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quarta-feira, 9 de maio de 2012

VIOLÊNCIA - OS DESAPARECIDOS


Revista: FATOSeFOTOS GENTE, 28 de Abril de 1980

Mais de 100 mil brasileiros desaparecem, por ano, sem deixar pistas. Para a polícia, eles fogem de tóxicos, responsabilidades e crises existenciais
A dramática luta para reencontrar os parentes sem destino


Cerca de 120 mil brasileiros desaparecem, por ano, sem deixar qualquer vestígio ou pista que possibilite a sua localização. Nem vítimas de sequestros, assassinatos ou outro delito penal. Os desaparecimentos, via de regra, estão diretamente ligados a três razões básicas: tóxicos, medo à responsabilidade e crise existencial.

O delegado Marini e o investigador Ferrari, em SP,( fotos ao lado) têm um arquivo de todos os casos. No Rio, na Polinter, apenas dois detetives cuidam das buscas.
Infelizmente, nos últimos cinco anos, “é grande a incidência de casos ligados aos tóxicos”, revela o delegado Marchesini, da Polinter, no Rio. São jovens entre 15 e 25 anos, que “não conseguem dividir as sua vidas entre a família e a dependência do tóxico. Como os problemas familiares foram à raiz, o cerne da sua vida de toxicômano, partem para um novo comportamento social, desligados dos parentes, amigos e dos vínculos que tinham antes de se deixarem dominar pelo vício”, acrescenta o Dr. Marchesini. “Quando se tornam apenas dependentes, não chegando a participar do tráfico de drogas, o que raramente deixa de acontecer, ainda dispomos de chances para reencontrá-los. Mas quando se deixam envolver pelas quadrilhas, o retorno é muito difícil. Acabam mortos. São as chamadas “queima de arquivo”, medida tomada pelos chefões do comércio de drogas, visando a proteger os seus negócios. E é dos mais altos o número de jovens assassinados em tais circunstâncias.

A dramática luta para reencontrar os parentes sem destino
Além das poucas informações prestadas pelos parentes, os policiais lutam com a falta de recursos humanos e materiais para localizar os  desaparecidos. São Paulo é o único estado a ter uma delegacia especializada no problema.
Quando são assassinados e os seus corpos encontrados, por falta de informação, são enterrados como indigentes.”Existe , também, o caso das moças que são levadas à prostituição para poderem sustentar o seu vício, Nestes casos, as chances para um retorno aumentam, se a família tiver uma boa doze de compreensão. Se a moça tiver um pai ou mãe severos, “que a todo o momento ficam atirando na sua cara o erro cometido, não vai se recuperar”, diz A.P.S., de 20 anos, que começou a fumar maconha quando tinha apenas 14 anos, numa escola frequentada por jovens de famílias da classe média alta de São Paulo. Os seus pais não conseguiram aceitar o seu desejo de voltar para casa, “quando percebi que, entre viver na prostituição e com a minha família, melhor era viver com a minha família, meus pais, infelizmente, não entenderam assim e eu acabei voltando ao vício e ao tipo de vida que queria fugir”. Ela, porém, conseguiu escapar ao conhecer o seu atual marido, um médico. “Nem todas, no entanto, conseguem ter a mesma sorte que eu tive e acabam cada vez mais se afundando na dependência tóxica e prostituição. Uma ex-colega de prostituição hoje esta internada num hospital, em São Paulo”.

Existem, também , os casos inexplicáveis, como o do jovem Francisco Rodrigueis Jr., de 30 anos, ex-figurante de novelas da TV Globo, saudável, sem problemas financeiros – era dono de loja em São Cristóvão e a sua família ajudava nas despesas. Ele tinha tudo para não desaparecer e na noite de 16 de maio do ano passado, quando saiu de casa, “pensávamos, eu e pai, que ele ia dar umas voltas até ficar cansado e conseguir dormir. Meu filho tinha problemas de insônia, além de um processo inicial de esquizofrenia. Como eram comuns as suas saídas e até permanecer alguns dias em casa de amigos, não ficamos preocupados na primeira semana em que ele desapareceu. Depois começou a nossa longa busca por hospitais, necrotérios e todos os locais que ele frequentava. Meu marido pediu uma licença no seu trabalho e passou a se dedicar, única e exclusivamente, às buscas do nosso filho. Sem sucesso”, diz a mãe, Dora Rodrigues.
Dispondo de recursos e amigos influentes, a família de Francisco Rodrigues Jr. Conseguiu mobilizar, de uma forma não muito comum, o setor de investigações da Polinter. Tudo em vão, após alguns meses de exaustivas investigações, depoimentos de amigos e pessoas das relações de Francisco, suas ex-namoradas, sem êxito.
“A verdade é que, ao contrário do que acontece em São Paulo – diz o advogado Francisco Rodrigues, pai do desaparecido – ,a Polinter do Rio não dispõe de recursos e homens para efetuar uma investigação plena. Não temos, inclusive, uma delegacia especializada, como acontece em São Paulo e nas grandes cidades do mundo. São apenas três homens para cuidar de cerca de 30 casos mensais e quase 400 anuais. Assim não dá. Tive eu mesmo que também virar investigador para poder tentar conseguir alguma coisa. Se eu que tenho amigos encontrei tais dificuldades, o que não deve acontecer para quem não tem recursos?”
O delegado Walter Luciano Marini, titular da Delegacia de Pessoas Desaparecidas de São Paulo, a única existente no Brasil, diz que “de uma forma ou de outra, noventa por cento dos desaparecidos acabam sendo localizados. Em 1978, nós registramos 7.524 queixas e conseguimos localizar 2.980 desaparecidos. Mas estes números são absolutamente enganosos, porque os queixosos cujos parentes voltam sozinhos não nos comunicam. E eles formam a maioria dos casos, aqui em São Paulo.”Na verdade, se depender da açãoda polícia, a maioria dos casos de desaparecimento permanecerá sem solução. No item providências tomadas, na delegacia paulista, lê-se, invariavelmente: “as de praxe. “No Rio a situação é pior. Não havendo uma delegacia especializada, a primeira queixa deve ser feita à delegacia local. Ou seja, a mais próxima do local onde aconteceu o desaparecimento. Não tendo homens para fazer a investigação, o processo fica 15 dias na delegacia e depois é remetido, pelas vias legais, para a Polinter. Nessas vias legais, ele leva quase 45 dias para chegar às mãos do delegado Marchesini, a esta altura já transferido para Delegacia de Roubos e Furtos. E as situações não são muito diferentes nas demais delegacias em Porto Alegre, Curitiba, Recife, Belo Horizonte e outras capitais. A polícia brasileira não tem recursos técnicos e humanos para localizar os que desaparecem.

Aumenta, ano após ano, o número de mulheres que abandonou os lares

“O ideal seria termos um homem em cada um desses casos, levantando os dados de todas as pessoas que dão entrada com queixas de desaparecimento. Resolveria uma série de problemas, pois a busca seria mais intensa e ampla, evitando a repetição de casos iguais ao de uma moça que buscávamos e que se encontrava detida no DRIC. Ela havia sido presa numa loja por roubo. Pertencendo a uma família de alto nível social, não nos acorreu procura-los naquele local. Só quando um dos parentes disse que ela sofria de cleptomania que surgiu uma pista de ali ela ser procurada.”
“São poucos os pais, maridos ou irmãos que gostam de contar que um parente era viciado, ou que tinha hábitos estranhos, pouco recomendáveis, revela o Dr. Marchesini. Além de lutar com dificuldades estruturais, ainda temos que usar uma boa dose de tato para extrair todas as informações que possibilitem uma investigação mais precisa e, por conseguinte, com maiores chances de localização.”
O medo costuma ser, também, um forte motivo para levar uma pessoa a desaparecer. Todos os dias do ano, em São Paulo, Rio, Belo Horizonte e outros grandes cidades, dezenas de cidadãos se volatilizam como os superpoderosos heróis das histórias em quadrinhos, porém de uma maneira mais dramática. São maridos que fogem com amantes, mulheres idem, meninas que fogem dos pais porque deixaram de ser virgens, garotos que com receio de mostrar as baixas notas tiradas na escola ou chefes de família que dão no pé no dia do pagamento. São homens, mulheres e crianças que fogem com medo de confrontação com os seus familiares. – E por isso geram pânico.
Rio e São Paulo apresentam os mais altos índices de desaparecimento do Brasil. São, também, as duas únicas cidades em condições de fornecer dados que possibilitem uma estatística. Por exemplo, no Rio desaparecem mais mulheres – 20 – do que homens – 10 –; enquanto em São Paulo os homens – 11 – fogem mais do que as mulheres – 10. São Paulo apresenta um índice mais alto de desaparecimento – 7.434, em 1979 – do que o Rio – 363. Na capital bandeirante o índice de localização também é mais alto – 90% - do que no Estado do Rio – 60%. Carnaval, dezembro e janeiro são épocas do ano que, nas duas cidades, os índices de desaparecimento aumentam. Em junho a média cai bastante nas duas cidades e aumenta no Rio Grande do Sul. Nas Zonas Norte das duas cidades, onde residem às classes sociais mais baixas, são as regiões onde se apresentam mais casos de desaparecimento.
“Todos esses dados, porém, são feitos através de queixas registradas nas delegacias – prossegue o Dr. Marchesini. – São muitos os casos de pessoas desaparecidas que as famílias nem apresentam queixas. Como acontece, também, quando retorna um dos que desapareceram. Tomando por base esses elementos é que se faz uma projeção em torno de 120 mil desaparecidos por ano, em todo o território nacional. Pode até ser mais, nunca menos.”
Um gênero de desaparecimento pouco comum é o do homem ou mulher que, sem ter qualquer razão para deixar sua família, um dia desaparece. Foi o caso de uma mulher, em Santos, que fugiu levando o filho de três anos, Dilmar Derito Neto. Ela e o garoto nunca mais foram localizados. O avô está oferecendo uma recompensa de Cr$ 500 mil para quem oferecer qualquer informação que possibilite “o meu reencontro com meu neto, antes que eu morra.”
Menores fogem com mais frequência do que os adultos, pelos mais diferentes motivos. No caso das adolescentes de famílias pobres, no momento em que descobrem no corpo uma maneira fácil de ganhar a vida. “Dezenas de meninas desaparecidas foram localizadas nos prostíbulos de Volta Redonda”, ele acrescenta. Existem, também, os casos de fanatismo religioso, em que menores são arrastados para viverem em comunidades de seitas religiosas. “Todos os meses, também, garotos desaparecidos são encontrados em residências de homossexuais. Existem, também, os casos de irresponsabilidade, em bom número. São homens e mulheres que saem de suas casas para viverem aventuras amorosas prolongadas, deixando filhos, parentes e amigos aflitos.” É o único caso de desaparecimento em que o procurador sempre retorna. Quase sempre inventando uma história inverossímil, que mais tarde acabamos descobrindo ser totalmente mentirosa. Nesses casos, para evitar a destruição do lar, calamos. Mas não deixamos de convocar, ele ou ela, até a delegacia para ouvir um bom sermão. Mostramos o trabalho que ele ou ela deu a tantas pessoas durante o período em que vivia o seu romance.
O delegado titular do Sie Vlom,em Salvador, e o Dr. Durval Mattos, secretário de Segurança da Bahia, falam de poucos recursos policiais para localizar desaparecidos.Foto ao lado






Reportagem de Tarlis Batista, Ronaldo Hein, Ana Barros Pinto, Mário Antônio Garofalo, Reynivaldo Brito e Iracema Rodrigues





















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