Objetivo


terça-feira, 10 de julho de 2012

ARTES VISUAIS - A ARTE BAIANA TEVE UM BOM DESEMPENHO NO ANO QUE PASSOU

ARTES VISUAIS
A TARDE SEGUNDA-FEIRA, 2 DE JANEIRO DE 1989


A ARTE BAIANA TEVE UM BOM DESEMPENHO NO ANO QUE PASSOU

Foi um bom ano para a arte baiana. Com todas as dificuldades foram realizadas importantes exposições e uma quantidade infinita de mostras menos significativas, mas de qualquer forma serviram como parâmetros. Foram realizados dois salões, o Universitário, organizado por Ivo Vellame e o I Salão Baiano de Artes Plásticas, promovido pela Fundação Cultural, organizado por Zivé Giudice. Surgiram novas galerias e espaços alternativos. Quero dizer também que sempre estive e estarei neste espaço de braços abertos para receber e registrar todos os acontecimentos da área das artes visuais. Continuarei discordando de radicalismos, criticando e apontando caminhos. Vejamos os acontecimentos, os qual considero principais, ocorridos em 88. 
Na foto  acima a Comissão examinando uma das obras apresentadas no Salão Universitário.Vemos Ivo Vellame, Reynivaldo Brito. Juracy Dórea e Cesar Romero.

                                                                              JANEIRO

O ano de 1988 começava a dar os seus primeiros passos, quando o artista Washington Sales lançou a idéia de mudar o acervo do Museu de Arte Moderna da Bahia Mam para um local mais adequado. O acervo está sofrendo com a presença do mar e o próprio prédio do Solar do Unhão vem se degradando.
A idéia do artista ainda não vingou, ainda não se transformou em atitudes, ela será lembrada através de registro que dei e, agora, relembro para que no futuro alguém saiba que o alerta foi dado.

                                                                           FEVEREIRO

Logo depois, através do artista Zivé Giudice, ao tomarmos conhecimento da existência de um projeto que iria valorizar o Solar de Unhão e adjacências, inclusive com o aproveitamento daqueles arcos da Avenida Contorno. A idéia foi defendida por ele, cujo projeto arquitetônico chegou a ser elaborado por Paulo Ormindo. Este projeto será de grande importância para o desenvolvimento da arte baiana, inclusive também para as oficinas de artes que poderiam ser ali instaladas.
Mas a inércia governamental na área cultural se revelou neste primeiro ano muito forte. O que foi realizado realmente nesta área foi muito pouco para um governo democrático.
Acredito que tanto o projeto do MAM-Ba quanto este chamado “Arco Íris”, de aproveitamento daquela área, são relativamente baratos e poderiam contar com apoio da iniciativa privada. Falta determinação.

                                                                          MARÇO

Diria que este ano que passou foi decisivo na vida profissional de Rogéria Mattos. Lembro, quando ela, juntamente com Leonel, seguiram para São Paulo.Ele com aquela garra, com aquela disposição que todos que privam da sua amizade conhecem. Ela mais tímida, mais retraída, mas também sabendo o que queria. Como milhares de nordestinos que desembarcam na megalópole, lá se foi o casal de artistas tentar a sorte. E para nossa alegria estão fazendo sucesso. Ganharam alguns prêmios, o Leonel se destacou nos primeiros meses e, no final, Rogéria também passou a ser uma presença nos circuitos de arte de todo o País.
Falei também sobre Terciliano, este negro que tem um discurso seguro sobre a sua própria arte. Criado entre os zeladores dos Orixás, Terciliano tem uma arte que posso assegurar, evoluída, na medida em que a figuração pura e simples dá lugar a uma estilização dos elementos. É uma arte com características próprias que prima pela universalidade de suas mensagens e expressões. Quando escrevi sobre o artista transcrevi um trecho de um depoimento pessoal de Terciliano, onde ele desabafa sobre sua origem humilde, sobre suas andanças e também traça uma ligeira biografia de sua vida.
Na Anarte foi realizada uma coletiva reunindo 13 artistas, sendo a maioria da Geração 70, com apresentação de Mário Cravo Júnior (o Velho). Na ocasião o próprio Bel Borba, um dos expositores, falou que seu trabalho estava mais livre. Os demais foram Chico Diabo, Fred Schaeppi, Justino Marinho, Zivé Giudice, Vauluizio Bezerra, Murilo, Maso, Celuque, Sérgio Rabinovitz e Tati Moreno.

                                                                        ABRIL

Publiquei no início do mês uma nota sobre uma exposição da inquieta Liane Katsuki e também sobre uma conversa que ela teve com uma comunidade holandesa sobre a situação do país, a qual àquela altura era bem melhor do que no mês de dezembro.
Foi um mês fraco de exposições. O francês Jean Marc Duthoit realizou uma exposição no restaurante Água do Mar, na Barra, e o Escritório de Arte da Bahia reuniu 14 ilustradores de Jorge Amado, em comemoração ao primeiro ano de funcionamento do casa do escritor no Largo do Pelourinho.
Porém, três mortes marcaram este mês. O feirense Carlos Barbosa morreu de Aids. O índio timbira Isaias Silva, também morreu se Aids, era um verdadeiro andarilho. Aqui realizou uma exposição individual e viveu algumas temporadas.
A americana Lígia Clark, expoente da arte contemporânea e que tinha um trabalho ligado ao corpo humano, ao movimento do corpo.

                                                                        MAIO

Foi anunciada a exposição da arte fantástica de Antônio Gaudi, na Escola de Arquitetura.
O Projeto Nordeste foi ganhando corpo e depois de se apresentar em Aracaju foi a vez de Maceió. Acompanhei o projeto e pude sentir de perto a desinformação e as dificuldades que o grupo enfrenta para levar avante esta importante experiência. Com recursos próprios, os artistas estão se deslocando e mantendo contatos para diminuir as barreiras existentes entre nós nordestinos. O grupo é composto por Juarez Paraíso, Juracy Dórea, Márcia Magno, Bel Borba, Eckenberger, Murilo, Washington Falcão, César Romero, J. Cunha, Chico Liberato, Sônia Rangel e Antonio Brasileiro.
A exposição de artistas americanos no Solar do Unhão era esperada como o grande destaque do mês. Acompanhei até o desembalar das obras de arte e confesso que não apreciei muitas das coisas que nos mandaram. Pareceu-me uma arte feita por amadores num subúrbio qualquer. O título da mostra “Influência da Cultura Africana nas Artes Visuais”, certamente de grande significado, mas o objetivo a meu ver não foi atingido.
Sabemos da força da influência africana, basta lembrar Picasso que se utilizou muito das máscaras africanas e outros artistas contemporâneos.Apenas, a representatividade americana foi fraca.
Sou daqueles que não se influencia simplesmente porque é americano ou europeu, aliás, uma postura colonizada muito comum entre as pessoas.

                                                                           JUNHO

As imagens fortes, que nos levam à reflexão da obra de Kathe Kollwitz foram apresentadas pelo Núcleo de Artes do Desenbanco, aliás, um importante espaço cultural que vem sendo ameaçado de acabar pela insensibilidade do presidente daquela entidade, Sr.Murilo Leite. Acho até que seria bom que o pessoal que trabalha lá mostrasse a ele o catálogo da mostra de Kathe, que morreu em 45, porque certamente a dramaticidade das figuras vai mexer um pouco com a insensibilidade deste moço.
O tranqüilo e parcimonioso Jenner Augusto nos brindou com o lirismo de sua obra. Um lado poético que anda meio esquecido e, às vezes, até injustamente renegado por aqueles que têm uma visão muito simplista e muito passional da arte.
Acredito e defendo a qualidade. A arte deve ter marcas de contemporaneidade e olhando para a obra de Jenner posso detectar isto na medida em que ela fixa imagens com uma visão moderna.
Tomamos conhecimento da escolha de dois brasileiros para representar o nosso País na Bienal de Veneza: José Resende, carioca, e o baiano catingueiro Juracy Dórea. Ele levou suas varas e couros crus para encantar os gringos.

                                                                          JULHO

O Departamento de Artes da Fundação Cultural anunciou a realização do 1º Salão Baiano de Artes Plásticas. Foi um furo desta coluna, que publicou todo o regulamento em primeira mão e foi um dos responsáveis pelo sucesso do evento.
Rogéria Mattos foi premiada em dois salões; mineiro e paulista e, seis artistas, sendo cinco professores da Escola de Belas Artes: Carmem Carvalho, Adele Balazs, Denise Pitágoras, Graça Ramos e Yedamaria realizaram uma exposição na Art Nata Galeria de Arte, que fica em Amaralina.

                                                                      AGOSTO

Belas fotos de profissionais alemães foram apresentadas no foyer do Teatro Castro Alves. Aliás, quero parabenizar o Icba por ter retomado o seu importante papel de incentivador das artes. Uma retomada que tenho acompanhado com interesse. Lembro-me quando participei em meados da década de 60 e início dos anos 70 de tudo que o Icba realizava com grandes presença dos estudantes e intelectuais. Houve um período de paralisação e agora ressurge com força. Parabéns.
Fruto dos entendimentos mantidos pelo Projeto Nordeste, em Maceió, o artista Rogério Gomes veio mostrar na Galeria O Cavalete sua arte geométrica.
Surge o 18 do Pascoal, mais um espaço informal dedicado às artes plásticas, e uma forma de valorizar o centro histórico. Um bom local para um bate papo tranqüilo.

                                                                    SETEMBRO

Saudei a justa homenagem que a Galeria Anarte fez através de July e Gracinha ao artista José Maria, com uma retrospectiva que deu muito trabalho para reunir as obras do artista, que faleceu em 1985. Também Vauluizio resolveu fazer uma exposição, desta vez na Galeria O Cavalete. Iza expõe suas jóias utilizando sucata de trabalhos de prataria antigos.
Falei do curso que provocou grande reflexão sobre o olhar e o sentido da paixão, e também dos artistas do Grupo Interferência que saíram dos muros da cidade e expuseram suas obras no TCA. A arte de Abelleira que deu uma guinada de 180 graus, mas que ainda está se aprumando, fruto da mudança.

                                                                    OUTUBRO

Ceramistas brasileiros realizam exposição na Europa entre as quais uma baiana.
Foi um mês promissor com a seleção e premiação dos artistas para o 1 Salão Baiano de Artes Plásticas e também do Salão Universitário dos quais participei ativamente como membro dos júris.

                                                                   NOVEMBRO

Repelimos com veemência insinuações frustradas de pessoas que foram recusadas nos salões, algumas das recusadas contaram com a minha defesa e também do professor Ivo Vellame. Fomos votos vencidos. Aylton Lima fez uma bela exposição com seus desenhos lindos feitos com pastel seco, conseguindo diferenciações de tons excepcionais.
O Escritório de Arte marcou um tento ao trazer 25 litografias do pernambucano Cícero Dias para expô-las concomitantemente com outras exposições do artista num circuito nacional.

                                                                    DEZEMBRO

Foi a abertura do Salão Baiano de Artes Plásticas, com grande presença de público. Também o Museu Costa Pinto saiu do marasmo que ficou envolvido o ano inteiro com uma exposição e lançamento de um catálogo do seu acervo plástico.
Fernando Coelho mostrou que vem evoluindo apresentando uma nova visão do litoral baiano com uma arte que nos lembra a genialidade de Van Gogh embevecido com seus campos de trigo . Uma arte tempestuosa e que nos leva a muita reflexão.
Finalmente , fechando o ano com chave de ouro o Sante Scaldaferri fez uma exposição de grandes painéis, telas e lançou dois livros-catálogos sobre seus 30 anos de arte. Uma homenagem mais que merecida.









Postar um comentário