Objetivo


domingo, 27 de maio de 2012

ARTES VISUAIS - CAMILLE PISSARRO – O PATRIARCA DO IMPRESSIONISMO


ARTES VISUAIS
Jornal A Tarde , quarta-feira , 16 de julho de 1980.
Texto de Reynivaldo Brito
Reproduções Geraldo Atayde

HÁ 150 ANOS NASCIA CAMILLE PISSARRO


Há 150 Anos, no dia 10 de julho de 1830 em Saint-Thomas, colônia francesa das Antilhas nascia Camille Pissarro, filho de um modesto comerciante que anos mais tarde seria reconhecido como o mais velho dos impressionistas, influenciando vários que também são hoje apontados como mestres desta escola de arte.
Alguns autores o consideram o patriarca dos impressionistas, o tutor estético da geração que mudou o curso da pintura francesa no século XIX. Sempre fiel a seu ideal de artista,Pissarro não se afastou um só momento do impressionismo, embora paradoxalmente, sua pintura tenha influências externas a esta corrente como das delicadas paisagens rurais de Carot ao pontilhismo de Seurat. Foto  Camille Pissarro , 1900.

                                              O TROPICAL

Talvez por ter estado na Venezuela, Pissarro recebeu uma influência muito grande do tropical, como também de sua origem, pois na ilha de Saint-Thomas, nas Antilhas, o sol também brilha com força.Ainda criança seguiu para Paris com o objetivo de ser educado e hospeda-se numa velha pensão de propriedade de um cidadão chamado Savary que ficou entusiasmado com os desenhos ainda irregulares do jovem QUE VEIO DE LONGE. Como mantinha um gosto pela arte e era um bom desenhista, Savary passou a ministrar aulas de desenho ao jovem Pissarro. Portanto, a viagem em vez de aniquilar a vocação intuitiva – o que era de se esperar – impulsiona o jovem a pintar. Foto Entrée village de Voisins, 1872.
Ao terminar os estudos, Pissarro volta às Antilhas . Estava com dezessete anos e passa a trabalhar de balconista na loja da família em Saint-Thomas. Nas horas livres desenhava os parentes, os amigos e conhecidos. E acontece o inesperado: ao despachar um cliente da loja de seu velho pai conhece Fritsz Malbbye, artista dinamarquês radicado na Venezuela, e a amizade foi firmada ai no pé do balcão. Convidado a seguir para a Venezuela, não o fez imediatamente porque era menor de idade. Ao alcançar a maioridade segue para a Venezuela, e outra surpresa, por uma curta permanência. Volta à Paris, de onde nunca mais saiu a não ser em breves viagens a países vizinhos.

                                             VIDA DURA

Como todos que começam uma carreira principalmente quando a pessoa sensível abraça a carreira artística. Camille teve que enfrentar sérias dificuldades. Mas , foi ai que conheceu seu grande amigo Paul Cézanne que o considera seu mestre de pintura. O temperamento dócil resolve constituir família, mesmo em péssimas condições financeiras. E, é na convivência do lar, enfrentando mil dificuldades que ele consegue demonstrar a força do seu instinto criador. Consegue vamos assim dizer um isolamento dos problemas existenciais e executa o trabalho calmo e puro. Um trabalho longe das turbulências causado pela mulher inconformada com a falta de objetos de primeira necessidade.Dá como que uma resposta tranqüila e criadora e passa também a inventar jogos para seus filhos tratando-os com carinho redobrado.Ao mesmo tempo em que projetava nas telas uma arte calma e serena.
Fora do lar continuava mantendo suas relações e participando decididamente das reuniões dos artistas inconformados da época em que alardeavam que iria modificar a arte. E,conseguiram.

                                    CONTEMPORÂNEA

Hoje, quando olhamos os impressionistas em confronto com os artistas atuais divisamos grande distância no tempo e no espaço.Mas é preciso saber que uma das preocupações de Pissarro naquela época era elaborar um trabalho que tivesse contemporaneidade. Não queria ser um intérprete do real,mas elaborar uma arte que interpretasse a sua visão pessoal das coisas.
                                                                   Foto Avenue de l'Opera, Paris 1898.
O aparecimento da fotografia foi tido na época como a anulação da arte realista ou neo-realista, porque ninguém seria capaz de reproduzira realidade tão bem quanto à câmara. Porém, evidente que as coisas hoje são vistas diferente.Temos artistas realistas ou neo-realistas que são respeitados e conceituados e como também fotógrafos-artistas cada qual no seu devido lugar.
Já no ano de 1874 aconteceu à famosa e badalada reunião da Sociedade Anônima dos Artistas, Pintores, Escultores, Gravadores e outras categorias. Era uma reação ao mercado e correntes de artes da época, inclusive da palavra anônima, dando a idéia de uma casa de comércio. Resolveram alugar um estúdio de o fotógrafo Nadar, e, fortificados com a adesão de Degas e Cézanne, abriram a exposição que é hoje um dos marcos principais da pintura em todas as épocas.

                                              IMPRESSIONISTAS

A natureza figurava como tema central das preocupações de todos eles.Mas as paisagens de Pissarro estavam povoadas de figuras humanas e ele não abria mão dessa condição sob a alegação da necessidade de estabelecer uma relação essencial entre o homem e a natureza.
Foi nesta época que o escritor Emille Zola entusiasmou-se com os impressionistas e deu uma importância fundamental à obra de Pissarro, dizendo : “ Um artista que só se preocupa com a verdade, com a consciência, colocando-se diante da natureza encarando como tarefa interpretar seus horizontes em toda a sua severa amplitude, sem tentar acrescentar nada de sua própria invenção... Nenhum dos quadros que vi até agora me pareceu de grandeza mais magistral...”
Zola tinha toda razão por que na sua pintura sente-se o cheiro da terra e da gente. Sente-se a grandeza das árvores que tanto servem de sustento para os esfomeados e sombra para os viajantes e animais.
Mesmo quando faz as paisagens ao ar livre elas são inconfundíveis. Diferenciadas das executadas por Monet, Sisley e Renoir com os quais entrara em contato em 1866, por trazerem no seu bojo uma idéia de volume.E não deixou que essas paisagens fossem diluídas em manchas e cores luminosas ou matizes esmaecidos como é tipicamente o caso de Monet. Isto pode notar com a sua preocupação em sublinhar as formas, a estrutura da composição de suas telas, mesmo tendo ciência de que a camada espessa as fazia sobressair.

                                                NA GUERRA

Devido à guerra, Pissarro radica-se em Londres, onde encontra Monet. Na National Gallery os dois pintores admiram principalmente as luminosas composições de Turner, e procuram, desde então, as nuanças delicadas aprendidas com o mestre inglês, o qual recentemente foi alvo de notícias na imprensa internacional por ter uma tela de sua autoria alcançado um preço recorde durante um leilão em Londres.
Foto The Havest, 1882, Bridgestone Museu of Art Tokyo
Revelam os historiadores da arte que Pissarro impressionista que era,incorporou no seu estilo elementos do Corot, depois de Courbert, Millet e Cézanne teve uma longa aproximação com o pontilhismo de Seuret. Era a pintura científica, a atitude química diante da cor e da forma, que haviam empolgado o solitário e teimoso Seurat. Com isto houve um rompimento não muito formal, com o movimento do qual fora um dos principais personagens. E assim, durante alguns anos,. Identifica-se com a técnica de compor seus trabalhos por meio de ínfimos pontinhos de cor. Com isto veio a briga com seus colegas que o abusavam e alguns chegavam a chamá-lo de Seuret. “ Bom dia Seuret”, saudavam-no tirando o chapéu os integrantes do impressionismo.
Firme na sua posição continuava pintando como achava melhor. E, certamente , não foram essas críticas e rusgas que o levaram a abandonar o pontilhismo que tinha abraçado com tanto fervor. Mas teve a hombridade de reconhecer que estava num caminho errado, num caminho que não lhe dizia respeito e abandonou o pontilhismo quando bem entendeu.
E a prova maior do que afirmo é sua carta escrita na época que em certo trecho diz: “Depois de ter trabalhado durante quatro anos segundo esta teoria e depois tê-la deixado, não sem cansaço e esforços tenazes para recuperar o que eu perdera e não perder o que podia ter aprendido, é-me impossível encaixar-me entre os neo-impressionistas ( Seuret e seus seguidores), que sacrificam o movimento e a vida a um conceito artístico diametralmente oposto ao meu... Sendo-me impossível conferir a meus próprios desenhos uma característica individual, tive que renunciar.Já era tempo. Eu não nasci para este tipo de arte.” Foto The garden of Poutoise, 1875.
Portanto, temos ai um desabafo do mestre que reconheceu que tinha errado e retoma suas armas iniciais para continuar tão bom quanto antes. Isto no permite uma reflexão, principalmente quando pensamos em pintores menores, em pseudo-artistas que preenchem este universo plástico brasileiro, fazendo uma arte ( se é que posso chamar assim) que é influência e cópia de manifestações alienígenas, ou seja faz um trabalho de contrafação, um trabalho menor e não admitem discordância.
Mesmo sofrendo as críticas jamais foi um descortês. Sua longa barba branca dava-lhe uma imagem mítica. E era um boêmio calvo e dizia de si próprio: Sou de temperamento rústico, melancólico , de espírito rude e selvagem;só em longo prazo é que consigo agradar aos outros, se quem me contemplar tiver ao menos um grão de indulgência”. Uma prova de sinceridade e visão de autocrítica, tão ausente no mundo de hoje.Uma lição para os jovens pintores que começam a rabiscar e ficam com “reis na barriga”. O caminho da arte é muito tortuoso e cheio de dissabores. E o artista por ser sensível, inconformado deve sempre parar um pouco para refletir como fez e tão bem o mestre Pissarro.Sua vida é uma lição de amor, uma lição para os que começam, uma lição para aqueles que desejam parar no meio do caminho. É o mesmo Pissarro quem dá uma lição de força aos jovens, uma lição que parece ter sido ministrada ontem, vejamos: “ O dinheiro, afinal de contas, é uma coisa frágil; já que temos que ganhá-lo, ganhemo-lo, sem perder de vista o papel que devemos desempenhar como artistas”.
Assim passou parte de sua vida tentando vender seus quadros e cobrando daqueles que não queriam pagar. Já aos 64 anos escrevia: “Preciso trabalhar duro. Não me restam muitos anos. É necessário que eu os aproveite enquanto vejo claro e sinto a natureza para poder concluir honrosamente minha vida”. E assim prosseguiu a sua trajetória e na última década de sua existência, através de Monet que juntamente com a sua esposa compraram a casa onde morava o casal é que veio ter uma situação mais tranqüila. Chegou à hora dos ricos comerciantes e colecionadores americanos descobrirem o valor do velho mestre. No fim da vida via a situação de sua família melhorar, mesmo tardiamente.

                                       ÚLTIMOS TRABALHOS

Seus últimos trabalhos estão ligados aos velhos temas campestres e às visões do estúdio pobre,do centro de Paris, à margem esquerda do Sena. São telas e mais telas que demonstram o seu amor pela cidade de suas lutas e reconhecimento tardio.
Veio a falecer em 1903, legando à arte mundial o lirismo cálido de seu traço inconfundível, de sua linguagem plástica reconhecida por todos aqueles que gostam de arte. E provocando exclamação nos menos avisados.

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