de Irene, que é filha do finado Felisberto Bomboché, que era africano. Conheço a raça dele toda na África. Eu o conheço há muitos anos porque fomos criados aqui, juntos. Agora aos outros não vou, porque não conheço as pessoas. Fico em minha casa onde recebo meus amigos e vou às festas para as quais sou convidada”. A seguir falou de seu candomblé. Mostrou o imenso terreno que pertence a Alaketo e diz que ali só podem reinar pessoas que são ligadas por sangue.
Sobre a violência no mundo Olga diz que “as coisas sempre existiram, mas eram mais reservados. Não era como agora, esses assaltos, essas coisas. Ontem mesmo vi quando cinco homens pegaram um rapaz que mora aqui ao lado para tomar-lhe dinheiro. O que me dói por dentro não é o roubo propriamente, mas a perversidade que estão fazendo com as pessoas. Pegam as pessoas, matam, fazem todo tipo de maldade. Acredito que esses meninos são doentes. São garotos que precisam de conselhos e tratamento. Muitas vezes são recalques que carregam e depois vão despejar em outras pessoas que nada têm a ver com os problemas deles. Os mais velhos dizem que os pais fazem para os filhos pagar. Eu acredito piamente nisto. Me lembro de uma pessoa que viveu muito bacana, mas que aprontou muita miséria para os outros. Essa pessoa morreu e seus filhos têm pago coisas que você duvida. O problema do tóxico mesmo é porque esses meninos vêem os pais deixando as mães, batendo nas mães e isto revolta as crianças que terminam por buscar a droga. Não tem coisa pior que um filho presenciar uma mãe ser espancada por quem quer que seja, principalmente pelo pai. Daí o tóxico ser uma fuga para esquecer esses problemas e muitos terminam viciados. Tenho cuidado de vários jovens e quando conversamos afloram esses problemas ou outros semelhantes. Mas estão pagando pelo que fizeram seus pais”.
– Muitos afirmam que “o candomblé mata e aleija”. D. Olga de Alaketo, o que a senhora acha disso?
– Bom, vou lhe explicar uma coisa. Não há médico que cure que não mate. Nem que seja por erro. É mesmo que o candomblé. Não há quem não cure que não mate. Às vezes, sem querer fazer por mal. Mas a gente está pedindo para o bem e só vem o mal. Quando vejo uma pessoa falando mal do candomblé, eu o deixo falar. O que não está certo é você generalizar. Há candomblés bons e ruins. Outro dia – continua Olga de Alaketo – eu estava assistindo à televisão onde alguns crentes estavam falando. Apareceu uma moça e disse que era de candomblé e havia abandonado o culto porque lá aprendera a tomar tóxico e resolveu generalizar que no candomblé se toma tóxico. Fiquei indignada porque essa moça deveria dizer onde foi que aprendeu a tomar tóxico, inclusive revelando o tal terreiro, já que ele existia, segundo ela. Ora, partir daí para generalizar é um exagero e uma atitude errada, porque os terreiros, em sua grande maioria, são locais de obrigações sérias e que merecem respeito. Eu não conheço nenhum candomblé que faça isso. Eu mesmo nem sei distinguir uma flor de maconha. Nunca vi, não quero ver.

CIDADE DE SALVADOR - OPERÁRIOS LOCALIZAM RUÍNAS DO COLÉGIO DOS JESUÍTAS


REVISTA MANCHETE


30 de abril de 1979
SALVADOR


As ruínas do antigo Colégio dos Jesuítas de Salvador, projetado por Manoel da Nóbrega antes mesmo da fundação da cidade, em 1549, foram localizadas por um grupo de operários que trabalhava na restauração da Catedral Basílica, da Bahia. As ruínas, que incluem uma antiga sala de cerca de 180 metros, formam, com suas grossas paredes e arcadas, um conjunto de grande beleza plástica. Futuramente também vai constituir uma nova atração para o grupo arquitetônico do Pelourinho.
Para os historiadores, as ruínas agora descobertas têm uma importância excepcional devido ao papel desempenhando pelo Colégio dos Jesuítas na formação cultural do país. Segundo o professor Valentin Calderón, diretor do Museu de Arte Sacra, o achado pode ajudar bastante no levantamento da história do Colégio, embora seja difícil pensar na reconstituição do prédio. Calderón disse a MANCHETE que o melhor seria deixar as ruínas como estão para que elas conservem seu valor histórico.
Também foi encontrado um túnel, parcialmente obstruído, com ligações provavelmente para as várias igrejas que se encontram no Largo do Terreiro. Entre elas, a de São Domingos, São Pedro dos Clérigos e São Francisco. Os historiadores também examinam a hipótese do túnel em ruínas constituir uma antiga ligação do Colégio com a Igreja do Carmo, bem mais distante do local.
O Colégio dos Jesuítas, então denominado Real Colégio das Artes, foi ocupado militarmente durante a invasão holandesa e muitas de suas dependências, consideradas verdadeiras obras de arte, desapareceram em vários incêndios. Entre as dependências que escaparam da destruição se encontram as salas de banho, com suas necessárias (sanitários), corredores, arcadas e abóbodas. Conforme os historiadores, o Colégio começou a ser depredado logo depois da expulsão dos jesuítas, decretada pelo Marquês de Pombal, por volta de 1759. Inicialmente passou a abrigar o Hospital Militar e, a partir de 1808, a Escola Médico-Cirúrgica.
O professor Vivaldo Costa Lima, que acaba de ser reconduzido à direção da Fundação do Patrimônio Artístico e Cultural da Bahia, revelou aos jornalistas que possivelmente aproveitará as ruínas do imóvel para a instalação do Museu Afro-Brasileiro, o Centro Regional de Restauração, com Memorial da Medicina Baiana e os Centros de Estudos ligados à cultura latino-americana. (Reynivaldo Brito/Salvador)

quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

RELIGIÃO - OS 84 ANOS DE MÃE MENININHA DO GANTOIS





Revista Fatos e Fotos/Gente 20 de março de 1978
Fotos Lázaro Torres
Aos 84 anos, a mais famosa mãe-de-santo afirma: “Quem nasce na Bahia, não há água, sol ou vento que tire a magia”

“SE EU SOUBESSE TUDO NÃO SERIA MÃE MENININHA, EU SERIA DEUS”Menininha do Gantois, a mais famosa mãe-de-santo que a Bahia já deu, acaba de completar 84 anos. Apesar da idade avançada, ela continua a acompanhar de perto tudo o que acontece no seu terreiro. Todos os que convivem com Mãe Menininha a adoram e para eles sua palavra é sinônimo de ordem. Ninguém ousa falar em sucessão. Para ela a mística do candomblé deve ser preservada com seus segredos que pertencem apenas aos iniciados na seita. Venerando Oxalá acima de tudo e depois os outros Orixás, ela se orgulha de só fazer o bem.

Com 84 anos de idade, a mais importante ialorixá do candomblé, Maria Escolástica da Conceição Nazaré, mais conhecida por mãe Menininha ou Menininha do Gantois, reina do Alto do Gantois, em Salvador. Continua lúcida, governando sua roça e em séquito de quase duzentas pessoas entre filhas, netas, parentes e descendentes hierárquicos. Seu terreiro é o mais famoso de todos os existentes na Bahia.
Desde 1900 um rosário de intelectuais participa, de uma forma ou de outra, das festas e da própria vida do terreiro Axé Iyá Nassé. Entre eles Artur Ramos, Edson Carneiro, Donald Pearson, Herskovitz, Roger Bastide, Jorge Amado, Dorival Caymmi, Caribé, Pierre Verger e muitos outros.


“Bahia não é a África, mas é um pedaço de lá”
Menininha do Gantois é mãe-de-santo consciente de sua grande responsabilidade, acompanhando, de perto, os afazeres domésticos e as “obrigações” de suas filhas-de-santo, de seus ogans e yaôs. Reina, material e espiritualmente, com toda a humildade de uma sacerdotisa, dizendo sempre: “Não sou isto que o povo pensa. Nasci normalmente de um homem e uma mulher.
Porém, quem nasce na Bahia não tem água, sol ou vento que roube a magia. Bahia não é a África, mas é um pedaço de lá. Quero continuar fazendo o bem a todos aqueles que precisam, dentro das minhas limitações. Entendo um pouco da seita e assim procuro ajudar aos outros.”
Devido a sua notoriedade Mãe Menininha paga um preço muito alto. Centenas de turistas sobem mensalmente a ladeira do Alto do Gantois na esperança de receber uma bênção da ialorixá. Mas,com sua idade avançada, suas filhas-de-santo e parentes não permitem o assédio. Esta proteção é necessária porque muitos vão ao terreiro apenas à procura de um divertimento, como uma lembrança de sua viagem à Bahia.
Exatamente por essa razão é que fica cada vez mais difícil conversar com ela.
Uma vez vencidos os obstáculos, ela irradia felicidade. Sentada numa grande cadeira e vestida numa imensa saia, Menininha fala do seu dia-a-dia: “Levanto-me sempre cedo e gosto muito de assistir a programas de televisão.
Acompanho algumas novelas, mas não estou gostando de nenhuma das que estão sendo apresentadas. Todas estão ruins.”
“Tenho isto aqui como uma obrigação de herança. Tudo começou em 18 de fevereiro de 1922, quando fui sagrada mãe-de-santo. Portanto há 56 anos tomo conta dos “santos”. Estou nesta idade e só pratiquei o bem, aqui no Terreiro do Gantois.
Zelando pelos baianos e pela nossa casa. Já trabalhei demais, mas ainda estou forte para levar tudo adiante.” Assim fala Menininha, que nasceu a 10 de fevereiro de 1894, no Largo do Terreiro de Jesus.
Axé Iyá Nassé, mais conhecido como Gantois, foi fundado por Maria Julia da Conceição Nazaré, bisavó de Menininha. Com a morte de sua fundadora, ascendeu à chefia da casa tia segunda, Pulquéria da Conceição Nazaré, que era Iya Kererê (mãe pequena) da casa.
No dia 18 de fevereiro de 1922, chegou a mando da casa Menininha do Gantois. Ela foi iniciada no culto por sua tia Pulquéria e o orixá dono de sua cabeça é Oxum, deusa da beleza, das joias e do rio Oxum, que fica na Nigéria. Ela recebeu o axê (poder de mãe-de-santo) diretamente das mãos de Oxóssi, deus da cabeça, e de Xangô, deus do trovão e do fogo, o terceiro rei lendário de Oyó, capital dos povos Yorubás ou Nagôs.

A homenagem da música popular brasileira
Sua influência é tamanha, que Menininha se transformou em fonte de inspiração da música popular brasileira, especialmente depois da composição de Dorival Caymmi a “Oração a Mãe Menininha”. Também fizeram canções para ela Vinícius de Moraes, Toquinho, e Caetano Velloso. Ao lado disto, muitos cantores e compositores são ligados ao terreiro do Gantois, e de quando em vez, são chamados a fazer obrigações. Entre eles estão Gal Costa e Maria Bethânia.
Internacionalmente famosa pelo muito que tem feito pela preservação do culto africano, a ela cabe à tarefa de guardiã do imenso tesouro de sabedoria e mistérios dos deuses transmitidos por seus ancestrais. Ela tem consciência disso e afirma: “Sempre fiz o bem dentro do culto, procurando a melhor forma de cumprir as obrigações. O que realmente gosto é quando faço um ato bom e recebo em resposta Deus lhe pague. Isto porque Ele rege tudo e nada sem Ele dá certo.”
Depois de falar do culto e de suas influências, Mãe Menininha conta como é sua vida dentro de casa. “O que eu não gosto, moço, é de casa de vizinho. Moro aqui há muitos anos, mas nunca frequentei casa de ninguém. Sei que eles me conhecem, e, ás vezes, quando apareço na janela, eles dizem aquela é a Mãe Menininha do candomblé. Mas é só. Não gosto de saber da vida dos outros. Fico em minha roça fazendo minhas obrigações, cuidando desta moçada. O senhor já pensou na minha responsabilidade? Tenho aqui muitas senhoras casadas, noivas e solteiras. Tenho que dar conta de tudo aos maridos, noivos e pais. Hoje em dia a coisa está muito mudada, e por isso é preciso maior cuidado. O que vale, é que todas são honestas e compreendem tudo direitinho. Mas estou sempre ativa, tomando conta de tudo e querendo saber o que se passa na roça.”
Depois ela desabafa: “A coisa está tão seria que quase não posso mais ir à janela, ou mesmo ao salão (do terreiro), porque é muita gente querendo saber coisas que não posso responder. Querendo saber se o pai vai perder o emprego, se o noivo vai largar e coisas deste tipo. É preciso entender que não posso saber de tudo, porque se soubesse não seria Mãe Menininha e sim Deus. Longe de mim ser Deus, que é o pai de nós todos”.
Mãe Menininha completa o seu raciocínio afirmando que é descendente de africano e que “africano, moço, é mais desconfiado do que índio. Eles quando são amigos, são de verdade. Mas sempre ficam desconfiando. Os senhores não estão aí tirando fotos minhas. Ah! Se fosse de africano ele era capaz de fazer uma careta e os senhores perdiam tempo. Por falar em fotografias, vocês estão tirando muitas. Será que não poderiam arranjar umas para mim”?
Prometemos levar algumas fotos para Mãe Menininha e cumprimos a promessa. Quando recebeu as fotografias gostou e fez comentários sobre a beleza de sua neta Neli e da seriedade de sua filha e Mãe Pequena, d. Cleuza.

“Não existem dois ou mais deuses. Ele é um só”
Revelando ainda um pouco de sua intimidade, Mãe Menininha comentou: “Quando bem tratada, sou muito doce, muito bondosa. Mas não gosto que me desagradem. Gosto muito de respeito, e, por felicidade, as pessoas sempre me respeitam. Talvez porque também tenho muito respeito pelas pessoas e aceito as coisas de cada uma.”
Para Mãe Menininha não existem dois ou mais deuses: “Ele é um só, e o mesmo para todo mundo. Pra mim Oxalá é o maior, e depois vêm os meus santos. A diferença está apenas nos nomes.” Ela não fala na mística, e guarda os segredos do candomblé com muita fé e respeito, e ninguém, ligado ou não ao culto, tem a ousadia de falar em sucessão. Sim, porque a sacerdotisa do candomblé é única a sua palavra uma ordem. Todos à sua volta a adoram. A idade não importa. O que importa é que é a mãe-de-santo, dono de todas as verdades. Ela é adorada e amada e como diz Dorival Caymmi na sua “Oração a Mãe Menininha”, “a estrela mais linda, o sol mais brilhante, o consolo da gente; tá no Gantois...”

CINEMA - GLÁUBER BRIGA COM INTELECTUAIS


5 de Dezembro de 1977
REVISTA: FATOS E FOTOS / GENTE

PARA GLÁUBER ROCHA
BRIGAR COM INTELECTUAIS NÃO É NOVIDADE.
SEU ENCONTRO É COM O POVO
O FATO Com Tarcísio Meira, Walmor Chagas e Mauricio do Vale no elenco, Gláuber Rocha inicia a 8 de dezembro as filmagens de Idade da Terra, abordando aspectos da vida de Cristo. Com esse trabalho, o diretor baiano da à arrancada para o que ele classifica de “a segunda revolução cinematográfica brasileira”. Ao todo, o plano inclui 12 filmes com um investimento de 60 milhões de cruzeiros. Num quarto de hotel, Gláuber, agitado, andando de um lado para outro, fala com exclusividade para FATOS E FOTOS/GENTE na polêmica linha que marcou seu trabalho e pautou as mais recentes declarações à imprensa. Como esta sobre Pelé: “Ele é um garoto-propaganda das multinacionais. Se antes jogava futebol, agora é jogador. Virou bola nas mãos dos mercenários.” A acusação se deve ao fato de Pelé pretender promover o cinema e a música brasileira no exterior, como relações públicas da Warner.
Futebol à parte, Gláuber parte para as análises: política, cultura, cinema e a sua revolução.
Vou lutar para fazer a segunda revolução cinematográfica brasileira juntamente com meus colegas baianos e de outros estados do Norte e Nordeste. Estamos unidos e com o propósito de exigir da Embrafilme o direito que nos cabe para fazer o saneamento necessário no cinema, que está entorpecido pelos enlatados e excesso de importação estrangeira. Sobre esse primeiro trabalho da série, é bom ressalvar que Cristo nasceu na Ásia Menor e sempre foi filmado do ponto de vista de artistas europeus e americanos. Agora vou fazer o Cristo no Terceiro Mundo, o Cristo visto pelos oprimidos. É um filme inspirado em Cristo do Apocalipse e não no Cristo dos quatro Evangelhos. Também abordarei aspectos da vida de São Paulo. Não vou reconstituir Roma ou qualquer outra cidade porque isto não nos interessa. O que desejo é dar à vida de Cristo uma linguagem cinematográfica latino-americana.
Muitos produtores não acreditaram no meu projeto e queriam que fizesse uma pornochanchada ou um policial. Eu já os conheço e só reclamo é que depois de trabalhar tanto ainda tenho dificuldade para arranjar produto para financiar meus filmes. Demorei 14 meses para organizar esta produção de Idade da Terra, o que dá a impressão de que um sujeito que trabalha não merece a menor consideração. Depois de nove longas e quatro curtas-metragens, me sabotam e tentam impedir o meu trabalho. Mas, desde 1960 que os conheço porque muitos deles aprenderam alguma coisa de cinema comigo. Continuo contra os filmes de pornochanchadas e policiais. Os produtores de cinema no Brasil e a maioria dos diretores continuam com a mentalidade de investir pouco dinheiro ludibriando o público e aproveitando-se do decreto que obriga a exibição de filmes nacionais.

“Os artistas confundem pobreza com estilo”
”Se em 1960 houve uma revolução artística no cinema brasileiro, hoje vemos a criação de condições para nossas produções. A Embrafilme foi criada e é uma empresa de economia mista que coproduz oferecendo facilidades industriais. Mas, ainda enfrentamos a decadência da crítica, a desonestidade dos produtores que só falam de cultura para pedir proteção e dinheiro ao governo e mesmo grande parte dos diretores que não se esforça para melhorar a técnica, o estilo, o som e a interpretação dos atores. Isto é um dos aspectos de crise artística que atravessa o Brasil, provocada de um lado pela censura e do outro pelo conformismo intelectual. O cinema brasileiro busca sair de sonho de cineclubistas para se transformar numa indústria florescente. Mas, isto não quer dizer que a quantidade (100 filmes por ano) garanta a qualidade de 10 filmes. Até hoje o cineasta brasileiro vive lutando para construir condições econômicas para fazer cinema.
Somente agora é que vejo a possibilidade de uma dedicação à criação, embora reconheça que nosso parque tecnológico de imagem e som ainda é subdesenvolvido. E ,ainda o mercado de exibição continua dominado pelas companhias estrangeiras. A vantagem é a existência da Embrafilme, que é uma empresa de economia mista, que inevitavelmente será a maior da América Latina, da África, Espanha e Portugal. É uma distribuidora em expansão, que pode exibir o filme brasileiro em nosso território e no exterior.
Com exceção de alguns diretores, como Nélson Pereira dos Santos, Arnaldo Jabor, Joaquim Pedro de Andrade, o cinema brasileiro está cheio de diretores ruins e sem qualquer capacidade criativa. Como também são ruins a maioria das peças de nosso teatro, os romances e os discos que têm aparecido ultimamente no Brasil. Temos hoje a garantia econômica e é necessária uma revolução cultural na cabeça dos críticos, diretores e atores para criar condições de ambição para se fazer um grande cinema. Aqui a maioria dos intelectuais é modesta; o que em arte significa mediocridade. Os artistas confundem pobreza de imaginação com estilo realista e optam sempre por soluções individualistas, pessimistas e fatalistas o que demostra a grande falta de esperança no futuro de nossa sociedade. Não basta falar de temas brasileiros para se fazer uma grande arte. A arte se faz com as vísceras, com a loucura dos sonhos, com o delírio da imaginação, com as aventuras da fantasia e com a indisciplina diante das regras preestabelecidas.”

“Geisel mudou minhas perspectivas”
“Brecht já dizia: Pobre do povo que precisa de heróis. Quando o povo está fraco é que precisa de heróis e o artista se transforma num mito, porque é diferente. Enquanto o público protege o artista, a maioria dos críticos procura destruí-lo querendo negar o valor do seu trabalho com argumentos que não têm nada a ver com o trabalho propriamente dito. Exigem dos artistas posições políticas que defendam suas obras e de interesses deles (críticos) que tanto podem ser comunistas ou fascistas. Daí vários artistas estarem a serviço de partidos políticos. O que acontece? Fazem uma arte medíocre, mas são elogiados pelos interessados. Os artistas em si são políticos, mas independentes de tutelas. No Brasil de hoje, eu ganhei vários inimigos porque reconheci no Presidente Ernesto Geisel um líder revolucionário que mudou significativamente minha perspectiva sobre o Brasil e o mundo. Assim, desde março de 1974, quando apoiei o nosso presidente, numa declaração de repercussão internacional, venho sofrendo calúnias, perseguições e até ameaças. O que demostra que a repressão à liberdade de pensamento não é apenas um fato oficial, mas uma tradição da fina flor da intelectualidade nacional. Ninguém se preocupa em observar que o General Geisel está mudando o Brasil, nos retirando do impasse ditatorial rumo a uma democracia econômico-social e cultural. Preferem dizer que estou louco que recebo dinheiro dos ministérios para fazer propaganda do governo. Admitir que sou honesto, que tenho razão na minha visão política, obrigaria esses intelectuais a revisar seus pontos de vista. Mas, os intelectuais brasileiros ficam com medo de fazer autocrítica e de reconhecer a dialética da História, que é contrária a qualquer sistematização filosófica. Assim, eles defendem o modelo norte-americano como ideal para nossa sociedade, desconhecendo que a revolução de 1964 já superou o conceito de democracia liberal capitalista e ao mesmo tempo em que recusa o modelo social imperialista soviética e o modelo patriarcalista chinês ou a social-democracia europeia.”

“Me recusam pelas posições que assumi”
“A revolução brasileira busca um modelo neodemocrático cujos objetivos, como tem salientado o Presidente Geisel, é o homem pobre que não recebe nem as migalhas do grande bolo. Já é tempo de as pessoas conscientes deste país assumirem a responsabilidade de ver em Geisel o redentor de um país que estava se afogando no charco da fome, da miséria e do desrespeito aos direitos humanos. E, depois do que o presidente já fez e está fazendo, a oposição deveria abrir mão de suas campanhas casuísticas e apoiar o General Geisel para que ele possa executar profunda e definitivamente as reformas econômicas que poderão gerar uma nova legislação política, um novo relacionamento social, uma nova transação psicológica, uma nova criatividade artística e científica.”
“Já briguei conscientemente com uns duzentos intelectuais decadentes entre Rio de Janeiro, São Paulo, Paris, Nova Iorque e Brasília. Porém, estou feliz porque estou me encontrando com 110 milhões de brasileiros. Sei que muitos dos meus detratores já sabem que estou certo, mas eu não preciso de juízes porque o meu juiz é a minha consciência.
Para os que afirmam que sou protegido do governo, digo que meu filme Cabeças Cortadas, um longa-metragem que rodei em 1970 na Espanha, está proibido no Brasil desde 1973. E a Censura não manifestou nenhum interesse em reconsiderar esta posição. Vários jornais e revistas têm recusado artigos de minha autoria, não com receio da Censura, mas porque faço elogios ao Presidente Geisel. Duas importantes editoras nacionais se recusaram a publicar um romance que escrevi sobre a vida do Ex-presidente João Goulart. Além disso, sofro restrições econômicas e discriminatórias. Uma delas, que faço questão de citar, é o caso do organizador da Jornada Nacional de Curta-Metragem, que todos os anos acontece na Bahia e que tem como coordenador o Sr. Guido Araújo. Ele proibiu a exibição de meu curta Di Cavalcanti, que foi premiado, sob a alegação que era um filme oficial. É um burocrata que não conhece nada de cinema e que não tem condições para proibir a exibição de um filme de minha autoria”.

“O cinema está regredindo no Rio e São Paulo”
“A constituição do pólo baiano é o resultado de uma regressão intelectual e econômica que sofreu o cinema da Bahia desde que eu e Roberto Pires saímos daqui em 1963. O pique industrial do cinema baiano, que produziu Tocaia no Asfalto, A Grande Feira, de Roberto Pires, e Deus e o Diabo na Terra do Sol, foi substituído por uma mentalidade mesquinha e às vezes policialesca de um grupo de burocratas que nada entende de cinema. Daí o pólo ser constituído apenas de Cr$ 1,5 milhão que devem ser aplicados anualmente em produções de curtas e longas-metragens. Qualquer curta no Brasil custa no mínimo Cr$ 300 mil cruzeiros e em longa uns Cr$ 3 milhões. O pólo, além de nascer com um atraso de 13 anos, é um anacronismo típico de província, onde se confunde indústria cinematográfica com concurso de declamação. A Embrafilme, que colabora neste projeto investindo apenas Cr$ 500 mil cruzeiros, cometeu uma inexplicável ingenuidade acreditando que esta irrisória quantia servisse para estimular. A Embrafilme este ano está investindo Cr$ 50 milhões em televisão. Esse capital é consumido em grande parte por produtores do eixo Rio-São Paulo, sobretudo por produtores do Rio de Janeiro. Assim, os problemas brasileiros são filmados através de uma ótica desses estados beneficiados. Ora, a Bahia possui grandes cineastas como Roberto Pires, Orlando Sena, Olney São Paulo e Rex Schindler, que além de grandes são pioneiros e criadores do cinema Novo baiano que antecede o Cinema Novo carioca. Se formos levar em conta o problema da capacidade, veremos que a Bahia tem direito a pelo menos 30% da verba da Embrafilme para produção. E, certamente com a garantia de que os filmes baianos seriam melhores do que o cinema que se faz hoje no Rio-São Paulo, que está regredindo aos tempos da chanchada e do dramalhão. É preciso sanear a área que está entorpecida pela falta de criatividade, entre outras coisas.”
A REBELIÃO E OS MITOS
“O argumento/roteiro de A Idade da Pedra (Gláuber oscila entre esse título e A Idade da Terra) é tão sumário quanto às peças anteriores destinadas a Barravento (1961), Deus e o Diabo na Terra do Sol (64), Terra em Transe (67) e O Dragão da Maldade Contra o Santo Guerreiro (69). Não fazemos referência aos outros cinco longas-metragens glauberianos realizados no exterior porque a seus roteiros não tivemos acesso: O Leão de Sete Cabeças (1970), Cabeças Cortadas (71), Histórias do Brasil (71-76) e O Câncer (68-76).
Com efeito, Gláuber não trabalha com argumentistas e roteiristas: essa é uma função que ele mesmo exerce, e com vigor. Além disso, junta as duas coisas numa só: o argumento já é o roteiro, ou seja, ao descrever a história (a trama) já põe as indicações técnicas – sequência l, interior dia etc. – necessárias à execução da filmagem. Contudo, o mais singular é que esse argumento/ roteiro, supostamente longo por conter duas peças, representa um quarto de qualquer outro trabalho semelhante.
Isso porque Gláuber apenas visualiza a cena: ele não a descreve em pormenores. Por exemplo: se precisa rodar uma sequência de massas só quando chegas á locação (lugar de filmagem) vai dispor os extras em posição de luta (caso se trate de um conflito), estabelecer o ângulo (enquadramento) da câmera, verificar a luminosidade solar etc. Quer dizer, ele tira partido das circunstância, não vai para lá com uma idéia preconcebida. Claro: os elementos básicos estão mais ou menos previstos – que atores funcionarão naquela cena, seus diálogos etc. – mas Gláuber sabe que sempre se pode obter mais do que está simplesmente dito no papel.
A Idade da Pedra é exatamente isso. Violando um pouco o sigilo solicitado, é legitimo oferecer uma ligeira idéia da história aos leitores, considerando o grande interesse suscitado por todo filme glauberiano. O argumento/roteiro contém apenas trinta e poucas laudas.
Nele se narra a vida, paixão e morte do homem na Terra – a saber, desde a era das cavernas, passando pela pedra lascada, o feudo, a Idade Media, as guerras napoleônicas, até hoje –, para se deter mais precisamente na América Latina e sua dramática insurrecional.
A História do Homem seria um título mais justo se não fosse presumido. E, depois, a intenção de Gláuber não é fazer documentário, mas uma obra ficcional, criativa, repleta de lances reveladores e capaz de despertar o espectador para o seu destino na Terra.
Shakespeare contribui com seu universo único e seus personagens marcados pela excepcionalidade. Gláuber não nega essa aproximação, embora adaptada ao sentimento latino-americano.
O observador atento poderá notar, ao ver o filme, um monólogo mais fatalista (á Hamlet), a utilização dos mitos gregos, a organização do caos sempre presente nas fitas glauberianas. O talento, a aparente insensatez, os planos feéricos, o relâmpago do gênio, o take supostamente medíocre – tudo isso é possível em Gláuber, uma voz do Terceiro Mundo.”
Alberto Silva
Crítico de cinema







domingo, 15 de janeiro de 2012

CIDADE DE SALVADOR - MENOR E MAIS CARO METRÔ DO MUNDO

OPINIÃO


A falência de gestão da Prefeitura de Salvador e do Governo do Estado já é conhecida de todos.Dois gestores que deram as mãos e vivem agora brigando para saber qual é o mais incompetente.
Vejamos o caso do metrô. O Lula, que não tem qualquer escrúpulo, veio aqui antes de deixar a presidência da República e inaugurou o metrô. Colocaram alguns trens na linha e a solenidade foi realizada. Quanto tempo tem esta farsa? Mais de um ano e, até hoje o metrô , que não pode nem ser chamado de metrô, porque na verdade é um arrremedo, não foi pra lugar nenhum.
Dizem que é o menor do mundo com apenas 6,5 km de extensão e custou em torno deR$700 milhões. Portanto, além de ser o menor é certamente o mais caro do planeta!
Saindo do metrô vamos para a orla marítima de Salvador. É com certeza a mais desarrumada do país. Da Barra até Itapuã vemos centenas de velhos imóveis, verdadeiros monstrengos enfeiando as belas praias que os cercam. Sem falar na situação lastimável do Aeroclube, cujo projeto adormece nas empoeiradas repartições municipais à espera de exame e aprovação. Enquanto isto, a cidade é que perde oferecendo uma visão caótica aos turistas que nos visitam. E, nós que residimos aqui sofremos no dia-a-dia com este descaso.
Estamos nos aproximando da Copa do Mundo e só podemos contar com a Fonte Nova, graças a presença da iniciativa privada.
O carioca está preocupado com a Portela, onde será homenageado.Enquanto o prefeito, segundo li numa coluna social, curte na Europa uma segunda lua de mel.
Triste Bahia... Quem mandou votar neles!

quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

EDUCAÇÃO - A HORA DE ESTUDAR ATRAVÉS DA ARTE

A TARDE – SEXTA-FEIRA, 12 DE AGOSTO DE 1977
Texto: Reynivaldo Brito Fotos: Gildo Lima
“O homem só pode atingir a harmonia do seu ser, portanto a sua felicidade, se não descurarde nenhuma de suas potencialidades.
O predomínio, na escola, do racional, do pensamento abstrato, tende a suprimir o lado afetivo, emocional e instintivo da pessoa humana. E toda a moderna psicanálise está a demostrar a enorme importância do fator afetivo na estruturação de personalidades equilibradas".
                             ONOFRE PENTEADO NETO
A habilidade manual para uma melhor integração -foto

Estamos  assistindo aos poucos uma preocupação dos educadores do país em possibilitar à criança o desenvolvimento de suas potencialidades através de métodos modernos que podem ser resumidos no respeito ao ser humano e à sua capacidade de criação.
Este movimento teve início no Brasil há exatamente 29 anos quando foi criada a Escolinha de Arte do Brasil que proporcionou em julho de 1972 o encontro do Movimento de escolinha de arte – qualquer centro ou instituição que comunga o desenvolvimento o das potencialidades de criação – em busca da liberdade.
Desse encontro surgiram algumas conclusões que vêm sendo postas em prática em quase todos os Estados brasileiros e até em alguns países sul-americanos. Foi criada a Associação Brasileira DE Educação através da Arte, órgão filiado à INSEA-UNESCO, Internacional Society for Education Throug Art, com a finalidade de estimular e valorizar as experiências realizadas pelas escolinhas e grupos de arte, por instituição e pessoas com interesses afins. Cabe ainda a esta associação criar áreas culturais e educacionais visando ampliar a ação deste movimento.
                                                              CONCLUSÕES

Eis aqui algumas das conclusões a que chegaram os organizadores do encontro que são de grande importância. Vajamos: necessidade das escolinhas de arte do Brasil em se constituir num centro revitalizante e gerador das suas idéias de educação através da arte, sendo veiculo dessas idéias os professores que se identifiquem neste processo; necessidade de encontros daquele tipo para se manter a unidade do movimento; necessidade de renovação pela análise e critica constante de experiência que sejam vistas como sínteses criadoras temporárias e suscetíveis de mudança no campo arte-educação; e necessidade da penetração das escolinhas no interior estimulando Centros de Cultura, capazes de favorecer o próprio crescimento da escola e do meio ambiente.
Foram mais ou menos estas conclusões que levaram centenas de pessoas a se preocuparem com o movimento Educação pela arte. Exatamente por crença em todo este ideal que é a Educação através da Arte que um grupo de professores sob a orientação da Secretária de Educação do Município, professores Maria Stela Pita Leite, realizará em Salvador o I Encontro Municipal de Arte e Educação reunindo especialistas de vários Estados brasileiros. Eles debaterão entre os dias 22 e 27 do corrente mês no Retiro de são Francisco as suas experiências com vistas à criação do Núcleo Municipal de Arte e Educação que será a pedra de toque para a adoção de uma política mais abrangente no setor, envolvendo não apenas especialistas, mas também todo o professorado
que deve voltar suas vistas para o desenvolvimento das potencialidades criativas de seus alunos. Será um grande passo para minorar o problema citado pela escola tradicional e coercitiva, onde os valores são impostos de cima para baixo sem a preocupação com a recepção e os resultados desta imposição.
Este núcleo não deve ficar restrito ao pessoal da Secretaria Municipal de Educação e Cultura e muito menos aos participantes e organizadores deste I Encontro de Arte e Educação. Ele deve ser integrado à comunidade baiana para que os adultos e as crianças busquem e encontrem os caminhos que permitam um maior dinamismo deste ideal. O Núcleo pensa na criação, no jovem, no adulto e funcionará no Parque da Cidade, um local privilegiado que se transformará num laboratório natural motivador, na perspectiva de promover o desenvolvimento do ser humano. Na foto acima a criação livre representa arealização da criança.
                                                                             
                                                                              O MOVIMENTO

Explica o professor Onofre Penteado que o conceito de “Educação pela Arte é um movimento cultural que congrega educadores, artistas e professores, secundados por psicólogas, filósofos, sociólogos e críticos de arte tendo por meta integrar o processo criador nas escolas de todos os níveis e tomando como ponto de partida programática a valorização da arte no processo educacional”.
Este movimento nasceu no século XIX quando foram iniciados os trabalhos da psicologia da aprendizagem e a constatação das diferenças individuais do conhecimento das necessidades humanas em termos de estímulos, incentivos e motivações.
Cresceu por sua importância para o desenvolvimento da criança e assim várias disciplinas artísticas foram sendo incorporadas aos currículos escolares em todo o mundo. Os teóricos cuidaram de fundamentá-lo. Os técnicos educacionais em torná-lo realidade, e, hoje, assistindo o crescimento desta escola nova que permite uma maior abertura, flexibilidade, dinâmica e que “representa na sociedade atual em crise, a presença do espírito humanístico que sempre se manifestou ao longo da História”.
Segundo os seguidores do movimento Educação através da Arte são vários seus objetivos: busca a harmonia do homem, o sentimento e a razão, a poesia e a técnica. Procurando desperta a consciência dos valores comunitários, os sentimentos de nacionalidade e de universidade, fins psicológicos e sociais a que visam as praticas criadoras nas escolas. Essas atividades têm por meta a democracia e a paz universal, como diria Herbert Tead (1893-1968), um de seus teóricos.
Diante disto a personalidade do educando deve ser respeitado e repelido qualquer totalitarismo negador da pessoa humana. Isto porque acredita-se que na pessoa humana está a essência das diferenças individuais exigidas por qualquer sociedade aberta.
Os educadores integrados neste movimento aceitam consequentemente os diferentes modelos de expressão e incorporam o pensamento de Edouard Claparède (1873-1940), segundo o qual as sociedades, como os organismos, progridem por diferenciação, pelo processo da divisão do trabalho, e não pela redução de todos os elementos vitais a um tipo único”. Foge, portanto da massificação que a criança sofre diariamente em frente ao vídeo onde são lançados tipos estereotipados que traduzem apenas heróis falsos criados por uma sociedade de consumo. Os educadores estão preocupados em desenvolver o espírito do educando adaptando-o à vida social concebida à maneira democrática, valorizando as aptidões individuais convergindo-as para a felicidade comum.
Estamos assistindo em todo o mundo as manifestações coletivas, inclusive nas bienais e salões de arte contemporâneos. Um trabalho onde são respeitadas as opiniões, onde desaparecem as vedetes e surge o trabalho cooperativo e livre. A arte ganha importância e ocupa desde os primórdios lugar de destaque unto ás ciências como a Matemática e a Física. Não podemos pensar somente no imediatismo do profissional. É preciso cuidar do espírito do profissional e acima de tudo desenvolver suas potencialidades porque assim ele estará mais apto para sua integração social.

                                                               OS EXPOENTES

Diz Onofre Penteado que entre os expoentes do movimento Educação pela Arte podemos destacar Herbert Read, Viktor Lowenfeld, Arno Stern, Pierre Duquet e em nosso País o artista Augusto Rodrigues, fundador da Escolinha de Arte do Brasil, do Rio de Janeiro, que estará presente ao encontro promovido pela Secretaria Municipal de Educação e Cultura. Muitos são os artistas que comungam esses pensamentos e muitos deles virão à Bahia para trocarem experiências com seus colegas baianos. Será um encontro de relevo para a educação do município e marcará época porque importantes conclusões serão reveladas e utilizadas no desenvolvimento do Núcleo a ser instalado no Parque da Cidade.
É preciso não esquecer que toda a psicologia moderna atenda para a atividade artística da criança como uma expressão que serve a todos os fins habituais da linguagem: abstração, sonho, comunicação com outros.
Nós comunicadores engajados no processo tecnicista da sociedade contemporânea damos uma supervaloração à linguagem verbal e à expressão por meio de símbolos matemáticos, por serem como diz ainda Onofre Penteado – “mais adequados às abstrações, ao pensamento lógico”. Mas é preciso perguntar se este comportamento é apropriado à natureza da criança como ser humano. Certamente que não, porque a linguagem da criança é do sentimento e é através dos rabiscos que fazem nas paredes, no papel e também nas formas desproporcionais que elas criam, que está seu melhor meio de expressão.
Diz Herbert Read que “uma das principais finalidades da educação deveria ser a de conservar nas crianças o dom que têm de nascença: a intensidade física da percepção e da sensação. “Mas, os métodos irreais aplicados nas escolas é mesmo no seio da família resultam no distanciamento deste dom”,

                                                                         NA BAHIA

Em Salvador, o l Encontro Municipal de Arte e Educação será realizado antes do organizado pela Sobreart, no Rio, e contará com a presença de: Augusto Rodrigues, pernambucano fundador da Escolinha de Arte do Brasil; diretor-técnico dessa instituição, fundador da escolinha de Arte de Recife, presidente de Honra da Sobreart, artista plástico, caricaturista e critico de arte. Nasceu em 1931. Noemia de Araújo Varela, Gaúcha, membro do Conselho Mundial da Insea, diretora do Departamento Pedagógico da Escolinha de Arte do Brasil, vice-presidente da Sobreart e mesmo do Comitê Nacional da OMEP. Zoé Noronha Chagas Freitas, carioca, presidente da Sobreart, vice-presidente da Escolinha de Arte do Brasil e organizadora do I Encontro Latino-Americano de Educação através da Arte. Cecília Fernandez Conde, carioca, diretora do Departamento de Cultura do Conservatório Brasileiro de Música, assessora do Departamento de Cultura da SEC, Rio de Janeiro e membro da diretoria da Sobreart; Ilo Krugli, argentino, assistente técnico do Departamento de Cultura da SEC, Rio, professor das atividades teatrais da Escolinha de Arte do Brasil, autor de peças e ganhador do “Moliére” com o espetáculo “Federico Garcia Lorca – Suas pequenas Histórias”; Lúcia Alencastro Valentim, carioca, técnica em assuntos educacionais do MEC, responsável pelo departamento de Educação Artística; Bartolomeu Campos Queiroz, assessor da Sec. Ed. de Minas, filósofo e especialista na área Arte-Educação; Iara Matos Rodrigues, gaúcha, diretora da Escolinha de Arte da UFRGS; e Cascia Frade, mineira, assistente do Dep. de Cultura da Secretaria de Educação do Rio, professor de Educação Musica e pesquisadora do Folclore, com tese defendida. São esses alguns dos convidados com presença assegurada sem falar em estudiosos baianos em várias áreas que também participarão do encontro promovido pela Secretaria Municipal de Educação e Cultura.

                                                                 TAMBÉM NO RIO

De 18 a 22 de setembro próximo será realizado no Rio de Janeiro o I Encontro Latino-Americano de Educação através da Arte promovido pelo Ministério da Educação e Cultura, Funarte e Instituto Nacional de Artes Plásticas. Este encontro será executado pela Sociedade Brasileira de Educação através da Arte – SOBREART vinculada à INSEA, International Society for Education Through Arte e Escolinha de Arte do Brasil. Os estudos e debates girarão em torno do tema básico: Arte, Educação e Comunidade, através de conferências, painéis, grupos de estudos liderados por educadores e artistas latino-americanos. Será realizado na Universidade do Estado do Rio Janeiro.

CULTURA - UMA NOVA CAROLINA DE JESUS SURGE NOS ALAGADOS

A TARDE – SEXTA-FEIRA, 12 DE AGOSTO DE 1977
Texto Reynivaldo Brito
Fotos: Arlindo Félix e Lula Carvalho




Solange, condenada sem Júri sofre há mais de trinta anos.
As lembranças de um passado triste, incompreendido e marginalizado levaram Solange Ribeiro, uma moradora de Alagados – bairro de palafitas que abriga mais de 100 mil pessoas, - a escrever um livro intitulado “Condenada Sem Júri”, onde relata toda sua dor. Seus contos, poemas e pensamentos ecoam como gritos contra a marginalização a que vem sendo conduzida desde sua infância. Sua aparência é de uma mulher frágil, mas que tem uma grande facilidade de se comunicar com as pessoas e uma vontade ferrenha em vencer.
Assim 17 anos depois que surgiu “Quarto de Despejo”, de Carolina Maria de Jesus, a favelada paulista recentemente falecida, eis que outra moradora de uma área-problema resolve transportar para o papel os seus sofrimentos. O seu maior sonho é editar o livro na esperança que todos os problemas que enfrenta sejam solucionados. Com a editoração do livro, Solange Ribeiro espera educar seus setes filhos e “melhorar a situação de minha família”. Ela não sabe que Carolina Maria de Jesus, mesmo depois do sucesso do livro, levou uma vida humilde e de sacrifícios até sua morte.
O livro
– Estávamos exatamente no ano 1940 quando as enchentes ameaçavam transbordar aquele famoso Rio Paraguaçu. Numa cidadezinha do interior, por nome São Felix, nascia mais uma criança do sexo feminino que puseram o nome de Solange. A alegria ao nascer foi nenhuma. Nasci na Segunda Guerra Mundial e vim para uma guerra de conflitos sentimentos que hoje vivemos. Pois foi minha concepção, e fui envolvida numa rede de conflitos que viviam meus pais. Eles que não conheciam a palavra amor. Poderia ter nascido uma heroína, pois São Félix é irmã gêmea de Cachoeira, a Cidade Heróica, que resistiu contra o invasor estrangeiro, Mas, não foi nada disto. Não posso jamais imaginar o que se passava dentro de seus sentimentos. Nunca pensei que por ser filha adulterina o destino me odiasse a passos lentos. ”Naquele tempo não tinha maturidade para julgá-los”. Estas palavras estão contidas no capitulo principal e que dá o nome ao livro da favelada Solange Ribeiro. Ela continua fazendo um relato amargurado de sua infância. Fala de suas decepções e do comportamento sexual irregular de seu pai que tentara até possuí-la.
Estudou o primário em São Félix, uma cidadezinha que dista quase cem quilômetros de Salvador. Aos quatro anos de idade foi morar com a esposa de seu pai de nome Onélia Bastos Ribeiro, que ainda reside na Cidade de Cachoeira. Seu relacionamento com a madrasta continua até hoje e ela a chama de titia. Diz Solange que “titia é uma pessoa maravilhosa”. Mas, com vinte anos de idade Solange não aguentando mais as investidas de seu pai transfere-se para Salvador. Estávamos no ano de 1960 quando conheceu seu primeiro esposo com o qual teve dois filhos. Com cinco anos de casada seu marido suicidou-se, a exemplo de seu irmão de nome Frederico. Segundo ela, as mortes não tiveram qualquer ligação. “Foi pura coincidência. Meu marido tinha problemas de saúde e financeiros. Desde cedo que enfrentamos uma vida dura. Mas o pior foi o seu desaparecimento”.
Depois desde triste acontecimento, Solange continuou seu destino e teve mais dois filhos com um companheiro sobre o qual não gosta de falar, vive com um motorista de táxi, desempregado, chamado Nelson Santos, com o qual já tem dois filhos.
Os Poemas
Além do livro “Condenada sem Júri” Solange Ribeiro escreve poemas que trazem à tona os mesmos problemas relacionados em seus contos. Um deles intitulado: “Aos Heróis dos Alagados”, é este:
“Conheço grandes heróis, / Que são bem pouco lembrados / Sabem eles quem são? / Nossos queridos alagados. / Os anos vão passando / E nós naquela ilusão / Em ver nosso barraco em terra / Diante de nossa visão / As crianças estas coitadas / Não sentem seu grande drama / De crescer e ser gente um dia / Pelo asfalto do lixo / Brinquedos, remédios e comida / Não se fala é puro mito”.
Aí Solange demostra sua amargura em ver seus filhos brincando nas pontes que ligam uma palafita a outra. Constantemente crianças caem dessas pontes e espetam-se, quando não morrem afogados nas águas escurecidas e podres de Alagados.
Outros poemas de Solange fala de sua mãe que desapareceu quando tinha quatro anos de idade. Ela afirma que sua mãe mora no Rio de Janeiro, mas nunca teve notícias como está passando. Este ano escreveu um poema dedicado a sua mãe que diz: “A Mamãe” – “Quando lhe vi um dia / Tinha apenas quatro anos / Pensa que lhe esqueci? / Se pensa é puro engano! / Lembro da despedida / Foi um mês de novembro / Você chorava tanto / Vê como ainda me lembro! / Todos os dias eu fico / Esperando a sua volta / Creio que nesse dia mamãe / De saudades estarei morta!...”
Ela não resiste e apela para que sua mãe apareça pois “era bem importante que reencontrasse minha mãe. Papai já morreu e tenho apenas a minha “titia” que está com a saúde muito abalada”.
“Meu pai morava em Cachoeira e trabalhava como escriturário numa firma de exportação e dominava alguns idiomas. Falava com muita desenvoltura. É tudo que lembro, além das investidas, que muito me marcaram”, adiantou.
O Sonho
O maior sonho, no momento, de Solange Ribeiro é editar o seu livro. Foi com este objetivo que procurou o radialista França Teixeira, que tem um programa esportivo na Rádio Clube da Bahia. Fez uma carta e levou o caderno onde estão contidos seus escritos. Mas infelizmente não teve oportunidades de falar com o radialista. Esteve duas vezes, sem sucesso, na estação. A única pessoa que ouviu a favelada foi uma recepcionista que a recomendou as redações dos jornais locais. Aí continuou sua peregrinação e foram publicadas duas pequenas matérias sobre seu livro. Em seguida uma estação de televisão fez um filmete mostrando o seu barraco e falando sobre seu livro. Diz Solange que “agora estou começando a lidar com pessoas humanas, capazes de compreender o meu sofrimento. Eu já fui procurando por um senhor da Editora Lampião, de São Paulo. Espero, com a confiança em Deus, que meu livro seja editado. Com ele quero mostrar as pessoas os meus sofrimentos. Na esperança que alguém olhe por mim e por milhares de pessoas que moram nestes barracos de Alagados”.
“Editando este livro – continuou – espero modificar toda a minha vida e conseguir a educação de meus sete filhos. Nenhum deles está estudando, por falta de fardamento e livros”. Expliquei a Solange que hoje as crianças poderão ir para a escola que lá elas ganhariam fardas e livros com recursos da caixa escolar. Porém mostrou-se desinteressada, talvez já desesperançada com tanta miséria. Em seguida deixou escapar que “uma moça me deu vários cadernos”. Nesses cadernos que foram dados para as crianças ela esta escrevendo seus contos e poemas.
A miséria
O barraco onde reside Solange Ribeiro, seus setes filhos e o companheiro Nelson Santos não mede mais de três metros quadrados. O piso é de tábuas velhas com grandes buracos por onde passeiam ratos e insetos. Nas paredes de tábuas de caixotes estão escritos vários pensamentos de sua autoria. Eis alguns dos pensamentos: “Antes de condenar-me procure absorver teu próprio eu“. Outro diz o seguinte: “O ignorante é o sábio oculto”. Além destes existem outros pensamentos e alguns em francês, língua que aprendeu quando estudou para submeter-se a um concurso público para o cargo de postalista. Ela foi reprovada devido a seu grau de instrução, primário incompleto.
Atualmente nenhum membro da família de Solange está trabalhando. A comida está sendo enviada pelos vizinhos. A luz e água foram cortadas por falta de pagamento. Segundo revelou “depois que fui divulgada caiu um chuvisco sobre nós. O Nelson (seu companheiro) desempregou-se, cortaram a luz e a água. Mas não há de ser nada porque Deus é mais”. E continua: “Atualmente ninguém está trabalhando. Já trabalhei, mas isto foi antes de casar. O primeiro emprego foi na firma construtora Soares Leone como telefonista de PBX. Em 1962, já casada, trabalhei numa empresa técnica em eletricidade, como telefonista. De lá nunca mais trabalhei fora de casa. Talvez por isto minha situação financeira tenha piorado, porque quando meus companheiros se desempregavam a coisa ficava preta”.
Solange atribui que uma das principais razões do seu estado de miséria é devido à sua condição de filha ilegítima. Em vários trechos do livro fala sobre este problema, vejamos: “resolvi escrever este livro porque é parte de minha vida. Nele eu desabafei e conto minha condição de filha adulterina. A caneta e o caderno foram meus maiores amigos nos instantes mais cruciantes de minha vida. A minha presença quase ninguém percebia. Era feia, magra, sem nenhuma aparência física. Fui gerada não sei por quê. Eles não pensaram que no sexo deve haver reciprocidade de afeição. A responsabilidade de um novo ser a encarnar faz-se necessário á preparação. Sinto que ficaram revoltados com a minha presença no mundo. Não sei se lutaram por minha expulsão quando fui feita. A minha jornada evolutiva foi enfrentada com fortes minuanos, borrascas e insucessos, decepções e tudo que pode ferir um ser humano”.
O livro da favelada baiana é recheado de revelações sobre seu estado de miséria, suas decepções e especialmente sobre a condição de uma pessoa marginalizada pela sociedade competitiva. Ela tem plena consciência de sua pobreza, que poderia livra-se com a publicação do livro que escreveu. Basta dizer que é tão grande seu desejo que já bolou até a possível capa. No esboço que fez, Solange apresenta uma mulher sentada com olhar contemplativo, mãos cruzadas e com um vestido longo. No alto desenho uma balança. Num dos pratos escreveu a palavra paz e noutro Fé. A balança está ligeiramente inclinada para o prato onde está escrito paz. Uma paz que ela busca, através de seus escritos, num desabafo de seu sofrimento diário. A Fé, segundo ela, representa a esperança de que as pessoas tomem conhecimento de sua existência e façam alguma coisa por sua família.


MEIO AMBIENTE - MARISQUEIRAS:NA LAMA DO MANGUE, A RAZÃO DE VIVER

A TARDE – TERÇA-FEIRA, 2 DE JANEIRO DE 1979
Texto Reynivaldo Brito
Quando a maré está na vazante e o mangue a descoberto uma multidão de mulheres e crianças corre com latas vazias e outros vasilhames para enfiarem os braços, pernas e rostos na lama podre de onde retiram pequenos mariscos que lhes garantem a sobrevivência. São centenas de marisqueiras que infestam os mangues em todo litoral baiano, especialmente em Salvador, à cata de pequenos mariscos que são vendidos a preços populares nas feiras livres e mercados da cidade. As roupas coloridas e os corpos seminus formam um quadro curioso, principalmente devido ao movimento contínuo de escavar com as próprias mãos a lama à procura dos papa-fumos e ostras. Logo que as águas começam a subir, o mangue vai ficando encoberto e as marisqueiras voltam alegres para seus barracos de onde sairão novamente no dia seguinte para o trabalho. Se está chovendo nada pode ser feito a não ser rezar para que faça tempo bom e possam voltar à lama em busca do sustento de suas famílias.
Esta atividade antes marginal acaba de ser reconhecida pelo governo através um decreto presidencial que regulamentou a profissão das marisqueiras e hoje elas já podem recolher a Previdência Social para gozarem de seus benefícios. Este decreto é fruto de um trabalho que vinha sendo desenvolvido pelas Voluntárias Sociais da Bahia através de sua presidente, D. Maria Amélia Santos (esposa do atual governador da Bahia, Roberto Santos). Depois do decreto, as marisqueiras de todo o país já têm todos os benefícios da Previdência Social, com direito a seguro de acidente do trabalho rural. Caberá, no entanto à Sudepe disciplinar o exercício das atividades dos novos beneficiários fornecendo-lhes as inscrições e os documentos comprobatórios.

                        NOS ALAGADOS
Na enseada de Itapajipe, em Salvador, está localizado o bairro dos Alagados onde residem sobre palafitas mais de 100 mil pessoas, muitas das quais vivem da cata de mariscos que é uma atividade importante, mas tudo indica que dentro de alguns anos essas pessoas terão que procurar outras atividades porque a enseada está altamente poluída por mercúrio e grande parte do mangue está sendo aterrada devido à implantação de um projeto habitacional. Naquele local predominam as pequenas ostras, papa-fumos, lambretas e rala-cocos. Já em outros mangues e baixios localizados no interior do Estado a poluição é quase inexistente e os aterros ainda não são necessários. Aí as marisqueiras ainda trabalham com certa segurança e tranquilidade.
A vida de uma catadora de mariscos é bem simples. Geralmente se deita por volta das 21 horas e acorda quando o sol começa a despontar no horizonte. Arruma nas latas e outros vasilhames, apenas pedaços de pano velhos para cobrir a cabeça e ruma para a lama. A hora de voltar depende da maré. “Quando a maré começa a subir a gente tem que sair, porque com a água alta ninguém pode trabalhar. Os mariscos ficam enterrados na lama e cobertos pela água e é muito difícil captura-los”, afirma D. Ermenegilda Santana, uma senhora negra de mais de 50 anos, que há 22 anos trabalha de marisqueira em Alagados.
Ainda não foi feito um levantamento completo de todas as marisqueiras da Bahia. No entanto, o delegado regional da Sudepe, Edvaldo Severiano dos Santos, acredita que existem centenas delas e cita que alas trabalham em cerca de 150 mil hectares de mangue. Para ele, este tipo de pesca não tem uma infraestrutura. Mas, está sendo implantado na Bahia um projeto bioestatístico, com vistas a controlar a pesca desenvolvida em toda costa baiana na área compreendida entre o Conde e Nazaré das Farinhas, dentre outros locais. Depois, será estendido até Porto Seguro e finalmente a Mouri, no extremo sul do Estado.
                                                                  DISPUTA
Poluído ou não, o marisco é ainda uma fonte de renda e a alimentação principal de centenas de pessoas. Os preços variam de acordo com a clientela, porém, um quilo gira em torno de Cr$ 50,00 e todos os turistas que visitam Salvador provam da “lambreta” que é uma pequena ostra vendida no Mercado Modelo como tira- gosto das batidas feitas com frutas tropicais. Aos sábados o Mercado fica lotado de gente jovem que toca instrumentos e toma as batidas ao som de berimbaus. Ninguém se lembra da poluição da enseada dos Tainheiros ou Itapajipe que mata milhares de mariscos. Também nos restaurantes dos hotéis de luxo e mesmo os localizados em toda orla marítima os mariscos são consumidos em grande escala. Os pratos são deliciosos, especialmente as moquecas que são feitas à base do azeite de dendê. Muitos acreditam que o fogo utilizado para cozinhá-los é necessário para “matar” a poluição.
Porém ,ao lado dos mariscos catados em Salvador e nos mangues do interior do Estado, já se consomem muitos outros importados de Alagoas e alguns estados vizinhos. Isto porque o marisco está se tornando difícil e a procura tem aumentado consideravelmente, especialmente depois da multiplicação dos restaurantes e da presença de turistas na chamada alta estação.
A verdade é que nas praias de Salvador já não se encontram com facilidade as lagostas, ostras, siris, caranguejos e camarões. Grandes quantidades vêm das ilhas que pontilham a Baía de todos os Santos e a maior parte de Alagoas, isto sem falar dos congelados que são comercializados nos supermercados.
O proprietário do restaurante Bargaço em Salvador, Sr. Leonel Evaristo da Rocha, revelou recentemente que usa duas caminhonetes frigoríficas para comprar mariscos em Maceió. “Há sempre uma indo e outra voltando de lá, de modo que dia sim, dia não, recebo siri mole, ostras gigantes, viúvas, lagostas e pitus”. Evidente que os mariscos menores ainda são encontrados em Salvador e que se é comprado fora sai mais caro devido ao transporte rodoviário que é dispendioso.
                                                                          CAMPANHA

Embora não se tenha ainda o número exato de marisqueiras no Estado, os técnicos ligados ao setor de pesca acreditam que existam mais de 10 mil em condições de serem beneficiadas. Para isto está sendo feito um trabalho de conscientização na Ilha de Itaparica, Conceição e outras localidades através da Secretaria do Trabalho e Bem-Estar Social. É a campanha do registro das marisqueiras que lhes garantirá a aposentadoria e assistência médica do INAMPS além da aposentadoria pelo FUNRURAL.


Para dar um caráter de maior segurança ás marisqueiras a Superintendência do Desenvolvimento da Pesca – Sudepe, órgão do Ministério da Agricultura, distinguiu a presidente das Voluntárias Sociais, Sra. Maria Amélia Santos, com o titulo de “Primeira Marisqueira do Estado da Bahia”, também pelos esforços que empreendeu e que resultaram na regulamentação da profissão de marisqueiras, oficialmente reconhecida pelo decreto presidencial n. 81563, de 11 de abril de 1978. Agora, elas estão sendo filiadas às colônias de pesca e têm garantidos todos os benefícios previdenciários.

terça-feira, 29 de novembro de 2011

CONSUMIDOR - TELEFÔNICAS IMPRESTÁVEIS

OPINIÃO

Reynivaldo Brito

As operadoras de telefones e de tvs a cabo batem recordes de reclamações. Os call centers são verdadeiros caldeirões do inferno. Mulheres e homens com vozes ensaboadas repetem como robôs respostas previsíveis. Quase nada resolvem e, você vai acumulando uma série de protocolos que nada valem.
Enfrentei dois problemas desde o último dia 22 de novembro do ano passado . O primeiro foi a Vivo, que decidiu por conta própria mudar meu plano do celular, que tinha há mais de 15 anos.
Sem qualquer comunicação, este plano pós pago se transformou em pré pago! A empresa não sabe dizer quem solicitou esta mudança. Pode? Isto me causou um prejuizo grande, porque meu celular passou mais de 15 dias só recebendo ligação. Virou um pai-de-santo, só recebia...
Tive que mudar de plano por imposição da operadora. Dei várias queixas a Anatel e nada resolveu. A Anatel virou um cabide de emprego sem qualquer poder de ação em defesa do consumidor.
O outro foi com a Embratel , que com certeza é uma das piores operadoras do país. Vive ai capengando. O telefone fixo de uma das lojas que tenho simplesmente ficou dando sinal de comunicação durante quase 30 dias! Fiz várias reclamações e nada foi resolvido.Decidi pedi a portabilidade para a Oi, esperei mais 10 dias de nada! A solução foi pedir um novo telefone a Oi que em poucos dias instalou , inclusive a internet. Como se pode ver para vender um novo plano elas agem com rapidez.
A Embratel ficou num jogo de empurra dizendo que havia um problema no comercial, depois virou um problema da fibra ótica da empresa que partiu e, em seguida silenciaram.O que adiantou as reclamações para a Anatel. Nada.
Quem vai ressarcir o meu prejuizo?
Aconselharam-me a procurar o Procon e o Juizado de Pequenas Causas .Tentei o Juizado , mas audiência só lá pro final de 2012. Desisti.
E, ainda dizem que somos a sexta economia do mundo. Para sermos um país civilizado falta muito.