Objetivo


terça-feira, 15 de maio de 2012

AGRONEGÓCIO - OS RISCOS E VANTAGENS COMO ENERGÉTICO


AGRICULTURA



Revista: Agricultura de Hoje, Janeiro/Fevereiro – Ano 1980 – n° 56


                    MANDIOCA
A cultura da mandioca deve ou não enfrentar os riscos de sair da faixa de subsistência para a de fonte alternativa de energia? Esta foi uma das questões postas em recente congresso, na Bahia, seu maior produtor nacional.
A mandioca (Manihot esculenta) tem o Brasil como seu provável centro de origem e é cultivada desde a Flórida até o norte da Argentina devido à sua fácil propagação, elevada tolerância à seca e a solos pobres; relativa resistência a pragas e doenças, necessidade reduzida de insumos modernos e elevado teor de amido nas raízes e proteína nas folhas. Cultivada por pequenos produtores, sendo essencialmente uma cultura de subsistência, a mandioca desponta como uma das principais fontes alternativas de energia e no recente congresso realizado em Salvador, na Bahia, os técnicos defenderam seu cultivo em escala maior para que seja a matéria-prima para extração de álcool através da disseminação de mini e microusinas em todo o país para produção de álcool.
Para eles isto será possível a curto e médio prazo através da adoção da tecnologia agrícola disponível, principalmente devido ao manejo e práticas culturais, sem considerar a utilização de insumos modernos.

Lavouras de alta qualidade são encontradas em todas as regiões da Bahia (foto)

                                                                                    ALTERNATIVA

Para o engenheiro-agrônomo Márcio Marques Porto, que presidiu o I Congresso Nacional de Mandioca, pesquisador do Centro Nacional de Pesquisa de Mandioca e Fruticultura, em Cruz das Almas, na Bahia, “diante da dependência do Brasil de petróleo estrangeiro torna-se necessário à busca de novas fontes internas de combustíveis líquidos, sendo o álcool etílico, no momento, a opção mais viável, devido às características que apresenta este combustível e também ao potencial brasileiro disponível para sua fabricação”.
Em 14 de dezembro de 1975 foi instituído o Programa Nacional do Álcool, abrindo novas perspectivas para a indústria do álcool no país, bem como para exploração agrícola racional de algumas culturas-alternativas, entre as quais está incluída a da mandioca.
Revela Márcio Marques Porto que, das matérias-primas possíveis de serem utilizadas para produção do álcool etílico, somente a cana-de-açúcar, pela sua tradição de cultivo, dispõe de bases tecnológicas avançadas para a colocação do produto no mercado, mas não podemos utilizá-la maciçamente porque também existem boas oportunidades de comercialização nos mercados internos e externos para o melaço, açúcar e rações. Surgem, assim, oportunidades para outras culturas: o babaçu que existe em grande quantidade no Norte e Nordeste do país, principalmente no Maranhão; o sorgo sacarino, planta ainda pouco estudada em nossas condições climáticas; a batata-doce, o milho e principalmente a mandioca, que existe em todo o território nacional.
                          
                                              OS MAIORES PRODUTORES

De acordo com dados da FAO, os seis países maiores produtores de mandioca são: Brasil, Indonésia, Zaire, Nigéria, Tailândia e Índia, perfazendo 70% da produção mundial. O nosso país desponta como primeiro produtor, sendo que o Nordeste tem cerca de 50% da produção nacional, e a Bahia é o maior produtor, entre os estados.
Agora, com o Programa Nacional do Álcool, a mandioca vem merecendo atenções especiais a ponto de ser organizado e realizado o seu primeiro encontro a nível nacional, onde foram discutidos vários aspectos desde a cultura propriamente dita, a sua disseminação, plantio em larga escala, doenças, transportes, conservação e industrialização através das mini e microusinas para a produção de álcool.
                                                      
                                                   VARIEDADES E DOENÇAS

Para os técnicos, um dos problemas com que se depara a mandiocultura brasileira é a existência de um número excessivo de variedades e, o que é pior, a grande sinonímia no país, fazendo com que uma variedade seja conhecida com vários nomes ou mesmo um só nome seja empregado para identificar mais de uma variedade. Para evitar isto são necessários estudos rigorosos para identificação e seleção de variedades que apresentem boa produtividade e sejam resistentes a doenças e pragas. Isto porque existe uma bacteriose, causada pela bactéria Xanthomonas manihotis, localizada em caráter endêmico nas regiões Centro-Oeste, Sudeste e Sul do país. Existe também a necessidade de controle do mandarová (Erynnis ello), que é uma praga existente em todo o território nacional e que causa sérios prejuízos à cultura.

                                        O ÁCARO E OUTROS MALES QUE ATACAM


Além desta, existe, principalmente no Nordeste, o ácaro da mandioca, dos gêneros Manomychellus e Tetranychus. Esses ácaros, que ocorrem em regiões com temperaturas mais elevadas e mais secas, causam estragos na folhagem, fazendo com que seja reduzida a produtividade. No campo da fertilidade dos solos, as pesquisas com mandiocas têm sido evidenciado alguns resultados que podem ser aplicados à cultura em escala de agroindústrias. É uma planta com tolerância a solos pobres, reagindo no entanto à elevação da fertilidade em solos com carência de elementos, principalmente o fósforo.

O solo baiano tem alta produtividade (foto)

        PRODUÇÃO EM ESTUDO

 Informam os técnicos que as práticas culturais a serem empregadas no decorrer do ciclo da mandioca foram e estão sendo estudadas em todo o país e já existem técnicas definidas desde o preparo do solo, seleção do material de plantio, limpeza e colheita. Com relação à fase industrial, ou seja, o processamento da matéria-prima para a fabricação do álcool etílico, vários estudos estão sendo realizados no Instituto Nacional de Tecnologia e Instituto de Tecnologia de Alimentos.
Uma tonelada de mandioca produz de 150 a 200 litros de álcool etílico anidro, variando esta produção com o teor de amido nas raízes entre 25% a 35%, dependendo das variedades utilizadas. A faixa mais provável, segundo o Instituto Nacional de Tecnologia, encontra-se entre 170 e 190 litros de álcool/tonelada de raízes.
Encontra-se instalada e um funcionamento a Usina de Curvelo, de propriedade da Petrobrás, com capacidade para produzir 60 mil litros de álcool/dia e situada no município de Curvelo, em Minas Gerais. Para os técnicos, a sua localização não é a melhor recomendada porque está numa região que não é grande produtora de mandioca, além das variedades aí cultivadas serem susceptíveis a doenças. Experimentos têm sido feitos no sentido de selecionar variedades resistentes a doenças e para o futuro é possível que sejam corrigidos os erros de sua implantação. A situação da Usina de Curvelo é tão séria que todos os fornecedores da matéria-prima estão inadimplentes e a usina está funcionando com sua produção bem reduzida por falta de mandioca para industrializar. Alguns técnicos criticaram não só a sua localização como também o seu porte, que para eles deveria ser menor. Defendem a instalação de pequenas usinas em regiões onde a cultura da mandioca está bem sedimentada, a exemplo do Nordeste, especialmente na Bahia. Outros contra argumentam que essa usina veio esclarecer problemas importantes e abrir novas fronteiras agrícolas com a utilização dos cerrados para a cultura da mandioca. Na verdade, a Usina de Curvelo não está no momento atendendo ao que se pretendia e a curto prazo teria sido muito mais inteligente e produtiva a sua instalação em outras regiões.

                                                    A PESQUISA COMO APOIO

A Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária – Embrapa – criou alguns centros nacionais de pesquisa, com o objetivo de incrementar e coordenar os trabalhos com produtos de importância para o país, além de dinamizar o aproveitamento de regiões ecológicas bem diferenciadas. Dentro destes objetivos foram criados os Centros de Produtos, como o Centro Nacional de Pesquisa de Mandioca e Fruticultura e Centro de Recursos, como o dos Cerrados.
O Centro Nacional de Pesquisa de Mandioca e Fruticultura é que coordena, executa e difunde pesquisas com mandioca, citros, abacaxi, banana e manga em todo o Brasil, e está localizado no município de Cruz das Almas, na Bahia. Trabalham nele 36 pesquisadores, sendo 23 com pós-graduação e 13 em nível de graduação.
Este centro vem desenvolvendo novos métodos de controle a pragas e doenças; explorando o potencial genético da mandioca existente no país e criando novos cultivadores resistentes à bacteriose e com alta produtividade; viabilizando a utilização do cultivo mecânico e ou herbicidas, no controle às ervas daninhas; adequando técnicas de plantio e cultivadores que facilitem a colheita mecânica; propondo novos e viáveis sistemas de produção que possam ser utilizados pelos produtores; e viabilizando e estimulando maior utilização de mandiocas para consumo humano e animal.
Para conseguir estes objetivos, a Equipe Mandioca do CNPMF conta com especialistas na área de melhoramento genético (3), fisiologia vegetal (1), nutrição de plantas (2), química e fertilidade do solo (1), manejo e práticas culturais (2), entomologia (1), fitopatologia (1), microbiologia (2), especialistas em irrigação e drenagem (1), físico dos solos (1), economia (1), estatística (1) e difusão de tecnologia (1).
                                                                
                                                                UM RISCO

Para a nutricionista da Superintendência Nacional de Abastecimento, Ivene Tavares Maciel, existem na agricultura brasileira duas características inquietantes. Uma voltada para a exportação e indústria e outra de subsistência. A primeira está inteiramente voltada para o mercado externo, ocupa grandes áreas, emprega tecnologia avançada e, infelizmente, vem engolindo a cultura dos tradicionais produtos de subsistência, reduzindo, drasticamente, a disponibilidade de alimentos. Alerta para o perigo que vem correndo a mandioca, um dos alimentos de sustentação calórica da dieta de grande parte da população brasileira e que sempre faz parte da agricultura de subsistência, e pode sofrer uma profunda modificação de seu aproveitamento. Sua cultura está se transformando e tende a sofistica-se devido ao problema energético e o seu aproveitamento para a produção de álcool.

                             COMO FAZER ÁLCOOL SEM TIRAR ALIMENTOS

A nutricionista da Sunab entende que este aproveitamento deve ser feito de modo planejado e racional para que a população não seja privada de seu consumo, tão importante e tão necessário, especialmente na região Nordeste, onde fornece 25% do total calórico da dieta. E esta industrialização que se inicia tem de ser feita sem prejuízos para o consumo humano, pois não seria lógico resolver um problema e criar outro de muito maiores proporções e mais profundas implicações no campo social. Lembrou a nutricionista que há necessidade de se compatibilizar os interesses da indústria e das populações rurais; de integrar as atividades programadas de maneira tal que o alcance do objetivo proposto não gere reflexos negativos em termos de comunidades.
                   A produção é apoiada em pesquisas. ( foto)
         
                                                   

                                                        ATUAÇÃO DA  EMBRAPA

No próximo ano, a Embrapa pretende instalar no Centro Nacional de Pesquisa de Mandioca e Fruticultura, em Cruz das Almas, uma miniusina de álcool de mandioca e batata-doce, com capacidade para 2 mil litros/dia com a utilização de um sistema contínuo de sacarificação e o vinhoto produzido será processado anaerobicamente em biogestor, para produção de biogás e biofertilizante.
O biogás será utilizado na produção de vapor em caldeira e o biofertilizante será empregado na lavoura, substituído parcialmente a aplicação de fertilizantes químicos, favorecendo assim, respectivamente, o balanço energético nas fases industrial e agrícolas. Além da mandioca e batata-doce, esta miniusina poderá utilizar qualquer outro amiláceo, tais como semente de sorgo e milho, polpa de babaçu e outros. Para coloca-la em pleno funcionamento anual, são suficientes 150 mil hectares de mandioca e batata-doce.


                                                            OS ALCOOLDÓLARES

Durante o I Congresso Brasileiro de Mandioca de 25 a 30 de novembro passado o delegado de Minas Gerais, Reny Rabello, fez um apelo ao governo para que firme com os pequenos e médios produtores de mandioca, para fins energéticos, um contrato sem risco, porque eles darão um dilúvio alcoólico ao mundo com a implantação de mini e microdestilarias e farão substituir os petrodólares por outra moeda, mais forte e estável – os alcooldólares. Rabello ressaltou que durante várias décadas o Brasil foi embalado pelo slogan de “o petróleo é nosso” e agora descobrimos tardiamente que o petróleo é dos árabes, pois cerca de 3/5 de todas as reservas conhecidas da Terra encontra-se em seus territórios. Conscientizados de que as reservas mundiais estão se exaurindo e a curto prazo não mais as teremos, todos os povos se voltam para a procura de alternativas e a nossa mandioca é uma das principais. Dentro desta visão pediu que o governo dê prioridade à implantação das mini e microdestilarias de álcool à base de mandioca como meio de melhor distribuir a renda no país: inclusão no plano de financiamento das referidas usinas através de Carteira Agrícola e Industrial do Banco do Brasil; preço mínimo condizente para a mandioca e maior estímulo para plantio; melhor aproveitamento das áreas de cerrado, próprias ao cultivo da mandioca; aumento da produção de tratores agrícolas e implementos a preços mais acessíveis; proibição de associação do investidor brasileiro ao capital estrangeiro no Plano Nacional do Álcool. Aproveitamento das terras de cultura ainda não comprometidas na produção de alimentos de subsistência e maior rapidez nos processos para desmate perante o IBDF, desde que se destinem ao cultivo da mandioca.















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