Objetivo


terça-feira, 17 de abril de 2012

RELIGIÃO - O MAIS JOVEM OGÃ DA BAHIA

Revista Manchete 21 de janeiro de 1978
Fotos de Lázaro Torres

Raimundo Nonato Neves, de 16 anos,( foto)  tornou-se o mais jovem ogã dos candomblés da Bahia, quando foi investido nessa função em cerimônia no terreiro São Jorge, que tem como ialorixá. Mãe Mirinha do Portão (filha de Joãozinho da Goméia).
Antes de ser confirmado em seu santo- Oxalá- Raimundo ficou recolhido no runcó durante uma semana, repousando e cumprido obrigações. No dia da sua festa, a roça de São Jorge estava toda enfeitada com bandeirolas e folhas de palmeiras. Havia razões para alegria pois o ogã é um dignitário (em ioruba a palavra oga, que se abrasileirou para ogã, significa senhor) além de ser pessoa querida no terreiro, pois é sempre escolhida por um orixá no momento em que se manifesta.
Depois de apontado, o ogã deve aceitar suas obrigações para com o terreiro em que foi escolhido. Antes da cerimônia da confirmação de Raimundo Nonato Neves, foram colocados no barracão de São Jorge bancos para convidados especiais. Enquanto estes e os demais amigos da casa recebiam folhas de gonçalinho e punhados de arroz, as filhas de santo davam os últimos retoques em suas belas saias engomadas e rendadas. Por volta de 21 horas, os atabaques começaram a soar e se ouviram os cantos africanos. As filhas-de-santo começaram a executar as danças rituais que antecedem à chegada do ogã. Logo apareceu Raimundo Nonato, todo vestido de branco, com uma folha de palmeira na mão. Era conduzido pela mãe-de-santo Mirinha do Portão. Obedecendo à tradição, foi entoada uma cantiga em iorubá, destinada a levantar o ogã que passaria a ficar suspenso segundo acreditam os devotos do candomblé.
As filhas-de-santo caminharam em direção ao ogã e juntos deram três voltas dentro do barracão.O ritmo dos atabaques se intensificou. Quando os cantos atingiram o seu tom mais alto; várias filhas-de-santo entraram em convulsão. O orixá havia se manifestado. Elas foram levadas a uma sala especial. Depois, retornaram para continuar com as danças e cânticos. Horas depois, Raimundo Nonato foi solenemente conduzido a uma cadeira toda trabalhada. Segundo o ritual, sentou-se, fez referência,ergueu-se e só na terceira vez em que se curvou, para saudar as entidades. Pôde ficar definitivamente sentado.Então o ogã foi cumprimentado em nome dos orixás por todos os presentes.
Para encerrar a festa, Mãe Mirinha do Portão, serena e bela como são as sacerdotisas dos candomblés da Bahia, relembrou ao ogã todos os seus deveres e responsabilidades.Agora, Raimundo Nonato será para sempre o ogã Kasutemi de Oxalá.Em seus pés foram depositados ramos de flores. Em sua homenagem, as filhas-de-santo se curvaram em reverência.
De agora em diante, apesar de a Bahia não ser Daomé nem a Nigéria, ele deve se comportar como se estivesse integrado na cultura da África Ocidental. Terá que usar com honra seu título de ogã e deverá ajudar o Terreiro de São Jorge, Filho da Goméia, principalmente nas festas de Oxalá. Dentro da crença do candomblé, é possível que Raimundo Nonato, ao entrar em outro terreiro, seja objeto da simpatia de outro orixá e novamente apontado. Mas não poderá aceitar a honra. Este é o código dos terreiros da Bahia, que se defendem uns aos outros de mal-entendidos e zelam pela seriedade de suas tradições e ritos. Na foto ao lado o
ogã é conduzido ao centro do barracão pela Mãe Pequena
do terreiro.





Postar um comentário