Objetivo


quinta-feira, 21 de junho de 2012

EDUCAÇÃO : O “CHUTE” DO PROFESSOR

EDUCAÇÃO 
Jornal A Tarde , quarta-feira, 23 de de4zembro de 1970.
Texto Reynivaldo Brito
Ilustrações Edu

O professor está indisposto. Segura a cabeça vazia entre as mãos e os alunos ficam à vontade conversando sobre qualquer coisa.O negócio é deixar o tempo da aula ir passando... Depois de uns trinta minutos ele diz: "Bem meus amigos, eu iria tratar de problema do Descobrimentos Marítimos mas, fica para a próxima aula..."
A imagem do professor mudou muito em relação à algumas décadas atrás. Existem técnicas educacionais modernas e elementos de Psicologia Individual, Coletiva e Educacional que estão sendo usadas nas chamadas escolas modernas. Mas, a imagem do professor “enrolão” não desapareceu.
Como existe aluno que não “quer nada”, existe o mestre que vai a sala indisposto e fala de tudo, menos do assunto a ser estudado. È um tipo curioso, e a maioria dos alunos tem uma “afetividade” particular por ele.
Com o passar dos anos aqueles alunos que adoraram o mestre que “enrolava” na aula, sentem-se prejudicados. È uma dura realidade, principalmente, para aqueles que vão disputar uma vaga na Universidade. Em contrapartida, eles relembram o mestre exigente que não perdia um minuto, mas que lhes transmitiu alguma coisa de útil.

                                                        NOVAS TÉCNICAS

As novas técnicas educacionais são uma tônica geral em todos os estabelecimentos de ensino, principalmente da Capital. O professor muitas vezes não preparou, como devia, o ensinamento a ministrar a aula. Mas tem uma saída genial. Abre o livro e escolhe um texto qualquer. Coloca os alunos dispostos em equipe e manda “pesquisar”. Para que organize as equipes de trabalho lá se vão mais de trinta minutos de aula.
Mas as equipes já estão formadas e as dúvidas começam a ser elucidadas pelo mestre “enrolão”, De vez em quando, um aluno mais inteligente faz-lhe uma pergunta. Ele pede o livro e, passando os olhos ligeiramente no texto, lembra-se e mais que depressa, está respondida a pergunta. Este método moderno é muito discutido, porque dá margem ao enrolamento do professor e de alguns alunos que funcionam como verdadeiros parasitas. Encostam-se nos colegas e ficam aguardando que a “pesquisa” seja concluída. Logo que, os colegas terminam o trabalho estão de caneta em punho para colocarem as assinaturas.

                                                                                     LEVAO tempo da aula já está esgotado e o mestre recolhe os trabalhos e diz: “Na próxima aula continuaremos”. É mais uma aula que vai ser enrolada. No dia seguinte, os alunos entram em grande confusão na sala, cada um procurando os colegas de equipe. Muitas vezes, aquele que estava encarregado de fazer o trabalho não foi à aula e fica tudo “embananado”. O professor chega junto à equipe que está com problema e procura solucionar o impasse nomeando outro relator. Mas a aula já vai pela metade. No final, recolhe os trabalhos e quase sempre não os corrige e, todos os dias, lança uma desculpa falha e que não convence aos alunos.

O mestre consulta o seu relógio de pulso. São quase nove horas e o horário da aula é 8h15m. Mas já "bolou"mentalmente uma desculpa. "O tráfego estava engarrafado e quase não arranjava uma vaguinha para estacionar o seu "fusca". Os alunos impacientes já se foram.. e afinal, era isto que o "enrolão"queria...
AH. O Bahia foi campeão baiano de 1970. “ Vocês viram que jogão?”  Vocês viram que jogão?"Pronto!
Foi-se mais uma aula. A maioria dos alunos são torcedores do Bahia e o assunto interessa. Os lances da última partida são revividos por todos. “Você viu, fulamo pegou a bola... e quase era outro gol...” A polêmica está formada, principalmente se existe um torcedor do Vitória ou do Galícia. Discutem durante todo o período de aula sobre football e o assunto do trabalho nem foi ventilado.

                                                                                          JORNAL

O jornal é outro “álibi” usado pelo professor que “enrola”. Ele já entra na sala com o jornal debaixo do braço. Faz a chamada, que dura quase a metade da aula. Depois, abre o jornal e começa a comentar um fato internacional ou nacional de maior destaque. Se os alunos são do curso colegial, melhor. Quase todos eles sabem o que está ocorrendo pelo Mundo. As discussões são acirradas e o mestre, como um juiz com pouca autoridade, só faz dizer: “Calma, calma minha gente. O negócio não é assim...”
O jornal vai passando de mão em mão porque cada um dos presentes que emitir sua opinião “abalizada”. O professor levanta-se de vez em quando de sua carteira, dá uma risadinha traiçoeira e volta para o seu lugar. Os alunos , como “patinhos”, esqueceram-se do trabalho de equipe e ficaram prejudicados...


O professor acabou de entrar na sala de aula. Abriu o jornal e passando os olhos nas manchetes encontrou um fato internacional ou nacional de destaque. Pronto! Já está "enrolada"a aula. Agora é só dar início aos comentários e os alunos como patinhos entram numa polêmica infrutífera...
                                                                            “O CHUTE”

Carlos é um aluno aplicado e que está constantemente preocupado em aprender para passar no vestibular que deveria enfrentar no próximo ano. Não perde tempo. Tem uma “brechinha” e ele já está fazendo uma pergunta. O professor está despreparado e não sabe responder. Mas, quem diz que ele se aperta! Olha para um lado e para outro e responde: “ É rapaz, a sua pergunta é muito interessante. Não se preocupe que vou pesquisar e na próxima aula eu lhe esclarecerei.Você deve saber que, hoje em dia, ninguém pode mais dominar toda uma matéria, tal o desenvolvimento da ciência”.
Vai para casa preocupado e começa a folhear todos os livros que estão ao seu alcance, até encontrar a resposta para a pergunta do aluno. Na aula seguinte, volta cheio de alegria como o único dono do assunto.“Eh, fulano, a sua pergunta me deu um grande trabalho. Mas pesquisei durante algumas horas e encontrei a resposta. Como diz o autor fulano...e faz duas ou três citações desconhecidas do aluno que lhe fez a pergunta. Quando termina o seu blá blá infernal, vem de logo à pergunta.“alguma dúvida, meu filho?... Claro que não existe dúvida alguma, ou melhor, a maioria não entendeu “bulhufas” nem mesmo o aluno perguntador.Mas o importante para o “mestre” é que os “caras” ficaram atentos e calaram-se.

                                                                  AUTO- AFIRMAÇÃO

É o primeiro dia de aula. O professor está cansado, porque passou dois ou três meses de férias. Entra na sala com uma biblioteca ambulante debaixo do braço.Faz a chamada dos alunos por mais trinta minutos, fingindo identificar seus novos discípulos. Depois, abre um grosso livro, retira uma relação contendo dezenas de livros, e chamando um dos alunos sentados nas primeiras filas ordena que vá até o quadro negro. “Vou lhes dá uma relação de livros indispensáveis para o nosso curso”. Os pobres estudantes ficam boquiabertos. Imagina comprar todos aqueles livros. Fazem uma continha de cabeça, para saber quantos cruzeiros custam. AH! Todo o dinheiro da mesada não é suficiente para comprar aqueles livros. Os mais sabidos, nem se preocupam. Sabem que o mestre nunca irá utilizar ou exigir todos aqueles livros e ficam “na deles”.

                                                         NÃO SABEM EXPLICAR

Alguns mestres, ao contrário, dominam o assunto. Mas infelizmente não “nasceram” para professores e não conseguem transmitir os seus conhecimentos para os alunos. Esforçam-se ao máximo por nada. Os alunos ficam “voando” durante toda a aula ou conversando com os colegas sobre qualquer coisa. No final vem a verificação mensal (até aprova já mudou de nome, fica mais “charmosa”, assim). Os alunos olham para um lado e para o outro e não sabem nada.O jeito é apelar. Abrem o livro (quando podem) e começa aquela “pescaria”...
Outros mestres pouco conhecem o assunto, mas, com uma maestria do bom “enrolão”, conseguem transmitir alguma coisa a seus alunos. Com isto, ganham “fama” de bons professores principalmente se pegam um assunto de aula descoberta ou com um fato novo que está estampado nas páginas de um jornal ou de uma revista estrangeira. E diga-se de passagem, que esta última opção, funciona melhor...

                                                     NÃO TEM AUTORIDADE

O professor que não tem pulso para dominar os alunos na sala de aula, geralmente não sabe nada e pouca coisa tem para transmitir. Dá “chute dos diabos”. Os alunos que não conhecem o assunto pegam aquele “chute” e copiam em seus cadernos de anotações. Quando acontece mudar de professor, o negócio “pega”. A explicação dada não coincide com a realidade e o novo professor assinala os erros. Mas o aluno não perde tempo. Pega o caderno de anotações e mostra ao novo professor, querendo provar que a questão está a “certa”. Mas...coitado! “entra pelo cano”, porque o mestre tinha dado um verdadeiro “chute” e ele inocentemente pegou como um bom goleiro...





















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