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sexta-feira, 18 de maio de 2012

RELIGIÃO - MEDIUM EXPLORA A INGENUIDADE POPULAR

A Tarde – Quinta-feira, 1° de Fevereiro de 1973


O espirito do médico alemão Dr. Fritz já “baixou” em vários espertalhões que conseguiram enganar a milhões de desenganados e neuróticos que acorrem em busca de curas milagrosas. Ao que parece até o momento só o medium Zé Arigó, de Congonhas do Campo, Minas Gerais, conseguiu realizar alguns feitos.
“Embora venha recebendo espiritualmente o Dr. Fritz – afirma D. Salete, residente em Aracaju, somente há quatro meses trabalha para o público. O Dr. Fritz ainda permanece lá durante vinte anos no espaço para cumprir sua missão e, conforme sua memória permitir permanecerá ainda 30 a 40 anos para subir definitivamente ao espaço”. Se confirmada a afirmação do medium, os espertalhões terão ainda muito tempo para explorar a ignorância do povo.

                                                      CALIGRAFIAS

O médium D. Salete nasceu na cidade de Propriá e morou durante doze anos na Guanabara. É casada com o Sr. Miguel de Oliveira, açougueiro. Têm dois filhos menores, um garotinho de um ano, Jorge Bezerra Oliveira, e uma menina de 3 anos de idade, Helena Bezerra de Oliveira. O medium tem apenas o 2° ano primário incompleto e utiliza quatro caligrafias diferentes, semelhantes às utilizadas por verdadeiros médicos, e que são quase ilegíveis.
Disse o seu esposo Miguel Oliveira “que não cobramos nada pelas consultas. No entanto, recebemos alguns presentes”. Embora sejam humildes, na garagem de sua casa, localizada num bairro pobre de Aracaju, existe um “fuscão”, azul-claro. A procedência do veículo ninguém soube informar, nem mesmo seus familiares.
A sua casa é bem modesta e no quintal Miguel Oliveira mandou construir duas pequenas salas. Uma serve de consultório e a outra de sala de espera, sendo que nesta última estão arrumados pelos cantos imagens e retratos de coisas ligadas a Umbanda, inclusive dezenas de velas são acesas diariamente. Várias folhas utilizadas em culto umbandista também estão arrumadas pelos cantos. No alto da parede existe uma inscrição num pedaço de cartolina “Silêncio. Em vez de conversar faça uma prece”. Realmente, D. Salete, quando está “recebendo” os espíritos dos 4 médicos, não fala com ninguém, a não ser com seu “cliente” (ou vítima).
Para que você seja atendido, é necessário que permaneça durante horas a fio em frente á casa de D. Salete, a fim de tentar receber uma pequena ficha, onde está impresso o nome do “medium”, por extenso e o de seu esposo, além da assinatura do mesmo. Muitos estão mandando que pessoas permaneçam na fila para receberem uma ficha e pagam caro. É notícia corrente em Aracaju de que muita gente importante, com vergonha de enfrentar as filas, compram fichas até por Cr$ 100,00 e na calada da noite vão à casa de D. Salete, em busca de “curas milagrosas”.

                                                                        OS CLIENTES

A quase totalidade dos clientes, de classe humilde, é de analfabetos. Quando lá estivemos, encontramos o Sr. Alvany Mendes de Barro, natural de Alagoas, residindo atualmente em Aracaju. Disse ele que, “há pouco tempo, foi operado da bexiga”. Um de seu parente o carregava nos braços. Disse ainda que “já estive aqui por duas vezes. Mas até agora não tive melhoras, embora acredite e tenha esperança que vou melhorar”. Outro cliente, o Sr. João Geraldo, de 67 anos de idade, é cego e já sem esperanças de voltar a enxergar. Tinha ido procurar D. Salete pela primeira vez. Ficou cego, alguns dias antes das eleições. Declarou que “até as eleições enxergava um pouquinho. Já procurei vários médicos e nada. Agora espero que melhore com a receita que D. Salete vai passar”.
Assim, assistimos D. Salete Oliveira “atender” a mais de uma dezena de pessoas e não presenciamos nem uma cura milagrosa. Permanecemos ainda dois dias em Aracaju tentando localizar um “cliente” já curado e foi tudo em vão. Conseguimos, sim, encontrar alguns intoxicados, porque tomaram remédios aviados pelo medium.

                                                                   POLÍCIA

O caso de D. Salete Oliveira está enquadrado dentro do exercício ilegal da Medicina, pois ela passa remédios que na sua grande maioria são levados por representantes dos laboratórios na ganância de faturar.
Disse o secretário da Saúde de Sergipe, Jorge Cabral Vieira, que “em parte o problema está afeto ao nosso Serviço de Fiscalização do Exercício Profissional, principalmente quando sabemos que ela está passando receitas, que podem trazer consequências graves para a saúde de muita gente. Mas asseguro que vou entrar em contato com o diretor do órgão, Sr. Alencar Cardoso, para tomarmos as necessárias providências”.
Declarou em seguida que “ninguém pode impedir que ela dê seus passes e exerça o seu espiritismo”.
 O secretário de Saúde de Sergipe tem ciência do uso de medicamentos e de receitas. A maioria dos médicos ouvidos pela reportagem, entre eles, o Dr. Otávio Penalva, que inclusive desmentiu tivesse sido curado, como também o Dr. Hugo Gurvel, proprietário de uma das melhores clínicas da cidade.





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