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quarta-feira, 18 de abril de 2012

CONTROLE DA NATALIDADE - A PÍLULA DA MULHER JÁ ERA. AGORA É A VEZ DO HOMEM

Revista Manchete 19 dezembro de 1981
Foto Arestides Baptista

Vinte anos após sua criação, a pílula anticoncepcional passa por sua primeira grande revolução: vai mudar de sexo. Lançada com estardalhaço como a solução final para o controle da natalidade, ela foi uma das alavancas da tão propalada revolução sexual dos anos 60. Modificou o comportamento de milhões de mulheres no mundo inteiro, mas nem por isso se mostrou satisfatória, causando uma série de problemas e efeitos secundários. O feminismo deu força à dúvida: por que a mulher é que deve tomar a pílula? Por que não o homem? A indagação se tornou ainda mais premente quando se verificou que, cientificamente, a pílula masculina era a ideal. E os brasileiros estão na vanguarda desta transformação.



A oportunidade não poderia ser melhor para o lançamento da pílula do homem. A China, como a maior população do mundo e empenhada em conter a explosão demográfica que agrava cada vez mais seus problemas de subsistência, é a nação pioneira nesse campo e, há mais de trinta anos, vem extraindo do caroço do algodão uma substância anticoncepcional ingerida não pelas mulheres, mas pelos homens. Essa substância é o gossipol. Desde 1972, 10 mil chineses foram submetidos a experiências com a pílula de gossipol, com êxito em 99,9% dos casos. O mecanismo de sua ação consiste em bloquear uma das enzimas dos espermatozoides, sem afetar os hormônios sexuais ou a libido. Além disso, seus efeitos anticoncepcionais não têm caráter irreversível. Os homens que se submetem a esse tratamento se tornam novamente férteis, pouco depois que o suspendem.

A pílula do homem está sendo desenvolvida ao mesmo tempo em vários países. Nos Estados Unidos, alcançaram grande repercussão as pesquisas realizadas no centro científico de Triangle Park, no estado de Carolina do Norte, pelos drs. Chi Yu-Lee e Heinrich V. mailing. No Brasil que vem trabalhando há mais tempo nesse campo é um médico baiano de 50 anos, o Dr. Elsimar Metzker Coutinho, que chefia uma equipe de pesquisas no laboratório da Maternidade Climério de Oliveira, em Salvador, e tem recebido subvenções da organização Mundial de Saúde, das Fundações Ford e Rockefeller e, ainda, da Universidade Federal da Bahia, do Ministério da Saúde e de várias indústrias farmacêuticas. A princípio, os trabalhos do Dr. Elsimar tiveram como alvo as mulheres, por meio de cápsulas anticoncepcionais implantadas que suprimiam a menstruação e, com esta, a fertilidade feminina. Cem mulheres baianas usaram essa cápsula, construída com silástico – um derivado do silicone – com a forma de um anel. Era algo parecido com o DIU ( abreviação de dispositivo intra-uterino). Numa entrevista dada a Manchete a 23 de fevereiro de 1980, ele ainda proclamava que esse anel era “a última palavra” em matéria de anticoncepcionais.

Alegando que “a pílula usada pelas mulheres continha elementos contraceptivos cujo impacto era tão forte que o fígado deixava de produzir enzinas necessárias ao metabolismo das gorduras que se acumulam no sangue, o que provoca alterações cardiovasculares mais ou menos graves, ele assim fazia a apologia do anel vaginal: “Sua instalação no corpo da mulher requer o mínimo de tempo e de manipulação e não apresenta o menor risco de acidente. Está impregnado de determinada quantidade de hormônios esterógenos que, absorvidos pela parede vaginal, penetram na corrente sanguínea e acionam a ovulação e, por conseguinte, a própria gravidez”.

Nesse meio tempo, o Dr. Elsimar Coutinho estivera às voltas com outras experiências: as pílulas de papel, que disse serem usadas largamente na China – uma espécie de estampilha ou selo de celulose, com sabor de hortelã, que testou em 200 mulheres baianas; e a pílula do homem, também testada num grupo de voluntários. Sobre a pílula de papel – um quadrinho de celulose, com cerca de um centímetro de lado – era este o seu princípio: “A celulose é impregnada com uma mistura de estrogênio e progestínico e pode receber cores e sabores diferentes. O uso deve ser diário: a mulher todo dia destaca um selinho e coloca-o na boca, onde ele se dissolve” A pílula do homem já era anunciada por Elsimar Coutinho em entrevista a Manchete , a 25 de novembro de 1972, nestes termos : “Já podemos controlar a espermatogênese. Como conseguir que a pílula seja de efeito prolongado e despida de efeitos colaterais é uma das tarefas da equipe do centro de Pesquisas. baseado na experiência que temos no estudo de métodos anticoncepcionais para a mulher, calculo em dois anos o tempo necessário para o total aperfeiçoamento do método. Até lá a avaliação ficará restrita aos pacientes da clínica universitária”.

Nove anos se passaram sem que a pílula do homem houvesse sido industrializada e comercializada. Agora surgem novamente as notícias de que chegou a hora.


“Depois de vinte anos de pesquisas anticoncepcionais, o cientista baiano Elsimar Coutinho está desenvolvendo a todo vapor a pílula do homem. Ele vem há algum tempo aplicando o método a cem voluntários. O cientista e sua equipe controlam os resultados, comparando o esperma desses homens, antes e após a absorção da pílula, tomada uma vez por semana. Os exames são feitos no laboratório da Maternidade Climério de Oliveira. O Dr. Elsimar diz que os preceitos machistas muitas vezes inibem o homem e muitos não admitem ingerir qualquer substância anticoncepcional, alegando que isso “é coisa de mulher”. Para serem aceitos, os voluntários passaram por uma rigorosa triagem, a fim de apurar, em entrevista pessoal, os seus preconceitos, a sua real capacidade sexual etc. Se um candidato tiver medo de ficar impotente, é eliminado. O cientista baiano não abre mão dessa exigência. Não quer que a pílula seja acusada pela perda da potência de alguém que, antes de usá-la, já tinha problemas dessa natureza.

A pílula do homem contém esteroides naturais, especialmente de gossipol ( caroço de algodão), modalidade também conhecida como pílula chinesa. Sua aplicação, na prática, em doze pacientes especialmente selecionados; revelou-se de grande eficácia e sem efeitos colaterais significativos, como, por exemplo, a perda de potência. Ao contrário, alguns dos voluntários estão mais potentes, por estarem livres de preocupação de engravidar a esposa. Assim, ficam mais desinibidos e capazes de melhorar sua performance sexual. O Dr. Elsimar evita entrar em detalhes a respeito das substâncias empregadas em sua pílula destinada ao homem. Mas declara que “dentro em breve ela estará sendo produzida em escala industrial e largamente comercializada em nosso país”.







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