Objetivo


terça-feira, 10 de abril de 2012

CINEMA - AS DEFORMAÇÕES DO CURTA-METRAGEM NO PAÍS

Revista Manchete outubro de 1977


Os participantes da VI Jornada Brasileira de curta-metragem, que anualmente é realizada em Salvador divulgaram um documento condenando a resolução do Conselho Nacional de Cinema-Concine, por deixar com o exibidor a escolha dos filmes e controle do mercado compulsório. Afirmam os cineastas que a situação do curta-metragem brasileiro continua inalterada no que diz respeito às conquistas alcançadas até hoje, defrontando-se agora com uma resolução que, em vez de resolver, deforma absolutamente a ocupação de seu mercado compulsório, ao permitir as mais graves formas de distorção. Presente à sessão de abertura da jornada, o presidente do Concine, Alcino Teixeira de Mello, fez um apelo aos cineastas no sentido de que aprimorem suas produções, de modo a levarem às platéias de filmes estrangeiros um produto bem acabado do ponto de vista técnico e artístico. “No passado, tivemos o desprazer de constatar manifestações de desagrado por parte de platéias descontentes com a qualidade inferior de certos filmes curtos, disse Mello”.

Muitos Filmes

– Logo após a abertura da VI Jornada Brasileira de Curta Metragem, no dia 9 último, foram iniciadas exibições de filmes, às quais se seguiram debates sobre o tema central que é a resolução da Concine. A jornada prossegue até o dia 15 com um amplo programa de discussões dos vários problemas ligados ao cinema, com simpósios e seminários que contam com a participação de cineastas, autoridades ligadas ao setor e jornalistas especializados. O coordenador da jornada, cineasta Guido Araújo, acha que, embora a medida não seja aquilo que os documentaristas brasileiros esperavam, deve ser encarada como um bom primeiro passo.
 Os documentaristas desejam também uma maior participação nas exibições realizadas na televisão brasileira em substituição aos enlatados estrangeiros, pois, além de fortalecer a indústria cinematográfica nacional, trará resultados benéficos para os telespectadores. Eles reconhecem que muitos dos filmes feitos no país não são de qualidade inconteste, “mas são incomparavelmente menos nocivos que as bobagens importadas que infestam a televisão brasileira”.
 Discordando dos cineastas presentes à jornada, o Presidente do Concine, Alcino Teixeira de Mello, que já foi presidente do extinto Instituto Nacional do Cinema, disse que a Resolução Concine n.º 18, de 24 de agosto último, é fruto de intenso e demorado estudo feito pela Secretaria Executiva do órgão, com base nas proposições formuladas pelo grupo de trabalho instituído para examinar a matéria, e do qual, além do próprio Concine, participaram, com destaque, representantes tanto da Associação Brasileira de Documentaristas quanto da Embrafilme.

Fez a seguir um apanhado dos princípios e regras que nortearão a exibição de curta-metragem nos cinemas brasileiros. A implantação da obrigatoriedade da exibição será feita gradualmente, isto é, iniciando-se pelo Distrito Federal, Rio de Janeiro e São Paulo, mercado que representam sessenta por cento das atividades cinematográficas no país. Um ano após a vigência da resolução, a obrigatoriedade será estendida a outros estados.

Prêmios

 – A Embrafilme dará um prêmio de Cr$ 15 mil e o troféu Humberto Mauro para o melhor filme em 35 mm. A Funarte concederá um prêmio de Cr$ 10 mil ao filme que tiver proposta de maior criatividade. A Universidade Federal da Bahia, um prêmio do mesmo valor para o filme com melhor proposta sócio antropológica, e o Instituto Goethe, um gravador para filmagem em som direto para o melhor filme no gênero documentário de pesquisa social. Finalmente, será concedido o Prêmio Fotóptica para o melhor super 8, ou seja, um projetor Noris Norimat de luxo.

Exibidor/Distribuidor

 – Os cineastas acham que o mercado de exibição brasileiro é controlado pelo binômio exibidor/distribuidor. Ora, se caberá ao exibidor decidir o que será ou não apresentado, qualificando os filmes de acordo com seus interesses mercantilistas, ele passará forçosamente a controlar o mercado compulsório, que foi criado pela Resolução do Concine para beneficiar o curta-metragem brasileiro.
 Diz ainda que o exibidor já tem em seu poder amplo estoque de filmes de curta-metragem comprados ilegalmente a preços humilhantes, estando apto, hoje, a ocupar, por muitos meses, esse mercado compulsório, sobre o qual exercera forte domínio. No rodapé do documento distribuído à imprensa, os cineastas escreveram “Não vendam seus filmes! Trabalhem para si próprios! Lutem pela sua participação exclusiva no mercado. A lua continua.” Certamente, uma luta que tem muitos caminhos a percorrer, tendo em vista o avanço tecnológico no setor em vários países, e a presença, no Brasil, de uma plateia acostumada com os filmes estrangeiros e pouco propensos a aceitar o filme nacional, como observou Teixeira de Mello.






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