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sábado, 2 de junho de 2012

RELIGIÃO - BISPO DENUNCIA OS EXPLORADORES DA FÉ

A TARDE 24 DE AGOSTO DE 1985.
Texto Reynivaldo Brito

RELIGIÃO


Várias seitas e igrejas de matizes diversos funcionam em Salvador, algumas prometendo a cura de todas as doenças através de milagres e expulsão do diabo.
Elas estão localizadas nos bairros mais humildes, como Pernambués, Sete de Abril, Vasco da Gama e em locais de difícil acesso. Descobriram alguns sabichões que explorar a religiosidade de nosso povo é muito fácil e rendoso. Uma prova disto é a multiplicação rápida do número de igrejas, os carros reluzentes que transportam os pastores e os imóveis que adquirem a preços altos.
 Foto de tela  ao lado do bispo Dom Boaventura, já falecido a 9 de maio de 2009.
Na Bahia, um estudioso deste fenômeno é o bispo auxiliar da Arquidiocese, Dom Boaventura Kloppenburg. Ele lembra que desde o começo do século a Igreja Deus é Amor (pentecostal) funciona no Brasil, mas que seu crescimento e agressividade que a caracteriza é mais recente e ocorreram com os “rachas”- saída dos seus quadros de pastores que fundaram a Assembléia de Deus e o Evangelho Quadrangular, que “utilizam de métodos proselitistas, um zelo apostólico patológico e viciado. Prometem o impossível, enganando os incautos, a cura de todas as doenças com a expulsão de satanás. É uma demagogia muito grande. Entre os responsáveis pelo surgimento de igrejas que exploram os incautos, ele lembra o nome de Manoel de Melo, em São Paulo, que criou um grande movimento alcançando grande parte do país. “ Daí saiu outro pastor, o Davi Miranda, que fundou a Igreja Deus é Amor, e logo depois aparece a Igreja Universal do Reino de Deus dirigida por um tal auto determinado “bispo” Macedo. Eles descobriram que poderiam ganhar muito dinheiro explorando e fazendo falsas promessas. Aí só existe um remédio, que é o fechamento das Igrejas extirpando de uma só vez estes embusteiros.

ECUMENISMO

Mas, além destes, ainda existem os Testemunhas de Jeová, Adventista do Sétimo Dia e em certo sentido os Batistas, afirma o bispo D. Boaventura. Porém,existem outros movimentos protestantes estabelecidos e tradicionais como os luteranos episcopais, calvinistas, metodistas e presbiterianos que atuam com certo empenho missionário em que não se nota o zelo patológico.Com estes a Igreja Católica mantém, um certo diálogo e ecumenismo, adianta o religioso.
- Além destes têm outro grupo que a gente poderia -diz o bispo chamar de espiritualistas e aí vêm os umbandistas, as igrejas de origem oriental como o Rosa Cruz, Teosofia, Seicho-No-Ie. Os adeptos do espiritualismo geralmente costumam dizer que são católicos e os “crentes” são anticatólicos, ressalta.

SINCRETISMO

Mas é o candomblé que ele está mais preocupado em estudar, por ser professado por muita gente na Bahia. A grande maioria dos adeptos do candomblé se diz católica, manda rezar missas e comunga. Diante deste sincretismo, Dom Boaventura tem muitas indagações e está fazendo pesquisa, inclusive conversando com mães-de-santo catalogando suas afirmações publicadas nos jornais e revistas a respeito da Igreja Católica.
Ele lembra que todos os terreiros silenciam durante a Quaresma e que existe realmente um cordão umbilical ligando o candomblé à religião católica. “São sou eu quem vai afirmar que o povo do candomblé não é católico. É preciso compreender toda esta manifestação e esta fé em Cristo e saber os limites da cultura afro e a religião católica. Eles professam e têm valores positivos que devem ser preservados. É preciso descobrir onde está o problema, se surgiu na evangelização da época em que os africanos vieram para cá, se é devido à identificação do negro com o português, que gostava muito de barulho, de festas. E diz mais o português tinha muitos padroeiros e estes terminaram se confundindo com os orixás dos negros.

MANIPULAÇÃO

Quando lembramos ao bispo baiano que existe um movimento no candomblé contra o sincretismo com a Igreja Católica que tem como líder máxima a Mãe Stela, do terreiro Apô Afonjá dos mais respeitado do País Dom Boaventura reconhece que a mãe-de-santo é muito respeitada, ortodoxa, mas não representa a maioria dos 2.000 e tantos terreiros que existem. “A grande maioria se diz católica e mãe Stela é minoria”.
Quanto à afirmação de alguns estudiosos do candomblé de que os negros deram nome de santos aos orixás para fugir da repressão dos portugueses, Dom Boaventura contesta e diz que quem afirma isto desconhece a nossa história. “O que é preciso é a gente entender que existem alguns desvalores na cultura afro. Lendo o livro “Orixás” de Pierre Verger, a gente fica sabendo que as iniciadas na seita permanecem 17 dias em estado de hipnose. No meu entender isto é manipulação do homem pelo homem e isto não um valor positivo. Mas, não sou eu que vai levantar bandeira para cortar o cordão umbilical- repito- entre os católicos e o candomblé. Mas estou estudando e só daqui a alguns anos posso emitir uma opinião mais completa.

CRÍTICAS A BOFF

Dom Boaventura Kloppenburg, um dos mais competentes teólogos da Igreja do Brasil, é um crítico severo da Ideologia da Libertação, defendida pelo seu ex-secretário, o fiel Leonardo Boff , recomendou que o livro deste devesse “ser queimado para evitar a confusão que se está estabelecendo no seio dos agentes de pastorais e seminaristas”.
Quanto à notificação enviada pela Santa Sé sobre o livro “Igreja: Carisma e Poder” de Boff, Dom Boaventura disse que o documento do Vaticano é uma condenação expressa das afirmações do teólogo da Libertação, que é um homem bem preparado, porém, está muito equivocado no seu raciocínio. Prejudicando a própria igreja.
Lembra o bispo que, antes, a igreja católica tinha um índex, o Instituto dos Livros Proibidos, onde eram relacionados os livros que deveriam ser evitados pelos católicos.
Hoje, este instituto foi extinto, mas existe agora esta forma de condenar as publicações que ofendem ou prejudicam a igreja através de documentos específicos. E a notificação referente ao livro de Leonardo Boff faz uma análise no campo da estrutura, dogma, profetismo e o exercício do poder sagrado, que na opinião de Dom Boaventura são desvirtuados nos escritos de Boff.

ESTOU COM O PAPA

Ele parte de princípios epistemológicos, dentro da teoria do conhecimento teológico que ele adotou, e assim está viciado, chegando à conclusões sempre equivocadas. Este seu livro, que foi lançado pela primeira vez em 1981, já está causando grandes males à igreja, não apenas do Brasil, mas também de outros países. Disse ainda que Boff já responde a outro processo no campo da cristologia, devido a seus escritos “Jesus Cristo Libertador”, de 1972, e “Paixão de Cristo”- “Paixão do Mundo”.
Foto de Dom Boaventura mostrando um de seus encontros com  o Papa.
Dom Boaventura Kloppenburg não acredita que Leonardo Boff mude de idéia.
Para ele, o teólogo da Teologia da Libertação já declarou em outras ocasiões que “preferia caminhar sozinho com a minha teologia”. Ora, ele já tem adeptos que contestam até a estrutura e a hierarquia da nossa igreja, já publicou depois disto alguns escritos, e não fez qualquer modificação em seu livro, agora condenado pela igreja do qual já saíram várias edições.Portanto, não acredito que venha modificar seu pensamento”.
Dom Boaventura está também preocupado com o que denomina de francos atiradores que pregam o que bem entender, enganando o povo católico. Existe uma desorientação em determinados setores da igreja devido a total falta de conhecimento profundo da teologia da igreja.
“Eu estou ao lado do Papa. Se isto é ser conservador, disse o bispo, exibindo várias correspondências da época do Vaticano II,quando ele (Dom Boaventura) era apontado como progressista e arremata. Eu não arredei um palmo de minhas convicções. Sempre andei para frente, porém, obediente à minha igreja. Acho que foram eles que andaram demais e avançaram o sinal. É preciso ter limite em tudo que a gente faz. Defendo as mesmas idéias de 20 anos atrás”.
Dom Boaventura revelou, inclusive que numa reunião mensal do clero, em Salvador, um padre exigiu que ele pedisse desculpas pelas críticas que tinha feito ao livro de frei Leonardo Boff.
“O padre foi muito aplaudido .Ao término de suas palavras eu disse aos presentes que não sentia medo ou constrangimento de defender as idéias da igreja e que estava ao lado do Papa. Não tenho receio de nada e continuarei combatendo essas idéias que confundem os católicos e prejudicam a igreja. Mas, se Leonardo Boff adotar uma postura verdadeira, modificando os seus livros de acordo com as sugestões da Santa Sé, eu paro as minhas críticas. Do contrário, continuarei combatendo-o com a mesma energia, e não há quem me tire esta idéia da minha cabeça”. Foto que revela um pouco da seriedade de Dom Boaventura Kloppenburg.





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