Objetivo


segunda-feira, 26 de março de 2012

MEIO AMBIENTE - O QUE É QUE A BALEIA TEM ?

22 de fevereiro de 1982
REVISTA: FATOS E FOTOS GENTE
Fotos Waldir Argolo

Quase todo o Brasil viu, pela televisão, a fúria (ou a fome?) com que pescadores, auxiliares e gente do povo retalharam a baleia que fazia evoluções nas imediações do Yatch Club da Bahia. A maré estava baixa e o animal batia contra os arrecifes. Avistado, foi imediatamente cercado por várias embarcações de pequeno porte que o encurralaram na praia da Preguiça para o banquete coletivo. Ninguém se lembrou dos ecologistas nem das canções de Roberto Carlos em favor da espécie em extinção. As entidades de defesa ecológica nunca apareceram em situações semelhantes e assim sozinha e fora de seu habitat, à baleia foi trucidada. No dia seguinte, de suas sete toneladas só sobravam os ossos e um tremendo mau cheiro que enfestava o ar da praia.

TURISMO - ILHÉUS TEM PINTA DE CAPITAL


REVISTA: Manchete 1980
Texto: Reynivaldo Brito.
 Fotos: Nelson Santos

No lendário berço de Gabriela, o passado e o presente convivem harmoniosamente formando um grande futuro


A capital mundial do cacau, terra dos frutos de ouro e berço de Gabriela, é um dos locais mais privilegiados em todo o litoral brasileiro. Suas praias quase inexploradas oferecem recantos paradisíacos aos visitantes que para lá se deslocam em busca de paz na chamada alta estação, vindo através da BR-101 (Rio-Bahia) ou por vias aérea e marítima. Lá estão situadas as maiores plantações de cacau e extensões de praias margeadas por densa faixa de coqueiros. Tem ainda uma baía calma, onde outrora aportavam os navios de pequeno calado no velho porto, cuja construção foi iniciada por volta de 1924. Dois anos depois o cargueiro Falco levava diretamente para Nova Iorque uma carga de 47.150 sacos de cacau produzido por uma civilização marcada pelo suor e violência. Era o início e o reconhecimento de um trabalho que, com o passar dos anos, foi extremamente modificado e a violência deu lugar à técnica. De lá para cá milhares e milhares de sacas de cacau, massa, manteiga e torta são transportadas para os mais longínquos portos. Hoje, Ilhéus tem um moderníssimo porto em mar aberto, o porto do Malhado, que está constantemente lotado de navios cargueiros que trazem produtos manufaturados e levam para a Europa, Oriente e outros locais os frutos de ouro, que tanto representam nas exportações brasileiras.

A cidade de Ilhéus não é um ponto perdido no mapa do Brasil e já saiu do tempo em que era o cenário ideal dos romances de Jorge Amado, mas guarda com orgulho todos os traços marcantes da civilização do cacau. Daquele tempo carrego consigo o orgulho, o espírito malicioso, o humor e a sinceridade que estão estampados nos personagens do seu filho e grande escritor de renome mundial. Hoje, é uma cidade moderna, com 100 mil habitantes, ligada ao Brasil e ao mundo por redes de telefone e telex. Seu aeroporto tem capacidade para pouso e decolagem de grandes aeronaves, e as quatro companhias aéreas de vôos domésticos têm escala diária e apresenta um movimento de passageiros igual a muitas capitais nordestinas. Tem ainda nove agências bancárias e um movimento comercial de porte médio. Em suas lojas podem-se encontrar os mais novos lançamentos da moda internacional. Assim seus habitantes souberam aproveitar a dádiva da natureza plantando e colhendo o cacau – a planta dos frutos de ouro – e construíram uma cidade cheia de beleza e riqueza.
Riquezas naturais. Existe no município de Ilhéus uma lagoa maior que a Rodrigo de Freitas, a lagoa Itaípe, ou Encantada, e sobre ela existem várias lendas que fazem parte do folclore ilheense. Inúmeras pequenas cascatas nela despejam suas águas e as plantas aquáticas lá existentes resultam em reflexos indescritíveis, que aguçam a imaginação dos supersticiosos: a estes, o fenômeno aparece como sendo obra “dos duendes”. As ilhas flutuantes, cheias de jacarés, barrancos que se desprendem das margens e saem boiando, são vistas pelos nativos como diabos e outras conceituações. Na pedra da Arigoa, à meia-noite, ouvem-se lúgubres dobrar de sinos e, ao som de gemidos profundos e tétricos, canoas transportam sisudos jesuítas em uníssonas orações, como bem descreve o professor Arléo Barbosa.
Logo à entrada, para os que chegam por mar, encontra-se o morro de Pernambuco, coberto por um tapete verde, e durante as noites um pequeno farol anuncia a presença de arrecifes. É o guardião da entrada da baía onde circulavam os navios que se destinavam ao antigo porto, hoje abandonado.
Grande área do município apresenta a floresta fluvial tropical e o clima é agradável variando de 24,5C a 30C. No fundo dos vales há uma vegetação mais exigente, com as palmeiras que fornecem o palmito e as belas samambaias.
A fauna é típica da Floresta Atlântica, com muitos animais silvestres, como o porco-do-mato, paca, cotia, raposa, veado, quati, papa-mel, preguiça, ouriço-cacheiro, tamanduá-bandeira e algumas espécies de macaco: guariba, sagui e jupurá, que se alimentam de frutos, sobretudo de cacau, e por isto são caçados impiedosamente pelos agregados das fazendas. Tem ainda uma variedade incalculável de aves, entre as quais papagaios, periquitos, araras, arapongas, martim-pescador e muitas canoras a exemplos do curió, pássaro-preto, cardeal e muitas outras. Nos rios e lagos encontram-se muitas lontras e jacarés.
A cidade. A cidade de Ilhéus encanta o turista que a visita pela riqueza de sua topografia e pelo seu clima de poesia. Logo no centro da cidade está a Avenida Soares Lopes, com seus dois quilômetros de praia salpicada de amendoeiras e onde se descortina o horizonte e sopra um ar agradável do Atlântico. Durante as noites, os jovens passeiam de carro e, sentados nos bancos, ficam dezenas de casais de namorados, tranquilos, porque a violência e o medo, tão presentes nas cidades grandes, ainda não chegaram por lá.
No fim desta avenida ergue-se, majestosa, a catedral de São Sebastião, uma igreja de linhas góticas com suas torres eriçadas como a ferir o imenso céu azul. Na parte interior do templo, a brancura de suas paredes e o número reduzido de linhas curvas chamam a atenção do visitante. Subindo o Outeiro de São Sebastião, temos, no seu topo, uma igrejinha construída de pedras pintadas de branco e preto, de onde pode-se apreciar uma deslumbrante vista de toda a praia da Avenida, do mar aberto e da praia do Pontal, onde à tardinha aportam dezenas de barcos repletos de peixes. Subindo o Morro da Vitória, encontramos a igrejinha de Nossa Senhora da Vitória, e logo acima, na colina das Quintas, a capela de Nossa Senhora da Piedade, pertencente às irmãs ursulinas, que tem um altar-mor dos mais belos deste país. Aí funciona um colégio do mesmo nome, onde estão em regime de internato muitas das filhas dos fazendeiros da região. Prosseguindo o nosso passeio pela Capital do Cacau, atravessando a Ponte Lomanto Junior, de arquitetura moderna, que liga o Pontal ao continente por cima do rio Cachoeira, notamos que as praias têm ondas bem suaves e ali as águas são mais turvas devido às águas dos rios que desembocam no mar. É aí que está o ancoradouro natural, muito usado pelos pescadores, um verdadeiro cartão-postal.

Não podemos esquecer as extensas praias Norte e Sul onde estão os refúgios dos enamorados. Na praia Sul está o rio Cururupe, que forma uma piscina natural ao desembocar no mar e onde pode-se tomar banho de mar e água doce.


A dezoito quilômetros ao Sul, pode-se deliciar com a beleza das águas milagrosas da Estância Hidromineral de Oliveira, com sua pracinha, tendo ao centro uma igrejinha e a Toromba, que é uma queda d’água e piscina.

Sua gente. O povo de Ilhéus é acolhedor e ainda encontramos muitos dos personagens dos romances de Jorge Amado. Uma das figuras mais conhecidas é Demosthenes Berbert de Castro, o Demostinho, que dizem ser o Mundinho, o beijador das meninas, quando rapaz, da novela Gabriela, e agora, um defensor permanente das coisas de Ilhéus.

Novo estado. Cansados de fornecer grandes somas de recursos através de comercialização e industrialização do cacau e de receber pouca coisa em troca, os habitantes de alguns municípios da região cacaueira, entre os quais Ilhéus, estão iniciando uma campanha visando a criação do Estado de Santa Cruz, que teria como capital a terra de Gabriela. O assunto já foi examinado por uma comissão encarregada de estudar a redivisão territorial do país e até um mapa já existe, abrangendo vários municípios baianos. Todos acham viável a criação deste estado e um dos mais ferrenhos defensores é o Demostinho. Assim os municípios de Uruçuca, Itajuípe, Coaraci, Itabuna, Itapetinga, Lomanto Junior e muitos outros formariam o novo estado, que seria rico em cacau, café e minérios.
Ilhéus, sendo a principal cidade da região e como já dispõe de uma infra-estrutura de cidade moderna, seria a capital. Basta dizer que no último ano já entraram mais pedidos de construção que nos últimos seis anos. São vinte e dois projetos em média que, diariamente, são aprovados pela Prefeitura Municipal. O município está com 160 mil habitantes e na cidade cerca de 99 e 100 mil habitantes. Tem doze distritos e 40 povoados, alguns até com 9 mil habitantes. A arrecadação prevista para este ano é de 58 milhões e no próximo está orçada em cerca de 98 milhões, Segundo o atual Prefeito Antônio Olímpio da Silva.
No ano passado foram exportados mais de 800 mil sacas de cacau, pelo porto do Machado, sendo que 600 mil produzidas em Ilhéus e 200 mil em Camacã, que é segundo produtor do estado.
A Universidade de Santa Cruz, situada na rodovia que liga Ilhéus a Itabuna, conta hoje com mais de 3 mil alunos matriculados nos cursos de Direito, Filosofia, Administração e Economia, e colégios de nível secundário.


POLÍTICA - TRABALHO - LÍDERES DO MOTIM TIVERAM APRENDIZADO

OPINIÃO

Confesso que não fiquei surpreso com as gravações feitas pela Polícia Federal, com autorização da Justiça, das conversas entre os líderes do movimento grevista dos policiais militares.Os acontecimentos que se sucederam durante a paralisação com ônibus escolar queimado, arrastões, invasão e roubo em lojas, ondas de boatos aterrorizando a população, desobediência a ordem judicial, depredação e roubo do patrimônio público e privado , dezenas de assassinatos e homens armados encapuzados, à semelhança de bandidos, dando tiros em todas as direções nas avenidas já comprovavam para toda a população que essas pessoas estavam exorbitando e mereciam ser encarceradas da mesma forma que os bandidos que pululam a nossa cidade.
Os verdadeiros policiais militares não merecem ser liderados por este bando de ex-policiais, expulsos da Corporação, e de seus seguidores comparsas .
Eles aprenderam a agir desta forma com a mesma militância que levou ao poder algumas autoridades que estão ai reclamando. O própio presidente da tal associação, Marcos Prisco, que liderou este motim, declarou que teria sido escondido na sede de um sindicato na greve de 2001 por um sindicalista que hoje é uma alta autoridade. Portanto, são métodos utilizados equivocadamente por militantes radicais que agora na situação provam do veneno que espalharam em outras épocas. Como um bumerangue que se lança no ar e uma hora ele retorna para o mesmo lugar, agora é a greve que atrapalha sua administração, prejudica a população e suja o nome da nossa terra.
Como não são baianos algum dia arrumam as malas e vão embora deixando para trás esta nódoa impagável.

sexta-feira, 23 de março de 2012

CANGAÇO - DADÁ : A ÚLTIMA SOBREVIVENTE DO CANGAÇO

Ela dava tiros na polícia e costurava com Lampião. Hoje, em Salvador, a viúva de Corisco continua na máquina. Mas seu trabalho é consumido pelas senhoras da sociedade baiana

“Lampião chegou na minha casa e fez uma baderna danada. Na época, eu morava na fazenda Macururé, entre os Municípios de Glória e Paulo Afonso, no interior da Bahia. De repente, Lampião chamou Corisco e, em tom de brincadeira, disse pra ele: Como é: Você não quer desmamar esta menina? Corisco deu uma gargalhada, me pegou no colo, me colocou na sela do seu cavalo e saiu a galope. Depois foram doze anos de luta, correndo ou enfrentando a polícia por toda parte.”
Era 1927, Sérgia da Silva Chagas – que ficaria conhecida pelo apelido de Dadá – era uma garota de 13 anos. Cinquenta anos depois daquele galope que mudou sua vida, Dadá fala de Corisco com ternura – “nos amamos muito” – mantendo a imagem do Capitão Virgulino Ferreira da Silva, o Lampião, muito viva: “Ele era um homem bom. Um homem de palavra, que só falava uma vez e não contava vantagens. Fico triste quando vejo pessoas escreverem coisas que Lampião nunca fez. Os livros que têm saído sobre o cangaço só apresentam vantagens da polícia e coisas terríveis que nunca fizemos. São histórias inventadas para vender livros e filmes. Histórias de misérias, violências e crueldades que não praticamos. Tudo para venderem mais. É verdade que houve muitas mortes, mas a maioria era de traidores que não mereciam continuar vivos. Lampião era um homem bom. Distribuía com os pobres tudo o que tinha.”

Se Lampião distribuía entre os pobres tudo o que tinha, Dadá sustenta com o que ganha na sua velha máquina de costura mais de 10 pessoas – filhas e netos que dependem dela. Ironicamente, Dadá sobrevive hoje com o que aprendeu na caatinga: a costura. Mais uma, ela volta ao passado: “No cangaço, todos costuravam. Os homens cosiam as partes mais duras, os arreios de couro; as mulheres faziam os vestidos, as calças e os embornais. Quando, durante um certo tempo, a gente conseguia se esconder, cada companheiro recebia metros de fazenda, linha, botões e outros materiais. Todo mundo trabalhava e eu me lembro que Lampião gostava muito de costurar.”

Segundo Dadá, foi ela quem introduziu novos desenhos nos enfeites dos chapéus de couro dos cangaceiros e nas jardineiras dos dois lados: “Quando fiz uma jardineira para enfeitar o chapéu de Corisco todos quiseram uma igual. Assim, as mulheres do bando aprenderam a coser novos enfeites e os chapéus ficaram muito mais bonitos”.

Com tristeza na voz, falando lentamente, relembra outros momentos menos felizes: “Todos os quatro filhos que tive com Corisco – Josafá, Maria do Carmo, Maria Celeste e Sílvio Hermano – nasceram na caatinga, mas eu não pude ficar com nenhum deles. A gente sempre tinha que arranjar uma pessoa de confiança para entregar as crianças, senão a polícia ia buscar elas e até podia matar. A gente também não podia carregar um recém-nascido no meio daquela correria toda. Tinha vezes que a gente ficava muito tempo, até seis meses, escondido na fazenda de algum amigo”.

A vida de Dadá mudaria, novamente, numa tarde de verão no início de 1939 na localidade próxima ao município de Miguel Calmon, interior da Bahia.

Lampião fora morto no ano anterior; Corisco, já aleijado, foi denunciado por Velocidade – um ex-companheiro de cangaço. Dadá não esquece: “Corisco nem tinha mais condições de pegar numa arma, tinha montado uma lojinha e vivia honestamente. Veio a denúncia e começaram as perseguições, do mesmo jeito que tinham feito com Lampião. A gente já tinha abandonado o cangaço. Mesmo assim, a gente fugiu – mas foi em vão. Fomos atacados e meu marido morreu varado por vários tiros de metralhadora. Eu também fui baleada. Com a perna estraçalhada, me botaram na carroceria de um caminhão. Nem gosto de falar naquela viagem. Tudo o que eu tinha desapareceu”.
Hoje, com a perna amputada, Dadá foi obrigada a trocar as caatingas e serras do Nordeste por uma modesta casa em Salvador onde mora com seu segundo marido – um velho pintor de paredes aposentado – e passa os dias pedalando numa velha máquina de costura. Com a mesma técnica complicada, e ainda asando lona – material forte também utilizando nos embornais em que os cangaceiros colocavam balas e munições – continua produzindo as mesmas coisas. Só que, agora, seus embornais se transformaram em peças elegantes nas mãos de moças e senhoras da sociedade baiana. Em seus olhos cansados, só existe um sonho – aposentar-se como costureira – enquanto por seus dedos desfila uma verdadeira memória do cangaço.

Reportagem de Reynivaldo Brito / Fotos de Lázaro Torres

quinta-feira, 8 de março de 2012

LEONEL MATTOS - EVOLUÇÃO EM TRES LINGUAGENS

   ARTES VISUAIS                                                    

Todos conhecemos a inquietação e a criatividade do artista Leonel Matos, este baiano de Coaraci, que se fixou na Cidade Baixa, exatamente no bairro da Boa Viagem e, de lá vem alçando seus vôos acompanhado de suas aves repletas de significação.
Estive visitando a sua exposição no Espaço Cultural da Caixa Econômica Federal e pude constatar a evolução da obra do artista. Ele não tem receio de utilizar qualquer tipo de material do mais simples ao mais complexo e díspare. Lança mão do que está ao seu alcance e vai criando na sua trajetória imprevisível. Assim, nos presenteia com obras de arte de qualidade, as quais podem ser mostradas nos mais modernos e exigentes espaços do mundo.
Tem um olhar diferenciado de nós mortais. Vê e transforma o que não vemos. Enxerga o invisível e realiza o seu trabalho para o deleite de nossos olhos e nos instiga a pensar.
Encontrei, na visita que fiz a exposição, o artista e psicanalista Cesar Romero, que é um dos grandes nomes da nossa arte atual, além de escrever sobre arte. Lá conversamos sobre Leonel Matos e fiquei observando Cesar analisando tres objetos que ele criou utilizando rolos de papel higiêncico para se expressar.Os objetos nasceram basicamente de sua discordância do local onde colocaram sua exposição.
Porém, como lembrou Cesar inconscientemente Leonel expressa o que Freud observou em nós míseros seres humanos que a nossa primeira produção são os excrementos. E, lá está em sua obra o papel higiêncico fabricado com sua finalidade óbvia. Mas, aqui Leonel Matos lhe dá uma sobrevida digna e instigante.
É até difícil e talvez alguns vejam fora de lugar falar nesta funcionalidade orgânica de nós humanos, quando estamos olhando para a leveza e grandeza da obra de arte.
Também tem objetos feitos de resina e me sensibilizou muito o intitulado  "Símbolo Urbano"(foto). Merece estar num lobby de um desses prédios modernos, que ora se constrói em Salvador ou mesmo no acervo de um dos museus locais, pela sua expressividade .Certamente com o decorrer dos anos as pessoas vão lembrar de quem os criou.
Já os desenhos têm uma marca reconhecida de longe por todos que gostam de arte nesta cidade. Esta icnografia tem mil soluções e formas de serem apresentadas. Têm uma leveza impressionante.No primeiro momento contrasta com esta inquietação de Leonel, pensador rápido que atropela o seu fazer, e exige do espectador atenção redobrada para acompanhar o seu raciocínio.Traços finos, coordenados dão leveza  a esses objetos que me dão a impressão de almejarem sair daqueles espaços limitados e ganhar o universo.

quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

COMPORTAMENTO - TOPLESS: O BRASIL DESCOBRE OS SEIOS


 Reportagem Reynivaldo Brito e Marina Wodke
Fotos Aristides Batista e Antonio Carlos Esteves


                                                                                  2 de Fevereiro REVISTA: Manchete n.1.450






 As baianas fazem topless na praia dos Artistas


                      A gaúcha mostrou tranquilidade ao exibir os seios na praia.

Do Rio Grande do Sul ao Pará, todas estão aderindo à nova mania . A onda veio de longe, mais exatamente de Saint-Tropez. Demorou um pouco a chegar – culpa do nosso subdesenvolvimento. Mas agora parece que chegou, foi visto e venceu: o topless está em todas, nas praias do Sul e do Norte. Semana passada, foi a moça paraense que passou de moto – e de moto própria estava de seios à mostra. Agora, nas praias sulistas, as jovens exibem o busto que os ares pampeiros lhes deram. Na Bahia, o Cardeal Dom Avelar Brandão faz advertências, pois baianas e baianos aderiram à moda, só que, para os homens, à falta de seios, eles exibem outras partes que ficam à ré dos acontecimentos. Tudo bem. Se Nostradamus ressuscitasse não ficaria escandalizado: ele previu que no final dos tempos tudo ia dar numa grande confusão. No Rio, tudo bem numa boa; na Bahia, acalorados debates; no Recife, entrou areia no topless Para não fugir à tradição, o topless mais extravagante foi o baiano, que esnobou o top e preferiu o bottomless, variante bissexual do mesmo fenômeno. Deu-se que dois rapazes, em praia central, tiraram os calções e começaram a pular diante da máquina fotográfica de um amigo. Uma advogada que passava pelo local ficou escandalizada, chamaram a polícia, houve ameaças de enquadramento na lei que proíbe os atentados ao pudor e ofensa aos bons costumes. O episódio ocorreu no mesmo dia em que a polícia baiana liberou o topless quadrado e convencional, ao mesmo tempo em que dava conselhos aos maridos cujas consortes iam curtir a novidade: os esposos devem dar uma de esportiva espartana (e baiana) para não se sentirem ofendidos com algumas piadinhas – que sempre as há em horas tais. Já no Recife, as coisas foram bem diferentes: após garantir o uso de topless através de um habeas corpus preventivo, a estudante Carlene Barbosa, 19 anos, dirigiu-se fagueira à praia da Boa Viagem, mas foi surpreendida com a reação não das autoridades, mas da própria população. Resultado: foi obrigada a deixar a praia porque um grupo hostil chegou até a ação, jogando areia sobre ela.

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

CIDADE DE SALVADOR - A MORTE DOS SOBRADÕES DAS RUAS DO PELOURINHO



Revista Manchete
12 de agosto de 1978
Fotos Arestides Batista


Centenas de casarões oitocentistas que compõem o chamado Conjunto Arquitetônico do Pelourinho, em Salvador, estão ameaçadas de desabamento. Muitos já estão em ruínas devido à grande ocorrência de incêndios e depredações de toda natureza. O conjunto engloba várias ruas que vão do Terreiro de Jesus até o Carmo, onde estão localizados importantes monumentos históricos e igrejas, entre elas a Catedral Basílica, a Igreja de São Francisco, a do Carmo, e de São Domingos e a Rosário dos Pretos. Ali está também o Colégio dos Jesuítas e muitos prédios de inestimável valor arquitetônico, a exemplo do Solar do Ferrão. O Pelourinho é um dos pontos mais procurados pelos visitantes e tem fama internacional, por ser um dos poucos conjuntos coloniais localizados no centro de uma grande cidade. Foi ali que Salvador começou a se desenvolver e ali eram tomadas as decisões e realizados negócios na Bahia Colonial. Hoje, o turista vê apenas a Praça José de Alencar (mais conhecida pelo Largo do Pelourinho) com os prédios restaurados e com suas fachadas coloridas. Mas, ao percorrer algumas das ruas que estão por trás do largo, o visitante encontra dezenas de casarões em ruínas, o lixo tomando todo o leito das ruas e ruelas e as prostitutas perambulando a qualquer hora do dia.
São duas faces: o largo, que é o cartão-postal, e o restante do conjunto, que está desabando pela omissão dos órgãos responsáveis pela sua conservação e pelo descaso a que as várias irmandades religiosas relegaram seus imóveis. Esses prédios estão alugados a pessoas que os sublocam e ali residem centenas de famílias misturadas com a mais baixa prostituição. Poucos se atrevem a andar pelas ruas do conjunto, mesmo durante o dia, porque são alvo fácil de ladrões que arrancam os pertences das mãos dos visitantes e desaparecem misteriosamente por entre as ruínas dos casarões. Segundo informa o diretor da Fundação do Patrimônio Artístico e Cultural da Bahia, Mário Mendonça, seriam necessários inicialmente Cr$ 120 milhões para evitar que mais quarenta casarões venham a desabar. No entendimento que manteve com o governador da Bahia, Roberto Santos, foi informado de que o governo do estado não tem condições de liberar verba, que representa quatro vezes o orçamento anual do órgão que dirige.
Negócio. Ao mesmo tempo o arquiteto Mário Mendonça tocou num ponto crucial da questão: os proprietários dos imóveis tombados não se interessam em conservá-los, preferindo que o fogo os destrua ou que desabem, pois logo poderão ser desapropriados. É a filosofia do deixa-cair, como está sendo comentado em Salvador. O Conselho comunitário do Maciel, criado recentemente, que congrega religiosos e moradores da área, já denunciou por várias vezes pela imprensa baiana a necessidade de uma política mais eficaz e até agora nada de novo foi anunciado. No dia 10 de julho, mais dois casarões desabaram na Rua Gregório de Matos, deixando ao desabrigo mais de trinta pessoas. A maioria mulheres e crianças. Insistindo em suas dificuldades, Mendonça diz que até o próximo ano a Fundação não tem condições de preservar ou levantar os prédios desabados na Gregório de Matos. Esses casarões pertencem à Prefeitura de Salvador, à Irmandade de São Domingos e à Santa Casa da Misericórdia. Outros que ameaçam ruir estão nas ruas Inácio Acioly, Gregório de Matos, Francisco Moniz Barreto, no Paço e Ladeira do Carmo, totalizando, de acordo com o levantamento da Fundação do Patrimônio, cerca de quarenta imóveis.
Recursos. Já o diretor da 5a. Região do IPHAN, Fernando da Rocha Peres, revelou que solicitará recursos à direção nacional do órgão para serem aplicados nos casarões destruídos com o desabamento. Ele mesmo diz que é necessário uma política que venha a remover os problemas causados pela sublocação de vários imóveis pertencentes às irmandades e outras instituições baianas. Outros técnicos ligados ao problema asseguram que os proprietários cruzaram os braços na esperança que seus imóveis sejam restaurados pelos órgãos do governo e na realidade muitos deles não dispõem de recursos para recuperar os casarões. Os trabalhos de restauração são muito caros porque são demasiadamente demorados e exigem uma mão-de-obra especializada, além das limitações impostas a qualquer imóvel tombado pelo IPHAN. Assim muitos proprietários ficam à espera da tão prometida desapropriação. Enquanto isso, os casarões vão caindo e muitos certamente não serão reerguidos obedecendo à sua planta original. Para evitar maiores estragos, o trânsito está proibido parcialmente em vários ruas e também o estacionamento.
Um item que estaria prejudicando o trabalho de recuperação da área: é imprescindível que a Fundação seja proprietária do imóvel. Com isto o órgão será transformado dentro em breve numa grande imobiliária e obrigado a sublocar muitos dos casarões restaurados, porque não terá condições de ocupa-los na totalidade. Mas para isto seriam necessários muitos milhões de cruzeiros e o seu orçamento minguado nem está dando para escorar aqueles prédios ameaçados de desabamento. Por outro lado, uma modificação nesse item, ou seja, a Fundação passaria a recuperar qualquer imóvel que achasse de interesse arquitetônico ou histórico, iria beneficiar de imediato o proprietário ou proprietários do mesmo, e nunca mais teria o dinheiro aplicado de volta ou qualquer autoridade sobre ele. Diante desse impasse e das verbas precárias, só resta assistir de longe e denunciar o descaso a que está relegado um dos mais importantes conjuntos arquitetônicos do país. Paralelamente, a febre imobiliária que assola as capitais brasileiras, e também Salvador, vai atacando outras áreas consideradas privilegiadas e perto da orla marítima, onde a valorização é galopante. É para essas áreas que são desviados os recursos governamentais no oferecimento de toda sorte de serviços e infra-estrutura.
Escoramento. Antes de esgotar seus recursos, a Fundação do Patrimônio Artístico e Cultural da Bahia fez algumas restaurações importantes, especialmente no Largo do Pelourinho, até mesmo com financiamento do governo federal. Essas obras abrangem também o Quarteirão 10-M, parcialmente habitado, da Ladeira do Carmo, dos números 28 e 30, da Rua João de Deus, dos números 12 a 18, da Rua Gregório de Matos, vizinhos aos dois prédios que desabaram recentemente, o número 30 da Rua Leovigildo de Carvalho, e o 28 da Rua Inácio Acioli. Mas este escoramento é uma etapa primária do trabalho, que deve seguir-se à de consolidação e restauração. Como a Fundação não dispõe de mais dinheiro, esses prédios estão ameaçados de desabar.
Defesa. O diretor do IPHAN na Bahia, Fernando da Rocha Peres, conhecendo os problemas que enfrentam os monumentos baianos, encaminhou ao Governador Robertos Santos um expediente onde sugere a criação de uma comissão especial para elaboração de um elenco de medidas protetoras dos bens imóveis e móveis de excepcional valor histórico e artístico existentes no estado e mais particularmente em Salvador. Esta comissão deveria ser coordenada por um dos diretores das fundações estaduais e presidida pelo secretário da Educação e Cultura. Dessa comissão participariam também representantes da Prefeitura de Salvador, do IPHAN, Secretaria de Segurança Pública, Arquidiocese de Salvador, Corpo de Bombeiros, Associação Baiana de Imprensa, Fundação Cultural do Estado e Fundação do Patrimônio Artístico e Cultural da Bahia. Ele também defende que o governo deve solicitar da Secretaria de Planejamento da Presidência da República e do Ministério da Educação e Cultura, através dos órgãos competentes, os recursos necessários para cobertura financeira do que for planejado e deverá ser executado.
Cartão-postal. Os prédios do Largo do Pelourinho e da Rua Alfredo Brito (a que desce do Terreiro de Jesus até o Largo) estão pintados e restaurados. Ali o turista pode fazer belas fotos coloridas sob muitos ângulos. Mas o problema se agrava nas ruas paralelas e transversais, onde vivem centenas de prostitutas e subempregados. Elas ficam sentadas nos batentes dos velhos casarões, dirigindo palavrões e convites aos passantes. Mas se encontram também no Pelourinho vários artesãos que trabalham em tipografias rudimentares, fazendo molduras e flores e desenvolvendo um rico e variado sistema primário de produção. Enquanto as verbas não chegam, os casarões continuarão caindo e sendo destruídos pelo tempo e pelo fogo. Criada há dez anos, somente agora a Fundação do Patrimônio Artístico e Cultural da Bahia terá o seu plano diretor, que absorverá todos os problemas da área, incluindo o Modelo Operacional de Recuperação Física Ambiental e Cadastramento e o Modelo de Ocupação Físico-Social, com vistas a promover o desenvolvimento social. Para conclusão do plano, teremos que aguardar uns quatorze meses, quando estarão concluídas algumas das pesquisas encomendadas junto aos moradores de toda a área tombada.
Os turistas continuarão tirando seus retratos ao lado dos velhos casarões do Largo do Pelourinho, fotografando baianas ricamente vestidas e mesmo comprando berimbaus que não emitem um som afinado. Esta imagem continuará assim correndo os quatro cantos do país e mesmo do exterior, vendendo a boa imagem preparada pelos burocratas do turismo. Mas também as mulheres continuarão habitando os fétidos casarões que ameaçam desabar, os marginais roubando os transeuntes desavisados e as irmandades permanecerão à espera de uma dádiva do céu ou da ajuda dos homens encarregados da política de conservação da área. São duas faces para serem vistas e vividas.
(Reynivaldo Brito/Salvador)

CONTROLE DA NATALIDADE - BAIANO ACHA QUE BRASIL PODERIA SER PIONEIRO


Revista Manchete 12 de agosto de 1978


Cientista baiano Elsimar Coutinho, que tem feito várias experiências no campo de reprodução humana, está convencido de que em pouco tempo haverá também bancos de óvulos (como já existem os de espermatozoides) e que qualquer mulher poderá contratar neles a implantação de um óvulo fecundado para ter um filho com determinadas características – moreno, olhos verdes, 1,75 de altura etc.
Embora ele assegure não haver muitas dificuldades – sob os aspectos técnico e humano – para a fecundação in vitro e posterior implantação no útero, faz questão de alertar que a experiência “tem de ser repetida algumas vezes” até o sucesso absoluto. “Nem sempre o óvulo fecundado que é introduzido na paciente se desenvolve”, afirmou.
O Dr. Elsimar Coutinho acha que se a experiência agora completada com êxito na Inglaterra tivesse sido feita aqui no Brasil, talvez a reação não fosse de imediata aceitação. “Mas como foi feita por um médico estrangeiro, todo brasileiro bate palmas. Não sei se alguém já pensou o que aconteceria se, por uma deficiência hereditária recessiva, a criança nascida em ambiente de laboratório apresentasse alguma deformação física. Certamente o médico seria acusado de fabricar monstrengos e condenado por organismos médicos. Seria crucificado vivo.”
Diz também o cientista que preconceitos e incompreensões impediram que o primeiro bebê de proveta da história nascesse na Bahia, pois sua equipe está preparada tecnicamente e em recursos humanos para realizar a experiência com sucesso. “O que me levou a abandonar o projeto é que estou respondendo injustamente a processos por ter prestado informações à imprensa sobre minhas experiências na área de reprodução humana. Isso porque alguns colegas que ocupam cargos em órgãos de fiscalização do exercício profissional não acompanham como deviam o desenvolvimento da ciência.”
Após lembrar que o Brasil tem “milhares de crianças que precisam ser adotadas”, o Dr. Elsimar admite não saber se seria justo colocar um programa assim como prioritário. Diz também que no momento está desenvolvendo alguns projetos prioritários na área da reprodução humana “que virão beneficiar não apenas uma ou duas pacientes, mas toda a coletividade”.
Para o cientista, o risco da fecundação in vitro e posterior implantação no útero “é relativamente pequeno porque quando se gera um óvulo defeituoso ele não implanta. Os defeitos maiores podem ocorrer depois da implantação, quando através do organismo materno o embrião é atingido por substâncias tóxicas que vêm determinar as deformações físicas. Mas qualquer mulher grávida está sujeita a isso”.
Quando à necessidade de a mulher se sujeitar á repetição da experiência até que ela obtenha êxito, argumenta o Dr. Elsimar que o mesmo ocorre com a inseminação artificial. E alerta: “Os colegas brasileiros que estejam em condições de realizar a experiência devem estar preparados para repeti-la muitas e muitas vezes.”

POLÍTICA - ESCRITOR VOLTA DO EXÍLIO


Manchete - 12 de agosto de 1978.
É chamado à polícia e retorna sua vida normal
Depois de oito anos de exílio, retornou a Salvador o poeta, escritor e sociólogo Fernando Batinga de Mendonça, que viveu no Chile, Alemanha Ocidental, Portugal e França, onde publicou algumas de suas novelas e contos. Chegou procedente de Lisboa, numa viagem patrocinada e organizada pelo Alto Comissariado da ONU, com sede em Genebra, porém, antes de partir, foi obrigado a assinar um documento declarando que retornava por livre e espontânea vontade e que, ao pisar em solo brasileiro, cessava qualquer garantia por parte das Nações Unidas. Mesmo correndo o risco de ser preso, Batinga preferiu voltar ao Brasil para, entre outras coisas, rever o filho de 8 anos de idade.
Na polícia. No dia seguinte ao desembarque, Batinga foi intimado a comparecer à Polícia Federal, onde teve de responder a mais de cem perguntas sobre suas atividades e contatos no exterior. “Achei normal essa convocação e fui tratado como um ser civilizado”, disse Batinga, acentuando que retornava com o propósito de reaprender o Brasil e ajuda-lo a sair “desta crise que não é só política, mas também, social, econômica e cultural”. Enquanto falava a MANCHETE, em Salvador, Batinga se preparava para retomar suas atividades regulares. Já tem uma viagem programada para o sul do país e lançará, ainda este ano, a novela Corpo da Morte, onde trata da violência do mundo atual. “E’ uma novela que fala de torturas, exílio e violência, mas tudo se desenvolve no contexto da ficção”, informa Batinga, que faz ainda outras observações: “Estivemos convivendo com outras sociedades e culturas e isso nos possibilitou uma vivência muito grande, que por certo estará refletida em nossa produção intelectual. É preciso saber que não estávamos lá a passeio e sim na condição de exilado, o que nos assegura outro plano de percepção das coisas”.
Sofrimento. Batinga saiu do Brasil em 1970 e foi para o Chile em companhia do também escritor José de Oliveira Falcon. Ao lado de boas recordações – a redação de vários trabalhos sobre os movimentos de libertação de países africanos e a publicação de artigos sobre a cultura brasileira –, há lembranças dolorosas, como o suicídio de Falcon, em 1971, em Santiago, de Maria Auxiliadora Barcelos, em Berlim, e de Frei Tito de Alencar, na França, todos eles exilados políticos. Batinga relembra também sua prisão, quando da derrubada do governo Salvador Allende, no Chile. Justamente com mais de seis mil pessoas, foi conduzido, em 1973, para o Estádio Nacional, onde muitos adeptos do regime deposto foram torturados e fuzilados. Em dezembro de 1973, por interferência direta de Bonn, conseguiu viajar para a República Federal da Alemanha, onde passou a trabalhar como professor na Universidade de Frankfurt. Ao se mudar para Portugal, impetrou um mandado de segurança para obter passaporte e retornar ao país, tendo ganho de causa, no Tribunal Federal de Recursos, por unanimidade. “Acredito que o Brasil não pode prescindir de nenhum de seus filhos, muitos deles altamente qualificados em vários setores da atividade intelectual”, completa Batinga.
(Reynivaldo Brito/Salvador)

segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

MÚSICA - VINICIUS : A VIDA ROMÂNTICA DE UM POETA


2 de janeiro de 1980
Revista Manchete
Depoimento a Reynivaldo Brito e Tarlis Batista
Foto Manchete
Não nasceu para negócios, mas para o amor e para a vida. No dia 19 de outubro de 1913, na Rua Lopes Quintas, 114, Gávea, o nascimento de Marcus Vinícius da Cruz de Melo Moraes trouxe alegria e preocupação. O pai tinha algum dinheiro, fizera maus negócios na ocasião, com o nascimento do garoto teve de emigrar, procurar vida mais barata. A família deixou a aristocracia da Gávea e foi para o Cocotá, na Ilha do Governador, então muito bucólica, sem ponte e sem praias poluídas.
Ali, o menino Vinícius tomou contato com a natureza, à vida desinibida e livre dos pescadores e dos pobres. Nunca perderia esse chão de infância.
Mas havia que estudar e na ilha não havia bons colégios. Vinícius é matriculado no Santo Inácio, onde reinicia, gradualmente, seu retorno à Zona Sul, mais precisamente, à Gávea, onde, aos 66 anos, morreria.
No colégio dos jesuítas, a fase espiritualista, católica, conservadora, as influências de pias leituras e, mais tarde ainda, na Faculdade de Direito, a influência de Santiago Dantas e Octavio de Faria. Vinícius não chegou nunca a ser um reacionário, mas andou perto.
Como acontecia naquele tempo, falsificava-se facilmente a idade para um menino precoce poder cursar a faculdade. Com 16 anos, já acadêmico de Direito, faz a primeira letra, Loura ou Morena, música de Haroldo Tapajós, gravada em disco Colúmbia pelos Irmãos Tapajós: Paulo e Haroldo, Ano do evento: 1932. Repetiu a dose com os mesmos parceiros, fazendo foxtrotes que tiveram algum sucesso. Mas não dava para ganhar a vida. Com 19 anos, já formado, sonda o mercado de trabalho e verifica que não dá para advogado. Preferia ficar lendo, num bar, tomando um chopinho, e, sobretudo, vendo passar na calçada às moças cheias de graça.
Anos mais tarde, eternizaria esse hábito e essas moças na figura da Garota de Ipanema. Sempre influenciado pelo catolicismo, ele publica seu primeiro poema na revista A Ordem, fundada por Jackson de Figueiredo. A Transfiguração da Montanha foi levada por Octavio de Faria a Alceu Amoroso Lima, que dirigia a revista. Todos pareceram gostar inclusive o próprio Vinícius, que no ano seguinte estréia em livro: Caminho Para a Distância. Seu amigo Octavio de Faria dedica-lhe um ensaio em que estuda a ainda escassa obra de Vinícius ao lado de outro estreante, Augusto Frederico Schmidt. Relembrando essa fase, Vinícius não teve piedade de si mesmo: “Minha poesia inicial tinha de ser esotérica e metafísica. Era muito artificial. Felizmente, minhas curtições de menino criaram em mim um nódulo natural de resistência contra os erros da minha formação, que me permitiram, quando mais adulto, optar por uma simplificação de meu instrumento de trabalho, no sentido de comunicar-me mais e melhor”.
O segundo livro se enquadra dentro desse período sombrio e tem um título óbvio: Forma e Exegese (1935). Apesar de tudo, é um poeta desempregado, até que consegue o seu primeiro emprego sério: o de censor de filmes, de 1936 a 1938, ocupação pouco brilhante e democrática da qual logo procurou se livrar. Arranjou uma bolsa-de-estudo. Aos 24 anos, o primeiro casamento, por procuração. A noiva, Tati, morava em Londres. Foi o início da outra e da mais comprida obra do poeta: o amor.
O casamento durou bastante, foi o mais longo. Vindo do exterior, o casal foi morar no Leblon, numa casinha da Rua General São Martin. Ali se reunia uma turma de amigos, mas a boca-livre era moderada pois o dono da casa continuava sem emprego. Aí apareceu a opção do Itamarati. Naquele tempo não existia o severo vestibular do Instituto Rio Branco. Mesmo assim, havia um concurso e Vinícius passou uns tempos estudando seriamente, só conseguiu passar na segunda tentativa. Deve a sua carreira diplomática à influência de sua mulher Tati e de seus amigos diplomatas Jaime Azevedo Rodrigues e Lauro Escorel. Em 1943 recebe o primeiro posto no exterior: Los Angeles. Serviria na carreira diplomática durante 25 anos, mas nunca levou a sério a função.
Mas importante do que tudo foi à viagem que fez pelo interior do Brasil em companhia do polonês Waldo Frank. A intimidade com o Brasil de verdade provocou a virada total em sua vida: na poesia, na ideologia, na maneira de viver e, até, no modo de amar. Libertou-se gradativamente das amarras e entrou de cabeça na vida. Para Viver.
Daí em diante, a vida de Vinícius se confunde com a do tempo em que viveu, nos setores da música popular, do espetáculo, da badalação e até mesmo da política.
Duas importantes vertentes se formam na obra viniciana, dividida esquematicamente em dois segmentos básicos: a poesia em termos eruditos ou em letras de canções populares; e o roteiro infinito de suas andanças amorosas, sintetizadas em nove casamentos e diluídos em diversos casos, sobretudo, na imagem do grande amante que, de uma forma ou outra, influencia homens e mulheres de duas gerações.
Como poeta, ele conseguiu ser maravilhosamente fiel às mulheres com as quais se casou e amou enquanto o amor foi amor
A série de casamentos iniciada com Tati prolongou-se, em 1952, com Regina. Seguiram-se: Lila Bôscoli, Lúcia Proença, Nelita Abreu Rocha, Cristina Gurjão, a baiana Gesse, a argentina Martinha e Gilda, a última. Mais do que um rosário de nomes, foi uma vivência de amor que ele esboçara, pela primeira vez em letra de forma, numa edição de MANCHETE, em 1955, na seção intitulada A poesia é Necessária. Ilustrado por Carlos Thiré, aparecia Receita de Mulher, com a indicação: “Poema inédito, enviado de Paris especialmente para esta página.” O poema tornou-se famoso, principalmente pelo seu citado começo: “As muitas feias que me perdoem/ mas beleza é fundamental.”
A ruptura de Vinícius com o mundo acertado e frio é total. Pouco a pouco, ele abandona uma série de convenções, a gravata, o paletó os cabelos corretamente cortados, engorda e emagrece conforme a vida vai levando, curte corajosamente suas fossas, atola-se no amor (“O que mais gosto é do agarramento”), participa de movimento bossa-nova, onde logo conquista o lugar que ninguém lhe tira: o de melhor letrista. Ao mesmo tempo que muda de mulher, muda de parceiros e ele próprio admite que há alguma analogia na parceria de uma vida e na parceria de uma canção: o mesmo ciúme, o mesmo gostar muito e, finalmente, a exaustão, o não ter mais nada a dizer.
Antônio Carlos Jobim, Carlos Lira, Baden Powell, Toquinho – ele influencia diretamente todos demais letristas e se torna o Poetinha das rodas boêmias, o adulto maldito da sociedade bem-comportada.
Em 1968, já famoso internacionalmente através de seu filme Orfeu do Carnaval e de algumas letras que percorriam o mundo, Vinícius é aposentado a força de suas funções de diplomata – que, aliás, ele próprio era o primeiro a desprezar. Dá expediente, então de boêmio, em regime full time. Deixa o Rio por uns tempos, considerando a cidade em que nascera muito cruel e agressiva. Vive uns tempos na Bahia, jura que nunca mais sairá de lá, “a Bahia está mais perto da verdade”, mas o sonho dura o que duraram suas paixões e ele volta ao mundo e ao Rio. Só conseguiu ser fiel ao grande amor, que para ele não estava numa mulher ou numa situação, mas num clima interior.
“Vinícius havia chegado a Paris, em 1956” – conta Cristina Gurjão – “e o Ronaldo Bôscoli me apresenta a ele. Na época Vinícius estava casado com Lila Bôscoli. Eu tinha 16 anos e fiquei deslumbrada com a possibilidade de frequentar a casa dele. Acabei me tornando amiga do casal. Mas nada havia entre nós. Depois ele se separou de Lila e se casou com Lucinha Proença. Eu só me casei com ele em 1968. Foi um casamento que durou quase três anos e nesse período tivemos uma filha, Maria, hoje com 10 anos. Vinícius foi um dos seres humanos mais perfeitos que conheci. Foi, inclusive, um bom pai. Todas as vezes que vinha ao Rio encontrava tempo de se dedicar a Maria. A influência dele está se refletindo agora em nossa filha, cujo temperamento é bastante parecido com o de Vinícius”.
Além de distribuir amor, Vinícius distribuiu talento e alegria com seus numerosos parceiros e amigos da música, do teatro e da vida
“Meu primeiro encontro com Vinícius – diz a baiana Gesse – foi durante a filmagem de Sol Sobre a Lama, dirigido por Alex Vianny e cuja trilha sonora era de Pixinguinha e dele. Foi um simples conhecimento, não um contato estreito. Em 1969, quando Vinícius colocou as mãos sobre o cinema da calçada da fama, em Ipanema, segui com Maria Bethânia e alguns outros amigos baianos para uma boate. Vinícius foi conversando com todos, de repente estávamos ele e eu sozinhos, fomos para uma boate onde Luizinho Eça tocava ao piano. Vinícius começou a cantar canções para mim. E assim tudo começou. No dia seguinte voltei para a Bahia e pouco tempo depois recebi um telegrama pedindo que eu viesse ao Rio. Arrumei as malas e vim ao seu encontro, seguindo com ele para o Uruguai. Ele iria realizar uma temporada por lá. E lá nos casamos. Foi, aliás, o nosso primeiro casamento. O segundo aconteceu em 1973, no candomblé. Nos sete anos que durou nossa ligação, ele foi muito feliz. Vinícius me cercava de muitas atenções e carinho. Sei que muitas mulheres povoaram a sua vida durante o nosso casamento. Ele viajava, em temporadas pelo interior, eu telefonava para o quarto dele, uma mulher atendia, dizia que era a camareira, a arrumadeira, mas eu sabia que era outra amada. Não me aborrecia. Afinal, o seu amor era eterno enquanto durava. O nosso, enquanto durou, foi eterno. Recebia flores de todos os cantos do mundo, fui carregada no colo e tive todas as minhas vontades realizadas pelo homem maravilhoso que um dia me amou”.
Vinícius não fazia por menos. A um repórter confessou um dia: “O que eu gostaria mesmo é de reunir a mulherada toda, desde Tati, todas as minhas namoradas, mulheres, casos, flertes, encher a casa com elas, fazer aquele porão de Fellini em Oito e Meio, a promiscuidade total, o amor total”.
Para um homem assim, para um poeta simples e consumado, a vida não podia estar dissociada de sua obra. Mais do que escrever poesia, ele vivia a própria poesia em sua vida, em sua paixão e em sua glória.

quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

MÚSICA - "MINHA CASA É UM HOSPÍCIO.EU SOU UM LOUCO-BELEZA!



Revista Fatos e Fotos / Gente 14 de maio de 1979



“Na realidade eu sou um cientista. Estudei muito filosofia e agora me dedico à parapsicologia. Já estive envolvido com esoterismo. Já bebi da água de várias ciências”

Quem fala assim? Pode causar espanto, mas é o cantor e compositor Raul Seixas, no momento convalescendo de uma cirrose hepática na Bahia. Apesar das proibições de seu médico, no sentido de dar entrevistas ou fazer qualquer esforço físico, Raul quis desfazer alguns mal-entendidos: “as pessoas acharam que eu tinha pirado e estava internado num hospício”. Bem como comentar o preparo do próximo LP, pela Warner, cujas músicas vêm compondo, durante este “descanso compulsório”. O contato com a gravação, informa Raul, deverá acontecer dentro de uns dois meses, “quando eu tiver colhido os frutos do meu retiro espiritual”.

Sobre Mata Virgem – um trabalho recente – o artista esclarece que o disco foi produzido “em cima de um sentimento bucólico. Passei algum tempo ligado às coisas da fazenda, da roça, com o gado e os lavradores”.

Raul ressalta que o repertório do LP a seguir “é mais transcendental, trata dos estados de consciência. Sabe, estou fazendo um sério esforço para enlouquecer. No bom sentido, é claro, quero alcançar um ponto X”.

E que ponto X será este? Embora Raul Seixas considere difícil pôr em palavras todas as sensações que ocorrem no processo da criação, conta que, todos os dias, durante uma hora, se entrega à meditação.

“Eu entro numa espécie de estado cataléptico, hipnótico, onde a música surge no ar. Primeiro, aparece uma luminosidade a as luzes começam a transforma-se em sons. Cada cor se transforma em vários tons. Daí nasce uma canção, quase que inteira. (Aqui, uma advertência.) Isto, na realidade, é um estado de loucura, porque saio da minha faixa normal para entrar numa paranormal.”

Na escala musical, o cantor garante, cada nota tem a sua cor específica. O lá maior, por exemplo, é vermelho; o mi maior, verde; o ré maior é amarelo-canário, enquanto o si bemol é verde-musgo.

“Olha, é tudo uma questão de opção, sabe? Prefiro controlar minha própria loucura, canalizando-a para as minhas músicas, do que entregar-me a um psiquiatra que seria incapaz de captar meus sentimentos e desejos.”
Foto de Aristides Baptista





DISCOS VOADORES - APARELHO DETECTA DISCOS VOADORES




REVISTA FATOS E FOTOS / GENTE 14 DE MAIO DE 1979
SISTEMA DE ALARME CONTRA OS DISCOS VOADORES


Um aparelho compacto, leve, que funciona com pilhas comuns, tem regulador de sensibilidade, pode ficar desligado para economizar baterias, mas reage ante a aproximação de qualquer objeto não-identificado. Eis, em poucas palavras, o que dois técnicos baianos (Ederval Manoel de Mendonça, 28, e Evandro Araujo Leal, 31) integrantes do Grupo de Pesquisas Aeroespaciais Zenith G-PAZ, descobriram, com o objetivo de detectar discos-voadores e mistérios afins, através de um sistema de alarme que intercala uma sirene e uma luz vermelha.
“Bem mais eficiente do que o similar suíço” – dizem. Entre outros motivos, porque aciona a audição (sirene) e a visão (luz) nossa de cada dia. Dizem ainda que a sensibilidade desse detector de OVNIS é bem mais apurada. Não fosse ele, baiano. E a quem interessar possa: dentro em breve serão produzidos em série, por Cr$ 1.000,00 (mil cruzeiros), a cada um dos muitos centros de pesquisas e estudos existentes no Brasil e no exterior.
Tudo começou por volta de 1974, quando Ederval, um técnico em eletrônica, estava na cidade de Dias D` Avila, no interior da Bahia, e tomou conhecimento de que um disco voador tinha dado um passeio por lá. Importante é que ele teve a curiosidade (e a paciência) de investigar o possível local onde o tal disco teria feito algumas evoluções. Num pequeno morro, notou logo que havia uma queimadura no chão, formando um círculo perfeito (detalhe: as folhas dos arbustos estavam destruídas de cima para baixo). Ederval continuou examinando a vegetação rasteira e as pequenas árvores, notando que, em algumas folhas, apareciam pequenos furos provocados por uma radiação muito forte. Diz ele:
– Tenho a certeza de essas queimaduras não foram feitas pelo homem, porque seria necessário um combustível especial. Tudo me leva a crer que foi feita por um aparelho extraterreno e, inclusive, a queimadura em forma de círculo perfeito foi o que mais me intrigou.
Do pensamento, Ederval passou à ação: procurou o pessoal do Grupo de Pesquisas Aeroespaciais Zenith G-PAZ, presidida pelo argentino e publicitário Alberto Romero, e fez seu relato. Voltaram ao local, fotografaram plantas e colheram material para estudos de laboratório. Ederval e Evandro (também técnicos em eletrônica) ficaram logo interessados no detector suíço de propriedade do grupo. Estudaram o aparelho e chegaram à conclusão de que podiam produzir outro, melhor.
Durante seis meses Ederval e Evandro trabalharam em seu laboratório, tentando desenvolver um protótipo. Depois de mil e uma pesquisas atingiram seu objetivo: o detector deles. E estão mais do que confiantes quanto à sua aceitação, garantindo que a idéia básica de um aparelho desse tipo está baseado nas alterações do campo magnético, que, geralmente, são provocadas pela presença de um disco voador.
Ederval se apressa em esclarecer:
– Há dois tipos de campos magnéticos: o dinâmico, isto é, aquele que está em movimento, no caso, o dos objetos não-identificados; e os estáticos, no caso, um imã. E o detector baiano acusa a presença desses dois campos magnéticos.
O engenho tem uns 30 centímetros de comprimento, por 10 de largura. Portátil, portanto. Leve, de cor preta. Na parte superior, uma placa de metal, onde está localizada a luz vermelha, um botão (sensibility) para sintonia do campo magnético, e a inscrição: “Ufo Detector”. Além da sigla G-PAZ. E do esclarecedor: “Made in Brasil”.
O fato mais curioso (e intrigante) até agora catalogado pelo Grupo de Pesquisas Aeroespaciais aconteceu em dezembro de 1972, um dia 13, às 07:42 da noite, quando o casal Fritz e Margarida Abbehussen estava assistindo a um programa de tevê e o aparelho apresentou um defeito. O velho Fritz, já falecido, mas na época com 65 anos, saiu pra ver o que estava acontecendo. Viu um objeto enorme, luminoso, atravessando o espaço, lentamente. Logo depois, Dona Margarida e uma empregada de nome Waldete, foram observar o tal objeto na parte dos fundos da casa e, segundo afirmam, viram dois homens baixos e magros, que caminhavam na ponta dos pés, flexionando os joelhos exageradamente a cada passo. Elas fugiram apavoradas. Fritz vasculhou a área, com outras pessoas, mas não viram mais nada. Ligaram a tevê outra vez. E tudo voltou ao normal.
A cidade de D` Avila ficou famosa, pelo menos nos limites daquela região. Agora, Dias D`Avila desponta para a glória. Graças à dupla Ederval-Evandro, os pais do detector baiano de objetos não-identificados e mistérios paralelos.

quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

RELIGIÃO - OGUM - SACRIFÍCIO E SANGUE NA BAHIA




Reportagem e fotos de Reynivaldo Brito
Revista Manchete 9 de agosto de 1980

No Terreiro do Pai-de-Santo Zé de Ogum, 46 anos, situado no município de Lauro de Freitas, arredores de Salvador (Bahia), a festa de seu santo é um acontecimento. O ritual prevê três dias inteiros de comemorações e sacrifícios preparatórios que exigem, entre outras coisas, a imolação de sete galos caboclos (vermelhos) em homenagem a Exu. Todas as carnes e miúdos dessas aves serão aproveitados nos banquetes sagrados. E o culto culmina sempre com o sacrifício de um boi inteiro, cujo sangue é levado num vaso especial para o Ibá – espécie de santuário onde fica o chamado carrego do santo, com potes, bacias e louças próprias. Um ritual que MANCHETE documentou com exclusividade.
O terreiro que sacrifica um boi a Ogum recebe 14 anos de paz garantida
A Preparação para o dia do culto de Oxum exige daqueles que nele participam ativamente uma série de obrigações e penitências. Em certos casos, se requer até mesmo abstinência total – com recolhimento absoluto durante os 14 dias que procedem a cerimônia. Na simbologia dos fiéis de Ogum, o boi significa força, poder e decisão. Seu sacrifício tem assim, como efeito imediato, produzir a paz no terreiro e uma profunda concórdia entre seus frequentadores. Os iniciados explicam que basta um sacrifício para garantir esta paz por um período de 14 anos. Mas, no terreiro de Zé de Ogum, celebra-se a festa todos os anos. Porque os fiéis do Candomblé de Lauro de Freitas gostam da cerimônia.

Apesar das danças de guerra e dos cantos de combate, a festa de Ogum tem sempre por resultado essencial um só: paz

Os fiéis chegam cedo para a cerimônia principal. Os primeiros convidados e alguns curiosos esperam a chegada do Alabê, espécie de chefe de orquestra, acompanhando de dois ajudantes que conduzem os atabaques. Enquanto os pontos vão crescendo, aproxima-se o momento da apresentação do grande sacerdote, Zé de Ogum, que descobriu sua vocação aos 18 anos, e teve a cabeça feita pela mãe-de-santo Paulina, num velho e tradicional terreiro da cidade de Cachoeira, situada no Recôncavo Baiano. Recebeu então a incumbência de zelar, durante toda a vida, pelo culto de Ogum. Nessas ocasiões mais solenes, Zé de Ogum ostenta uma bonita batina amarela e tem no pescoço dezenas de colares de contas e miçangas de todos os tipos. Quando os pontos chegam ao auge, há sempre muitos manifestantes que recebem santos no terreiro e são levados a pessoas especialmente encarregadas de acalmá-las. O sacerdote sangra o boi com um golpe certeiro e o animal cai, enquanto as auxiliares correm para aparar o sangue numa grande tigela de barro. Este sangue, chamado de menga, vai depois para o santuário do terreiro – o Ibá –, onde é colocado sobre as otás, ou pedras sagradas.
Cantos, danças e banquetes fazem parte essencial do culto de Ogum. No calendário do candomblé, terça-feira é normalmente o dia da semana especialmente dedicado a este orixá. Sua cor preferida é o azul-escuro, sua comida é, normalmente, feijoada com inhame assado. Sua saudação é ogunhê e na indumentária entram sempre elementos de couraças e capangas. Porque se trata de um santo guerreiro.
Outro elemento essencial do culto de Ogum é Exu, que muitos leigos confundem erroneamente com o diabo. Os iniciados dos terreiros insistem sobre a necessidade de cair neste erro. Nos candomblés de Ogum existem quase sempre dois exus – o Xoroquê e o Tiriri. Este último é, na realidade, um orixá, e não um escravo, como querem alguns.
Durante a festa, a cozinha do terreiro está sempre cheia de filhas-de-santo sorridentes, que passam três dias e três noites servindo refeições aos convidados: os pratos são em geral feijão, farinha, carne assada ou ensopado. Os miúdos dos sete galos caboclos sacrificados antes do boi são cozidos no azeite-de-dendê e em seguida colocados em alguidares aos pés de Exu. O que resta destes galos é aproveitado para o xinxim, que pede ainda camarão e mais azeite. Este prato é o famoso Ixó de Exu, distribuído a todos os presentes durante o primeiro e o segundo dias da festa. Exu fica assim inteiramente manso, assentado, e Ogum pode então dominar tudo. Começa aí o momento da grande feijoada a Ogum. Quatorze homens, especialmente escolhidos pelo pai-de-santo, e ajudados por alguns filhos-de-santo, preparam o barracão principal. Ao centro do barracão são colocadas três esteiras e três alás (lençóis) brancos, em volta dos quais se dispõem castiçais com velas acesas e jarros com flores. Chegam então os ogãs, alabês, ekedes, kotas, a Mãe-Pequena e outros grandes do candomblé. Há mulheres que trazem tabuleiros com pipocas: são flores para o velho orixá Omulu, amigos de Ogum.
As manifestações de Ogum são as mais variadas: pode parecer muito velho (daí sua amizade com Omulu). Mas pode ser também Ogum-Wari, que aparece empunhando uma espada e dançando como um guerreiro indomável. O essencial no entanto é que, qualquer que seja a manifestação predominante, o resultado final do culto será sempre a paz.

COMPORTAMENTO - SÃO JOÃO - ESPADAS DE FOGO MATAM NA BAHIA


Revista Manchete 9 de agosto de 1980
Texto Reynivaldo Brito
Foto Valdir Argolo

Uma tradição violenta nas festas de São João

Este ano, as festividades de São João na Bahia se caracterizaram pela violência. Balanço final: dez mortos e mais de cem vítimas de queimaduras de diferentes graus. Em Cruz das Almas, a 142 quilômetros da capital, apesar dos protestos, registrou-se mais uma vez a ocorrência bárbara das chamadas guerras de espadas. Estas espadas são tubos de bambus de cerca de 30 centímetros de comprimento por 10 de diâmetro, cheios de uma mistura de pólvora com limalha de ferro. Obstruído numa das extremidades, o tubo – que depois de preparado pesa quase meio quilo – acaba se transformando num verdadeiro obus. Quando os supostos adversários se defrontam, os combatentes acedem às espadas e as lançam contra o bando contrário que procura se defender de qualquer maneira. Caso um dos combatentes corra, o artefato o persegue atraído pelo vácuo produzido pelo deslocamento do corpo. Além dos inúmeros casos de queimaduras, dois rapazes perderam a visão, atingidos por estes obuses selvagens.

O mais curioso neste tipo de brincadeira estúpida, é que a maioria da mocidade de Cruz das Almas defende a realização das guerras de espadas como uma das tradições locais. O próprio delegado de polícia, que também aprecia esta tradição violenta, acha que se deveria reservar um bairro especial para estas batalhas, permitindo às crianças, e ao resto da população, participar de manifestações menos violentas, como danças de quadrilha e cantorias. Este ano, a Prefeita de Cruz das Almas havia construído um arraial para divertimento da população. Em poucos minutos, os grupos de combatentes, com suas espadas possantes, cuspindo fogo por todos os lados, tomaram conta do local e expulsaram os folgazões mais pacíficos.

                                TREZE PRESOS

No dia 24 de junho de 2012 foram presos 13 pessoas que tentaram iniciar a "guerra de espadas" em Cruz das Almas. Foi baixada uma decisão judicial pelo Tribunal de Justiça da Bahia em 2011 proibindo  a "guerra de espadas" e, este ano  a polícia ficou postada em vários locais para evitar o desrespeito à decisão judicial. O  TJ -Ba reconheceu a natureza criminosa da "guerra de espadas", que era comum durante os festejos juninos em algumas cidades baianas, especialmente em Cruz das Almas. Neste período os hospitais da região ficavam lotados de pessoas feridas com queimaduras graves.
Três "espadeiros" já tinham sido presos no dia anterior, acusados de soltar uma "espada" em direção a uma viatura policial. A PM utilizou 65 homens e cinco viaturas para coibir a prática perigosa na cidade.