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segunda-feira, 30 de abril de 2012

INDUSTRIALIZAÇÃO - O CENTRO INDUSTRIAL DE ARATU EM DEBATE



Revista Manchete 28 de janeiro de 1978

Reunindo, numa área de 436 km², nada menos do que oitenta e oito indústrias em regime de produção, ao lado de mais vinte e uma em implantação, o Centro Industrial de Aratu, em Salvador, Bahia, está novamente posto em questão. A razão disso é a proximidade do Pólo Petroquímico de Camaçari e, em conseqüência disso, o fato de o Cia  ser uma área que abrigará as indústrias de transformação resultantes de produção petroquímica.

Manchete-  reuniu empresários e autoridades governamentais em torno do assunto, num debate que acolheu as opiniões do superintendente do Centro Industrial de Aratu

CIA -José Fernando Nascimento, do diretor presidente da Companhia de Desenvolvimento da Região Metropolitana de Salvador- Conder, Osmar Sepúlveda, de Ulisses Barbosa, Augusto Macedo, Frederico Almeida, Hilton Rodrigues e José Otávio de Almeida, Hideo Hana da M.H.M, e industriais com investimentos no Cia. Durante horas, os mais diversos temas foram levantados, as dificuldades foram apresentadas, enquanto todos os procuravam um denominador comum em torno do qual as soluções surgissem, o espírito de unidade predominando em favor de um empreendimento que tem contribuído decisivamente para o fortalecimento da economia baiana.

Federico Almeida, Diretor da Imac, classificou o Cia como um empreendimento vitorioso. Explicou que, ao ser criado, lhe foi conferida uma função coordenadora e não executiva, acrescentado que o seu planejamento e implantação podem servir de modelo para outros centros industriais. Disse inclusive que o Cia age como uma entidade representativa dos interesses do empresário instalado na área, sendo seu intermediário com o governo do estado, a quem leva suas reivindicações.

Dessa mesma opinião partilha Hilton Rodrigues, diretor da Dow Química, que, "sendo um dos primeiros ocupantes do Centro Industrial de Aratu”, reconhece que as dificuldades ocasionais são próprias de um empreendimento de tal porte, “mas que essas dificuldades devem ser repartidas entre governo e o próprio empresário”. Ele se refere ao fato de que o Plano diretor do Cia permite uma permanente reavaliação, que está ocorrendo agora, em face da realidade atual. “Se há aspectos negativos explica, e eles existem em toda parte, entendemos que o seu lado positivo é bem maior,”

A falta de uma política contínua em relação ao Cia foi, no entanto, apontada pelo industrial Ulisses Barbosa, presidente da Incabasa, como um dos problemas do Centro Industrial de Aratu. Para ele, exportação desse modelo industrial deve ser sempre acompanhada de condições que impeçam uma defasagem na sua implementação.Ele entende que teria faltado, por parte dos empresários da área do Cia, uma maior participação política, não somente no sentido de obter respaldo para suas reivindicações, mas até mesmo de apoiar o governo nas suas decisões. E defende a criação de uma entidade de classe, explicando que “ isso já ocorre com o Pólo Petroquímico de Camaçari”. Mais adiante, ele se refere à posição da Federação das Indústrias do Estado da Bahia, que poderia, segundo pensa, liderar esse movimento, que somente poderia elevar o nível de entendimento existente entre governo e investidores.

Ulisses Barbosa concluiu sua intervenção com uma reivindicação no sentido da instalação, na área, de um controle de avaria e incêndios, o que, segundo Jpsé Fernando Nascimento, superintendente do Cia, já está em andamento com a aquisição de uma área de 40 mil metros quadrados, prevendo-se o início das obras para o primeiro trimestre de 1978, concluindo-se em dez meses.

No prosseguimento dos debates, Osmar Sepúlveda, diretor presidente da Conder, interveio para acentuar a permanente aplicação de recursos por parte do governo no Cia, mas ao mesmo tempo dimensionando suas deficiências e procurando encaminhar soluções adequadas. Explicou que foi através do Cia que se pode atender dois objetivos de desenvolvimento: o de criar emprego e renda com a produção, desenvolvendo uma infra estrutura adequada na região, e a implementação de unidades produtoras modernas, modificando as condições da economia local. Em segundo lugar, pode-se proteger a população dos incômodos desse tipo de desenvolvimento, a exemplo da poluição, e a sobrecarga sobre a estrutura e serviços urbanos.

O diretor da Paskin, Augusto  Macedo, referiu-se aos problemas de infraestrutura para afirmar que a implantação do Cia não ocorreu sem problemas, citando o fato de que sua empresa atravessou sérias dificuldades no que tange a aspectos estruturais, tendo que, em certa ocasião, deixar a fábrica parada por dois meses, por absoluta falta de água.
Ao apartear o diretor da Paskin, o superintendente do Cia lembrou que, há poucos dias, o Governador Roberto Santos, inaugurara o sistema de água da Zona de Indústrias Pesadas, elevando o seu volume, de quatrocentos mil litros por segundo, para um milhão e duzentos mil litros.

“A consolidação dos centros industriais fica muito a depender da estrutura organizacional que possibilite a criar condições ótimas, como a geração de infraestrutura indispensável, como transporte e energia”, disse José Otávio Almeida,  diretor da Banylsa Tecelagem.

Dos debates ficou evidenciada, porém, a importância que o empresário baiano empresta a iniciativas como o Centro Industrial de Aratu. O eventual posicionamento crítico não infere qualquer pensamento pessimista, mas é aceito como contribuição ao aperfeiçoamento daquele complexo industrial. Os próprios empresários lembraram que a política adotada por determinadas indústrias não foi bem orientada, como por exemplo, o fato de que a existência de produtos similares no mercado baiano, já tradicionais, determinou o fracasso de empreendimentos que lidavam com altos custos tecnológicos. Outras indústrias não dispunham da infra-estrutura desejada, fato que se agravava com os obstáculos decorrentes da conjuntura nacional e que levaram alguns empresários a desistir de continuar em atividade. Ao listar suas reivindicações e expor seus problemas, a agenda empresarial inclua desde a necessidade de aperfeiçoamento da infra-estrutura do Cia, a melhoria das condições sociais e a melhor qualificação da mão-de-obra até os setores de transporte, habitação, energia e segurança.

Ao falar em nome do governo, o superintendente do Cia, José Fernando Nascimento, relacionou uma série de providências em andamento, explicando que em nenhum momento houve omissão oficial, mas contrariamente, um crescente interesse de dar ao Cia a estruturação necessária seu desenvolvimento, ainda mais porque disse ele uma nova função lhe coubera, desde a decisão de implantar na Bahia o II Pólo Petroquímico do Brasil: a de participar desse Complexo,abrigando indústrias de transformação.

José Fernando mostrou aos empresários que, em dois anos, o sistema viário do Cia foi aumentado em cinqüenta por cento, contribuindo para a maior racionalização de transporte na área. No setor habitacional, o projeto do bairro operário de Aratu, em Periperi, prevê a construção de 20 mil unidades, com recursos alocados pelo governo do estado.
Adiante referiu-se ao projeto de criação do Centro de Prevenção e Combate a incêndio, em tramitação na Associação Brasileira de Normas Técnicas.
Água e energia elétrica são setores que merecem do governo do estado uma constante preocupação, disse o superintendente do Cia, explicando que as providências já desenvolvidas nessas áreas, e as que se encontram projetadas, permitem inferir que, dentro em breve, tais problemas estarão solucionados. A qualificação da mão-de-obra está sendo acelerada através do Centec –Centro Tecnológico da Bahia, que prepara profissionais em Processos Petroquímicos, Manutenção Petroquímica e Telecomunicações. No entanto, a sede definitiva do Centec ocupará uma área de duzentos mil metros quadrados, na Via Parafuso, próxima ao Pólo Petroquímico e ao Cia.
Ao concluir sua participação nos debates, José Fernando Nascimento fez referência a permanente atualização do Plano Diretor do Cia, atualmente em fase de reavaliação, para fazer face às mudanças que o desenvolvimento econômico está produzindo.



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