Objetivo


quinta-feira, 21 de junho de 2012

VIOLÊNCIA - NA ARENA DO ASFALTO A LUTA ENTRE VIOLÊNCIA E REPRESSÃO

VIOLÊNCIA
Jornal A Tarde – quinta-feira , 8 de novembro de 1979.
Reportagem de Reynivaldo Brito e Cristovaldo Rodrigues

A violência está nas ruas de Salvador desafiando as autoridades e colocando em pânico a população. Uma violência desenfreada onde presenciamos todos os tipos de crime, principalmente o assalto a mão armada e o latrocínio. As medidas paliativas dos aparelhos de repressão não têm contribuído para extingui-la. Muito pelo contrário, os assaltos são cada vez mais violentos e quase sempre resultam em feridos e mortos. A Penitenciária Lemos de Brito e a Casa de Detenção vivem superlotadas de jovens delinqüentes, sem falar nos menores que são encaminhados para outros setores correcionais especializados. Anunciaram que combaterão o crime sem tréguas e sem quartel. Evidente que uma afirmação bombástica, mas também ineficiente, porque o aparelho repressor não tem condições de resolver as causas desta violência que está na falta de emprego, na migração desenfreada, nos baixos níveis sociais, culturais e econômicos, na desinformação e na falta de solidariedade humana. Vivemos numa metrópole que cresce desordenadamente, marginalizando milhares de pessoas que vivem na mais promíscua miséria. Tudo isto fruto de um capitalismo selvagem onde o lucro é a pedra de toque e o objetivo maior. Esta marginalização já está gerando alguns problemas que servem de exemplo às autoridades, aos empresários, aos sacerdotes e também a todos os cidadãos. As invasões organizadas, as quadrilhas de delinqüentes que estão crescendo e se abastecendo de armas modernas são suficientes para constatar a necessidade de um remédio.
Não há um paliativo ou mesmo a defesa da pena de morte,mas a adoção de medidas que visem diminuir a marginalização proporcionado melhores condições de vida aos milhares de marginalizados.

                                                            “A BATALHA”

Tenho acompanhado alguns crimes ocorridos em Salvador, lendo e meditando sobre os depoimentos dos delinqüentes, dos policiais e de pessoas ligadas às vítimas. Estas últimas,  querem a Justiça com a própria mãos a exemplo de um recente fato ocorrido em Cantagalo, no Rio de Janeiro, quando centenas de pessoas invadiram um Distrito Policial, assassinaram delinqüentes e incendiaram os carros. O mesmo aconteceu no Paraná, e, casos de linchamentos são comuns no Grande Rio. Isto mostra o descrédito da população no aparato policial e na própria Justiça que não tem condições também de resolver este grande problema que aflige, principalmente as grandes metrópoles do país.
Como o executivo que bota seu paletó, a gravata e apanha sua pasta rumando para o escritório , assim centenas de jovens marginalizados apanham suas pistolas e saem para as ruas em busca de suas vítimas. O executivo vai para o trabalho e o marginal para a
 “ batalha”. Sim, porque “ batalhar” é preciso porque ele está cansado de pedir emprego e os que conseguiu ofereciam apenas o salário mínimo, quantia insuficiente para qualquer cidadão viver com honestidade. Num pequeno assalto conseguiu ultrapassar esta quantia e daí em diante vem um  rosário de assaltos terminando muitas vezes com um crime de morte e anos de cadeia.
“ A Guerra à pobreza, à habitação inadequada e ao desemprego é a guerra ao crime. Uma lei dos direitos civis é uma lei contra o crime. O dinheiro para escolas é dinheiro contra o crime. Os serviços médicos, psiquiátricos e de aconselhamento familiar são serviços contra o crime. De modo geral e da maior importância, todo e qualquer esforço para melhorar a vida nas cidades nucleares é um esforço contra o crime. Estas recomendações e observações estão contidas na “The Crimes Comission” criada pelo governo norte-americano.
Esta visão servirá para nós brasileiros tirarmos algumas conclusões. Vejamos: 1) a
habitação inadequada ou mesmo a ausência de habitação é um problema crucial deste nosso país cheio de contradições. A política habitacional tem demonstrado ser ineficaz e imprópria para grande parte da população. Os que tentaram adquirir através o BNH estão endividados até a morte e só se livrarão da dívida quando morrerem, porque assim o seguro cobrirá; 2) o desemprego é gritante. Não existem estatísticas, e falando em termos de Bahia a esperança que era o Pólo Petroquímico tem demonstrado que nada valeu. Muitos trabalharam na sua construção, e quando as fábricas entraram em regime de operação foi preciso importar do Sul do país centenas de operários; 3) uma lei ou leis de direitos civis não aparecem. Nossos legisladores estão mais preocupados com querelas partidárias e disputas pueris; 4) dinheiro para as escolas, só em último caso. Basta passar a vista num contracheque de um professor e nas vidraças de qualquer escola pública. O caos é geral. A educação é relegada a um plano inferior; 5) os serviços médicos são inadequados, insuficientes e insignificantes. Quem duvidar vá a um ambulatório do Inamps que encontrará um retrato fiel do sofrimento nacional; 6) os serviços psiquiátricos são campos de concentração. Aqui na Bahia o famigerado Juliano Moreira é um exemplo, que pode ser citado até fora de nossas fronteiras. Portanto, o que observamos é que nada é feito para evitar o crime. Os empresários, que também têm responsabilidade para com suas comunidades, estão no momento mais preocupados em alugar escunas para passear pela Baía de Todos os Santos ou mesmo passar as férias nas Bahamas, como anunciou recentemente uma colunista social, que um banqueiro baiano alugou um iate para seguir para “àquele paraíso”. Enquanto isto,deixam atrás das ondas do seu iate um quadro de miséria e criminalidade. Até quando?

                                                       BEBEL, UMA VÍTIMA?

A  presença do repórter já o transforma. Fica emocionado e as lágrimas vêm aos seus olhos fundos e mal dormidos. É franzino e gesticula muito quando fala. Está preso acusado de praticar o assassinato à bala do comerciante Evandro Gomes Carvalho Filho.
Seu nome de guerra é Bebel, e o verdadeiro Fernando Alberto Santos, pintor de paredes e empinador de arraias, que se transformou no exemplo de bestialidade e revoltou centenas de pessoas.
Desmente categoricamente que o comerciante estava marcado para morrer. Tudo não passou de conversa fiada de seus comparsas que querem lhe incriminar mais ainda. Desde que foi preso está aguardando sua prisão preventiva num dos xadrezes da Delegacia de Furtos e Roubos.Aqui ele fala de sua vida e como foi arrastado ao crime.Vítima ou culpado? Vocês que julguem.
Lembrem-se apenas que o Júri Popular está em crise e ameaçam mudá-lo. Esqueçam a vingança e pensem num jovem, vítima de uma estrutura social.
Os policiais trazem Bebel pelo braço. Sua cara é triste.Veste a mesma roupa desde  o dia que foi apresentado à polícia pelo seu advogado Francisco Bastos.Iniciamos nossa conversa sobre a sua infância, quando aos sete anos de idade freqüentava, juntamente com uma tia, uma Igreja Batista. Fala de suas amizades na infância e a preocupação constante de seu velho pai para que “não me juntasse com maus elementos”. Criou-se na Fazenda Garcia, onde morou durante 15 anos, e relembra com alegria e emoção os prenomes de alguns colegas. De lá seu pai transferiu-se para o bairro de Engenho Velho da Federação e em seguida para o Nordeste de Amaralina onde assegura ter conhecido colegas da pior espécie. “ O pior de tudo, foi quando mudei para o Nordeste”. Esta frase serve para demonstrar a existência de muitos jovens iguais a Bebel dispostos a pegar numa arma. Os conflitos sociais que são encarados na própria carne desta gente sem futuro quase sempre resultam na criminalidade.
Mas Bebel continua falando de seu velho pai. Falando bem, é claro. O velho lhe presenteou uma bicicleta e nunca faltou o necessário a sobrevivência dos filhos.
Foto de Bebel acima que trocou as pipas que embinava no Nordeste de Amaralina pelo revóver.
“Sempre tinha alguma coisa diferente para a gente comer”. Lembra também que junto a sua casinha no Garcia tinha alguns amigos com os quais se juntava para jogar bola num terreno ao lado.Cita os nomes de Carlinhos, Nelson, Israel, Robson e outros mais chegados. Sabe apenas os prenomes porque acontecimentos mais fortes e marcantes conseguiram apagar algumas recordações e fatos de sua infância.
Sobre os estudos pouco tem a acrescentar. Nunca conseguiu passar do primário incompleto.Embora seu pai fizesse um esforço de gigante para que estudasse, a necessidade de ganhar dinheiro sempre foi mais forte.Juntamente com seus sete irmãos, Bebel chegou a se matricular no Colégio Hildete Lomanto, no bairro do Garcia. Depois passou a estudar no Liceu de Artes e Ofícios onde aprendeu a profissão de marceneiro. Aos 15 anos saía com seu pai para o trabalho de pintura de paredes. E comprova mostrando sua Carteira de Trabalho surrada onde estão assinalados os carimbos de várias firmas e as respectivas e constantes dispensas. Até aí nunca tinha sido preso.

                                                          A PRIMEIRA BRONCA

Não tardou e entrou na primeira bronca. De menino pobre, malandro e tranqüilo virou homem e vieram as primeiras conquistas femininas. Relembra algumas delas. “Meus sonhos sempre foram grandes, porque necessitava ajudar em casa. Principalmente a minha mãe porque tenho grande admiração”.
Como que dá um pulo para trás e o carnaval surge. E a válvula de escape e momento de esquecimento das tensões em todo o país. E assim Bebel também pega sua fantasia e vira atração na avenida. Volta a chorar quando diz que foi a primeira vez que ganhou às ruas da cidade sozinho. “Foi o ano de liberdade para mim. Saí no bloco “bem amado” depois freqüentei algumas festas populares, sempre em companhia de amigos.
Nada de broncas”.
Conheceu Iara, uma mulatinha jeitosa. Veio à segunda, que foi Fátima, e teve que brigar com um tal de Orlando que o golpeou com uma peixeira. A vida ia ficando dura. Mostrou que era homem, enfrentando o desafiante.Foi golpeado e parou no Pronto-Socorro, onde permaneceu por oito dias. Isto foi em fins do ano passado. Esta briga foi o começo de tudo. Passou a querer vingança e o Orlando terminou dando uma queixa na 7ª Delegacia onde respondeu inquérito.
Em seguida conheceu Armandinho ou “Gorila”,também jovem, que fazia dupla com Epaminondas. Surgia uma pequena quadrilha. Enquanto Bebel teimava em empinar arraias eles planejavam novos assaltos. Comprou um revólver com o pretexto de se vingar de Orlando, que o esfaqueara, e terminou vendendo a Epaminondas por Cr$ 2 mil cruzeiros, que nunca recebeu, pois este entregou ao Armandinho. O grupo estava formado. Várias vítimas foram feitas.

                                                                    ATIRANDO  

Saíram para a “batalha”.Desceram o morro e ganharam o asfalto. Por infelicidade foram dar com um casal que retornava do trabalho com alguns cruzeiros na bolsa. Abordaram as vítimas e eis que Bebel dispara. Um tiro fatal.Corre para Santo Amaro, depois de ameaçado de morte apresenta-se e está preso à espera de julgamento.
Muito embora seja acusado de vários assaltos com seus comparsas, (Epaminondas e Armandinho) nega categoricamente.Mas, certamente, procura diminuir a sua culpabilidade.    
Dos sete irmãos ele fala de Sílvio, também marginal. Este participou de vários assaltos com seus comparsas. E agora, está preocupado com as ameaças de Armandinho que prometeu matar seu pai, que em companhia da Polícia procurou pelos filhos marginais e seus companheiros.
Uma decepção terrível para o velho pintor que lutou e luta com dificuldades para manter a família. O velho chegou ao ponto de prometer matá-los. Queria apagar de vez a mancha terrível que enegrece sua própria família. Dois filhos marginais, de uma família residente no Nordeste de Amaralina. Um bairro pobre, onde existem centenas de sub-habitações e onde impera a miséria ao lado das mansões exuberantes do bairro burguês da Pituba. Um contraste bonito para os poetas, exemplo para os urbanistas e atestado de descaso das autoridades.

                                                              VISÃO DA POLÍCIA

Para o Comandante da Polícia Militar, coronel Sílvio Roberto Rodrigues de Matos, ( foto ao lado) são várias as causas geradoras da violência em Salvador. Aponta o desenvolvimento demográfico aliado à falta de emprego, o uso desenfreado de tóxicos e as crianças abandonadas que estão na escola da marginalidade.
Diz que existe uma organizada repressão e inclusive a vendagem de armas de fogo é controlada pela Secretaria de Segurança Pública, mas demonstra incredulidade neste sistema já que os marginais estão armados até os dentes. Para ele, isto é fruto da falta de cuidado de muitos cidadãos que deixam armas no interior dos automóveis, que são facilmente arrombados e de onde os marginais roubam armas para assaltarem e matarem. Quanto às armas brancas, ou sejam peixeiras, punhais, navalhas e outras, não existe controle. Mas o marginal que se respeita não pega nessas armas. O negócio é o “berro” novo e lubrificado.
Hoje, a Polícia \Militar tem apenas 12 mil homens para cobrir um estado com mais de nove milhões de habitantes, sendo que somente em Salvador residem um milhão e trezentas mil pessoas. Cita ainda o frágil efetivo da Polícia Civil e diz que na Região Metropolitana encontram-se trabalhando quatro mil homens. Elogia as blitsz e esquece de um problema crucial que é o da distribuição de renda, da pobreza, do distanciamento cada vez maior entre ricos e pobres e do abismo que ora existe na sociedade brasileira.
Acredita na repressão, como todo policial, e esquece que é uma faca de dois gumes. É um paliativo que muitas vezes também é causa de violência e desmandos, porque ganham pouco, os homens encarregados desse serviço.


                                                                       O EFETIVO


O coronel Silvio Matos fala que é impossível a Polícia se antecipar ao crime. Uma verdade conhecida por todos. O que precisa se antecipar são as medidas sociais. São os programas de saúde, de trabalho e educação. São os programas sanitários e de bem estar social. De nada adianta o Comandante da PM colocar milhares de soldados armados porque numa esquina adiante alguém vai assaltar.
Outros contra-argumentam citando os Estados Unidos, que são um país adiantado e existe um clima de violência. Existe porque lá também as contradições são gritantes. Para lembrar do preconceito racial, da pobreza e dos guetos negros e porto-riquenhos.
Porém, é preciso lembrar  países como os escandinavos, a Suíça,e muitos outros onde a distribuição social é mais humana.
A violência aumenta e com ela a repressão. “Veja -  salienta o coronel Silvio – a PM aumentou o número de policiais na rua. Em abril tínhamos 1.110 homens e agora 2.900 policiando a Cidade com 40 viaturas por cada turno”.
Confessa adiante que este número é conseguido porque muitos dos  praças estão dobrando em turnos. “A Polícia tem de agir a qualquer momento e as blitsz que estamos realizando têm contribuído para prender vários marginais e impedir outras formas de violência como a direção perigosa, retirando de circulação veículos conduzidos por irresponsáveis e embriagados. Sei que a blitsz incomoda o cidadão, mas é uma necessidade, um fato presente em toda grande cidade”.
Arremata dizendo que o número de homens e viaturas ainda é insuficiente para dotar a Cidade de um bom policiamento e segurança. Mas vai criar o 11º. Batalhão e o 12º. Batalhão de Guardas da Capital. Cerca de 1 mil homens   deverão ser incorporados até o final do ano e no próximo semestre” (de 1980) igual  número .

                                                    PRISÃO PARA AVERIGUAÇÕES

O coronel Silvio é daqueles que defendem a prisão cautelar ou para averiguações. Segundo ele, se deixar de existir esta prisão as cidades ficarão cheias de marginais. A violência vai aumentar e não há sistema repressivo que dê conta. “Você já pensou se o policial só poderá prender o bandido ou suspeito em flagrante delito ou ordem judicial?”. E responde: “não existiam quase ladrão na cadeia. O próprio Bebel que foi preso como suspeito acabou confessando o crime. Este é um exemplo deste mal necessário.
E volta a falar de seus comandados. Hoje, um soldado ganha em torno de Cr$3 mil. O repórter indaga: somente isto coronel? “E quando dobra o serviço chega a tirar Cr$4.800,00 por mês. Um oficial com mais de 10 anos chega a ganhar Cr$23 mil, com gratificações especialmente se tiver o nível universitário”.
Enfrentando todas as dificuldades inerentes a seu cargo de Comandante da PM, o coronel Sílvio revela que o índice de criminalidade caiu bastante nos últimos meses e cita que o número de prisões nos seis últimos meses chegou a apenas 7 mil contra 14 mil em igual período do ano passado. Disse ainda que nos últimos quinze dias seus soldados 6º Batalhão prenderam 159 pessoas, entre elas delinqüentes, criminosos, traficantes e loucos.”
Enquanto a Polícia prende e os advogados lutam para soltar seus constituintes a população vai sofrendo paciente, e agora já começam os primeiros sinais de reação. Cantagalo, linchamento no Paraná e no Grande Rio são exemplos claros e cruéis de que alguma coisa tem que ser feita para evitar que se faça justiça com as própria mãos.       
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