Objetivo


terça-feira, 10 de abril de 2012

TEATRO - FOLCLORE E TEATRO DE RUA

BAHIA / PERNAMBUCO
Funcionário da Prefeitura do Recife, compositor de músicas carnavalescas, 44 anos de idade, três filhos e seis sobrinhos para sustentar, João Santiago, autor do Hino dos Batutas de São José, gravado por Martinho da Vila, assumiu a penosa tarefa de organizar na capital pernambucana o I Festival de bumba-meu-boi e cavalo-marinho. O espetáculo acabou acontecendo nos últimos dias de agosto, mas o palco não poderia ser mais precário: na rua sem calçamento, em frente à sua casa, um palanque, bandeirolas e bancos e cadeiras colocados lado a lado, formando um retângulo, tudo conseguido com sacrifício junto a amigos e com a liquidação das magras reservas financeiras de Santiago. “Há vinte anos, os grupos que se dedicavam a esses folguedos populares podiam ser contados às dezenas na capital pernambucana. Todo bairro que se prezasse tinha o seu bumba-meu-boi ou cavalo-marinho. Hoje, restam apenas cinco grupos, que teimam em sobreviver”, diz Santiago. À frente de um desses grupos está o Capitão Antônio Pereira, que, aos 88 anos de idade e 73 de bumba-meu-boi, faz uma apresentação semanal na Casa de Cultura do Recife para garantir sua subsistência e a das pessoas que com ele trabalham. “O Capitão Pereira – observa Santiago – só tem por proteção o Sol, a Lua e as estrelas.” Para que o bambu-meu-boi não desapareça e seus cultores não tenham só a proteção de corpos celestes. Santiago faz um apelo: “Coloquem à frente das instituições pessoas que realmente entendam de cultura popular brasileira”.

O que é. O bambu-meu-boi é um auto pastoril que revela as mais variadas influências, desde a commedia dell’ arte ás tourinhas portuguesas. Apesar disso, foi considerado pelo dramaturgo Hermilo Borba Filho como o mais puro dos espetáculos nordestinos. De acordo ainda com Borba, é uma aglutinação de reisados em torno do reisado principal, que teria como motivo a vida e a morte do boi, que sempre acaba ressuscitando, porém, no final da apresentação. Entre personagens humanos, animais e fantásticos, sessenta e cinco tipos diferentes são utilizados no bumba-meu-boi. O dono da festa é o Capitão Boca Mole, que, dançando, cantando e apitando, comanda o espetáculo com o auxílio direto de Mateus, Bastião e Arlequim.

NA BAHIA

Enquanto, em Pernambuco, o bumba-meu-boi enfrenta aquelas dificuldades, em Salvador monta-se uma experiência pioneira com o Grupo Teatro Livre da Bahia, ( foto) sob a direção do ator Benvindo Siqueira. Há dias, na Praça Dorival Caymmi, em Itapuã, encenaram-se as peças Oxente, Gente e as Aventuras de João Errado. O público era formado por crianças e gente humilde, que nunca frequentaram uma casa de espetáculos. No final da representação, espectadores contribuíram com alguns cruzeiros para a manutenção da companhia. “Nas dezoito apresentações já realizadas, nunca nos faltou o apoio do público”, diz Siqueira, o que prova a necessidade de se aprofundar a integração do teatro com o povo. Siqueira lembra a propósito que os órgãos oficiais não podem manter-se indiferentes á iniciativa, em que se engajaram atores experientes, como Olga Malone, que aos 61 anos é uma das pessoas mais entusiasmadas com esse tipo de trabalho. (Camilo Brollo/Recife e Reynivaldo Brito/Salvador)

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