Objetivo


segunda-feira, 16 de abril de 2012

RELIGIÃO - E O JANGADEIRO VOLTOU SÓ


Revista: Manchete 04 de Fevereiro de 1978
Fotos Lázaro Torres

Ele foi atropelado empleno mar, em sua tentativa de navegar de joão Pessoa ao Rio
O pescador Francisco Pereira de Lima, 25 anos – Chico Buchudo, para os colegas de profissão –, teve de interromper a sua segunda tentativa de navegar sozinho numa jangada, de João Pessoa ao Rio de Janeiro – uns 2.200 quilômetros. A primeira acabou em naufrágio, nas imediações de Ilhéus, no litoral baiano. Na madrugada do dia 11 de dezembro, quase dois anos depois, Chico se benzeu e entrou na Marcílio Dias, uma jangada emprestada, para nova aventura. Três dias depois, estava nas costas de Alagoas. Era noite, Chico Buchudo dormia, enfiado no salva-vidas, com a mão no leme. Sua lâmpada de bordo estava apagada, com a pilha gasta. De repente, houve um choque tremendo e ele foi jogado na água. Ainda viu o casco do navio que o abalroara se afastando. Os tripulantes nem notaram que haviam interrompido a tentativa de mais um nordestino teimoso, rumo ao Sul.
Chico Buchudo flutuou no meio das vagas até encontrar os destroços da sua Marcílio Dias. Agarrado a eles, passou duas noites e dois dias sem comer nem beber, com as ondas passando por cima do seu corpo. Foi encontrado por pescadores baianos que o levaram – com a jangada – até a Capitania dos Portos, em Salvador. Lá, Manchete o encontrou. Atarracado, com forte sotaque nordestino, ele falou: “Aventura e jangada são coisas pra macho. Medo de morrer no mar não tive, não. Nem de tubarão.” E explicou: “Quando estava no meio do mar, sabia que minha mãe rezava por mim. Enquanto ela viver eu não morro.” Chico Buchudo não tem medo de jangada, nem de tempestade ou tubarão, mas viajar de ônibus ou tirar documentos são coisas que o apavoram. Antes de embarcar para João Pessoa, declarou: “Isso bate muito. Mata mais gente que furacão. E para desastre de ônibus não há reza de mãe que adiante.”
Chico perdeu todos os seus documentos no naufrágio em que lutou para salvar a vida. Mas sabe que é uma luta parecida tirar novos papéis de identidade. “Vou arranjar os documentos, porque minha mãe está rezando pra isso.” Chico sentou-se no primeiro banco do ônibus – rumo a João Pessoa. Abanou timidamente a mão para os fotógrafos, benzeu-se e se agarrou firmemente no ferro da poltrona à sua frente. Mal chegou a João Pessoa, pegou outro ônibus para a cidade de Guarabira e foi direto à igreja de Nossa Senhora da Luz, com seu colete salva-vidas na mão. Era o ex-voto da promessa que fizera no meio das águas.
Mas Chico também foi a Guarabira com outra intenção: rever a noiva. Como bom nordestino, ele é um romântico. Fala no seu amor pela noiva e conta: “Um dia, pedi licença ao meu futuro sogro para dar um passeio com ela, até João Pessoa. Mas ele falou: ‘Não deixo, não. Vocês saem dois e voltam três! ’.” Chico não diz o nome da sua noiva: “Só quando eu voltar triunfante” acrescenta. É que ele não desistiu da proeza. A Marcílio Dias está sendo recuperada numa carpintaria de Salvador. Dentro de um mês Chico Buchudo espera fazer sua terceira tentativa de navegador solitário.
A finalidade desse seu perigoso cruzeiro é a mesma que já tiveram seus anteriores – embora o tenham feito em grupo. Chico tem reivindicações trabalhistas como meta final. Nos idos de 50, Jacaré e seus três companheiros pegaram sua jangada em Fortaleza e chegaram, em triunfo, na baía de Guanabara. Em 1968, quatro alagoanos saíram de Maceió e aportaram sua jangada no Iate Clube do Rio, para assistir aos festejos da posse do Presidente Costa e Silva. Jacaré vinha pedir ao Presidente Vargas jangadas para os jangadeiros. Os de Alagoas desejavam de Costa e Silva a posse de dois saveiros. Chico Buchudo afirma que, se atravessar os perigosos vagalhões ao largo de Caravelas e Abrolhos, na Bahia, e chegar ao Rio, irá logo a Brasília. “Sei de onde vem o vento e onde tem peixe no mar – diz Chico. – Mas, pagando o aluguel do barco, quase não ganhei nada. Quero pedir ao Presidente Geisel uma jangada pra mim. Só assim posso casar com minha noiva de Guarabira.” Jacaré e todos aqueles outros dos reides de jangadeiros queriam também quase a mesma coisa.






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