Objetivo


terça-feira, 17 de abril de 2012

MÚSICA- CAETANO VELOSO - AGORA ME PERSEGUEM,DEPOIS SERÁ CHICO BUARQUE


Revista: Manchete 24 de Fevereiro de 1979
Fotos Carlos Santana e Arestides Baptista


Em Salvador, um dos mais polêmicos artistas brasileiro volta a botar a boca no mundo.
 Falando de música e política

Em sua casa, no tranquilo bairro de Ondina, depois de cumprir vitoriosa carreira com seu show Muito no Teatro Castro Alves e ter se apresentado, na semana passada, com Gilberto Gil (entre muitos) de um espetáculo destinado a levantar fundos para o comitê de Anistia, Caetano Veloso recebeu a reportagem de Manchete. E, mais uma vez, voltou a fazer carga contra os críticos de música, reafirmando sua participação na Patrulha Odara: “Estou a fim é de encantar e divertir as pessoas.”



Um dia, Carlos Diegues, o diretor de Xica da Silva, entre muitos, durante uma entrevista falou em Patrulhas Ideológicas – e criou-se grande polêmica; durante seu show Muito, Caetano Veloso abriu o verbo, ao lado de Gilberto Gil, e surgiu à expressão Patrulha Odara. Política e arte mesclando-se, num momento em que, como o próprio Caetano diz “está tudo confuso no Brasil”. E ele prossegue: “As pessoas são muito burras esteticamente e chegam ao ponto de criticar por criticar. Mas a música popular brasileira, que está sendo feita e consumida por aí, é a melhor coisa produzida atualmente no Brasil. A música popular é melhor que a literatura, o cinema e tudo mais. E esta crítica que vem se desencadeando tende a cair no vazio porque não é de esquerda, nem de direita. É uma coisa confusa e mal informada. Como essas pessoas não têm o respaldo necessário a uma discussão maior passam ao ataque pessoal – ridículo e inconcebível. Nós, músicos, somos sagrados. Eu sou sagrado, o Gil é sagrado, o Milton é sagrado, o Chico Buarque de Holanda é sagrado. Nós somos sagrados. Falando por mim, devo dizer que eu, Caetano Veloso, sou um homem puro. As pessoas têm medo disto. Imagine que as pessoas tem nojo até da própria mãe. Basta lembrar que a crítica caiu em cima de mim porque apareço na capa de meu disco deitado no colo de minha mãe. Eu não tenho vergonha de minha mãe. Tenho orgulho e é por isto que estou em pânico e, ao mesmo tempo maravilhado com tudo que está ai.”


Com Gilberto Gil, Caetano Veloso forma na linha de frente da chamada Patrulha Odara. Para Caê, "há uma moda de esquerda, uma moda consumista de esquerda.Mas não sou obrigado a tratar de temas que estão na moda"
Para Caetano, a função do artista na sociedade é produzir arte. O que não significa, obrigatoriamente, a inexistência de uma arte política: “A gente fica falando assim em obra de arte mas acho que, no meu caso, trabalho basicamente para o entretenimento das pessoas. Arte de massa – cinema, televisão, disco – é para isso. Não vivo mais no tempo onde se tem uma noção muito pura da arte – um objeto intocável. As coisas são produzidas para muita gente e o disco é uma coisa reproduzida e vendida para milhões. Agora, creio existir um consumismo político. Eu não sou escravo do consumismo. Trabalho dentro disto, dentro deste lance sabendo o que é, com a minha liberdade, na minha profissão a função na sociedade. Como não estou preso e obrigado a fazer música de discoteca, a fazer baião, nada. Não sou obrigado a tratar de determinados temas porque estão na moda. Há uma moda de esquerda, uma moda consumista de esquerda. Isto é, você vender uma moda de bandeira política de esquerda – e pode ser da maneira mais primária possível, algumas pessoas aceitam.”
Caetano acredita, ainda que, na verdade, muitos estão nessa porque “dá muita grana. Ficam dizendo: "Oh! Caetano, não sei o que mais. É da Patrulha Odara. E daí? Sou mesmo da Patrulha Odara”.

Ele não identifica seu público como universitário: “Há muitos estudantes, evidente, que se interessam por mim e muita gente que já deixou a universidade e, também, estudantes secundários ou mesmo gente que nunca foi à escola. Minha única responsabilidade com esse público que me acompanha é manter a mesma responsabilidade – em relação ao que faço e foi isso que atraiu essas pessoas a gostarem e acompanharem o que estou produzindo. Como comendo isto, como trabalho, minha liberdade, minha coragem. A minha sinceridade é isto que está aí. Por outro lado, não tenho reponsabilidade em fazer o que público deseja – seja lá que público for. Podem estar com a opinião mais certa do mundo, querer que eu diga aquilo – podem querer, mas eu não quero e só faço o que acho deva fazer.”

Neste processo, Caetano afirma: “Ganhei consciência que aqui é muito África do Sul”. A sociedade civil brasileira, enfim, a vida civilizada, urbana brasileira é uma pequenina nata. Os que chegam à universidade, escrevem nos jornais e lêem revistas são assim os brancos da África do Sul. Corresponde aos brancos na África do Sul. Uma minoria racista, privilegiada, e de direita ou de esquerda, distante completamente da verdade realidade do país Brasil.

O fato de eu me dizer mulato, como declarei numa canção, é o modo de traduzir uma coisa que eu digo com meu modo de ser – e o fato de reagirem a este modo é, também, uma forma de reagir à mulatice verdadeira existente em tudo isto. Acho racista esta coisa toda. Mas não caracterizaria, com tanta facilidade assim, esta crítica como de esquerda. A crítica pretenciosa feita no Brasil procura se dizer de esquerda, mas é uma gente mais ou menos mal informada e confusa que se arvora de esquerda. Na minha opinião, em termos de música popular brasileira, está tudo maravilhoso. Agora, o Chico, que eu acho maravilhoso, vai ser atacado em breve por este pessoal. Vão demonstrar quão inimigos eles são do que existe de maravilhoso em Chico Buarque. A mesquinhez também o vai atingir porque eu me sinto identificado com Chico, Hermeto Paschoal, Elizeth Cardoso, Isaurinha Garcia, Dominguinhos, Jackson do Pandeiro.


"Eles se dizem de direita ou de esquerda mas, na realidade, esses críticos representam a repressão”

A música popular no Brasil é a única fresta, por onde passa alguma coisa assim – seja da força que vem debaixo do Brasil, seja do futuro do Brasil, do mundo ou do planeta ou do inconsciente do Brasil. Alguma coisa disso se passa atualmente pela música popular brasileira e eles fazem tudo isto para impedir que aconteça. Se dizem de direita ou esquerda mas, na verdade, esses que se arvoram de críticos representam a repressão a isto que acontece – não sei o nome – e que represento. Não sozinho, mas com Chico Buarque, Lúcio Alves, Dóris Monteiro, Antônio Carlos Jobim e muitos outros. Eu tenho uma verdadeira mística em relação á música popular brasileira – melhor que o cinema, a política, literatura, religião, tudo repito. Então, eles pretendem falar em nome do povo mais o que vejo é uma coisa muito vaga. Vejo muita gente por aí, com milhões de coisas. Sou do interior da Bahia, Já morei em Salvador, em São Paulo, com o sem dinheiro, moro no Rio de Janeiro com dinheiro e tenho muitas visões e sensações do Brasil. Quase nunca encontrei alguém falando uma coisa que se parecesse com o que vejo – exceto nas canções populares, nos filmes de Gláuber Rocha, em alguns filmes e livros de outros cineastas e autores, mas são poucos. Na maioria, nada tem a ver com o que vejo e sinto. Muito menos nestas críticas. Como sou vítima de um problema interno deles lá, eu reajo. Claro que reajo e é uma questão de honra, uma questão moral também. “Não posso deixar de reagir.”

E volta a falar no “centralismo do Rio de Janeiro – uma coisa que existe e é utilizada por eles. Acho que é. Tem um peso esse negócio do Sul, ou seja, o centro da sociedade civil brasileira – o Rio e São Paulo contra o subdesenvolvido. Principalmente o Rio de Janeiro, pois São Paulo é um centro mais industrial enquanto o Rio é mais social, um centro cultural. É a Corte. O Rio é a Corte, onde fica todo mundo nos bares e, numa caricatura, representaria muito bem os brancos da África do Sul. Há muito racismo contra os baianos, contra o Nordeste.”
Para Caetano, a censura é prejudicial a seu trabalho: “Diretamente, me tem prejudicando pouco. Mas indiretamente, muito. É aí que estou com Chico Buarque quando ele falou que se você passa anos com a divulgação das obras muito limitada, você vai perde o diálogo, o nível do diálogo da criação. Explico: você deixa de ser várias peças de teatro onde acontecem determinadas e várias coisas e não é estimulado a fazer outras – que vão além. A limitação da divulgação de obras é uma coisa que lesa os artistas, embora não diretamente. Mas acho ainda uma coisa mais profunda em relação a isto. Não fui muito censurado mas é preciso não esquecer, fui preso e exilado. Então, é uma coisa meio disparatada porque, ao mesmo tempo que a censura atua assim em determinados aspectos se mostra – e é por isto que o Gláuber tem-se pronunciado meio simpatizante das possiblidades do governo militar no Brasil, entendeu? Porque a censura, como o governo militar tem um aspecto positivo neles, e acho que o Gláuber vê isto assim, como uma metáfora – em luta contra a sociedade civil brasileira. É aí que está a identidade.”

Segundo Caetano, os críticos têm medo do novo.

E conta: “Na semana passada, uma moça que trabalha num jornal de Salvador veio com uma pergunta: “O rock and roll foi tipicamente um movimento musical de forte conteúdo social e revolucionário enquanto a discoteca é conservadora e alienada...” Fiquei chocado, porque isto é uma loucura. Ora, o rock and roll é uma coisa muita velha, eu era criança quando apareceu e, na época, foi considerado o máximo do conservadorismo e alienação.

Jamais alguém achou aquilo revolucionário, não. Até os Beatles, rivais do rock e surgidos 10 anos depois, ainda eram considerados conservadores e alienados. Ainda era uma coisa alienada e conservadora, no Brasil, alguém se interessar pelos Beatles. Hoje, 20 anos depois, o rock and roll é revolucionário e a discoteca reacionária. Então, fico vendo: é uma coisa de ter medo do que está acontecendo. Para mim, a discoteca, na maioria das vezes, é chata. Não gosto de ouvir Donna Summer, tem muita música igual. Adoro ouvir soul music, ver e ouvir preto cantando. Preto americano. E, acima de tudo, gosto de Bob Marley, da Jamaica. Mas agora, aqueles caras nem seriam capazes de diferençar se você botar um disco da Donna Summer, do Bob Marley e do James Brown – classificam tudo de discoteca e que está aí para destruir as características culturais brasileiras. Mas não sou do MEC, não sou da censura. Então, não sou eu que vou controlar – tenho minhas escolhas e eleições. Quer dizer? Eu gosto do que gosto. Sou democrata. Sou um mulato democrata.”














































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