Objetivo


quinta-feira, 7 de junho de 2012

MÚSICA - D. CANÔ: DE CASA AOS PALCOS SEGUINDO O SUCESSO DOS FILHOS

A TARDE, SEGUNDA-FEIRA, 29 DE JULHO DE 1985.
Texto Reynivaldo Brito

MÚSICA

Ser mãe de alguém famoso já é muito difícil. Imagine ser mãe de duas pessoas famosas, as quais estão a todo o momento nas páginas do jornal, das revistas, no vídeo ou nas estações de rádio. Imagine ser mãe dessas pessoas e ouvir a todo instante, muitos elogios e também algumas críticas injustas ou verdadeiras. A alegria é muito grande para D. Carolina Veloso ou simplesmente D. Canô. Foto atual de 2012 do Google de d. Canô com os dois filhos famosos Caetano e Bethânia.
Uma senhora de estrutura média, de riso fácil e acima de tudo uma pessoa muito doce, que tem alegria de viver. Ela acompanha com muito interesse o trabalho de seus filhos Caetano Veloso e Maria Bethânia, desde os primeiros passos na carreira artística. Aqui ela fala do relacionamento entre seus filhos, da amizade, do sucesso, de como aconteceu à entrada deles no setor artístico.
Falando sobre Caetano sua mãe revela que ele desde menino gostava de cantar. Tinha uma voz muito bonitinha e por isso era muitas vezes convidado para cantar em festinhas de aniversário e mesmo em outros locais em Santo Amaro da Purificação.
Nós temos um disco cuja fita foi gravada aqui nesta sala (na casa da família em Santo Amaro) e que depois foi passada para um disco de 78 rotações. È o primeiro disco gravado por Caetano. Nele Caetano canta “Mãezinha Querida” e “Etílico da Vila, de Noel Rosa”.
Aliás, lembra D. Cano, seu filho tinha quando garoto a mania de decorar músicas e tinha predileção especial por Noel Rosa.
Sua casa vivia cheia de meninos: Clara, Mabel, Rodrigo, Roberto, Caetano e Maria Bethânia e mais Nininha e Irene que o casal criou como filhos. Ao contrário do que podemos imaginar eles não andavam muito pelas ruas como acontece com a maioria dos garotos criados no interior. “Eu não gostava que eles andassem soltos pelas ruas. Como morávamos num sobrado muito grande eles brincavam à vontade no quintal e nos grandes salões. Gostavam muito de brincar de circo, de procissão, ensaiando peças e assim por diante. Nunca gostaram de jogar futebol, por exemplo, e o meu esposo Zeca (já falecido) tinha queixas disto. O Zeca era torcedor acirrado da Elite, que é o time de Santo Amaro e do Bahia. Certa vez ele pegou o Rodrigo e vestiu de jogador com camisa, meão e chuteiras. Mas para sua tristeza o Rodrigo não quis saber de futebol.

                                          OS ESTUDOS

Como acontece com a maioria das mães todo o esforço de D. Cano e de “seu” Zeca era voltado para que os meninos estudassem. “A gente se esforçava para que eles pelo menos tirassem o ginásio. O pai de Caetano sempre recomendava: Vocês tiram o ginásio e depois tomam o rumo que desejarem. Foi assim que Mabel se formou em professora.
Clara Maria fez o científico. Roberto o curso técnico comercial. E Caetano chegou até o 3º ano de Filosofia. Certo dia Caetano chega a casa e diz à mãe que não vai mais estudar. Ela insistiu dizendo que “uma carta é sempre uma carta”, mas ele retrucou que não precisava de diploma. Veio a Revolução e Caetano terminou deixando os estudos,
Revoltado, principalmente com a saída de vários professores da Universidade Federal da Bahia.
Esta decisão deixou o casal Veloso muito preocupado. Caetano já estava às voltas com grupos ligados ao Cinema Novo, ao teatro e ao movimento estudantil. Ele compunha, escrevia peças, poesias e queria fazer cinema.
Esta salada de coisas preocupava ainda mais seu pai. Lembra que um dia Zeca chamou Caetano e falou francamente sobre esta sua indefinição, ou melhor, sobre sua postura de fazer várias coisas ao mesmo tempo. “Ele se metia com aquele povo do cinema. Tudo ele sabia e não de definia.” Até que chegou de surpresa à hora de tomar novo rumo.
Quem acredita na força do destino este é mais um argumento forte. Naquela época Nara Leão cantava com muito sucesso no show Opinião, quando não podendo continuar, o nome de Maria Bethânia foi lembrado.
“Tem uma moça na Bahia capaz de substituir Nara”.
Diz D.Canô que o nome de Maria Bethânia foi lembrado pela própria Nara Leão. Então Oswaldo Viana telefonou para a atriz baiana Nilda Spencer para que localizasse a Bethânia. O convite foi feito e Oswaldo e Nilda tiveram que vencer a barreira e a preocupação do casal Veloso. Naquela época Bethânia era menor de idade idade. Mas Caetano, que já era maior e já havia morado um ano no Rio de Janeiro, se prontificou a acompanhar a irmã. Aí é que D. Canô arremata: O destino ninguém corta. Se meus filhos estão aí é porque o destino marcou. Eles não tiveram incentivo de quase ninguém.
Tudo foi obra do destino”.
Destino ou não, o fato é que os irmãos Veloso seguiram para o Rio de Janeiro. Lá Caetano foi convidado para participar do programa “A palavra é...”, de Blota Júnior, foi um sucesso sua participação, deixando o apresentador e telespectadores surpresos como ele tão novo e que sabia músicas tão antigas!
Foi aí que Caetano revelou que as músicas eram ensinadas por sua mãe D. Canô, que gostava de cantar em casa. Logo depois ele deu uma música intitulada “Boa palavra rapaz”, para a cantora Maria Odete gravar. Diz D. Canô que esta música tem uma história.Caetano estava numa fazenda no Recôncavo Baiano quando surgiu um garotinho completamente despido. O garoto tinha olhos azuis e estava faminto. Caetano ficou conversando com ele e em dado momento perguntou-lhe se queria morrer. O menino respondeu que não e daí teria surgido, segundo D. Canô, a música “Boa palavra rapaz”.

                                                DESLIGADO

Desde garoto que para os padrões normais Caetano Veloso era tido como uma pessoa desligada com preocupações diversas dos seus colegas de escola, por exemplo. E esta imagem ficou para sua mãe. “ Ele é um pouco desligado. Lembro que quando ele fez “Alegria, Alegria” chamou o seu pai e disse: “Meu pai desta vez eu vou ou me acabo”.
Zeca ficou pensativo e preocupado com os versos de Alegria, Alegria. D.Canô arremata dizendo que “meu filho cantava de verdade. Foi por isto que Zeca, como bom pai que era, ficou preocupadíssimo. Mas, para a nossa felicidade e principalmente dele, a música estourou no festival e o Brasil, inteiro cantou”.

No meio da conversa de vez em quando D. Cano lembra-se de alguns detalhes curiosos, que somente àqueles, que o assistiram poderá confirmá-lo ou mesmo acrescentar outros elementos. Diz ela que quando a música “Alegria, Alegria” estava no auge sendo muita executada no rádio e na televisão houve uma discussão no programa de Flávio Cavalcanti entre Nélson Mota e Sérgio Bitencourt (já falecido). Nélson defendia a música e Sérgio criticava. Em determinado momento Sérgio teria chamado Nélson de “A noviça rebelde está zangada”, quando este partiu e deu um tapa no Sérgio”. Verdade ou não, na realidade esta música provocou muita polêmica na época:uma tônica em alguns trabalhos de Caetano, porque seu trabalho é inovador e muitas vezes é incompreendido.

                                   UNIÃO É O SEGREDO

“Os menores são muitos unidos. Até as duas que criei a Nicinha e a Irene. O relacionamento até hoje é muito terno. Eles se querem muito, diz D. Canô.
O curioso é que embora o casal Veloso já tivesse uma prole razoavelmente grande (seis filhos) ainda criou as duas. Elas são primas, mas não têm parentesco com os Veloso.
Quando crianças brincaram muito no velho sobrado e tempos depois foram morar numa casa menor, mas que ainda tinha espaço para as brincadeiras, num imenso quintal cheio de árvores.
Não perdiam um espetáculo de circo e gostavam muito das festas religiosas. Até hoje Caetano e Maria Bethânia quase todos os anos participam dos festejos religiosos em Santo Amaro, ou seja, da lavagem da Matriz de Nossa Senhora da Purificação. Também tomaram muito banho de rio, especialmente na localidade de Timbó, onde a família passava as férias. Isto também revela a ligação de Caetano com o Rio Subaé, que banha sua cidade natal. O que está poluído, o qual ele dedicou uma bonita canção.
D. Canô lembra que Caetano quando se mete numa coisa é um caso sério. Ele está muito chateado com o que estão fazendo com a Lagoa do Abaeté. Já participou de algumas concentrações em defesa do Abaeté e até falou com Tancredo Neves. “Não é brinquedo aquele menino, quando quer uma coisa,” arremata.

                                  APOIO É A PRESENÇA

E Bethânia D. Canô? Ela suspira: A Bethânia é uma pessoa maravilhosa, não é por ser minha filha. Não. È uma pessoa determinada. Uma grande intérprete. Eles sempre trabalharam independentemente para que o trabalho de um não prejudicasse o outro.
Até o sobrenome foi esquecido: Caetano Veloso e Maria Bethânia. Nós (eu e o Zeca) nunca tivemos o ideal de torná-los artistas. Mas eles quiseram, e por isso receberam e recebem a maior força. Torcemos por eles, eu e os demais. Quanto a Zeca, Já se foi, infelizmente, mas enquanto viveu era um entusiasta do trabalho de seus filhos.
Continua: Nós nos preocupamos muito quando Bethânia ainda menor foi para o Rio de Janeiro, principalmente com receio de alguma decepção. Sabemos que quando um artista começa sofre muitas decepções e ela era uma criança. Também sabemos que quando um artista não é bom, o número de decepções é maior. E naquela época nunca esperávamos que ela fosse capaz de substituir a famosa Nara Leão. Mas Bethânia deu o recado certo, e até hoje, está aí nas paradas de sucesso. Recentemente ela estreou um espetáculo que percorreu todo o País e eu acompanhei em várias cidades.
D. Canô já acompanhou Bethânia certa vez por todo o Nordeste, indo até Fortaleza e viajou apenas uma vez com Caetano, até Aracaju.
Quando indagada se ela cuida nos bastidores de um espetáculo da roupa ou da maquiagem de seus filhos, diz. “ Não. Tudo é feito pelos auxiliares deles. No caso de Bethânia quem cuida de tudo é Nicinha. Eu fico pelo camarim e quando o espetáculo vai iniciar fico na primeira fila acompanhando tudo de perto. Mas, meu envolvimento é a presença da mãe, que se sente feliz com os filhos cantando para tanta gente! Mas, não me meto em suas carreiras. Eles sabem o que fazer.”





















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