Objetivo


quarta-feira, 23 de maio de 2012

CIDADE DE SALVADOR - AS ALEGRES LAVADEIRAS DO ENGENHO VELHO DE BROTAS

CIDADE DE SALVADOR

A Tarde – 08 de Agosto de 1978
Texto de Reynivaldo Brito
Fotos: Carlos Santana

Quarenta e duas lavadeiras do bairro de Engenho Velho de Brotas, em Salvador, fundaram uma associação que funciona em sistema de cooperativa, o que resultou no aumento da produção aquisição de equipamentos modernos para realização dos serviços. Todas devidamente uniformizadas, com um vestido de mescla azul, trabalham num ambiente de verdadeira festa, especialmente quando aparecem visitantes para conhecer o trabalho executado pelas lavadeiras associadas. Também as babás e biscateiros terão suas associações, que estão sendo formadas sob a orientação da socióloga Nailé Coelho Gomes, da Secretaria doTrabalho e Bem-Estar Social do Estado da Bahia. Ela pretende organizar o mercado informal de trabalho, oferecendo possibilidades de aumento da renda familiar às pessoas sem qualificações profissionais.
Dentro de pouco tempo essas associações serão independentes e certamente funcionarão em regime de cooperativa, fortalecendo o processo de produção. A presidenta da Associação de Lavadeiras Santa Luzia é D. Andeloá Caetá dos Santos, que há 23 anos lava roupa para as famílias ricas de Salvador. Tem oito filhos e seu esposo trabalha num posto de gasolina trocando óleo dos carros. Ela foi eleita em regime de voto direto juntamente com as demais companheiras da chapa. Conta com total apoio de todas as colegas e sempre está preocupada em resolver problemas que surgem no dia-a-dia do trabalho de lavagem das roupas. Um detalhe curioso é que as lavadeiras associadas já estão contratando mocinhas para ajudarem nos serviços de passar a ferro as roupas. São chamadas de ajudantes e ganham em média Cr$ 200,00 por
mês. Na foto acima mostra que a produção aumentou com a criação da associação
                                           
                                                        COOPERATIVA

A intenção da coordenadora deste programa, Nailé Coelho Gomes, é que essas associações sejam equipadas de tal forma que possibilitem a criação da Cooperativa de Trabalhadores Autônomos. Pra isto esta sendo providenciado a emissão de Carteiras do Trabalho para que futuramente sejam assinadas e todas possam ser inscritas na Previdência Social.
Para atender a este programa foi destinado uma verba de Cr$ 500 mil,que estão sendo empregados na aquisição de máquinas de lavar, ferros e outros instrumentos necessários ao trabalho das lavadeiras, babás e biscateiros. Para garantir este recurso foi firmado um convênio com o Sistema Nacional de Empregos, do Ministério do Trabalho, que possibilitará também treinamento através de cursos de reciclagem.
A Associação de Lavadeiras Santa Luzia, do bairro do Engenho Velho de Brotas, foi a primeira a ser criada e foram aproveitadas as instalações de uma antiga lavanderia pública construída por volta de 1956 pelo então governador Antônio Balbino. Depois das reformas necessárias foram adquiridos cinco máquinas de lavar, ferros elétricos, mesas de passar, Armários, e as 42 lavadeiras iniciaram seu trabalho diário num ambiente de conforto. Assim todas passaram a produzir mais, aumentando sua renda familiar, além de diminuir o desgaste físico a que eram obrigados com o esfregar de roupas em suas mãos calejadas. Normalmente uma lavadeira, sem os equipamentos de que dispõem as associadas, lava para três ou quatro fregueses, trabalhando durante toda a semana, além de ter que trabalhar durante a noite.Hoje, elas têm em média oito fregueses e sua renda familiar foi aumentada entre Cr$ 600,00 a Cr$ 1 mil por associada, e só trabalham de segundas às sextas-feiras no horário comercial.
Um detalhe interessante é que a organização das lavadeiras fica a cargo das próprias lavadeiras. Diz D. Andeloá Caetá dos Santos,presidenta da associação, que “antigamente ninguém chegava em minha casa porque eu estava com uma trouxa imensa de roupa para lavar e passar. Hoje, descanso durante os fins de semana. Isto melhorou meu relacionamento dentro de casa e posso dar melhor atenção a meus filhos e meu marido”.
Foi criado um fundo fixo de reserva que varia entre Cr$ 15,00 a Cr$20,00, por cada associada, para possíveis necessidades imediatas.Duas assistentes sociais se revezam no prédio para manter a ligação entre as associadas, e a coisa melhorou tanto que elas criaram até a hora do lanche. Às 15 horas, todas deixam as pias e máquinas de lavar e vão merendar ordeiramente. A merenda é feita de uma “vaquinha” entre elas. Tem ainda a figura da encarregada de disciplina, que é uma funcionária do estado. Outras associações estão sendo organizadas nos bairros de Caixa D’ Água, Cosme de Farias, Cardeal da Silva e Vasco da Gama.

                                                                            RECONHECIMENTO

Quanto à Associação das Atendentes de Puericultura (babás) os técnicos estão enfrentando dificuldades porque existe um preconceito muito grande, e a profissão não é reconhecida. Informa ainda Nailé Gomes que na Carteira de Trabalho só pode constar a profissão de doméstica e muitas moças não aceitam esta denominação. Esta associação está sendo criada para aproveitar a mão-de-obra ociosa nos chamados bairros populares ou pobres. Esperam os técnicos conseguir da Previdência Social uma maneira de reconhecer a profissão para que elas possam recolher as contribuições. Antes de ser associada a candidata participa de 100 horas-aula, sendo 60 de aula teóricas e 40 de prática. Já estão inscritas mais de 150 moças e foram aprovadas inicialmente 80, que ora recebem treinamento. O salário nesta profissão gira em torno de Cr$ 600,00 a Cr$ 3 mil, quando em tempo integral.Na foto  à esquerda auxiliares passando roupas lavadas                 

Na Associação dos Prestadores de Serviços Eventuais (biscateiros, doceiros, faxineiras, costureiras e cozinheiras) já foram cadastradas várias delas. Isto para o caso de uma pessoa que precisa de uma cozinheira para dar uma festa, por exemplo, é só telefonar, que a associação encaminhará uma profissional competente. Assim a população de Salvador contará com mais esses serviços organizados, sem perigo de roubo ou qualquer outro tipo de atividade marginal e os trabalhadores aumentarão o nível de renda. Esta idéia está sendo vista como forma de resolver os problemas enfrentados por àquelas pessoas que executam tarefas ainda enquadradas no rol dos subempregos. É hora de o exemplo baiano ser imitado em outras capitais, para diminuir o sofrimento dos trabalhadores que ainda estiverem desamparados.
Na foto à direita máquinas modernas facilitam o trabalho de lavagem.
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